Lição inaugural do XXIV Encontro de Petrarca – Parte III

(Por Jean-Claude Milner, in site fabriquedesens.net, 20/07/2017)

milner

(Transcrição par Taos Aït Si Slimane, da lição inaugural, de 20 de Julho, de Jean-Claude Milner dos XXIVºs encontros de Petrarca.

A oralidade é mantida voluntariamente para todas as transcrições deste site. Os pontos de interrogação, entre parênteses, indicam uma certa dúvida sobre a grafia de uma palavra ou de grupo de palavras.)


Em segundo lugar, o reinado do capitalismo financeiro confirmou, no espaço financeiro, o surgimento material do que chamarei a importância de “qualquer um tecnocratazeco”. Qualquer um deles pode enriquecer ao fazer não importa o quê. Não eram apenas os especuladores [nas salas de mercados e os especuladores fora delas] que acreditavam nisso.. Eu também acredito que esta visão do mundo se impôs muito para além do setor stricto sensu da bolsa e de outros produtos financeiros.

É por isso que na verdade eu chamo a esta situação, uma visão do mundo. Além da questão do enriquecimento, eu diria que a sociedade moderna é ela mesma pensada no horizonte de não importa qualquer um tecnocratazeco indiferenciadamente. As estatísticas propuseram a matematização, mas além das estatísticas, eu poderia citar pensadores que fizeram deste argumento de “não importa quem” uma verdadeira doutrina. Eles até fizeram mesmo uma doutrina da democracia. Estes disseram: Democracia é quando qualquer um tecnocratazeco pode decidir sobre tudo e o melhor ainda é que pode decidir sobre não importa o quê sobre não importa o quê. Substitua-se verbo decidir por qualquer outro verbo, tem-se a escolha, coloca-se no lugar do verbo decidir, descarregar, baixar, mostrar, proibir, permitir e ter-se-á obtido toda uma série de variações, do que chamarei a visão mundial da era bolsista da sociedade moderna. O não importa quem politica ou socialmente, não é senão o não importa quem do capitalismo financeiro. Aqueles que exaltaram o não importas quem, para lá do razoável, penso em alguns desenvolvimentos do discurso em torno da internet, eles fariam bem melhor em pensar sobre isso, eles que não fazem outra coisa que não seja sublimar, no sentido freudiano do termo, as ilusões mais baixas do capitalismo financeiro. Eles convenceram muitas pessoas honestas, isso é um facto, mas também é uma falha.

