O BCE tem de manter ELA aos bancos gregos – por Bill Mitchell I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O BCE tem de manter ELA aos bancos gregos

Bill Mitchell – Publicação autorizada pelo autor

Apesar da enxurrada de imprensa descaradamente desonesta dos proprietários conservadores dos media gregos altamente concentrados (os “oligarcas”) para votar SIM; apesar de muitos artigos a aparecerem nos jornais do mundo sobre como os gregos são os culpados por seus próprios problemas, porque eles gastam de mais e pagam impostos de menos, apesar das mentiras vindos de outros líderes europeus sobre o que representava o voto (não era acerca de deixar o Euro, mas sim sobre se o povo grego queria mais falhada austeridade); apesar das afirmações ridículas do SDP alemão sobre ” terem-se destruído as pontes” (partido que deve mudar de nome porque ele é uma vergonha para a tradição social-democrata) – apesar de todas as mentiras e de muito mais, o povo grego votou esmagadoramente NÃO para rejeitar a austeridade como um modelo de política viável para o seu país. Este é um caso da democracia a estar frente a frente contra a ideologia político-económica dominante dentro do qual a nação grega está situada – a zona euro. Isto também mostra as falhas do processo democrático – as pessoas votaram pelo fim da austeridade, mas também e de forma consistente indicam as sondagens de opinião que os gregos querem permanecer na zona euro, uma zona monetária, um sistema que é construído sobre a austeridade. Eles votaram ontem a rejeitar a própria base do sistema monetário e eles querem ficar nesse sistema – o que nos diz que eles realmente não entendem a natureza do sistema e de como está informado o voto no NÃO.

Mas dado tudo isto, eu não concordo com as interpretações que dizem que a Grécia tenha escolhido entre “a catástrofe ou a catástrofe absoluta”. (June 5, 2015) – Our Greek referendum offers catastrophe or absolute catastrophe. Some choice. Guardian)

Eu também não concordo que os gregos perderam o jogo numa luta cerrada contra os seus parceiros da zona euro (este último termo é utilizado para descrever de forma muito vaga os detentores do poder na zona do euro).

Se lermos a última edição do Der Spiegel, o artigo (July 3, 2015) – Angela’s Ashes: How Merkel Failed Greece and Europe – este dá-nos uma certa pausa em aceitar as interpretações catastróficas.

A decisão para se fazer um referendo desafiou realmente as intimidações na zona euro – levando-os para fora do roteiro que têm vindo a seguir desde há anos até agora e na forma como trataram as nações que sofrem de uma forte redução da despesa agregada e ao mesmo tempo de forte e crescente taxa de desemprego.

A decisão de fazer o referendo deu força à ideia de que as intimidações poderiam apenas ameaçar estas nações com a falência – o que era uma ameaça inútil e vã, dado que isto faria, de toda a maneira, explodir o seu próprio sistema se demasiado pressionado, externamente.

O roteiro exigia que as nações se curvem e cortem na despesa pública e selvaticamente mesmo nos sistemas de segurança social e em tudo o resto dos aspectos que têm a ver com o desenvolvimento social que os gostos do FMI odeiam desde que este foi tomado de assalto pelos economistas neoliberais durante os anos 70.

A decisão para permitir que os povos dêem realmente uma indicação explícita sobre esta matéria mudou, do meu ponto de vista, as relações do poder significativamente.

E eu não aceito as narrativas que nos dizem que o referendo esteve mal expresso, demasiado longo, estava a referir-se a um pacote inexistente dado que o último documento foi retirado no dia 28 de Junho de 2015 assim como todo o resto das reivindicações feitas por aquelas que lutaram para manter o governo grego e os seus povos no “roteiro”.

É óbvio sobre o que estavam a votar. Estavam a dizer NÃO às políticas económicas cruéis, sem sentido e falhadas que têm destruído milhares e milhares de postos de trabalho, que têm prejudicado os rendimentos das pensões de reforma e criado um vácuo para a juventude da nação poder desenvolver as suas capacidades profissionais, experiência de trabalho e assim como têm minada a juventude na sua passagem à idade adulta a quem não são dadas perspectivas de futuro. E todo o resto que tem sido provocado pela austeridade.

Pode-se ter uma visão diferente sobre se a austeridade “tem funcionado” ( e o que é que isso significa ). Mas a Grande Depressão grega continua e todas as estimativas do FMI e da UE a médio prazo indicam que o desemprego estará acima de 20 por cento durante os próximos anos.

Inequivocamente, o quadro político não estava a funcionar. O voto do Não é a rejeição deste mesmo quadro e expressa também a exigência de um quadro político que ajude a restaurar o crescimento e a reduzir o desemprego.

Eu considero a questão do “ perdão parcial da dívida” também como sendo um tanto exagerada dado que não terá nenhum impacto no curto prazo para permitir que a economia comece a crescer suficientemente de modo a reduzir rapidamente o desemprego. Limpar principalmente dívida de longo prazo e de baixa da taxa de juro fará pouco para restaurar a procura.

