Lição inaugural do XXIV Encontro de Petrarca – Milner contra os jornalistas do jornal Le Monde – Parte III

(Por Jean-Claude Milner, in site fabriquedesens.net, 20/07/2017)

milner

(Transcrição par Taos Aït Si Slimane, da lição inaugural, de 20 de Julho, de Jean-Claude Milner dos XXIVºs encontros de Petrarca.

A oralidade é mantida voluntariamente para todas as transcrições deste site. Os pontos de interrogação, entre parênteses, indicam uma certa dúvida sobre a grafia de uma palavra ou de grupo de palavras.)


Alain Gérard Slama: caro Emmanuel, lembrarei também que escrevo no Figaro, o que não é completamente inútil para me  situar.

A minha posição nesta mesa, e a posição do meu amigo Milner no outro lado, e eu tive a impressão ao ouvir-vos – que estamos a tratar-nos por vocês – que o senhor andou mais na minha direção do que eu na sua. Estou, assim, vingado por uma dissertação sobre Verlaine, onde o meu amigo Milner tinha recolhido um 19, o que era absolutamente deslumbrante e que era já testemunho de um talento extraordinário e de uma grande maturidade.

Sinto-me muito lisonjeado por vê-lo fazer este caminho até porque sinto que o seu discurso não me era muito dirigido. Era dirigido a todos os entusiastas da Internet, aos convertidos da rede, aos adeptos de uma democracia e uma sociedade poli-centrada, altamente participativa, porque da democracia participativa em que “qualquer um” decide sobre “não importa o quê “, eu não estou muito seguro, por vezes, de que haja uma grande diferença. Em todo o caso, é claro que eu concordo com muitas das suas análises. Vou deixar, é claro, para a economia, intervir Jean-Marc Daniel, porque eu não estou muito certo de que os países ricos tenham muito interesse em que os pequenos chineses continuem a ser muito mal pagos. Dito isto, o que me impressionou, nas suas observações, é que, basicamente, Milner  está a fazer uma crítica acentuada de tudo o que foi saudado sob a etiqueta de rede, de pós-moderno, numa abordagem que está longe de ser apenas ultraliberal, com uma abordagem que está hoje, sobretudo, na moda nas reflexões, por exemplo, do Partido Socialista. Então, estou interessado e porquê? Porque vejo que através deste seu caminho, nos seus três pontos, o senhor redescobre a regulação. Quando o senhor menciona, por exemplo, que numa situação de mercado ilimitada, o mais improvável tem tanta possibilidade de acontecer como o mais provável. Portanto, isso significa que temos de definir limites, que precisamos de colocar algum tipo de regras, que não são regras estabelecidas por “qualquer um” ou sobre “não importa o quê”, mas será que se tratará de regras estabelecidas pelos especialistas? O seu raciocínio é um raciocínio matemático de uma certa maneira. Então, quem vai, de toda a maneira, fixar essas regras em nome da regulação à luz da técnica? Tomo de partida a sua primeira conclusão. A segunda consequência, que também me impressionou enormemente, é que você reencontra a instituição. Isso quer dizer que há aqui algumas bases consagradas de reflexão clássica. O senhor citou mesmo a constituição de 1958, o que me deu imenso prazer. A terceira coisa que eu vejo é que Milner está claramente a falar , em conclusão, da necessidade de instâncias legítimas, que podem estar no plano nacional, europeu, internacional, e sobre isto nada decide. Isto honra e dá toda a sua força à sua análise e à sua reflexão, mas vemos que lá bem por detrás nós descobrimos a nação. Estamos a redescobrir, que isso seja a nível nacional, europeu ou global, mas, em todo o caso, estamos aqui, parece-me, ao nível do Intergovernamental e não tanto aos níveis de organismos globais que excederiam absolutamente o quadro de Nações e em que, parece-me, que Milner não encontrou um lugar para a sua análise, mas talvez o tenha feito e eu ficaria feliz em o saber. Fico-me por aqui, porque me foi dito que eu vou intervir nos próximos dias, e foi dito o mesmo sobre Jean-Marc Daniel, finalmente, e por isso não devo ser longo, neste momento preciso. As observações que acabo de fazer, resumo-as com uma só palavra, tenho a impressão de facto que esta é uma desconstrução de uma grande parte da ideologia pós-moderna e isto, interessou-me enormemente.

Jean-Claude Milner : Eu não me vou opor a esta apresentação, exceto para acrescentar que este dispositivo pós-moderno, de minha parte, eu nunca aderi a ele. O único ponto que talvez eu poderia mencionar é que – referi Michel Foucault- a redescoberta da dimensão institucional é algo que verificou , em Foucault, no final do seu percurso, muito precisamente nos Estados Unidos. Eu não reivindico, pela minha parte, uma grande originalidade. Acrescento, além disso, em segundo lugar -Jean Birnbaum foi gentil ao ter-me lembrado que no seu tempo, em 1984, eu me tinha pronunciado sobre a questão, sobre a questão da escola, e não foi por nada que eu tinha dado este título, da escola, que é o título de uma instituição, precisamente. Lembro-me muito bem, é um livro agora antigo, sim, meu Deus como o tempo passa, que a dimensão institucional da escola e a sua relação, no dispositivo francês, com o regime de liberdades públicas e individuais, foi algo que me deu  muito.

Creio que, de forma descritiva, não há dúvida de que, nos últimos trinta anos, houve um certo tipo de consenso, vindo, para retomar a ideia de oposições, da direita, do centro e da esquerda que acabou no que eu chamo de ideologia do ” qualquer um ‘ onde eu diagnostiquei – pode-se estar de acordo com as descrições e não sobre os diagnósticos- uma espécie de retoma, de sublimação, para usar o termo freudiano que eu tinha usado, daquilo que, aliás, os mesmos poderiam detestar em palavras, ou seja, o mecanismo do mercado tal como estava a ser proposto aos seus olhos.


A quarta parte deste debate será publicada amanhã, 15/10/2017, 22h


Fonte aqui

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