QUANDO É QUE SE DECIDE QUE A EUROPA DEVE REESTRUTURAR UMA GRANDE PARTE DA SUA DÍVIDA? por MICHAEL PETTIS – I

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Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

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Quando é que se decide que a Europa deve reestruturar uma grande parte da sua dívida?

 Michael PettisWhen do we decide that Europe must restructure much of its debt?

Blogue mpettis.com, 25 de Fevereiro de 2015 

 

É difícil ver o drama grego a desenvolver-se sem se estar a ter uma sensação de mau agouro. Se é possível que a economia grega, pelo menos parcialmente, possa passar por alguma retoma apesar de seu fardo de dívida enorme, com um muito e duro trabalho e ainda mais com um pouco de boa sorte, nós poderemos considerar cenários que não envolvam um doloroso colapso social e político, mas estou bastante convencido de que a actual situação grega torna o crescimento quase que impossível e por muitos anos mais.

A história é, para mim muito convincente. Os países com este nível de endividamento e este nível de incerteza associada face à resolução da dívida também nunca são capazes crescer, por causa dos seus encargos da dívida, e isto independentemente do vigor e da determinação posto no conjunto “ correcto” das reformas ortodoxas a pôr em prática, pelo menos até que o problema da dívida esteja resolvido e os custos assumidos. A Grécia e Europa, por outras palavras, têm uma escolha..

Eles podem escolher reestruturar a dívida grega, explicitamente, com um perdão substancial e real da dívida e com os custos optimamente atribuídos de forma que se maximize o valor para todas as partes envolvidas. Se assim  não for,  a Grécia pode continuar a lutar por muitos anos, tantos quanto os necessários até que a dívida fica implicitamente resolvida, com os custos distribuídos mas em que  esta distribuição será  o resultado de uma luta política incerta.

Até que um ou outro resultado se evidencie, o país não é um credor viável e não crescerá. Não há nenhuma maneira de obter os números para poder funcionar devidamente . Se os decisores europeus que se opõem a uma resolução rápida da sua crise de dívida continuarem a mostrarem-se tão intransigentes durante os próximos meses, como o mostraram na semana passada, suspeito que os dirigentes europeus  só alcançarão um dos seus objectivos, que é o de espezinhar Syriza e conseguir levá-lo à sua queda.

Mas eu suspeito que muitos políticos europeus pensam, incorrectamente, que SYRIZA se torna  tanto mais radical quanto mais ele ganhar e que uma vez Syriza desacreditado e caído, é quase certo que qualquer que seja a liderança alternativa esta seria sempre melhor. Pessoalmente discordo. Se Syriza ficar desacreditado, e a economia grega continuar em situação de estagnação como neste caso será o mais provável, a alternativa poderia muito facilmente ser Golden Dawn, partido nazi,  ou um qualquer outro grupo de nacionalistas radicais determinados a culpar os estrangeiros pelos seus problemas, e aAlemanha terá de assumir que é a principal responsável pela nova situação política que assim viria a ser criada. É irónico, porque na minha opinião, Angela Merkel não é e nunca foi uma valentona, é a imagem que ela quer colocar para o exterior, e a principal razão pela qual a Alemanha parece estar a comandar o show é que ninguém jamais ousou até agora em discordar dela ou em tomar qualquer posição de verdadeira liderança. Por essa razão ela e Alemanha estão a mostrar-se bem piores do que o são realmente .

E isto claramente não é somente  sobre a Grécia. Todos sabem que a Grécia já antes reestruturou uma vez a sua dívida e obteve um perdão parcial — na verdade, uma vez que as reduções de cupão sejam contabilizadas correctamente para o rácio de dívida da Grécia este será provavelmente muito inferior aos 180% do PIB, o  que os números oficiais actualmente sugerem. A maioria das pessoas compreende também que o debate sobre a situação grega não é apenas sobre a Grécia mas também sobre se ele deve ser ou não aplicado a outros países — Espanha, Portugal e Itália entre outros e talvez mesmo a França — que terão também que reestruturar as suas dívidas com perdão parcial da dívida.

(continua)

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