UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (23)

CARTA DO PORTO

INODORO de ORO

Estão as retretes na ordem do dia.

A mais recente notícia  vem-nos da Ucrânia, onde manifestantes, os mesmo que se supõe terem derrubado a estátua de Lenine em Kiev, colocaram no lugar desta uma sanita de ouro.

Seria suposto sermos todos iguais em lugar tão recatado, mas não será tanto assim. Já lá vai o tempo em que o ouro era guardado em cofres, limpo e reluzente.

Retretes UE - Medidas normalizadas

Retretes UE – Medidas normalizadas

Vem este assunto a propósito das novas normas das retretes que o Parlamento Europeu adoptou. Notável façanha levada a cabo pelos laboriosos deputados europeus*. Após três anos de investigação, após muitas noites de insónia e de muitos neurónios queimados, quiçá de muito puxar (intelectualmente falando, claro) pelo canastro, a Comissão encontrou a solução adequada e elaborou o respectivo relatório, espesso e denso, nas suas cento e vinte e duas páginas (122). Para além das medidas regulamentadas para o tamanho devido às sanitas, ficamos a saber que serão obrigatórios cinco litros de água para a evacuação das sanitas e de um litro de água para os urinóis. Convenhamos que a uma média de vencimentos de dez mil euros por mês, o relatório nem ficou assim tão caro, dando vontade de no próximo dia 25 de Maio, ir votar, para eleger os nosso vinte e um deputados. Pode ser que desta vez, os eleitos consigam definir o calibre que as bananas têm que ter para serem consideradas conforme as normas (dizem as más línguas que os senhores deputados se reúnem há anos, para este efeito, sem resultados práticos, o que tem sido bom para as bananas da Madeira, que não primam pelo tamanho mas sim pelo seu excelente sabor).

Será que o “inodoro de oro” que os Ucranianos colocaram no lugar da estátua de Lenine, obedece já a estas normas europeias? Ou por outro lado, por não pertencerem à UE, podem utilizar as medidas que lhes der na real gana ou consoante o tamanho do respectivo traseiro?

* – Declaro por minha honra que nada tenho contra qualquer deputado europeu, enquanto tal.

AS FRASES DA M….!

Por certo por causa destas notícias, dei por mim a visitar na Net o “The Art Museum Toilet Museum of Art”. Por lá se encontram as fotografias das mais variadas casas de banho dos museus mundiais. Desde a mais banal à mais moderna e à mais sofisticada, por lá as vamos apreciando.

Sanitários públicos ainda existentes na Rua Augusto Rosa

Sanitários públicos ainda existentes na Rua Augusto Rosa

Enquanto as via, lembrei-me das maravilhosas (pelo uso que permitiam e pelos ensinamentos que nos davam) retretes públicas que existiam, e algumas ainda existem, cá pelo burgo e que em tempos idos eram muito frequentadas pelos meus concidadãos.  Havia sentinas, em catacumbas no meio da Avenida dos Aliados e no túnel para peões frente à Igreja dos Congregados, havia-as no início da Rua de Santa Catarina mesmo em frente à rua de 31 de Janeiro, havia-as na praia do Molhe e na praia de Gondarém bem viradas para o mar, no meio do Jardim do Passeio Alegre – construídos em 1910 e decorados com azulejos Arte Nova e loiças inglesas – (esta e as das praias do Molhe e de Gondarém ainda existem) e noutros lugares, todas elas com empregados que procediam à sua limpeza (sempre imaculadamente limpas) e que cobravam entrada (na altura era de cinquenta centavos). Um homem para a secção dos homens e uma mulher para a secção das mulheres, onde, para matar o tempo, eles liam o jornal e ouviam um velho rádio a pilhas e elas faziam crochet ou malha. Havia também mictórios, espalhados por muitas das ruas do Porto. A juntar a estas, havia também algumas casas de banho públicas, onde se podia tomar um banho completo, havendo ainda uma que funciona em frente à Praça 24 de Agosto. Também as escolas, as universidades, os estádios de futebol, os cafés e restaurantes, os museus e em geral todos os edifícios públicos, tinham para uso dos seus frequentadores vários urinóis e casas de banho.

Sanitários do Passeio Alegre. Os mais bonitos da cidade do Porto

Sanitários do Passeio Alegre. Os mais bonitos da cidade do Porto

Nessas retretes, com um design extremamente válido do mais banal que podia haver, com azulejos, portas, e sanitas e urinóis de tamanhos e alturas diferentes, e demais materiais, todos brancos, havia nas que eram mais evoluídas ou pertencentes a espaços mais nobres, máquinas para venda de escovas e pastas de dentes (máquinas essas já desaparecidas para dar lugar a máquinas para venda de preservativos), e havia e ainda hoje há, inscrições de todo o género e feitio, sobre as mais variadas coisas. No entanto, enquanto hoje o que se pode ler nas sentinas, em especial na parte designada para os homens, quase se limita a nomes de mulheres e seus números de telefone, por vezes com uma ou outra descrição de serviços que prestam e com observações asquerosas baixas e repugnantes, anos atrás, encontravam-se comentários e declarações sobre a intolerância, sobre o racismo, sobre sexo, e até sobre política e religião. Encontravam-se com frequência, frases profundas, pensamentos, queixas, juras de amor eterno, poesia, mensagens com destinatário, informações económicas e financeiras, datas a testemunhar a presença de um qualquer frequentador, tudo o que debaixo de anonimato espelhava o quotidiano citadino. Muitos adolescentes daquela altura, aprenderam os factos da vida pela leitura das frases escritas nas portas e nas paredes das sentinas públicas.

Os novos Sanitários públicos, feios, assépticos, e que não dão gozo algum ao utilizador.

Os novos Sanitários públicos, feios, assépticos, e que não dão gozo algum ao utilizador.

Hoje, perdeu-se o prazer de visitar as casas de banho públicas (as poucas que ainda subsistem porque quase desapareceram da vida de todos nós e só os mais antigos as conhecem, e as novas porque feias e assépticas), onde, no meio de uma qualquer dificuldade momentânea, sempre um sorriso nos aflorava os lábios por via da leitura dos comentários e sugestões que alguém bem intencionado lá deixara.

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About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

2 comments

  1. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (23) | joanvergall

  2. Nunca tinha pensado a sério sobre esses lugares de meditação, leitura ou escrita.
    Um abraço.

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