Terceiro elemento. Fala-se, para sair da crise, também de regulamentação. Mas pergunto: quem faz as regras? O capitalismo financeiro teve uma resposta, a de qualquer um tecnocratazeco com poder, porque, contrariamente ao que se faz correr, o capitalismo financeiro não existe sem regras. Ao contrário, abunda em regras. Um produto financeiro é um conjunto de regras. Simplesmente, não importa quem, ou seja, não importa que especular na sala de mercados, especulador, financeiro, ator do capitalismo financeiro, qualquer um tecnocratazeco poderia fazer não importa que regra. E, mais uma vez, além do setor da produção de valores financeiros, essa conceção, entre aspas, da regra, é o problema de não importa quem, é uma conceção que se implantou de diversas maneiras e em diversos setores da vida social. Eu direi que o neo-democrata é uma figura da qual eu sou o inventor, mas acho que ela existe e que este é tão perigoso na sua ordem como o neoconservador, que teve já a sua hora de glória. O neo-democrata aceita qualquer regra, desde que o seu autor seja no sentido estrito “qualquer pessoa com poder” que pode impor no sentido estrito “não importa o quê. Isto é o que caracteriza a era bolsista da sociedade moderna. Bem, voltando à questão da regulamentação do mercado, é claro, não se pode, a menos que se esteja atordoado, levantar a questão: quem é que está em condições de formular uma nova regra? De modificar uma regra antiga? De abolir uma antiga regra? De formular uma nova regra, em aparência, possivelmente ex nihilo? Quem está em posição de o fazer? Que na sociedade moderna tem havido uma abundância de regras, nós vemo‑lo. Uma proliferação ilimitada foi o que Foucault chamou de sociedade de controlo. Ele pensava sobretudo nas regras vindas de cima, mas também há regras “peer to peer”, as regras vindas de baixo. Eu acredito que a experiência mostrou que uma proliferação ilimitada de regras, ou seja, a consequência inevitável da multiplicação indefinida dos possíveis autores de regras, leva a um constante aprofundamento de controlo, a um aperto de controlo e as liberdades a isso não sobrevivem. Para que haja ao mesmo tempo liberdades e a regra, deve-se desistir de um certo número de contos de fadas. Nenhuma regra tem a validade de outra regra qualquer). Nem todos têm legitimidade para criá-las. Dizendo isto chegamos assim à mais clássica das questões da filosofia política: quais são as possíveis fontes das regras? E de que regras? Será que são os povos, tomados estes na sua totalidade? Será que é ao nível nacional? Será que é ao nível supranacional? Será que são, fora do plano político, os parceiros sociais? Penso aqui no modelo alemão, que é um modelo inadequadamente analisado, onde os parceiros sociais, por meio de suas negociações, são os únicos, pelo menos estão na melhor posição, a formular novas regras. Esse é o modelo? Ou é um modelo mais clássico na tradição francesa, a saber, que é o poder legislativo e executivo que pode formular novas regras e, acima de tudo, e não é o poder judicial, ao contrário do que os juízes nos querem fazer acreditar? A tradição francesa é que os juízes, em nenhum caso, podem fazer novas regras, eles só podem aplicar as regras conforme elas existem. Mas este ponto de vista não é um ponto de vista que prevalece nos Estados Unidos, onde os juízes têm o direito e o dever de fazer novas regras. Finalmente, toda uma série de questões que me parecem ser perguntas bastante sérias. Em qualquer caso, uma coisa é certa, parece-me, é que deve haver um pequeno número de instâncias legítimas para produzir as regras, porque se elas são muito numerosas, então temos um entrelaçamento indefinido de controlos no horizonte. É melhor que os autores legítimos de regras sejam poucos em número. É melhor tê-los claramente identificados, em vez de deixadas ao não-dito, em vez de não identificados. Em suma, precisamos de instituições nacionais, supranacionais e internacionais, as circunstâncias determinarão, deixo a questão em suspenso, em qualquer caso, não acredito na mão invisível

Apenas uma palavra para terminar. Falei da palavra revolução e do seu equívoco. Quando a palavra revolução foi usada na história, ela foi usada no sentido astronómico do termo. Na astronomia, a revolução dos corpos celestes é a lei que faz os corpos celestes voltarem para o mesmo lugar. O primeiro uso da palavra revolução no plano político foi na Inglaterra, a chamada Grande Revolução de 1688, o retorno de Stuart ao trono, o fim do poder do Lorde Protetor, a família Cromwell. Assim, a revolução pode ser entendida como um retorno a questões antigas. É claro que a revolução na ordem política assumiu exatamente o significado oposto. Quando a revolução, nisso estava interessada, a revolução no singular era, evidentemente, utilizada no sentido imediatamente oposto ao da astronomia. Bem, eu diria hoje que a parte mais forte da questão que foi colocada a todos nós nos Encontros de Petrarca não é a revolução no singular mas sim no plural porque isso significa que ainda não decidimos antecipadamente, se se trata de voltar a questões clássicas, por exemplo: quem é legítimo para enunciar as regras? E se a resposta for: qualquer um tecnocratazeco, bem, isso significa, por exemplo, sem abordar o problema frontalmente, que a questão das regras não tem nada a ver com o modelo da Internet, ou que, reciprocamente, o modelo de internet não é o modelo de uma sociedade regulamentada. Em segundo lugar, uma vez que é no plural, a questão que se coloca é: a partir da revolução da crise financeira, podemos nós imaginar que se seguirá, em alguns lugares, esta outra forma de revolução, que a Revolução Francesa de uma ou outra forma tornou inevitável, que é a revolução social? Onde é que nós podemos pressentir a possibilidade de uma revolução social, não restauração, não retorno, mas verdadeiramente revolução social? Eu respondo muito simplesmente sobre este ponto dizendo que não vejo possibilidade dela se perfilar nos países do Lago do Atlântico Norte, mas não descarto a possibilidade na China e em todos os países que tenham feito do trabalho humano os seus recursos naturais principais..


O debate a que este texto deu origem começará a ser publicado amanhã,  09/10/2017, 22h


Fonte aqui

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