De uma crise a outra, dos anos de Mitterrand aos anos de Hollande, da tragédia de outrora à farsa de agora. 2ª Parte – Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio. Texto 2.5 – Em torno da campanha de Lionel Jospin. De Lionel Jospin a Ségolène Royal: a terceira via impossível de encontrar do socialismo francês (conclusão). Por Philippe Marlière

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

2ª Parte Os tempos de Lionel Jospin, tempos de vazio

Texto 2.5 Em torno da campanha de Lionel Jospin. De Lionel Jospin a Ségolène Royal: a terceira via impossível de encontrar do socialismo francês

 Por Philippe Marlière, professor em Londres

Artigo publicado na revista Mouvements. Numero especial : ” 1997-2007: où est passée la gauche française ? , No 50, Junho-Agosto 2007

10 de junho de 2007.

(conclusão)

Voluntarismo social-liberal

O voluntarismo em matéria de criação de empregos foi moderado largamente por medidas fiscais de acordo com os ares do tempo. Pretextando uma reentrada acrescida das receitas devida à retoma do crescimento, Laurent Fabius, o ministro da Economia e as Finanças, privilegiou uma política de baixa dos impostos ligada às classes médias e superiores em março de 2000. O governo reduziu fortemente o défice público em cinco anos (de 4,2% do PIB em 1997 a 1,5% em 2001) e a dívida pública (de 6% do PIB em 1998 a 5,7% em 2001). Esta política de despesas públicas “prudente”, “responsável” inscreveu-se na continuação das práticas social-democratas na Europa que se praticavam nesta altura.

Não obstante o seu intervencionismo no plano da criação de empregos (35 horas, empregos-jovem), o governo Jospin foi apenas muito moderadamente keynesiano no que diz respeito à estimulação da procura. Jospin mostrou-se mesmo publicamente com uma certa forma de impotência e de fatalismo económico. Em setembro de 1999, a direção Michelin anunciou simultaneamente 17% de lucro e a supressão de 7.500 empregos. Questionado na televisão sobre o que pensava fazer, Lionel Jospin declarou que nada podia fazer e que “o tempo da economia administrada tinha acabado”. O PS rompeu sobretudo com o princípio do ni-ni, do “nem-nem” (nem mais nacionalizações, nem mais privatizações) instaurado por François Mitterrand em 1988 e ainda assumido pelos socialistas aquando da campanha de 1997. A esquerda plural privatizou o Crédito Lionnais, “abriu o capital” de numerosas empresas do sector público concorrencial (quer favorecendo a constituição de grandes grupos europeus – Alcatel et Dassault Électronique juntando-se ao capital de Thomson CSF, quer fundindo Aérospatiale et Matra).

Num discurso na universidade de verão do PS em Rochelle em agosto de 1998, Jospin esboçou os contornos de um “socialismo moderno”, afirmando uma justa articulação entre “os meios e os fins”. Introduzida esta distinção, explicou que as privatizações das empresas públicas realizadas desde 1997 – “um meio” – tinham sido motivadas pela prossecução de objetivos económicos e sociais de esquerda – “um objetivo”. A venda da Thomson ou a abertura da França Telecom à concorrência, de acordo com Jospin, tinha sido necessária para tornar a França “mais forte na concorrência mundial”.

Poder-se-ia definir o governo da esquerda plural como “um estatismo pragmático”. Em contrapartida, parece menos pertinente afirmar que a experiência governamental entre 1997 e 2002 permitiu criar “uma via francesa”, fundamentalmente distinta da terceira via blairista. Talvez se pudesse opor “o voluntarismo social-liberal” do PS “ao fatalismo social-liberal” blairista. Seria necessário também acrescentar que “ao fatalismo blairista” no que diz respeito à mundialização terá respondido “o fatalismo jospiniano” no que diz respeito à integração à europeia (a Agenda de Lisboa [2000] e os acordos de Barcelona [2002], ambos endossados por Jospin, consagrando a vitória das teses blairistas na Europa) e o reconhecimento que a mundialização neoliberal só parcialmente pode ser domesticada.

Neo-jospinismo

A sequência que se seguiu à derrota de 21 de abril de 2002 pode ser resumida nos seguintes termos: uma sucessão de vitórias eleitorais (sobre fundo de rejeição da direita no governo) e de denegações dos dirigentes socialistas da rua de Solférino. Após a saída de Jospin da vida política ativa, o PS entrou num período de turbulências. No congresso de Dijon, François Hollande teorizou a noção “de reformismo de esquerda”, uma tímida abertura para “um blairização doutrinal”: dizer o que se vai fazer e fazer o que se esteve a dizer. Os sucessos eleitorais da primavera de 2004 nas eleições regionais, cantonais e europeias pareceram dar razão ao eixo maioritário contra as correntes de esquerda (Terra Nova e Novo Partido socialista) que viam o PS “mais como um auxiliar da mundialização liberal do que como o seu adversário”. Estes sucessos permitiram à direção socialista evitar qualquer reflexão doutrinal e programática de fundo para tirar as conclusões da derrota presidencial.

