15. Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club – Parte V

Arranjam-se desculpas por causa da época que atravessamos. Esta idade, a vossa e a minha, estava ela destinada a este papel de Iago sem grandeza, de traidor de tragédia, e será que é mesmo necessário incriminar a mistura das ideologias, a perda das escamas marxistas, o fim das visões unívocas da história? Pretextos.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 15 – Parte V

MAO_1968

(Por Guy Hocquenghem)

Estilo renegado

Eis-nos perante o essencial, caros congéneres, a questão de estilo, em todas as aceções do termo: estilo de homem, estilo de estereótipo ( o terrível “ look”), estilo de escritor e estilo de pensamento. Porque o pensamento também tem o seu estilo.

Será que existe um estilo renegado? Nele residiria a unidade destas experiências dispersas, como diz Bizot, no seu estilo inimitável, enredado em generalizações por aproximação: “Imaginar-se-ia a que ponto o destino de uma série de jovens notáveis de hoje se cruzou e se voltou a cruzar? André Glucksmann e Roland Castro, Serge July e Bernard Kouchner, Brice Lalonde e Régine Deforges [?], Actuel e Virgin Records, os hippies e os estrategas, mas igualmente Action directe ou conselheiros do Presidente de Havas, os fantasmas de Sartre e de Lacan, […] avô de Gaulle e este traidor que foi Malraux, toda esta esta mistura […] dominou a geração de 68” (Actuel, n°55)

O que há de comum nesta “amálgama heteróclita que domina”? Primeiro, o inconsciente muito pouco escondido do autor. O seu género confucionista é característico; os vossos artigos, os vossos livros, camaradas ideólogos da inversão de vapor, que vou abundantemente citar ao longo destas páginas, eu não aconselharia a ninguém de se infligir, posteriormente, arrancado ao esquecimento dos dias e da atualidade, a leitura dos vossos textos. No entanto eu  tive de o fazer. A morosidade nasce de um tal “inquérito”. As contradições, os absurdos, os coices de burro a todo o espirito aberto, arejado, a qualquer pensamento generoso, é o que mais há, cobertos de generalidades abusivas e vagas. E em lado nenhum o estilo salva o homem, ou seja a baixeza política. Desordem mental extrema, glucksmaniana, ou macarronete demasiado cozida à Bizot, a vossa literatura “teórica”, escrita na tristeza, no rancor ou na duplicidade, parece não existir e não ocupar jornais e edições senão para fazer calar as escritas mais exigentes

Expondo-vos  a estes que sabem mudar de opinião, vocês pensam demonstrar que sois homens livres, espíritos desembaraçados de preconceitos. A propósito de estilo, não se sabe desde há muito tempo que “as víboras lúbricas” e outros “renegados” são insultos afixados pela intolerância e pelo goulag aos dissidentes  de espírito?

Razão suficiente: eu renego, por conseguinte, sou livre; fiz a minha autocrítica, por conseguinte posso criticar os outros. Vivido na má-fé e no ressentimento, na lamentação e na vingança, o estilo renegado contamina todo o pensamento.

Arranjam-se desculpas por causa da época que atravessamos. Esta idade, a vossa e a minha, estava ela destinada a este papel de Iago sem grandeza, de traidor de tragédia, e será que é mesmo necessário incriminar a mistura das ideologias, a perda das escamas marxistas, o fim das visões unívocas da história? Pretextos. O mundo dos anos de 1950 não foi menos marcado pela guerra fria e pelo brutal economismo, pelos goulags e pelas hipocrisias de esquerda que é a nossa. A desilusão histórica, a perda de sentido dos valores e a sua confusão não são o motor da vossa mudança de orientação, de campo político; é a inverso: é porque é necessário renegar-se como adolescente rebelde que se convoca a história e o seu caos primitivo para fazer atuar as desilusões. Porque a psicologia renegada, mais do que factos, ideias, é uma questão de forma, é ethos, Nietzsche já afirmava a filosofia como estilo. Em vez de colocar o erro sobre os acontecimentos, e deles tirar lucidamente as suas consequências (o homem que viu os horrores da política do seu século renuncia corajosamente às suas ilusões), reconheçamos que se trata de um rito, de uma cerimónia que marca a integração social. Ritual, ou cerimonial, da abjuração: como se enfia o seu primeiro fato, o ex-esquerdista assina a folha de renegado. Não era obrigado, além disso, a ficar orgulhoso com tal assinatura.

Os jovens leões, ainda adolescentes, a julgar pelos etólogos, sabem qual o efeito de certo cerimonial de submissão para desarmar a agressividade dos velhos machos irritados; os jovens leões colocam-se de costas e urinam, mostrando o seu medo e admitindo-se vencidos, antecipadamente. A vossa solene apostasia, mais que uma conversão de ideias, é um ritual de submissão: a nossa geração de jovens leões mija-se de costas ou lambe os pés dos adultos da política (Mitterrand e Reagan, Aron, etc.).

