Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF. XIV – O que se deve reter do discurso socialista aquando da viragem para a política de rigor – Parte II

François Mitterrand: “A luta de  classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!”

Lionel Jospin:  “Eu sou um socialista de inspiração, mas o projeto que proponho ao país  não é um projeto socialista. É uma síntese do que é necessário hoje. Ou seja, é  a modernidade. ”

François Hollande   “Vivi cinco anos de poder relativamente absoluto. (…)  Eu naturalmente impus ao meu campo que, sem nenhuma sombra de dúvida, só iria aprovar as políticas que eu consideraria serem justas.” 


Autópsia de uma morte já anunciada, a do PSF

A farsa acabou. O povo francês, Macron escolheu. Um outro ciclo de tragédia e de  farsa já começou.

O que se deve reter do discurso socialista aquando da viragem para a política de rigor  – Texto XIV – Parte II 

(Por Thierry Barboni — 08/07/2017)

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A definição da política económica é considerada como tendo apenas a ver com o governo, e por aí então, com F. Mitterrand e desta forma o PS vê-se privado do papel de competência de análise económica, o que não significa que o partido não produza análises nesta a matéria ou que se diga que disso seria incapaz, mas que esta prerrogativa não entra no quadro das tarefas que lhe são atribuídas naquele momento. Daí o segunda fase de efeito de cliq, em virtude da qual o partido não poderia discutir as medidas tomadas pelo governo, ou seja, em que ao partido não é reconhecido então senão a capacidade de publicitar as posições governamentais junto da opinião pública. É na verdade todo o paradoxo aparente da posição e dos discursos dos responsáveis socialistas: enquanto o governo acaba de enterrar “a outra política”, nem a oportunidade da escolha nem o conteúdo das medidas propostas é realmente discutido. A cronologia deste acontecimento é a esse respeito edificante quanto à renúncia do partido em relação ao próprio conteúdo da reforma. Decidida após o episódio dos visitantes da noite (no decorrer do mês de Março de 1983), a viragem para as políticas de rigor vai ser primeiramente anunciada na Comissão Executiva no dia 16 de Março de 1983 por Lionel Jospin que expõe simplesmente que “o governo prepara neste momento certas medidas e que os datas fundamentais em economia estão já à nossa frente, não é útil dizer mais nada”. échéances économiques sont devant nous, il n’est pas utile d’en dire plus ». No dia 23 de Março, Michel Jobert e, sobretudo, Jean-Pierre Chevènement deixam o governo [17].  No dia 25, François Mitterrand anuncia na televisão a viragem para a política de rigor. Nos dias 26 e 27 de Março de 1983, o Comité diretor, que ao que parece terá dado o seu acordo ou, pelo menos, terá sido avisado da mudança de orientação económica, adota por unanimidade uma resolução em que aprova o plano de rigor, sem mesmo estar a discutir a metodologia e nem sequer a oportunidade da decisão [18]. Não se trata aqui de indicar que deveria ser o partido a ter determinado qual é a política que o governo deveria seguir, ou mesmo autorizar. Os imperativos governamentais põem certamente em tensão o controlo do partido sobre os seus responsáveis no poder. Em contrapartida, a cronologia indica claramente que o partido foi ignorado deliberadamente dado que se tratou de decidir da política a seguir. O aspeto surpreendente do Comité diretor dos 26 no dia 26 de Março reside então no facto que os dirigentes do partido aceitaram de facto esta marginalização, sem estar a porem em causa, salvo muito raras exceções e nunca da parte dos principais chefes de fila do partido. No máximo alguns lamentaram, a exemplo de Fournière: “De toda a maneira, são mesmo as decisões mais importantes que o governo tomou, este plano de rigor. Tivemos dois ministros que intervieram, um deles longamente, e não nos falaram de nada disto. Somente o secretário-geral do partido defendeu o plano de rigor (19).

Dado que o fundo da questão é excluído, é então a forma que será evocada durante este específico Comité diretor. Aí, o papel do PS como locomotiva da opinião atrás do governo aparece muito claramente então. L. Mermaz esclarece o papel assim atribuído ao partido: “É necessário explicar, porque é que nós, mesmo assim, durante dois anos dissemos aos Franceses que era necessário relançar o consumo para relançar a economia e o plano atual, não é nada um plano que tenha a ver com esta mesma lógica: hoje, explicam-nos que é necessário poupar, poupar mais para relançar a economia, para ganhar a batalha da competitividade económica; não há mudança de lógica, mas mudança de plano e é normal numa ação política e económica, mas ainda aqui é necessário dar-se o tempo e os meios para explicar essa mudança à opinião pública. O partido tem um papel a desempenhar, o partido deve ser ofensivo. O partido deve defender a política do governo. O partido deve apoiar o governo, mas o partido deve ser suficientemente forte e inventivo de modo a que o governo tenha em atenção o partido, de modo a que o governo tenha em conta os pareceres e as propostas do partido. […] Não seria necessário que de um lado haja um partido romântico, utópico e do outro que existem aqueles que terão ficado atolados nas redes do realismo económico e político do quotidiano. (20). “A redução e o confinamento do PS à sua própria identidade militante são aqui evidentes. Num primeiro passo, trata-se de justificar a ação do governo e de apelar à mobilização do partido com esse objetivo. Mas a redução opera-se imediatamente a seguir: ser inventivo em que domínio, em que tema, desde que o principal, o conteúdo da política a seguir, está já decidido? O papel do partido é assim tanto mais balizado quanto se efetuou um apelo à responsabilidade destinado a evitar qualquer deriva “romântica”. A inventiva não se refere por conseguinte às propostas económicas e por aí, a mobilização de uma capacidade operacional no domínio da economia, mas refere-se sim aos meios para valorizar a prática governamental. Assim, num mesmo movimento, o PS é, ao mesmo tempo, valorizado na sua identidade militante (21) e reduzido a uma função de executante e de mediatização das decisões governamentais.

