A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL. O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA. UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO [1] – Uma coleção de artigos de Onubre Einz. VIII – A sub-acumulação do capital e a crise presente dos capitalismos históricos (parte 2).

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

subacumulação

VIII – A sub-acumulação do capital e a crise presente dos capitalismos históricos, por Onubre Einz (parte 2).

 

 

 

 

 

Publicado por criseusa.blog.lemonde.fr, em 30 de junho de 2013

Reedição revista dos artigos publicados em A Viagem dos Argonautas em 22 de abril de 2015, (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/22/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-viii-a-s/) e em 23 de abril de 2015, (https://aviagemdosargonautas.net/2015/04/23/a-alemanha-o-seu-papel-nos-desequilibrios-da-economia-real-o-outro-lado-da-crise-de-que-nao-se-fala-uma-analise-assente-na-divisao-internacional-do-trabalho1-viii-a-s-2/)

 

(conclusão)

B – Capitalismo maduro e capitalismo em declínio.

1° A escolha do declínio voluntário.

A crise da década de 1970 foi uma crise económica madura que tinha já realizado um programa de industrialização e consumeirização (no original- consumialisation) . Por este neologismo, queremos representar o culminar de uma fase de crescimento impulsionado pelo consumo das famílias, dos seus equipamentos domésticos e da sua habitação. A situação de estagflação dos anos 70 foi a confirmação do máximo desenvolvimento e do bloqueio de uma sociedade da afluência. Nesta situação, o capitalismo histórico tinha duas soluções: ou a de desenvolver os mercados externos concedendo empréstimos sobre empréstimos de capital para as nações de estádio de menor desenvolvimento. Esta solução permitiu na década de 1970 encontrar para o sistema produtivo saturado dos países do Norte mercados cómodos para o escoamento das suas mercadorias. Mas esta solução tinha duas desvantagens: desenvolver na periferia do sistema situações de bolhas de dívida não-recuperáveis e correr o risco de estar a criar concorrentes. O capital dinheiro tornado disponível a norte do planeta pela crise não podia ser duradouramente emprestar aos países do Sul para garantir o seu desenvolvimento. No início dos anos 80; os EUA resolveram este difícil problema pondo em movimento uma revolução conservadora cujos efeitos são ainda sensíveis trinta anos depois. A subida brutal das taxas de juro americanas em 1982 eliminou a estagflação e provocou as crises da dívida dos países do Sul, com a dívida emitida em dólares, cujo epicentro foi a crise mexicana. Esta crise da dívida dos países do Sul condenou os países do Sul a ficarem sob a batuta das políticas do FMI, os seus programas de ajustamento estrutural, e a terem de reorientar a sua economia para as exportações. Um desenvolvimento dos países nada, pouco, ou mal desenvolvidos, realizado às custas dos credores do Norte estava fora de questão.

Ao mesmo tempo, a abertura dos mercados do norte do planeta às exportações dos países exportadores do Sul provocou uma lenta queda das taxas de acumulação a Norte do planeta com variações mais ou menos fortes segundo as respetivas economias nacionais.

Os capitalismos históricos do Norte do planeta não permaneceram de resto neste vasto processo de queda das taxas de acumulação produtiva nacional. Pelo jogo das deslocalizações e das produções dos ou nos países de baixos custos de mão-de-obra, foi possível realizar transferências de rendimentos a favor do topo da pirâmide social oferecendo ao mesmo tempo às populações uma progressão do nível do seu nível de vida medido este em quantidade de produtos consumidos. A baixa das taxas de investimento e o aumento da parte do rendimento – acompanhado do alargamento das desigualdades – nos PIB nacionais são correlativos uma da outra. É lógico que a mundialização se traduza por uma queda geral da taxa de acumulação produtiva.

2° A inversão da relação das forças económicas.

Fazer a escolha do declínio voluntário só pode ter efeitos de inversão nas relações de força das economias. Esta inversão traduz-se por diferentes fenómenos:

a) a inversão das relações de força entre as economias manifesta-se por taxas de acumulação do capital rápidas e de crescimento rápido nos países periféricos. Estas taxas de acumulação resultam de existências de capital produtivo acumulado em volume cada vez mais importante nestes países. São apenas o resultado da ligação entre a acumulação líquida e bruta de capital fixo e dos stocks de capital sobre um fundo de eficácia produtiva crescente. A China oferece sem dúvida o exemplo mais caricatural desta situação: acumulou capital fixo – e particularmente de capital produtivo – de maneira faraónica desde há cerca de trinta de anos. Esta acumulação permite-lhe produzir de forma incessantemente crescente produtos destinados a todos os tipos de consumidores, desde produtos de baixo de gama a produtos de qualidade. A sua ambição é a de rivalizar com os países desenvolvidos que têm como tábua salvação uma capacidade de inovação e de produzir produtos de forte valor acrescentado, cujo monopólio, já abalado, será cada vez mais contestado.

b) A formação concorrencial e rápida dos stocks de capital produtivo em volume e qualidade produtiva crescente fora dos países desenvolvidos conduziu a um fenómeno de empobrecimento relativo dos capitalismos históricos. Este empobrecimento exprime-se principalmente pela interacção crescente entre o crescimento da riqueza nacional e a inflação dos volumes dos créditos públicos e privados. Não se poderia ter como única causa do crescimento a compensação da erosão das taxas de acumulação pelos progressos da produtividade. Esta erosão tornou sem dúvida impossível a existência de um crescimento sustentado endógeno à economia.