O governo grego até tem estado a ter agora excedentes orçamentais primários com exclusão da carga da dívida. Obter alguma redução na carga da dívida não alterará muito no curto a médio prazo. Eu penso que pôde mudar a psicologia consideravelmente e por essa razão apenas o BCE deve anunciar imediatamente que deitará fora toda a dívida do governo grego que ele detém.

Como se dizia no meu Tweet há já alguns dias :

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O FMI tem uma responsabilidade criminal bem particular em toda esta história. Deveriam pagar pelos prejuízos enormes provocados em vez de andarem a intimidar nações inteiras e a criar mais pobreza e em se apropriar de qualquer rendimento que a nação possa obter para pagar as chamadas dívidas ”.

O facto é que depois das negociações marcadas terem sido suspensas , o FMI publicou sob pressão dos E.U. (que são os maiores financiadores do FMI ) – Greece: Preliminary Draft Debt Sustainability Analysis, (2 de julho de 2015)- e isto mostra bem como tudo isto tem sido político.

A análise deveria ter formado uma parte essencial das negociações dado que se mostra como é mesmo muito sombria a situação da dívida no longo prazo para a Grécia. Note-se também que o FMI foi explicitamente pressionado pela Comissão Europeia para não publicar este relatório.

Groupthink odeia a informação. Groupthink odeia qualquer coisa que conteste ou ponha em dúvida o ponto de vista ideológico predominante. Groupthink, embora em regra constitua uma forte intimidação é, de facto, um estado organizacional altamente inseguro.

Informação é poder. A Comissão Europeia odiava a ideia de que o FMI viesse ele   próprio esclarecer sobre o que eles pensavam ser a realidade da situação grega. Isso pode não ser a realidade actual, dado que o FMI é propenso a cometer enormes erros.

Mas o importante é relembrar que a Comissão Europeia sabia que a informação poderia vir a esclarecer a forma nada elegante, nada honesta da sua posição no processo das negociações que antecederam o referendo e por essa via enfraquecer as suas pretensões de que uma votação no SIM era essencial para a prosperidade futura do povo grego.

Assim enquanto os ministros de Eurofin mentiam sobre e as suas exigências feitas ao povo grego (Dijsselbloem teve o irritante arrojo e a lata de reivindicar que na verdade não estavam a pedir cortes das pensões de reforma ), o FMI revelava porque é que estavam a recusar falar sobre a amortização da dívida para os gregos.

Porquê ?

Porquê? Porque mesmo o FMI considera que tem que ser reduzida (perdão parcial) ou então retardada com um espaço de carência de 20 anos e com uma maturidade de outros tantos vinte anos.

Mas apesar de tudo isso, a verdadeira questão é que em toda a zona euro o problema é uma insuficiente procura agregada (a procura em sentido lato), o que, por seu lado, está a provocar diferenças (gaps) entre a produção realizada ( o PIB efectivo) e a que seria possível realizar ( o PIB potencial) e estas diferenças estão a ser de níveis excessivamente grandes.

Por sua vez, a persistência destas diferenças de produção (gaps) tem prejudicado o investimento privado na formação de capital e a austeridade orçamental tem atingido com efeitos fortemente negativos o investimento público, e tudo isto em conjunto tem tido como efeito que os níveis de produção potenciais estejam também eles a declinar.

Isso tem o efeito de reduzir as futuras taxas de crescimento futuro e significa que para acabar com as taxas excessivamente elevada de desemprego, são necessárias actividades de produtividade mais baixa.

Pela sua própria maneira, o povo grego sabe o que quer e quer políticas que comecem a enfrentar e a resolver o problema económico central. O que eles não parecem perceber é que o problema central é o próprio Euro, [enquanto tal, enquanto estrutura, enquanto regras] dada a forma como foi introduzido e o sistema que o suporta..

A votação no Não não irá alterar o enviesamento que a austeridade provoca. Mesmo o governo grego estava preparado para aceitar a continuação da austeridade até à semana passada, tanto quanto houvesse algum alívio da dívida.

As afirmações de que Syriza é um partido anti-austeridade estão claramente em desacordo com a realidade da abordagem que Tsipras fez pouco antes do referendo ao Eurogrupo.

A Grécia precisa de estar a ter grandes défices orçamentais – com redução da dívida ou não. Os excedentes primários farão apenas com que continue o sofrimento. Eu sei que eles querem que os estímulos orçamentais venham de fora do país – através do fundo de investimento do Euro etc. Mas isso não vai acontecer tão cedo, nem sequer na quantidades que se poderia julgar estimulante.

Assim, e em conjunto com a realidade externa, os gregos têm de ser capazes de incorrer em défices primários (e globais). Caso contrário, a situação do povo grego continuará a degradar-se.

A outra narrativa interessante (entretanto sublinho que o ministro das Finanças grego acaba de anunciar a sua demissão!) é que “todos os olhos estão agora sobre o comportamento do BCE”.

Agora que a Grécia rejeitou a austeridade – e daí? Os bancos estão prestes a tornarem-se insolventes, a menos que o BCE anuncia que vai continuar a garantir que eles tenham liquidez suficiente em euros para atender às necessidades do seu dia a dia.

 

(continua)

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