Pode-se considerar que o PS é submetido nesta ocasião a uma verdadeira domesticação que se traduz seguidamente por uma “glaciação” do jogo político interno [22]. De um lado, porque o partido é excluído do processo de decisão quanto ao conteúdo das políticas seguidas. Por outro lado, porque a latitude que lhe é permitida é, finalmente, reduzida dado que o partido se limita a organizar o apoio ao governo. Qualquer tentativa de saída deste esquema opõe-se então às regras do jogo político que passaram a estar em vigor.

B. Delanoël adverte pois os eventuais oponentes à linha definida para o partido: “A política efetuada pelo governo parece-me hoje a política sobre a qual nos comprometemo-nos, parece-me a política sobre a qual fizemos campanha juntos, talvez seja um meio para se começar a saber se há outra política. Em todo caso, acredito que para a maioria dos militantes deste partido, a política efetuada pelo governo é efetivamente a política sobre a qual nos tínhamos comprometido e, contra isso, não pode aí haver nenhuma síntese se alguns entre nós pensarem diferentemente. (23) O facto que o CERES recuse de verdadeiramente cruzar o ferro doutrinal com a maioria e que os militantes da linha Rocard, com exceção dos “néorrocardianos” da moção Richard-Lienemann, recusam posicionarem-se, é bem um testemunho do controlo do jogo político interno pela direção. Mas em vez de procurar perceber doutrinalmente quais as consequências das mudanças políticas [24] a direção concentrou-se sobretudo sobre o controlo do partido e sobre o seu corolário, a animação do partido em direção ao eleitorado [25]. Deste ponto de vista, a vontade de mobilizar a opinião atrás da ação governamental é bem concordante com a imagem militante com que os socialistas se reconhecem coletivamente. Permite assim encontrar uma base evidente para a remobilização do partido. Jospin sabe perfeitamente jogar com esta retórica que funciona geralmente em três tempos. Primeiro tempo, o da frente unida dos socialistas atrás da ação governamental: “A experiência já nos tem mostrado, na consciência das pessoas, que não nos distinguem do governo, que nos punem quando o punem a ele, governo, ou que nos creditam quando este tem sucesso. O partido de governo, partido do governo, nós carregamos com ele as responsabilidades [26]. Segundo tempo, a necessidade de fazer passar a mensagem para a opinião da bom fundamento da política aplicada : “Tinha dito [que este congresso] devia ser o do sucesso, da reconquista. Acredito também, agora, que estamos a alcançar estes objetivos, que este congresso deve ser um congresso da convicção, da nossa própria convicção, para o fazer partilhar com os outros, que deve primeiro que tudo ser um congresso de verdade. [27]. Terceiro tempo, a mobilização do partido pelo investimento de cada um e de um reforço da presença do partido na sociedade, o que nos reenvia quase sistematicamente à preparação de uma campanha de adesão: “O partido, este partido, vai discutir no período que aí vem, e de que ele mesmo tem necessidade. Os militantes querem-no. […] O Partido deve-se também mobilizar nas semanas e nos meses que aí vêm. É necessário lançar uma grande campanha de adesões [28].


Notas:

(17) A libertação da palavra que implica esta saída do governo não vai pesar muito na configuração do partido em 1983. O regresso rápido J.P. Chevènement ao governo impedirá aliás que a sua corrente organize um discurso alternativo credível neste caso.

(18) Cf. os textos do Comité directeur des 26-27 mars 1983.

(19) M. de la Fournière, Comité directeur des 26-27 mars 1983, Sténotypies OURS, p. 222.

(20) L. Mermaz, ibid., p. 61.

(21) A tentativa de reforma da escola pode ser considerada uma concessão para reafirmar (tranquilizar?) essa identidade.

(22) A tentativa de Transcourants conduzida principalmente por François Hollande, apoiar-se-á sobre esta constatação para justificar a sua ação.

(23) B. Delanoë, Congrès de Bourg-en-Bresse des 28-29-30 octobre 1983, Sténotypies OURS, p. 416.

(24) Cf. A. Bergounioux, G. Grunberg, Le Long Remord du pouvoir, Paris, Fayard, 1994, pp. 438 à 442.

(25) Não é finalidade deste artigo discutir a tradução do discurso em atos, embora se possa ser cauteloso sobre a eficácia da sua implementação.

(26) L. Jospin, Comité directeur du 26-27 mars 1983, Sténotypies OURS, p. 135.

(27) Ibid, p. 136.

(28) Síntese da intervenção de L. Jospin, Comité directeur du 26-27 mars 1983, OURS.


Artigo original aqui

 A terceira e última parte deste texto será publicada, amanhã, 12/09/2017, 22h


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