O exemplo americano aí está para nos convencer disso mesmo, em que a queda da taxa de acumulação se acompanha de um endividamento dos agentes privados antes da crise e do endividamento público depois desta ter rebentado: Sem esta dupla dívida o crescimento americano teria sido fraco antes da crise e a economia americana ter-se-ia desmoronado com ela. A Europa confirma esta tese: o crescimento da economia em período de rigor orçamental parou antes de se tornar em recessão. E na Europa também os défices públicos e privados crescentes são acompanhados por um crescimento mole desde há décadas. Comparando com os EUA, país mais dinâmico, esta moleza tem largamente a sua origem no facto de que a Europa não pode fazer o seu crescimento dados os desequilíbrios das suas contas internas e externas, o que aos Estados Unidos é tornado possível pela situação privilegiada da divisa americana.

c) A variação de força nas relações económicas não é em nenhuma parte mais evidente do que quando se olha para quem financia os capitalismos económicos em crise: os países da Europa e dos EUA apelam aos capitais produzidos pelos excedentes comerciais da China, da Índia, do Brasil… Estes países têm o mérito de fornecer capitais que se foram acumulando ao fim de um período de investimento que lhes permitiu conquistar sólidas bases industriais. Estes países muito simplesmente acumularam o capital que os capitalismos históricos renunciavam a acumular nas suas próprias economias. O despertar é doloroso: os países desenvolvidos encontram-se a atravessar uma depressão duradoura, os países ontem na periferia do crescimento encontram-se cada vez mais a constituir o coração do crescimento à escala mundial. O desafio concentra-se na Ásia; a região dispõe dos ingredientes para um crescimento longo: a industrialização prossegue aí ganhando em qualidade, o consumo é dinâmico, as infra-estruturas públicas desenvolvem-se ou aperfeiçoam-se, os Estados apoiam o desenvolvimento, o conjunto da Ásia do Nordeste integra-se economicamente e a Ásia meridional não ficou para trás com o desenvolvimento indiano.

Por uma cruel ironia da história, os países que se especializaram em exportações e em situações de subcontratação foram capazes de fazer desta janela de oportunidade um elemento das suas estratégias de desenvolvimento, o que inverte as relações de força económica entre os capitalismos históricos e as economias outrora pouco ou mal desenvolvidas. Descrevemos a lógica interna das economias desenvolvidas que permitiu esta reviravolta espetacular em pouco mais do que uma geração. A China desafia agora o Ocidente e o Japão, país que lhe serviu de modelo. A divisão internacional de trabalho que lhe foi imposta foi-lhe afinal favorável, ela assume-se como uma espécie de toque de finados para os capitalismos históricos.

4° A complacência das elites para com o modelo anglo-saxónico

A complacência dos capitalismos históricos para com o capitalismo anglo-saxónico – que foi mais ou menos imitado – merece algumas observações. Renunciar às indústrias que foram os motores da revolução industrial e que estiveram depois no centro da expansão dos capitalismos históricos era uma maneira de sair da situação de estagflação dos anos 70. Sem nenhuma dúvida, a renúncia a segmentos inteiros das atividades industriais permitiu uma vasta mudança dos capitalismos históricos para as economias de serviços; o desenvolvimento dos serviços dopou o crescimento e assegurou uma preservação de níveis de emprego elevados, apesar dos recuos nos sectores industriais. As elites económicas puderam assim ver-se livres de apuros, oferecendo à população produtos a muito bom preço enquanto que a progressão do poder de compra da maioria da população só poderia apenas regredir. A mundialização feliz permitia a países anteriormente periféricos prosseguirem ou de começarem a sua descolagem económica assumindo partes crescentes da produção industrial mundial. Houve desde há trinta anos uma mudança básica da acumulação que organiza diferentemente a divisão internacional de trabalho cujos efeitos prejudiciais se revelaram frontalmente desde a crise de 2008.

Percebe-se a sedução que poderia exercer o capitalismo anglo-saxónico: este permitia às elites económicas articular uma resposta para a estagnação da década de 1970. Uma vez que o crescimento não se faria pelo desenvolvimento a crédito dos países da periferia, o crescimento seria alcançado pela substituição e crescimento do sector serviços à custa da redução do sector industrial, e a abertura dos mercados daria origem a uma nova distribuição de rendimento; a massa dos trabalhadores no desemprego ou sob pressão económica incentivaria a moderação salarial. Um jogo hábil sobre a valorização dos patrimónios imobiliários e o valor dos bens e serviços asseguraria a estabilidade social.

