UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (28)

CARTA DO PORTO

 

Quando atravessamos uma praça, percorremos uma rua ou dobramos uma qualquer esquina, raramente nos lembramos que o nome que ostentam tem a ver com uma qualquer personagem ou um qualquer facto da nossa história, sejam eles recentes ou antigos.

Na semana passada passei pela Praça Nove de Abril.

Pouca gente a conhece por esse nome, mas se eu disser que passei pelo Jardim de Arca d’Água, já ninguém deixa de saber onde fica.

Mas se pouca gente conhece a Praça pelo seu nome oficial, menos gente, ainda, sabe das raízes desse nome, como o não saberão do nome de Arca de Água.

 

O DUELO À ESPADA NUA

Também poucos sabem que foi aqui que Antero de Quental e Ramalho Ortigão, numa altura em que o jardim ainda não existia, travaram um duelo, a 4 de Fevereiro de 1866, no qual Ramalho saiu ferido num braço.

E um duelo porquê?

Tudo por excessos provocados durante meses pela Questão Coimbrã.

A também conhecida por Questão do Bom Senso e Bom Gosto foi uma das mais importantes polémicas literárias portuguesas. Esta foi desencadeada em Coimbra por um grupo de jovens intelectuais (mais tarde conhecidos pela geração de 70) que lutavam contra a degenerescência romântica e o atraso cultural do país. Do lado dos defensores das ideias vigentes, António Feliciano de Castilho começou por ridicularizar, em Outubro de 1865, a escola literária de Coimbra, chamando à sua poesia ininteligível e gozando com o aparato filosófico e os novos modelos literários de que ela se alimentava.

fotografia internet

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Antero de Quental responderia, e entre outras coisas denominou Castilho e a quem o apoiava “escola de elogio múltiplo”. As acusações multiplicavam-se, de parte a parte, até que Teófilo Braga, solidarizando-se com Antero de Quental, afirmaria que António Feliciano de Castilho só devia a sua grande celebridade ao facto de ser cego.

Estavam as posições extremadas.

Ramalho Ortigão tomou as dores de Castilho e expressou-as num opúsculo intitulado A Literatura de Hoje. Esse opúsculo, onde Ramalho acusa Antero de cobardia (pois este invocara como argumentos a velhice e a cegueira do poeta) foi a causa próxima do duelo.

Antero venceu e a honra ficou limpa.

Esse duelo não inviabilizou uma grande amizade que se viria a formar, mais tarde, entre estes dois opositores.

Escreveu Camilo Castelo Branco: Em 1866 na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de espada nua dois escritores portugueses de muitas excelências literárias e grande pundonor. Correu algum sangue. Deu-se por entretida a curiosidade pública e satisfeita a honra convencional dos combatentes“.

 

 

PRAÇA NOVE DE ABRIL (1)

Nove de Abril foi uma data importante para os Portugueses. Foi nessa data, no ano de 1918, que se deu a Batalha de La Lys, na Flandres, quase no fim da I Guerra Mundial. Nela combateram tropas Portuguesas, o CEP.

Fotografia Internet

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O Corpo Expedicionário Português (CEP) foi a principal força militar que Portugal enviou para França, durante a 1ª Guerra Mundial, com a finalidade de, através da sua participação activa na guerra contra a Alemanha (que também ameaçava os territórios ultramarinos Portugueses), conseguir apoios dos seus aliados e evitar a perda daqueles territórios. Portugal também enviou, para França, uma outra força, mais reduzida e menos famosa, o Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), sendo aí conhecido por Corps de Artillerie Lourde Portugaise (CALP), mas não é esse de que falamos hoje.

Naquela altura, como nos dias de hoje assim seria, a partida de milhares de homens para a Flandres gerou descontentamentos por todo o País, avolumados pelos enormes gastos a suportar pelo governo.

Em 30 de Janeiro de 1917 zarparam do Tejo três vapores britânicos levando a bordo a 1.ª Brigada do CEP, comandada pelo General Gomes da Costa, e em 23 de Fevereiro, partiu para França um segundo contingente.

Durante um ano, as tropas Portuguesas demonstraram a sua valentia e especial capacidade na guerra de trincheiras. Nos primeiros dias de Abril de 1918 foi decidido trocar a guarnição Portuguesa por uma Britânica, para que os soldados Portugueses pudessem descansar. O dia marcado para a rendição das tropas foi o dia nove.

É justamente no dia previsto para a rendição do CEP que se dá a ofensiva, “Georgette”, alemã e a Batalha do Lys, apanhando as forças portuguesas numa posição completamente desfavorável. Os portugueses, não motivados e muito mal preparados, acabaram por sofrer uma derrota estrondosa na Batalha de La Lys (sector de Ypres), em 9 de Abril de 1918, tendo sofrido cerca de sete mil baixas, sendo que, dentre elas, um grande número se refere a  prisioneiros, constituindo esta a maior catástrofe militar portuguesa depois da batalha de Alcácer-Quibir, em 1578.