Desde 2004, o PS estava já em pé de guerra presidencial com pretendentes a mais para as presidenciais. Entre 2002 e hoje, o PS de François Hollande não debateu (não houve convenções nacionais programáticas), não refletiu sobre o seu próprio futuro (salvo as presidenciais, nada mais) e foi ultrapassado pelos movimentos sociais combativos (isto foi particularmente flagrante aquando das manifestações contra o Contrato Primeiro emprego). Parecia estar a contar com o profundo descrédito da direita para alcançar a vitória em 2007.

É neste contexto que ocorreu o referendo interno sobre o Tratado constitucional europeu (TCE). Desejado por François Hollande para unir o partido à sua volta e ao mesmo tempo marginalizar os seus rivais diretos (Laurent Fabius e Lionel Jospin), este referendo provocou “uma guerra interna” da qual saiu muito enfraquecida uma direção, no entanto, vitoriosa. Para lá dos diferendos de fundo entre “os defensores do Sim, os ouistes, e os defensores do Não, os nonistes”, é interessante notar que a decisão de François Hollande reforçou ainda mais a natureza presidencialista do PS. O primeiro secretário alterou voluntariamente os equilíbrios internos deste partido que, desde Epinay, tinham assentado sobre a síntese das diversas sensibilidades. Querendo criar o vazio em redor de si-mesmo através de um voto de perfume plebiscitário, Hollande quebrou o modus vivendi e o modus operandi dos socialistas. Não é por conseguinte tanto “o não-respeito” do voto interno (Jean-Luc Mélenchon, Gérard Filoche, Henri Emmanuelli e tantos outros militantes de base) que deveriam surpreender ou chocar, mas sobretudo a decisão de François Hollande de abandonar unilateralmente o modo de funcionamento socialista do partido.

“O povo de esquerda” (do qual 59% de eleitores são socialistas) deu razão aos “nonistes” e enterrou os sonhos presidenciais de François Hollande. Tendo sido fortemente fragilizada a linha presidencialista e social-liberal dos “ouistes” pelos eleitores de esquerda, o combate “antiliberal” teria podido, por conseguinte, intensificar-se e ameaçar a direção. Numerosos militantes era o que desejavam, mas não foi assim, não aconteceu nada mais. Os principais líderes das correntes de esquerda (às quais é necessário acrescentar Laurent Fabius) confiscaram esta vitória e entraram na “linha”. Como que abalados pela sua audácia, agitaram-se em lutas de aparelho e quase todos se renderam às sirenes presidenciais. Laurent Fabius não rompeu com a direção e, em Mans, uma larga maioria de quadros “de esquerda” impôs a síntese aos militantes que a rejeitavam. Henri Emmanuelli declarou-se a favor de uma candidatura de François Hollande. Isolada, a jovem guarda “renovadora” (Arnaud Montebourg, Vincent Peillon) aderiram à candidatura de Ségolène Royal na primavera de 2006. Na ausência de “ saída da Vª República” – uma ambição inatingível com Ségolème Royal –  eles agarraram-se à vaga esperança (certamente pessoalmente vantajosa) “de saída” dos elefantes no poder no partido para tomarem eles o seu lugar.

Fechou-se o círculo: o jospinismo não foi vencido.

O jospinismo sobreviveu à saída de Lionel Jospin da política e marcou bem a sua presença com a campanha de Ségolène Royal. Chamemos então a isto o “neojospinismo”. O governo Jospin respondeu ao desafio blairista procurando distinguir-se simbolicamente da terceira via britânica (Jospin: “Não somos sociais-liberais”; Jean-Luc Mélenchon: “O governo Jospin é o governo mais à esquerda no mundo”; Henri Weber: “Mantemos uma relação de crítica face ao capitalismo”, etc.). O blairismo, com efeito, forneceu aos socialistas uma ocasião de reativar um sinistrismo de boa qualidade e de poucas despesas (“permanecemos socialistas e se não nos acreditam, ouçam Tony Blair falar”). Infelizmente, nenhuma das vagas tentativas de distinção doutrinal (“o socialismo moderno” jospiniano ou “o reformismo de esquerda” holandês) foi substancialmente enriquecida e desenvolvida. No plano político, embora evoluindo em contextos socioeconómicos diferentes, o PS no poder não se demarcou clara e radicalmente do New Labour: o mesmo respeito pelos “ equilíbrios orçamentais”, a mesma recusa dos aumentos de imposto para os mais ricos, as mesmas privatizações e o mesmo fatalismo no que diz respeito à mundialização neoliberal.

