A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. IV – O crescimento alemão pelas exportações ou as razões para a procura da competitividade a qualquer preço (parte 1)

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 competitividade a qq preco falsoIV – O crescimento alemão pelas exportações ou as razões para a procura da competitividade a qualquer preço (parte 1), por Onubre Einz

 

 

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde em 8 de maio de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 1 e 2 de abril de 2015 (vd. https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/01/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-iii-iv-o/ e vd. https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/02/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-iii-iv-o-2/)

 

Com este texto iniciamos uma pequena série de artigos sobre a contribuição do comércio externo para o crescimento alemão. Este texto é apresentado num blog dedicado à crise americana porque a Alemanha apresenta – aparentemente – um contraste surpreendente com os Estados Unidos.

Os EUA construíram a sua economia sobre os desequilíbrios externos que eram parte integrante do seu modelo de crescimento. Os défices da balança de pagamentos eram compensados pelo saldo dos fluxos financeiros, fluxos financeiros estes que cobrindo a balança de pagamentos permitiam que a política monetária fizesse intervir as taxas de juro sem que a hegemonia do dólar fosse ameaçada. A importação de mercadorias mais baratas permitia tornar tolerável uma partilha do valor acrescentado cada vez mais desfavorável a 80% das famílias. O crescimento do valor dos patrimónios imobiliários e mobiliários alimentava uma euforia consumista e um consumo de prego a fundo. Que importa que a economia americana se estivesse a afundar, pois se o resto da economia prosperava com o recurso ao endividamento sem que os americanos tomassem consciência do carácter artificial e dependente do seu crescimento. A crise recordou aos americanos o que são as duras realidades da economia.

Em comparação, a virtuosa Alemanha parece estar bem longe dos excessos americanos. No nosso último texto tentámos mostrar que a oposição entre o modelo americano de crescimento e o modelo alemão não era assim tão simples quanto isso. Existem, desde as reformas de Schröder, semelhanças entre o crescimento alemão e o americano que sugerem que a marcha triunfal da Alemanha não é talvez assim tão brilhante como poderia parecer à primeira vista. Formulámos a hipótese de que uma tendência para o declínio já tinha espreitado e que esta tendência havia sido suspensa pela crise. A Alemanha dos primeiros anos do milénio revelou ser, no mínimo, ambígua. Ela não merece ser colocada num pedestal de onde ressoa a voz do comandante. E não devemos vê-la como o modelo de todas as virtudes. A Alemanha merece uma análise crítica evitando as armadilhas do excesso de honra ou de indignidade.

Prosseguiremos, pois, o nosso pequeno estudo tendo em conta, desta vez, as exportações. A Alemanha é, de facto, apresentada como o país exportador por excelência. Entre os países desenvolvidos, é, sem dúvida, um dos países desenvolvidos que melhor soube estimular o seu crescimento nacional através das exportações.

As exportações massivas do país e os seus excedentes comerciais aí estão para o testemunhar : a Alemanha, é o anti-modelo americano ; o crescimento não resulta de uma substituição de produção – pela redução das importações – que leve à queda da taxa de investimento e a modificar a distribuição da riqueza a favor dos mais ricos. O crescimento alemão está diretamente ligado às exportações.

Este crescimento alemão interessa-nos porque é apresentado como sendo a solução para a crise para os países ricos em dificuldade. Com os seus produtos de forte valor acrescentado, a qualidade dos seus produtos de luxo e dos seus bens de equipamento, a Alemanha parece convidar o mundo inteiro à superação da crise através do investimento, da investigação, da inovação, da formação e do esforço. Não está ela a chegar ao caminho do futuro? A saída da crise só pode resultar de exportações dinâmicas que puxem pelo crescimento, é com isto que os media e os políticos nos enchem os ouvidos. A Alemanha tende, pois, a tornar –se no modelo a copiar, um facto de existência tanto quanto uma realidade ideológica por si só.

Uma análise grosseira dos valores brutos do comércio alemão parece validar este discurso que as nossas “elites” pregam em todos os tons. A economia alemã fixa o novo rumo: exportar, é a nova lei dos profetas.

Mas o que se passa com a análise específica dos dados que nada têm de ideológico e com a validade do modelo?

