BEM VINDOS AO SENTIMENTO DE REVOLTA CONTRA A TROIKA, BEM VINDOS CONTRA A MENTIRA HILARIANTE DE BRUXELAS – Por JÚLIO MARQUES MOTA

SEGUNDA PARTE
(continuação)

Bem claros, estes senhores, estamos pois a caminho do mundo de Pangloss e para isso basta continuar a insistir no mesmo, nas reformas, no combate à dívida e nas políticas de austeridade. Simplesmente assim.

Mas já agora relembremo-nos a propósito deste bando de verdadeiros gangsters de luva branca do  que disse o porta-voz de Olli Rehn sobre a lógica da  condicionalidade imposta pela Troika, o senhor Simon O’Connor:

“All European economies have their specific challenges and that’s why we’ve consistently advocated a differentiated approach to fiscal consolidation”.

Quer isto dizer que a União de união só tem o nome, ou seja,  não se trata de uma União a 17 países com igualdade de direitos e deveres pois, país a país, cada um deles é tratado de modo diferente pelo grupo que controla o poder em Bruxelas, conforme aqui no-lo dizem claramente. Assim se pode perceber, o comportamento diferenciado havido com a França, diferente do havido com a Itália, em que deitaram abaixo Berlusconi, do tratamento da Espanha e da sua banca, do silêncio ensurdecedor em se querer transformar Madrid num enorme bordel, o maior do mundo, para criar empregos, assim se pode perceber, sobretudo, o favor feito à Irlanda que agora até poderá vir aos mercados, depois do BCE ter aceitado financiar o Estado irlandês em 30 mil milhões em condições especiais não concedidas a nenhum outro estado em dificuldade. Tratamento diferenciado, mesmo que à margem dos Tratados, isso tanto se lhes faz, com o poder absoluto de que dispõem e se assumem como tal, é só  ver as press releases do BCE, de Fevereiro e Março deste ano, e ler a discussão havida à volta deste enorme favor. Com efeito a Irlanda recebeu um tratamento extremamente generoso do BCE. Em 2010, o país tinha emitido uma “promessa de dívida” (nota promissória) de EUR 30 mil milhões sobre o BCE para nacionalizar os seus bancos. A instituição de Frankfurt tinha então imposto condições bastante difíceis para que se pudesse fazer o respectivo reembolso: o pagamento deveria ser feito no prazo de 10 anos e a taxas bem elevadas.

Dublin fez pressão em Fevereiro passado para reduzir este fardo, ameaçando entrar em incumprimento sobre esta dívida devida ao BCE. Assustado, o Banco Central aceitou as condições da Irlanda e trocou a sua ” promissory note ” contra uma obrigação com uma maturidade de 40 anos e reduzindo o peso do reembolso no orçamento irlandês em cerca de mil milhões de euros, ou seja, de um pouco menos de 10% do défice previsto em 2013.

Sem dúvida, a perspectiva de ver o “bom aluno” das políticas de austeridade entrar em incumprimento terá levado o BCE a actuar com esta generosidade. E é assim no mundo gerido por este bando, por este gang.

Lamento tudo isto, que, de resto me faz lembra Tocqueville quando este nos diz:

“Vejo uma numerosa multidão de homens semelhantes e iguais que rodam sem descanso sobre eles próprios para poderem adquirir vulgar prazeres com os quais que satisfazem as suas vidas.

Acima deles, ergue-se um poder imenso e tutelar, que se encarrega sozinho de assegurar os seus prazeres e de olhar pelo seu destino a sua apreciação e para garantir o seu destino…

Esse poder é absoluto, detalhado, regular, previdente e suave. Isso parecer-se-ia com o poder paternal, se, como ele, ele fosse concebido para preparar os homens para a idade viril, mas antes pelo contrário, este poder absoluto parece querer fixá-los, mantê-los, irrevogavelmente na infância” (Alexis de Tocqueville. De la Démocratie en Amérique).

Mas com os Diabos não é preciso ir tão longe. Durão Barroso diz-nos quase o mesmo de Bruxelas, quando nos diz:

“Sometimes in Europe small steps are the most important ones. Please read yesterday’s conclusions closely from the European Council. What’s happening is a silent revolution, a silent revolution in terms of stronger economic governance that comes about gradually [ o sublinhado é nosso. Durão Barroso um verdadeiro Pinóquio neste nosso mundo da mentira hilariante, pois o que devia dizer é que organizou uma contra-revolução silenciosa, sem sangue] . The Member States have now accepted – I hope they understood it exactly – granting very important powers to the European institutions regarding [economic] surveillance and stricter control of public finances. That was yesterday. Of course they accepted it in principle. Now we are supposed to legislate”. Um golpe de Estado silencioso e sem sangue, uma contra-revolução silenciosa contra todas as conquistas sociais europeias e acompanhado do maior silêncio pela maioria dos intelectuais a seu soldo, eis pois a obra de Bruxelas e dos seus gangs é pouco mais ou menos o que Olli Renh vem a afirmar mais tarde. Como nos diz Evans-Pritchard, relativamente a Olli Rehn:

“Depressão e desemprego em massa no sul da Europa não é um equilíbrio estável. Os cidadãos podem ter mostrado uma paciência “de anjos” até agora, resistindo aos reflexos da década de 1930. Ainda não houve aqui nenhum golpe de Estado, escreveu Olli Rehn, nenhum sinal de regresso ao terrorismo de Itália “dos anos de chumbo”, ou até mesmo ao grande caos estudantil de 1968.”

A crise largada já ao virar da esquina. Eis a verdade proferida por Bruxelas, a verdade que os manifestantes sentem na pele como mentiras absolutas, e contra elas se manifestaram nas ruas: Mentiras que a nossa crónica sobre a quinta-feira negra bem ilustrava. Aliás, a 25 de Outubro noticiava a Bloomberg o seguinte:

“A confiança dos meios empresariais alemães caiu inesperadamente pela primeira vez em seis meses em Outubro em termos de incerteza sobre a capacidade de  recuperação da euro, noticiava a Blomberg em 25 de Outubro. (…)

As ordens de encomenda para as fábricas alemãs caíram  inesperadamente em Agosto, e o Bundesbank afirmou esta semana que o crescimento desacelerou provavelmente no terceiro trimestre depois de uma expansão de 0,7 por cento nos três meses até Junho. Ao mesmo tempo, a produção industrial cresceu  mais do que os economistas  previram, o desemprego continua muito próximo do valor baixo de há duas décadas  e o sentimento dos investidores  está no seu ponto mais alto desde  há  mais de três anos.”

Edward Hugh face a isto e com alguma ironia  escreve:  “Aqui está  outro indicador soft a sugerir que as economias da  zona euro  não estão a avançar nada em Outubro”. Por outras palavras este grande especialista em questões de macroeconomia na Europa afina pelo mesmo diapasão que nós face à confiança vendida, é esse o termo,   pela União Europeia. E isto para não lembrar já os célebres testes de resistência aos bancos que depois de serem considerados em boa saúde financeira faliam a seguir.

(continua)

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Para ler a Primeira Parte deste texto de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

http://aviagemdosargonautas.net/2013/10/28/bem-vindos-ao-sentimento-de-revolta-contra-a-troika-bem-vindos-contra-a-mentira-hilariante-de-bruxelas-por-julio-marques-mota/

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