Lição inaugural do XXIV Encontro de Petrarca – Milner contra os jornalistas do jornal Le Monde – Parte I

(Por Jean-Claude Milner, in site fabriquedesens.net, 20/07/2017)

milner

(Transcrição par Taos Aït Si Slimane, da lição inaugural, de 20 de Julho, de Jean-Claude Milner dos XXIVºs encontros de Petrarca.

A oralidade é mantida voluntariamente para todas as transcrições deste site. Os pontos de interrogação, entre parênteses, indicam uma certa dúvida sobre a grafia de uma palavra ou de grupo de palavras.)


Emmanuel Laurentin: Obrigado, Jean-Claude Milner. Antes de passar a palavra ao segundo círculo, quem, eu reparei, tomou notas durante a vossa intervenção, talvez queira pôr-vos uma ou duas perguntas sobre alguns dos pontos que, pela minha parte e pela de Jean Birnbaum, merecem ser esclarecidos. Em primeiro lugar, queria pôr-vos uma pergunta sobre estas instâncias legítimas a que Milner chama  produzir regras, o senhor enunciou‑as mas não faz nenhuma escolha. Porquê? É porque não sabe quais são as boas instâncias legítimas? Ou porque pensa que de momento estas instâncias legítimas são demasiado não diferenciadas para poder escolher uma ou duas delas?

Jean-Claude Milner: Porque deixei a pergunta em suspenso? É por uma razão extremamente simples, é que, como o tenho vindo a dizer, a questão é de quem tem legitimidade para articular as regras? É uma questão clássica. A esta pergunta clássica, dispomos de um conjunto de respostas elas mesmas clássicas. Mais clássica, entre as respostas clássicas, é dizer: a instância legítima para as enunciar situa-se no espaço do Estado-nação. Ora, isto põe uma grave questão porque o Estado-nação, hoje, não é certo que este possa ainda funcionar da maneira que lhe terá dado a sua legitimidade. Por outras palavras, nunca fui um admirador fanático do processo da construção europeia, mas a questão põe-se e põe-se, na minha opinião, de maneira extraordinariamente crucial neste momento. Fiquei muito espantado, por exemplo, pela decisão que tomou o Tribunal Constitucional Alemão, há cerca de dias, que me parece – não é completamente surpreendente quando se pensa que a Alemanha foi reunificada – tirar as lições da reunificação, e colocar o Estado-nação alemão em posição de primazia em relação às instâncias europeias. Não posso ter certeza quanto ao caráter, a profundidade do movimento mas espanta-me muito. Aquilo a que se chama euroceticismo, que é uma versão negativa da coisa, está talvez em vias de em diversos em países tomar uma forma afirmativa – penso na Alemanha, que tem um modelo económico sólido. Como a questão está em suspenso, custar-me-ia dizer, agora, cabe ao Estado-nação retomar a questão. Mas se não for ao Estado-nação, se for às instâncias europeias, por exemplo, sabemos todos que isso não pode ser a Comissão Europeia, uma vez que esta não tem absolutamente nenhuma legitimidade para clarificar e decidir em matérias deste tipo salvo sobre  questões técnicas. Por conseguinte, temos a questão do Parlamento europeu. E a questão do Parlamento europeu, não vou avançar mais. O Parlamento europeu, tal como é hoje, não está seguramente em condições de abordar a questão.