Para responder a esta questão, considerámos os dados do Bundesbank  sobre o comércio externo da Alemanha (Makroökonomische  Zeitreihen ou Macro-economic time series[ver aqui]. Basta tomar a rubrica setor externo (Außenwirtschaft) e selecionar Balança de Pagamentos (Zahlungsbilanz) para dispor de dados essenciais por continente, por região, país ou grupo de países.

Contentar-nos-emos, neste primeiro artigo, em examinar os dados gerais do comércio externo da Alemanha analisando o seu peso no crescimento, permitindo esta primeira parte esclarecer algumas ideias exageradas sobre o desempenho alemão e pôr em causa a tese de perda da competitividade da Alemanha que teria justificado as reformas de Schröder. Pode explicar-se esta orientação do crescimento por outras razões. Veremos também que este crescimento foi sustentado pelos desequilíbrios crescentes do comércio alemão com a Europa.

Num segundo texto, analisaremos mais detalhadamente os resultados das exportações da Alemanha. É que a Alemanha parece ir contra a palavra de ordem de Custer. Ao seu « Ir para Oeste » ella prefere um « Ir para Leste » de que não se sabe ainda muito bem se não terminará em Little Big Horn [n.t. referência à batalha com o mesmo nome ocorrida em 1876, em que o general Custer foi derrotado pelos Lakotas, Cheyennes e Arapaho, no que foi a maior derrota do exército americano durante as chamadas Guerras Indígenas; vd. Wikipedia]. Mais uma vez, o país exótico, caro a  madame Stael, revela-se cheio de surpresas.

Antes de passar à análise dos dados, devemos explicar o período escolhido. As estatísticas do Bundesbank suscitam um problema de fundo. O Bundesbank estabelece as suas séries históricas em duas unidades monetárias : Ecu antes de 1999, o Euro depois. As séries estatísticas da DeutscheStatistik (DESTATIS) utilizam, para elas, o euro para calcularem o PIB da Alemanha com efeito retroativo até 1991. Tivemos, por conseguinte, de limitar a nossa análise ao período 1999-2012 para o qual o cálculo em Euros é comum ao Bundesbank e à DESTATIS. É a única maneira de medir o peso das exportações no crescimento alemão.

Esta restrição não é muito grave, retomaremos os dados económicos por região remontando a 1992 no nosso próximo texto. A nossa análise aqui apenas terá em conta os continentes. As análises detalhadas – que não deixarão de pôr em causa algumas ideias feitas – serão objeto de análise no nosso próximo texto.

Concentrámos a nossa análise no comércio externo da Alemanha porque a base do poderio alemão continua a ser a sua indústria. A Alemanha ao fim de 20 anos equilibrou  a sua balança dos serviços durante muito tempo deficitária, mas ela desempenha um papel secundário no seu comércio externo, e os rendimentos de capitais (juros, lucros, dividendos) são excedentários sem terem também eles um peso considerável. É por conseguinte o comércio das mercadorias físicas que desempenha o papel fundamental no crescimento alemão. Faremos intervir a balança de pagamentos para desferir o golpe final na tese de uma Alemanha muito enfraquecida que teria tido uma necessidade urgente de reformas profundas.

 

A – Os dados do comércio externo e a sua importância para o crescimento.

     1° Os dados gerais

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Este gráfico mostra a parte que representa o comércio externo no crescimento do PIB da Alemanha. Contrariamente ao que se diz, no primeiro mandato de Schröder não aparece nenhuma perda de competitividade grave da economia alemã. Antes das reformas de 2002, as exportações alemãs continuavam a desempenhar um papel positivo no crescimento do PIB, que depende cada vez mais delas. Estas exportações permitem financiar as importações sem dificuldade. Como o ilustra o saldo da balança comercial que se mantém estável, a contribuição desta balança para o crescimento não indicia nada de inquietante.

A crise do milénio salda-se por uma baixa do papel das exportações no crescimento, mas é acompanhada de uma queda ainda mais acentuada do peso das importações. O saldo da balança comercial puxa sempre positivamente pelo crescimento alemão.