Apesar da Batalha de La Lys ter sido, em termos tácticos imediatos, uma derrota para o CEP, a mesma acabou por dar origem a uma vitória estratégica para as forças aliadas.

Podemos ver, na Praça de Carlos Alberto, um Monumento dedicado aos Soldados Mortos Durante a I Guerra Mundial.

 

PRAÇA NOVE DE ABRIL (2)

Mas há quem discorde, e se calhar com alguma razão, da explicação oficial da razão do nome “Nove de Abril”.

Conforme o que já vimos escrito, o nome que puseram à praça, recordaria um dos combates que, durante as lutas liberais, opuseram os partidários de D. Pedro IV aos absolutistas fiéis a D. Miguel; a batalha do Covêlo.

imagem internet

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De facto, o Covelo fica ali perto e a sua tomada pelas tropas liberais, na tarde do dia 9 de Abril de 1833, constituiu um gravíssimo revés para o exército miguelista.

A praça recebeu o seu nome actual em Abril de 1922, data que, apesar de  posterior a 1918, não elimina nenhuma das hipóteses, muito embora pareça reforçar a segunda, dada a proximidade de datas.

Até àquela data (1922), os mapas registavam a velha denominação de Largo da Arca d’Água. Nas proximidades da praça, e na direcção oposta ao Covelo, existem uma rua (a antiga rua da Bica Velha) e uma travessa, que também têm o nome de Nove de Abril.

Três locais, uma praça, uma rua e uma travessa, a lembrar a mesma data e o mesmo acontecimento, na mesma cidade, não será de mais?

Uma coisa é certa, a secção de Toponímia da Cidade do Porto, tem como únicas, que as razões do nome da praça são dadas pela Batalha de La Lys. Bem que podiam repensar o assunto.

O meu bairrismo prefere que, se o nome de Nove de Abril tem mesmo de ser o nome da praça, então que ele diga respeito à data de 1833, já que tem a ver directamente com a nossa cidade. Mas convenhamos que, de uma forma ou de outra, para o comum dos Portuenses, mesmo passados noventa e dois anos, a praça Nove de Abril é, e será sempre, o Jardim de Arca d’Água.

E sendo o nome tão antigo e tão apropriado, por que carga de água – apetece perguntar – é que lhe haviam de chamar outra coisa?

 

JARDIM DE ARCA D’ÁGUA

O belo jardim que hoje embeleza este local, outrora praticamente deserto, transformou a Arca d’Água num dos largos mais aprazíveis do Porto. E os que nele habitam, ou nas suas imediações, prezam muito o seu tranquilo reduto.

Por alturas do reinado de El-Rei D. Sebastião, já as fontes e chafarizes espalhados pela cidade não chegavam para o abastecimento de água à população, graças ao contínuo aumento das pessoas que viviam no Porto.

Um dos locais onde a população se ia abastecer, devido à grande quantidade e enorme qualidade da água que por lá havia, era o manancial da Arca das Três Fontes, em Paranhos, pelo que foi solicitada, ao Rei de Portugal, autorização para encanar essa água e trazê-la para a zona intra-muros da cidade. Tal autorização só foi, no entanto, dada no reinado de Filipe I, tendo a obra sido concluída no ano de 1607. É esta água que vamos encontrar na Arca do Anjo, de que já AQUI falei.

JARDIM DA ARCA D'ÁGUA

JARDIM DA ARCA D’ÁGUA

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JARDIM DA ARCA D'ÁGUA

JARDIM DA ARCA D’ÁGUA

A nascente estava, tal como ainda hoje, situada no subsolo do Largo da Arca d’Água, local que nessa altura correspondia aos arredores da cidade. A água seguia por um aqueduto de pedra e alimentava várias fontes ao longo do seu percurso. Foi, até 1884, a principal fonte de abastecimento, de água, da cidade.

Os túneis subterrâneos podem ser visitados, sob autorização e supervisão das Águas do Porto, a partir do meio do Jardim e até à Praça dos Leões (perto do local onde esteve a Arca do Anjo).

 

About José Magalhães

Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

6 comments

  1. Albertia Eudora Silva

    Grata meu amigo pela lição de história que recebi.Conheço bem a Praça 9 de Abril, muito bem ilustrada pelas suas fotografias, Tive um familiar que esteve nas trincheiras de La Lys mas esta data 9 de Abril não a tinha associado à toponímia do jardim…
    Abraço

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  2. É bom conhecer ou reler os encantos da nossa Cidade. Obrigada por relembrar tanta coisa interessante perdida no tempo. Abraço.
    Maria Mamede

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  3. Pingback: UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (28) | joanvergall

  4. Mais UMA CARTA DO PORTO .
    Muito rica e com imenso interesse que a sua bela escrita torna ainda mais saborosa.
    Um abraço.

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