Jean Birnbaum: Eu fiquei muito impressionado-eu não tinha visto que Milner trazia vestido uma camisa vermelha, Col Mao – ouvindo-o, o senhor lidou com um conjunto de paradoxos interessantes e desenhou um sinal de igual entre uma certa conceção do capitalismo financeiro e uma certa conceção da democracia, o reinado de “qualquer um” [tecnocratazeco]. O que me interessou foi que o senhor utilizou um monte de fórmulas e raciocínios tipicamente marxistas ou marxisantes, falando sobre como o capitalismo respondeu a uma necessidade objetiva, falando sobre a circulação obscena do capital, ao falar deste reino de ”qualquer um tecnocratazeco” , é bem conhecida por todos a velha e famosa fórmula de Marx, que diz que o capitalismo mergulha todos os sentimentos, amizade, fidelidade, etc, nas águas geladas do cálculo egoísta, numa forma precisamente de anonimato e de “não importa o quê”. Fiquei impressionado com o facto de que o senhor utilizou todo esse vocabulário marxista ou marxisante para chegar a uma conclusão bastante desconcertante sobre a democracia em geral, em todo o caso, a uma certa forma de democracia. E uma vez que entre as soluções, as receitas ou as reflexões que serão levadas a serem postas no decurso destas discussões, há em particular a questão da política e da política democrática no mundo de pós crise, eu teria desejado que o senhor tivesse especificado o que é que quis dizer com o termo neodemocrata, que o senhor arrasou de sarcasmos, ainda há pouco, em nome de um certo vocabulário marxista. Então, precisamente, “Depois da crise que revolução (ões) “ fica-se com a impressão que isto representa  uma revolução do seu próprio vocabulário, Jean-Claude Milner, não no sentido de rutura, mas de um retorno às fontes de origem maoista ou origem anti maoista, é difícil de compreender.

Jean-Claude Milner: Eu penso, eu sempre pensei, eu não pretendo ter a unanimidade sobre esta questão, que no discurso de Marx, havia um núcleo duro, que estava de alguma forma intocado mas atingido por falhas muito profundas do dispositivo de conjunto. O núcleo duro tem a ver, eu não diria mesmo a análise, com uma espécie de descrição fundamentada do processo que se refere ao capital, e não foi de todo uma convicção pré-determinada, neste caso, ocorreu-me o uso de um certo tipo de raciocínio, mas que eu poderia muito bem ter realmente utilizado uma forma de raciocínio bem típica de Montesquieu. O que eu disse sobre a diferença entre as Nações herdeiras e as Nações recém-chegadas, Montesquieu poderia tê-lo colocado numa linguagem mais bonita do que a que utilizei. Se eu disser Montesquieu, não Tácito, mas Tibério, o imperador Tibério redigido por Tácito poderia tê-lo dito. Portanto, não é um marxismo que seja específico a Marx. É um certo fio de raciocínio, um modo de análise que atravessa os séculos e ressoa, se assim posso dizer, por grandes massas históricas ou políticas, e que tenta encontrar, através desta forma, uma forma de racionalidade. Claro, Jean Bodin faz o mesmo tipo de raciocínio. Para mim, esta tradição passou por Marx, por isso refiro-me a uma linguagem marxista, mas é algo que em Marx me parece também ser da ordem de uma herança. Além disso, já o escrevi várias vezes, considero que, como um pensador, Marx cometeu uma falha muito, muito grave, ter  jogado  ao mar o legado da filosofia política europeia. E isso, ele fê-lo de uma forma extremamente precisa, jogando ao mar a filosofia do direito de Hegel, e com isso o que ele rejeitou ao mesmo tempo, foram séculos de reflexão política sobre precisamente que instâncias tem o direito de pronunciar uma lei? É o povo no seu conjunto? Será que um só vale mais que vários? etc. Toda uma série de questões que eram perfeitamente clássicas. Pela minha parte, sinto que estou a reabrir este espaço. Digamos, eu quero bem que reconheçam, na minha linguagem, os traços de Marx, como no meu vestuário, os traços de maoísmo, mas para além do facto de que o meu colarinho é mais um colarinho de clérigo do que um colarinho à Mao , mas quanto a isso não vos peço nenhum rigor…

Jean Birnbaum: foi o que Mao disse, também. Todos dizem isso.

Jean-Claude Milner: exceto os próprios clérigos, não?.

Emmanuel Laurentin : Há na sala algum clérigo ?

Jean-Claude Milner: o que eu quero dizer, é verdade que eu tenho usado, como eu disse, um modo de raciocínio que eu aprendi a ler Marx, mas é para reabrir um modo de questionar que o próprio Marx tinha fechado, ou seja, o modo de questionamento que eu atribuo ao antigo legado de filosofia política. Quando eu digo muito antigo, é que isto remonta ao grego antigo e ao latim.


A segunda parte deste debate será publicada amanhã,  10/10/2017, 22h


Fonte aqui

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