A renegação, no fundo, é uma iniciação, um acesso vergonhoso ao mundo do que é adulto, por abdicação à revolta de juventude, ao mundo das indignidades, das necessárias indignidades da existência. Renúncia formal à independência, a renegação marca a “entrado na vida”, para retomar a fórmula-título de Lapassade, do tempo em que ele teorizava o movimento estudantil e a contestação como imaturidade desejada; forma pura, só secundariamente é que é passagem da esquerda para a direita. E é por isso que o ponto de partida, ou a distribuição esquerda-direita, ou ainda as lições da história muito pouco representam aqui. Que o jovem legitimista de ideias absolutas e generosas se faça subprefeito orleanista, bom arranjador de truques eleitorais, como Lucien Leuwen, ou o ex-maoista burocrata do Estado socialista, a renegação é menos conversão aos novos valores políticos, ou lucidez acrescida face à complexidade do real, do que uma passagem ao não-valor enquanto tal, do que uma passagem ao Deus dinheiro-negociatas-medias-mentiras; e não é pelos conteúdos de ideias mas sim pelo estilo e pelo ritual que a renegação pode ser identificada. Sobretudo quando, passando da prática à teoria, faz do não-valor o valor obrigatório para todos.

“Pierre, ele, já não quer acreditar mais em nada e nem em ninguém.. As ideias de revolta que tinham animado a sua adolescência rapidamente se evaporaram. Ele é a  imagem de uma certa geração” (Alexandre Astruc, a propósito do livro de Jean-Pierre Barou, ex- cofundador de Libération e ex-maoista, Le Figaro, 30 de Julho de 1985). Até quando se arrastará este miserável cliché?

Cantarão ainda vocês daqui a dez anos este mesmo refrão de submissão? Continuarão ainda a aumentar o que já é  ignóbil, fazendo mais do que aquilo que se vos pede? Se não estou de humor para renegar, é essencialmente por uma questão de estilo. São as únicas distinções políticas que vos reconheço; em matéria “de conteúdos” ou programas, sou daltoniano. Vocês, sabem-no, caros ex-camaradas, dado que disso já me acusaram bastante; a estilística foi sempre a minha única bússola política; sempre pensei que Estaline e Hitler têm em conjunto o estilo concentracionário, Le Pen, Montand e Chevènement o estilo autoritário. Recordo-me de uma discussão, no Libération, onde exprimi a minha desconfiança em relação “à linha” Serge July como uma desconfiança do estilo do homem, da sua ação e do seu discurso. Nessa época, Dany Cohn-Bendit afirmava pensar como eu. O estilo que vocês cultivam desde há sete ou oito anos é efetivamente a manifestação “de uma personalidade renegada”, fácil de discernir, feita paredes meias de um enternecimento retro, de um machismo frustrado, de desejos guerreiros recalcados e (felizmente) impotentes, de autoritarismo demagógico, de esmagamento do indivíduo e de exaltação da culpabilidade. Mais do que de uma traição ideológica, trata-se, com efeito, de uma atitude de espírito, de uma disposição de alma. De um estilo, estilo herdado de um tempo onde era eu que vos tratava “de víbora lúbrica”. O tempo dos maoístas.

Estilisticamente, a literatura da abjuração é herdeira da “auto-crítica” maoísta. Esta necessidade de se castigar em público, de se separar de si-mesmo para se acusar, se julgar, se condenar para melhor se absolver, esta casuística de jesuitismo masoquista aplicado à política foi o vosso exercício favorito. Psicanálise de culpa ou teologia da punição em nome do Deus-Pai ou da Lei, lavagem ao cérebro e do duplo pensamento, vocês conservaram, nas vossas funções, as características francesas do pensamento maoista; e essas características definem um temperamento, uma constituição, uma complexão, como se quiser, um modo de vida: o modo de vida dos arrependidos perpétuos, auto-acusadores para melhor acusarem os outros.

Há temperamentos coléricos, melancólicos (como o meu), fleumáticos; há um temperamento renegado. Este é um temperamento infeliz e mesquinho; vocês sois os eternos procuradores e os eternos acusados no julgamento que vocês realizam sobre vocês mesmos, sobre o vosso passado, no qual vocês se odeiam, para se glorificarem do facto de se odiarem; o manto de Maio 68 está-vos colado à pele, e é este que vocês andam a arrancar desde há uma década. Paixão de Judas que nada acalma! Conseguirem virarem-se e revirarem-se, ali, naquela lama vergonhosa de autocrítica, nunca vos será suficiente; almas torturadas pelos remorsos muito visíveis, vocês dão hipocritamente lições e representam-se como os retificadores de erros, porque vocês têm tanto o remorso sem escrúpulos, se assim posso dizer, como um cínico pesar. Vocês manipulam-se a vós-mesmos para manipular os outros.