Procurar-se-ia, em vão, sinais inquietantes para justificar a amplitude das reformas de Schröder:  o desemprego? Não era preocupante no momento em que se aplicaram as reformas. O abrandamento do ritmo de crescimento? Não se verificou. E quanto a uma perda da competitividade medida pelo comércio?  Não é visível no nosso gráfico: em período de crise parece lógico que as importações e as exportações se contraiam. Além disso, a crise parece ser acompanhada a partir de 2010 (T-1) de um papel acrescido do saldo comercial no crescimento da economia alemã.

Após 2001, as reformas de Schröder parecem desempenhar um papel muito diferente. A moderação salarial permite a descolagem das exportações que beneficiam de uma melhor competitividade preço, para além da competitividade-qualidade. Inversamente, esta moderação salarial penaliza a procura e as importações. Por conseguinte não será surpresa descobrir-se que o papel das exportações no crescimento do PIB não pára de se afirmar enquanto as importações ficam para trás.

O resultado não se faz esperar: até à crise de 2008, o saldo positivo da balança comercial desempenha um papel permanentemente positivo no crescimento alemão, o país enriquece pelo valor líquido do saldo positivo do comércio externo. Os alemães têm um crescimento puxado pelas exportações que permite cobrir o valor dos bens importados. Trata-se de uma escolha estratégica que parece ter menos que ver com dificuldades intrínsecas à economia do que com uma reorientação do crescimento, visível desde 2001, que as reformas Schröder confirmaram e amplificaram.  Os dados são impressionantes: entre 2002 e 2008, as exportações representaram à volta de + 11 % de crescimento do PIB.

A crise de 2008 não modificou esta orientação: o crescimento alemão depende cada vez mais das exportações que permitem cobrir confortavelmente as importações. A elevação do nível de riqueza do país depois do buraco de 2008-2009 foi retomada com um desvio mais reduzido entre as importações e as exportações.  A cobertura mais fraca dada pelas exportações às importações já não permite que o saldo da balança comercial desempenhe um papel tão ativo no crescimento do PIB, o saldo líquido import-export sofre uma queda. Mas é possível observar desde o início de 2010, uma lenta e frágil reafirmação deste papel.

 

     2° Os países que contribuem para o crescimento do papel das exportações no PIB alemão.

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Os países que contribuem para o crescimento da riqueza alemã aparecem claramente quando se examina as exportações. Excluamos os contribuintes marginais, representados pelos países da Oceania e por África, que desempenham um papel insignificante nas exportações alemãs. O contribuinte número 1 para o crescimento do PIB pelas exportações é a Europa continental.

Se olharmos as curvas mais de perto, percebemos que antes de 2001, as exportações para a Europa crescem positivamente tal como todas as outras exportações destinadas aos outros continentes. A crise do milénio provocou em todo o lado um abrandamento das exportações alemãs à exceção de África. Seria exagerado ver neste curto período sinais de perda de competitividade: a crise estava aí.

Mas após 2001, o efeito das reformas Schröder foi o de ligar o crescimento das exportações alemãs na Europa com o risco de penalizar as quotas das exportações e o crescimento dos outros países europeus de que a Alemanha se apropria. Os pontos de crescimento do PIB que a Alemanha realiza fazem-se em detrimento do crescimento dos países europeus, que passam a ter défices com ela.

A análise do papel do continente americano e da Ásia no crescimento do PIB revela a relativa estagnação no continente americano que se viu substituído precisamente pela Ásia desde 2006, ou seja, antes da crise. A Ásia é de todos os continentes não-europeus aquele onde a Alemanha se afirma comercialmente com mais regularidade, mas a progressão do seu peso no crescimento do PIB alemão não é em nada comparável com o da Europa. O crescimento da Alemanha é globalizado devido à diversidade das suas exportações, mas o essencial da sua progressão é principalmente europeu.

A crise de 2008-2009 viu o papel das exportações europeias ceder um pouco (2008-209), mas este papel reafirmou-se muito rapidamente: desde o verão de 2009 recuperou o nível de 2006-2007. O abrandamento do conjunto da economia europeia faz destacar-se a forte posição do comércio externo alemão na Europa e a afirmação do papel cada vez mais importante da Ásia, que não deve ser subestimado como acontece com frequência na imprensa. A leitura do gráfico ajuda-nos a colocar as coisas no seu devido lugar.

(continua)

Texto original “La croissance allemande par les exportations où les raisons de la recherche de la compétitivité à tout prix” em http://criseusa.blog.lemonde.fr/page/11/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

 

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