9. A história de um cerco ideológico

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 9


(In Blog regain2012, 14/04/2013)

A  herança de Margareth Thatcher é uma nação de indivíduos ricos e de comunidades pobres “. ( Líder do Partido LiberaL Britânico ).

great_britain

 

É a história de um cerco ideológico, psicológico e tecnocrático. Entre 1983 e 1986, no momento da viragem para as políticas de rigor dos anos Mitterrand, após uma tentativa de abertura para um socialismo moderado, entre 1981 e 1982, três figuras do socialismo francês, Jacques Delors, Laurent Fabius e Pierre Bérégovoy, vão convencer François Mitterrand da necessidade de uma mudança de estratégia, e com o seu acordo, envolver a França, na via do liberalismo financeiro e da livre circulação dos capitais.

O paradoxo é forte: “É Jacques Delors, figura importante do socialismo francês que vai ser, mais que ninguém, o arquiteto do rigor francês e conduzir o Partido Socialista a pôr em causa, completamente, as suas posições sobre as questões financeiras… este foi um momento onde as posições da esquerda francesa em matéria de liberalização dos capitais deixou de se distinguir das posições da direita…”. (Rawi Abdelal. Harvard Business School).

Como diz ainda o professor de Harvard, os Estados Unidos não vão efetuar o combate para institucionalizar as regras e as obrigações de um mercado financeiro liberal, eles eram antes partidários de deixar os mercados imporem-se, caso a caso, livremente. Vão por conseguinte deixar agir os Franceses, sem estar a forçar nada.

“Não é por conseguinte uma capitulação da esquerda europeia que abre a via à instauração do liberalismo nos mercados financeiros, a esquerda francesa fez mais que deixar-se quebrar pelas realidades da mundialização, os socialistas franceses aderiram a ela, nos anos 1980, simplesmente, aderiram à lógica de mercado… Nessa época, a esquerda e a direita, francesa e europeia, não estavam de acordo sobre praticamente nada, exceto sobre a finança “.

Eis o que nos diz J. Delors, numa entrevista, em dezembro de 2004, com Rawi Abdelal:

“Historicamente, sempre existiu na França uma posição minoritária – uma parte da esquerda e os democratas cristãos – que consideram a inflação como a pior calamidade para a saúde a longo prazo da economia, porque corrói o valor da moeda, favorece a fuga dos capitais, lesa os pobres e as classes médias. Esta minoria sempre procurou modernizar a França, estabilizar a sua moeda, combater a inflação, promover o emprego e um crescimento são. Acontece que esta ideia ganhou a batalha em França, nos anos 1980, mas a batalha foi longa e dura. ”.

Uma análise na forma de confissão, mas particularmente anacrónica em relação à situação de 2013.

Enfim, passemos em frente! A história começa em 1981. De 1961 à 1981, a Europa e a OCDE opõem-se a todas as tentativas de liberalização dos movimentos de capitais. Somente quatro países, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a Alemanha e o Japão se empenhavam nesta via.

Em 1981, na sequência das medidas económicas e sociais avançadas pelo governo de União da Esquerda de F. Mitterrand, os mercados ficam muito nervosos e irritados e organizam uma enorme fuga dos capitais, em massa diríamos. Apesar de um controlo de câmbios draconiano e após três desvalorizações do franco, em dezoito meses, e um nível das reservas em divisas muito enfraquecido, dois anos mais tarde, sob a orientação de J. Delors, a França decide que, uma vez que não se pode parar com a fuga dos capitais, tem-se apenas de fazer como no judo: “deitar-se com o adversário”. Ou seja, liberaliza-se a circulação, de modo que os capitais fugidos regressem.

O que confirma o francês Henri Chavransky, então Presidente do Comité dos Movimentos de Capitais da OCDE, de 1982 à 1994, numa entrevista, em abril de 2004, com Rawi Abdelal: “Compreendemos que numa época de interdependência, os capitais encontrariam sempre o meio para circular, e nós obrigámo-nos a liberalizar o conjunto”.

 Peter Hall, professor à Harvard, chama a esta espécie de conversão, “o longo processo de aprendizagem da esquerda francesa”.

A verdade está algures, noutros lugares. Jonah Levy, professor em Berkeley, em ciências políticas, especialista em Tocqueville, vê nisto, o que se passa a chamar “uma aprendizagem”, outra coisa: “Um Delors, um Fabius, um Bérégovoy, e outros, tinham razões mais pessoais para aderirem à economia de mercado, esta escolha permitia-lhes dotarem-se de uma identidade política atrativa, um perfil moderno, competente, que cortava com a imagem arcaica e excessivamente ideológica de um Chevènement ou de George Marchais ”.

Os membros influentes do Partido Socialista tinham começado a reinventar‑se.

Após ter abrandado largamente os controlos sobre os movimentos de capitais, a partir de 1983, suprimidos o teto de concessão de divisas no caso de viagem para o estrangeiro e a caderneta de divisas, em 1985, decidem liberalizar mais ou menos todas as transações financeiras e nomeadamente permitem a criação de eurobonds expressos em francos: um banco estrangeiro pode criar e pôr em venda uma obrigação sobre o franco. Isto é o auge do que permite o neoliberalismo. A moeda de um país pode criar-se noutro lugar que não é o espaço nacional.

Paradoxalmente, aquando da coabitação – Mitterrand, Chirac – entre 1986 e 1988, o governo de direita retardará o movimento. Mas em 1988, os socialistas voltam ao poder sob a orientação de Michel Rocard, e terminam o trabalho da liberalização financeira. É isto que permite a Rawi Abdelal dizer: “ no 1º de Janeiro de 1990, a conta de capital da França está completamente aberta”.