Mao e Lacan, a psicanálise barrada de maoismo, aí está a cruz desta geração, sobre a qual esta se cruxificou, nesta cruz feita de culpabilidade e de maquiavelismo. Melhor que todas as confissões cristãs, a prática da autocrítica fez-nos conhecer as delícias duvidosas da renegação antes mesmo de sabermos o seu conteúdo. Os vossos Deus foram a Lei do Pai, o Grande Jacques (Lacan) e o Grande Timoneiro, cujo slogan era que o fim justifica todos os meios.

A nossa geração, enrolada em auto-acusações manobristas, assemelha-se a um Janus face com face, onde a necessidade imperiosa de se justificar não deixa de estar a insultar o seu próprio passado. Do terrorista ao conselheiro de PDG, a personalidade maoísta moldou-se completamente ao molde renegado graças a uma perfeita adaptação dos meios; preparados para todas as submissões, os familiares da autocrítica carregam com eles o culto da culpabilização. Esta necessidade é uma estrutura psicológica, ontológica, o anel de Möbius de uma alma torturada, voltada contra si-própria, reduzida a universalizar, por falta de revolução, a sua própria autodestruição.

Passemos  ao nós. Será que sou eu aqui uma vítima do mesmo síndrome? No entanto, sinto-me, estilisticamente diferente de vocês. Diferente esteticamente.

O mais engraçado, ou o mais sinistro, como se quiser, neste cocktail ex-esquerdista entre o mea culpa e a ditadura na cabeça, é a nota, o toque, a ponta de romantismo duvidoso, perfumada do lamento sobre as aventuras impossíveis, que o nome de Malraux simboliza magicamente. Uma frustração fundamental, sem dúvida, apoderou-se de vocês, caros congéneres, de não terem tido nenhuma guerra do vosso lado; a Argélia acabou antes de terminarem os vossos períodos de suspensão de cumprimento do serviço militar e Maio de 68 foi não sangrento (contrariamente aos desejos dos maoistas que teriam levado de boa vontade os outros ao massacre, depois de terem visto no movimento, na sua primeira fase, uma manipulação policial). Onde ancorar este sonho de aventureiro mal barbeado, de isqueiro Camel, entre Malraux e Thierry Sabine, Guevara e a série B americana? A ponte entre a megalomania pretensiosa do estratega Glucksmann e as encenações românticas decadentes de Chéreau – porque a arte que se arruma nas prateleiras da garagem das ilusões perdidas – não vale mais do que a ideologia da renegação, é um gosto de sentimentalão heróico arrefecido, cínico, à distância, sem humor e sem paixão. Tornados artistas à Godard, modista na  moda, político atómico, néo – filosófico, jornalista das pequenas manhãs de Beirute, há entre vocês, caros congéneres hoje bem colocados,  um tom geral que vos fica, feito  de lamentações, de ênfase, de fúria apologética que alimenta uma histeria masculina de heróis falhados  ou de artistas de  segundo nível, de inconscientes infelizes, procurando justificar ou valorizar a brutalidade dos métodos ou as reversões oportunas.

 (A sexta parte deste texto será publicada amanhã, 23/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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One comment

  1. Como disse Sophia (1976) “Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros / Caiu em desmandos confusões praticou injustiças / Mas que diremos da longa tenebrosa e perita / Degradação das coisas que a direita pratica?”
    A História da Humanidade, vista de perto, está recheada de horrores, e talvez por isso os momentos de esperança são tão essenciais. Engana-se quem os toma por menores, pelo menos tanto como se engana quem os tomar por definitivos, garantias de que daí em diante tudo será luminoso e feliz. Lendo este autor francês, falecido aos 41 anos, no início do séc. XXI, e reconhecendo o contexto sobre que escreve, decorridos 15 anos, impressiona o tom geral de amargura e até de ressentimento, quer daqueles que retrata, quer, até, do seu próprio texto, em que desses se demarca. A libertação do sofrimento é árdua, e sempre demora a descoberta da alegria como valor precioso de quem pretende transformar. O mundo, e já agora, a si próprio.
    Políticas de esquerda e de direita, com e sem escamas marxistas, ou outras, continuarão a praticar desmandos vários, pois por humana gente são feitas. Não querer ver nem criticar injustiças e degradação é recusar a melhoria. Insistir no ressentimento e no rancor porém é perder energias e distrair a atenção do que se pode fazer, e imaginar.

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