Sob Jospin, o PS tornou-se uma formação política cuja organização, cujos recursos (financeiros e humanos) foram todos dirigidos para as eleições presidenciais. Estranho destino para este homem que reivindicava “o direito de inventário” do mitterrandismo e que queria “presidir diferentemente” a Vª República. A escolha de Ségolène Royal como candidata explica-se assim facilmente. De acordo com a lógica bonapartista desta eleição, os militantes socialistas logicamente investiram muito naquela que os Franceses plesbicitavam através das sondagens. Neste sentido, a escolha de Royal não marcou a passagem “do partido de classe” (dado que o PS de Epinay nunca foi social-democrata) para um “partido de opinião”. Este voto, antes pelo contrário, inscreveu-se em linha reta no presidencialismo do PS (que implica ultrapassarem a sua natureza “socialista”), começado por François Mitterrand, amplificado por Lionel Jospin e consolidado por François Hollande. Aquando das suas campanhas internas e presidenciais, Ségolène Royal demonstrou que, na sua marcha infrutífera para o poder, ela era em todos os pontos fiel a Lionel Jospin.

Contrariamente às aparências, a campanha de Royal não inovou no plano da organização. A candidata socialista dirigiu uma equipa ortodoxa, tentando mesmo reatar com as coligações socialistas tipo apanha tudo dos anos 70 e 80: a esquerda republicana (Chevènement), barões do mitterrandismo (Bianco), “renovadores de esquerda” (Montebourg, Peillon) e do eixo social-liberal (Strauss-Kahn), foi o que ela privilegiou. Somente a esquerda socialista (Emmanuelli, Mélenchon, Filoche e, hoje, Fabius), foi, do princípio ao fim, mantida à distância deste esforço coletivo. Estrangeira ao jogo das correntes e muito pouco implicada nos debates do partido, Royal efetuou uma campanha à direita sobre os temas da segurança pública e dos costumes, considerando assim seduzir um eleitorado popular que se tinha abstido ou que tinha votado por Le Pen em 2002.

Esforço inútil, a votação em Nicolas Sarkozy – o candidato da Ordem autêntica – nos meios populares foi impressionante. A temática “da Ordem justa” de Royal não teve grande impacto face à demagogia da direita sarkozysta descomplexada que seduziu em grande escala o eleitorado lepenista. A outra vertente da campanha agarrou a temática da democracia participativa. As reuniões animadas essencialmente pelos militantes dos clubes Desirs d’Avenirs não suscitaram o interesse popular esperado. Na realidade, Ségolène Royal não pôde evitar o desastre de uma nova eliminação à primeira volta senão graças ao apoio de um eleitorado de esquerda politizado e com uma consciência de classe. Este voto de esquerda a favor da candidata socialista é paradoxal porque foi adquirido apesar da personalidade e das propostas de Royal que suscitam à esquerda as mais fortes reservas. Acariciando entre as duas voltas a ideia de uma aliança com o centro direita de Bayrou, os apelos do movimento blairizante do PS (Rocard, Kouchner, Strauss-Kahn), foram, uma vez mais, ignorados pelos eleitores: o centro político inclina-se com uma constância notável para a direita, como muito bem o ilustrou o eleitorado de Bairou e e os deputados de UDF na segunda volta. Na noite da derrota, estes mesmos ideólogos da abertura ao centro continuavam preconizar a continuação de uma estratégia que, no passado, absorveu o SFIO e acabou por destruir o PS entre 1988 e 1993.

Este novo e lamentável fracasso da esquerda é sobretudo o do PS, que efetuou esta campanha sem nenhuma linha política clara, sem antes ter definido o que significa socialismo do século XXI, ou ainda sem se questionar sobre o que desejava realizar uma vez chegado ao poder. Vivendo ao sabor das sondagens de opinião, pensou – erradamente – que uma candidatura feminina combinada com a hostilidade suscitada por Sarkozy, seria suficiente para reatar com a vitória. A direita ganhou triunfantemente em ser de direita, a esquerda perdeu espetacularmente em não ser claramente de esquerda. Aos socialistas honestos cabe tirar as conclusões que se impõem.

Philippe Marlière, De Lionel Jospin à Ségolène Royal : l’introuvable troisième voie du socialisme français, Disponível no sitio SOCIALISTE DE GAUCHE 65, cujo endereço é : http://socialistedegauche65.over-blog.com/article-6773315.html

Pode consultar a 1ª parte deste artigo em:

 https://aviagemdosargonautas.net/2017/05/24/de-uma-crise-a-outra-dos-anos-de-mitterrand-aos-anos-de-hollande-da-tragedia-de-outrora-a-farsa-de-agora-2a-parte-os-tempos-de-lionel-jospin-tempos-de-vazio-texto-2-5-em-torno-da-campanha-de/

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