O Francês Pascal Lamy, um socialista, antigo  Diretor Geral da OMC, na época colaborador de Jacques Delors, confirma tudo isto: “Quando se trata de liberalizar, deixa de haver direita na França. A esquerda devia fazê-lo, porque a direita não o teria feito”. (Entrevista com R. Abdelal).

Um conservador, como Jacques de Larosière, antigo Diretor Geral do FMI, antigo governador de Banque de France, ex-colaborador de Giscard de Estaing, confirma esta posição, ele que dizia que era necessário matizar os benefícios da livre circulação dos capitais: “Sem as instituições e os procedimentos de vigilância adequados, os movimentos de capitais podem causar devastações”, dirá.

O ardor da esquerda francesa em ultrapassar a direita, pela direita, não se limitou à finança e estendeu-se a todos os domínios da vida económica.

Em matéria monetária, Jonah Lévy constata, nos socialistas, “uma ortodoxia financeira muito mais forte que a que se observa nas pessoas da direita”, alimentada por esta sede “de credibilidade”.

Este fenómeno foi analisado largamente. Serge Halimi, especialista em ciências políticas diz-nos: há “a ambição de fazer as suas provas sobre o terreno mesmo da oposição. Esta convicção traduz-se por uma política ainda mais brutal que a da direita quando se trata de aplicar políticas económicas ortodoxas”.

Para o economista luxemburguês, David Howarth, “era necessário, que os socialistas criassem uma imagem de gestores económicos responsáveis, tanto por razões de política interna, a vontade de permanecer no poder, como para resistir à especulação internacional contra o franco”.

Esta lógica de conquista de credibilidade aos olhos dos mercados financeiros mundiais exigia, em certa medida, da esquerda francesa que esta se tornasse mais “ monárquica que o monarca i”.

O conselheiro do multimilionário americano Donald Trump, o advogado de negócios George Ross, dirá por seu lado: “Os socialistas tiveram que viver uma mudança radical sem nenhuma outra estratégia plausível, tiveram de se debater com muitas contradições e encaixar muitos insucessos mas no final conseguiram manter-se no poder, à custa de um certo cinismo por parte de alguns e da perda para os outros de toda e qualquer convicção forte”.

E tudo se iria acelerar, ao nível europeu, quando o arquiteto do rigor à francesa, Jacques Delors, acede à Presidência da Comissão Europeia onde vai permanecer dez anos.

 Delors não perde tempos e produz, em junho de 1985, o seu livro branco, que é o roteiro da Europa, para atingir no 1º de janeiro de 1993, a realização do mercado integrado, não sobre o único tripé, da livre circulação dos bens, dos serviços e das pessoas, mas com a adição de um quarto pé: a livre circulação dos capitais, que no entanto não figurava no Tratado de Roma e tinha suscitado a resistência, durante várias décadas, da maioria dos Europeus incluindo pois a França.

Delors eliminará todas as reservas à movimentação dos capitais, não sem uma certa astúcia a que outros chamam habilidade política. Mas isso é um outro assunto.

O momento de viragem francês gerará, pela vontade de certos socialistas franceses a viragem europeia para o neoliberalismo e para o sistema financeiro dominador.

O economista francês Jacques Melitz dirá: “quando os historiadores da economia considerarem este momento crucial da história financeira da Europa, concluirão que o programa francês de liberalização dos capitais deu ”o Livro branco de Delors” e que ele mesmo gerou a passagem da Europa protetora ao mercado integrado dos serviços financeiros “.

Fechado no dogma “do franco forte” protetor da economia, Delors prossegue a sua lógica, e vê a proteção assegurada do franco, apenas numa União Monetária, uma moeda única, que  discute  com a Alemanha relativamente à  liberalização serviços financeiros. O negócio é concluído entre Helmut Khol, Mitterrand e Delors.

George Ross escreverá que a União Monetária era mais que tudo o resto “o bebé de Delors”, que via nas fundações desta organização “a proeza mais grandiosa que um Presidente da Comissão alguma vez teria realizado”, motivação que o interessado não nega, dado que declarou, numa entrevista a R. Abdelal que “estas outras considerações políticas desempenharam o seu papel ”.

“É na França que se desenrolou a batalha determinante das ideias liberais para a Europa”, nos anos 1980, poderá escrever Craig Parsons, professor na Universidade de Oregon.

O resultado destas considerações políticas, psicológicas e tecnocráticas, é que durante estes anos, a Europa perdeu, com o mercado único capitais e as taxas de câmbio fixas, toda e qualquer possibilidade de conduzir políticas monetárias autónomas.O resultado desta conversão é “que a alma do socialismo morreu nestes últimos anos”, que o socialismo perdia, para sempre, a capacidade de pilotar a economia do país em plena soberania.

O resultado é que Jacques Delors fechava para sempre, os seus discípulos e os seus sucessores, num quadro dogmático irreversível.

O resultado é que François Hollande, em discípulo afirmado de J. Delors, está trancado neste contexto dogmático do qual, como tecnocrata teimoso que é, não será de se libertar, e que, portanto, o caminho por ele traçado, no dia o dia, ir‑nos‑á levar ao inferno, enquanto o seu mestre nos prometia ” emprego e crescimento sustentado”.


NB : d’aprés l’article du professeur Rawi Abdelal – site champ libre – ” Le Consensus de Paris : la France et les règles de la finance mondiale “. ( traduction de Rachel Bouyssou ).

 


(O décimo texto desta série será publicado amanhã, 30/06/2017, 22h)


Texto original aqui

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