A GRÉCIA, PORTUGAL E OUTROS PAÍSES, DEPOIS DO REFERENDO – QUE FAZER? por JOÃO MACHADO

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A GRÉCIA, PORTUGAL E OUTROS PAÍSES, DEPOIS DO REFERENDO – QUE FAZER?

Escrevo estas linhas quando ainda corre o referendo na Grécia. Parece que este acontecimento está ter a ter repercussões por todo o mundo, não só na Europa. E o caso não será para menos. Um pequeno país está a votar, para aprovar ou não, as condições que lhe querem impor uma nação muito mais poderosa, a Alemanha, organismos como o FMI, o BCE e a Comissão Europeia e o sistema financeiro internacional, assessorados por uma instância perfeitamente instrumentalizada, como é o Eurogrupo. Tem-se procurado fazer passar a mensagem de que as outras nações, para além da Grécia, que integram a União Europeia (EU) e a zona euro, estão alinhadas com a Alemanha, nas políticas europeias, e não só, mas o exame da história recente permite, sem sombra de dúvidas, pôr em causa a veracidade do conteúdo dessa mensagem, ao nível das populações. Os “líderes” que integram o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu podem ter chegado ao poder nos seus países através de eleições disputadas, melhor ou pior, segundo as regras da democracia representativa, mas há cada vez mais a consciência, entre os que os elegeram, de que não respeitam os programas que apresentaram nos actos em que foram eleitos. Quanto à Comissão Europeia, é sabido que a sua constituição e o seu funcionamento não obedecem a quaisquer regras democráticas, com efeitos nefastos em toda a UE.

Têm chovido as críticas sobre o governo grego eleito em 25 de Janeiro último. São muitas, demasiado numerosas para que aqui as consiga sequer enumerar. A mais grave e, ao mesmo tempo, mais descabida, é a de que não deveria ter convocado este referendo. Qualquer pessoa que não tenha a mente turvada pelo medo ou pela propaganda percebe quão descabida, para não lhe chamar hipócrita, é esta crítica. Na sexta-feira, 26 de Junho, Angela Merkel e outro governante europeu, salvo erro, François Hollande, proferiram declarações perfeitamente equivalentes a um ultimato ao governo grego, marcando assim o fim das negociações. A chanceler alemã terá mesmo enviado na altura ao parlamento do seu país a sua versão da documentação resultante dessas negociações, pedindo a respectiva aprovação. Embora as diferenças que perduravam na mesa, em termos financeiros, parecessem relativamente pequenas, os pontos a que respeitavam (pensões e o IVA das ilhas) infringiam as chamadas linhas vermelhas, limites que o governo grego tinha imposto a si próprio não ultrapassar, até por serem parte importante do seu programa eleitoral. Da parte dos “credores” havia uma posição irredutível de não aceitar a substituição dos cortes naqueles sectores por outros, em sectores considerados menos vitais pelo governo grego. Entretanto, a reestruturação da dívida pública do país continuou também a ser rejeitada pelos “credores”. Assim o governo grego encontrou-se num impasse: ou violava o seu programa eleitoral ou não aceitava o resultado das negociações, na versão dos “credores”. Ao marcar o referendo, faz uma consulta aos eleitores para saber se deve continuar. E propõe o não às propostas dos “credores”, de modo a respeitar o seu programa eleitoral.  Quem tenha um mínimo de respeito pelas regras democráticas percebe que este era o caminho a seguir.

A crítica válida a fazer ao governo grego é ter levado tanto tempo a perceber a irredutibilidade da outra parte, que nunca quis negociar seriamente com ele. A direita europeia não está interessada numa alteração significativa no funcionamento da vida da União Europeia, e o grupo social-democrata e socialista, na prática, afina pelo mesmo diapasão. Preocupa-os que entrem em cena outros actores, que proponham um funcionamento diferente da União Europeia, e que ponham em causa as políticas que têm desenvolvido, a começar pela política de austeridade. Esta tem servido para assegurar o poder das elites dominantes, no campo político e económico, ao nível europeu, à custa do equilíbrio da vida das nações. Mesmo na Alemanha, cujos dirigentes parecem acalentar o desejo de assegurar a qualquer preço o sucesso nacional, mesmo que seja à custa dos outros países, começa a haver fortes dúvidas sobre se a austeridade deve continuar. Contudo, nestas tão agitadas e difundidas negociações sobre as dívidas da Grécia, ela não foi posta minimamente em causa, a não ser pela parte grega. E assistiu-se ao empolamento de conflitos partindo de posições como “eles não querem é pagar”, “as regras são para todos”, etc., que escondem, da parte de quem as defende em público, receios quanto ao futuro, de que venham a ser apuradas responsabilidades sobre como, concretamente, se chegou à situação presente.

Falando mais genericamente, o mais grave, sobretudo para os países mais pequenos, como a  Grécia, Portugal, e outros, é perceber se têm interesse em continuar no euro, e mais do que isso, continuar integrados na União Europeia. Dou uma opinião pessoal: sempre considerei um erro a adesão de Portugal à União Europeia. Para além de considerações políticas mais genéricas, era evidente que a economia portuguesa, sempre problemática, não iria sair beneficiada no confronto com outras mais poderosas. Apesar de todas as vultuosas verbas que vieram do Fundo Social Europeu, e de outros organismos (onde foram parar?), o país não progrediu, a não ser em obras faraónicas ou desnecessárias. Permito-me avançar a suposição de que na Grécia a situação não será muito diferente. Mas agora estamos perante a situação inversa: o caminho é a saída? Será possível? E como fazer?

1 Comment

  1. Arran de la lectura d’aquest article, que agraeixo, em pregunto si és possible realment pensar en un funcionament molt diferent per a la Unió Europea actual. Crec, de fa molt de temps, que una Europa unida -unida intel·ligentment al servei d’un concepte integral de ciutadania europea- és un projecte polític potent. Però l’Europa unida a la qual confio que es podrà arribar algun dia, no és ni de bon tros aquesta Unió Europea d’ara. Aquesta UE s’ha gestat des de dalt, des dels interessos econòmics i estratègics i les prerrogatives de les oligarquies privilegiades ; n’hi ha prou de revisar la història de la seva gestació efectiva, des de la CECA fins a la UE. I s’ha fet també a partir d’un nucli centre-europeu i atlàntic, al servei del desenvolupament del qual va néixer i que, en la seva expansió perifèrica, mai no ha abdicat de la jerarquia que li atorgava la pròpia història. Hi ha tics colonialistes en la concepció europea, i tenen arrels profundes. Per això, no es tracta de proposar “un funcionament diferent de la UE”, sinó de promoure, des de pressupòsits democràtics, una Europa unida que hagi de funcionar necessàriament d’una altra manera, i en la qual no hi hagi espai per a les calamitats, els abusos, les diferències i la megalomania jeràrquica (que dissortadament alguns -i són cada cop més- voldrien que esdevingués també ètnica- de la UE actual. Crec que cal eixamplar les bases que treballen i poden treballar per aquest projecte, que, a desgrat del camí fet, té encara més d’utopia que de realitat.

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