Esta nova divisão do trabalho e o modo de funcionamento dos capitalismos históricos globalizados resultaram num fenómeno perverso: um aumento da dívida pública e privada em que estas bloqueiam o crescimento presente. Não se poderá separar a queda das taxas de investimento e o aumento da dívida pública e privada, uma vez que estas últimas são a consequência da propagação de um modelo económico onde o declínio industrial e a queda do investimento se traduziram em níveis de crescimento muito baixos. A estimulação das economias através do endividamento retardou em todo o lado uma crise entorpecedora consequência do fraco nível de investimento, da menor criação de valor pelo setor de serviços. É o stock de capital, que se tornou insuficiente no capitalismo histórico, passando por um forte aumento das desigualdades de rendimento e de património. Desde há muito tempo, a base produtiva dos capitalismos históricos deixou de estar em condições de apoiar, em termos saudáveis, o aumento do nível do crescimento.

Conclusão.

A depressão atual fornece-nos elementos suficientes para defendermos as nossas teses. A política de forte austeridade orçamental praticada pelo Japão resultou em vinte anos de baixo crescimento, o Japão oferece mesmo a imagem de uma economia que foi submetida a um choque financeiro afetando os rendimentos e os patrimónios. A economia ainda não se recuperou do rebentamento da bolha especulativa formada entre 1986 e 1990. Mas se a crise durou, é garantido que as taxas de acumulação de capital produtivo têm estado a cair ao mesmo tempo que a divisão do trabalho no Japão passava a afetar o peso que tinha a indústria.

A Europa é um exemplo claro dos efeitos de uma acumulação de capital insuficiente sobre o longo prazo. A austeridade orçamental – outro nome dado à redução do crédito público – vai acompanhada com uma contração do crédito. A economia ficou sem capacidade para crescer. Sobre esta questão é necessário não nos enganarmos sobre o diagnóstico: abandonado a si-mesmo, um conjunto económico sofrendo de falta de acumulação de capital não é capaz de efetuar a retoma por si-mesmo, pelas suas próprias forças. Daí que a depressão esteja em marcha.

Os EUA apresentam-se como o exemplo mais flagrante de uma insuficiente acumulação de capital produtivo. Os 9000 milhares de milhões de $ líquidos – fornecidos pelo FED e pelo Tesouro – que foram engolidos pela economia apenas têm levado a uma ilusória recuperação. O consumo é suportado por operações de QE [quantitative easing] que artificialmente inflacionam os valores mobiliários e imobiliários, a economia depende dos défices e da dívida do Tesouro que se substituíram aos empréstimos das famílias e das empresas. O investimento radicaliza uma substituição do capital pelo trabalho, mais capital, menos trabalho, ampliando um subemprego em massa que pesa sobre a situação do mercado de trabalho: longe de aumentar a capacidade de produção, as empresas realizam uma acumulação de capital financeiro, ao invés de retomar a via do investimento produtivo. É óbvio que não têm os meios para sair do labirinto.

A solução encontrada para a crise da década de 1970 está pois em vias de se esgotar nos capitalismos históricos. O argumento do reequilíbrio de crescimento entre os países desenvolvidos e emergentes realmente não é um argumento que seja sustentável.

No estado atual, o processo de desenvolvimento de uns conduziu a um muito perigoso declínio nos outros. Segue-se que a globalização atravessa uma depressão de que ela não se irá levantar apenas com uma mudança da natureza. Será necessário sem dúvida fazer saltar os elementos bloqueadores, que os mecanismos das desvalorizações ou da inflação sejam utilizados para abrir as vias de saída da crise. Tais instrumentos são e serão apenas paliativos; estes paliativos têm o mérito de darem margem de manobra quer no plano político quer no plano da economia. Estas utilizações deixam em aberto a questão do modelo de crescimento e de organização económica para o futuro. Esta questão já foi levantada no final da década de 1970. O mundo bi-polar então em funcionamento reduziu as opções viáveis nesse momento. Estamos agora a pagar o preço hoje, uma vez que a revolução conservadora e neoliberal dos anos 80 está em ostensiva falência desde 2008.

A atual depressão repõe o problema da organização produtiva das sociedades desenvolvidas e fá-lo com insistência. É claro que os tratamentos para se sair da crise, cheios de enormes possibilidades de falhanços, escondem o problema, geram respostas – sem dúvida – ilusórias e deixam a crise produzir os seus efeitos mortíferos. É o défice de projeto político que está no centro do prolongamento da crise que atravessamos. A crise, vemo-la como um efeito prolongado do final da guerra fria que deixou ao campo dos vencedores a tarefa de organizar o mundo para alguns e de fechar o horizonte histórico para todos os outros.

 

Onubre Einz. La sous-accumulation du capital et la crise présente des capitalismes historiques. Texto original disponível em : http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/06/30/la-sous-accumulation-du-capital-et-la-crise-presente-des-capitalismes-historiques/

[1] Título principal da responsabilidade do tradutor.

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