Lição inaugural do XXIV Encontro de Petrarca – Milner contra os jornalistas do jornal Le Monde – Parte V

(Por Jean-Claude Milner, in site fabriquedesens.net, 20/07/2017)

milner

(Transcrição par Taos Aït Si Slimane, da lição inaugural, de 20 de Julho, de Jean-Claude Milner dos XXIVºs encontros de Petrarca.

A oralidade é mantida voluntariamente para todas as transcrições deste site. Os pontos de interrogação, entre parênteses, indicam uma certa dúvida sobre a grafia de uma palavra ou de grupo de palavras.)


Emmanuel Laurentin: Jean-Marc Daniel.

Jean-Marc Daniel: Obrigado. Vou reagir em quatro pontos. Primeiro no que diz respeito ao  capitalismo financeiro e às referências a Marx. Pessoalmente, já quando Marx escrevia, ele deu uma visão da economia que era bastante aproximada da de Ricardo e se a economia realmente lhe interessa, leia bastante Ricardo mais do que Karl Marx, porque vai aprender muito mais. A segunda coisa que eu quero dizer sobre esta expressão de capitalismo financeiro é que eu não conheço capitalismo que não seja financeiro. Logo, não entendo o que isso significa quando o senhor fala sobre capitalismo financeiro. O capitalismo é sempre um mecanismo no qual as pessoas assumem riscos a partir dos seus fundos próprios e os fundos próprios são a finança. Então, capitalismo financeiro, eu não sei o que é. Voltaremos a ter oportunidade de retomar  este tema.. Há um economista dos anos 1950, que alguns de vocês podem ter conhecido, chamado François Perroux, que foi o grande economista dos anos 1950, que escreveu um pequeno livro sobre o capitalismo e a sua primeira frase é: “o capitalismo é uma palavra de combate “. E ele explicou que a palavra capitalismo é utilizada para fazer o processo do capitalismo com um processo muito especial, uma vez que é um julgamento em que o acusado está antecipadamente condenado. O capitalismo é o acusado e nós já sabemos que ele está condenado. O capitalismo financeiro é duplamente condenado. Eu estarei lá para defendê-lo, dizendo: Eu não sei o que é, mas defendo-o de toda a maneira.

A segunda observação é sobre globalização, crescimento: a globalização é para mim um fenómeno bastante incidental. O que aconteceu na economia mundial desde a década de 1760 é que em dado momento começámos a colocar agricultores em fábricas, foi um processo que começou algures lá para os lados de Manchester, entre 1760 e 1770, e esse processo continua regularmente. Nós colocámos os camponeses europeus, depois colocámos os camponeses americanos e agora estamos a colocar os camponeses chineses e os camponeses indianos. Então, este processo é espetacular porque nessa altura havia quinze milhões de camponeses ingleses para colocar nas fábricas em Manchester e, agora, existem setecentos milhões de camponeses chineses para colocar nas fábricas. Então, mudámos a ordem de grandeza, mas o processo é exatamente o mesmo com a respetiva consequência que é exatamente a mesma, isto é, dizer concretamente que  sempre que houver um novo camponês que apareça no mercado, os outros salários caem. O salário global está a cair e a grande magia do crescimento económico na Índia e na China é o declínio dos salários. Teremos a oportunidade de voltar, na minha opinião, a esta questão. O crescimento é exclusivamente impulsionado por salários mais baixos? Ou existem outras formas? Mas o salário, à partida, destina-se a cair para permitir às empresas os lucros que lhes permitirão reinvestir, o que está a acontecer no momento. O grande milagre é que o capitalismo global encontrou um capataz absolutamente brilhante, é o herdeiro de Mao-Tse-Tung. Isto é dizer que, para explorar os trabalhadores, não há nada como um partido político que se proclama marxista-leninista. E são eles que organizam a maior exploração já realizada na história da humanidade através do que está a acontecer na China neste momento. A terceira observação que farei é sobre Marx e sobre tudo isto, há uma coisa que nunca é dita é que o mundo em que vivemos foi fundado, reorganizado por Richard Nixon, através de duas importantes decisões: a primeira decisão é aliar-se com a China e a segunda decisão é abandonar qualquer referência monetária que seja diferente da moeda de um país.

E então, o que há de limitado no que Jean-Claude Milner disse, é a criação de dólares. A capacidade dos Estados Unidos de emitir dinheiro está na raiz do mecanismo financeiro. As finanças não são banqueiros odiosos, escondidos algures entre Zurique, Londres e Frankfurt, a finança é atualmente a criação de dinheiro pelo mecanismo de crédito, criação de dinheiro que é [potencialmente- NT ] ilimitada tendo como  único limite a gestão pelo Banco Central. Então, o que está em jogo para mim não é fazer regras, mas tentar saber e pensar agora sobre o que é um banco central. E o que o senhor não encontrará em Marx porque Marx nem sabia o que era um Banco Central. Ricardo sabia disso, mas se você lê as obras de Marx na circulação de dinheiro, o senhor nunca vê a palavra Banco Central porque Marx não entendeu o que era um banco central. E o desafio do mundo no momento atual é teorizar, refletir sobre o papel que o futuro Banco Central irá desempenhar. A crise atual mostrou-nos que existe um banqueiro central que foi transportado para as nuvens, e esse  era o Sr. Greenspan, e que agora passou a estar votado ao esquecimento. Arrastam-no no lama, os mesmos que o transportaram para as nuvens. Falou-se aqui sobre pessoas que não tinham previsto nada e há sempre pessoas que previram, é fácil prever, é melhor anunciar o desastre quando se é estratega, porque assim como assim, se estivermos enganados as pessoas não ligam a isso  e se estivermos certos ganha-se a glória, então, quando alguém  faz previsões, é melhor anunciar a catástrofe. Mas uma coisa é certa: muito poucas pessoas criticaram o Sr. Greenspan e agora toda a gente considera que ele é uma espécie de pessoa incapaz que arruinou as finanças internacionais. Então, a questão real, na minha opinião, é: o que é um banco central?

Uma última observação sobre o que é que são as regras ? Eu sou um neo-archeo-franchouillard-démocrate e não tenho medo da Internet. Jean-Claude Milner falou sobre obscenidades e calúnias circulando, mas Beaumarchais falou de calúnia sem a internet. As pessoas foram capazes de caluniar pessoas sem a Internet durante a era de Beaumarchais e, em seguida, houve a pornografia no século XVIII também, e houve as obsessões sexuais no século XVIII também, tudo isto sem haver a internet.

Em contrapartida, eu diria que estou completamente indiferente para com a questão de quem é o regulador. Quando ouço falar sobre a renúncia dos políticos, leio regularmente o relatório do Conselho de Estado, que diz que ninguém já produziu tantas leis neste país. Existe uma inflação legislativa. A política está misturada com tudo. A política tem ideias sobre tudo. Foi colocado o princípio da precaução na Constituição. Querem-nos impedir de respirar porque isso gera CO2. O regulador pensa em tudo o que precisamos fazer. Não há regras, o que mais existe são  regras. Então, o regulador, talvez, mas talvez seja ele quem é afinal “qualquer um “, qualquer um” fazendo “não importa o quê”. Então, durante a semana que vou passar aqui, entre vocês, vou passar o meu tempo dizendo que  devem ter muito cuidado com o regulador.

Emmanuel Laurentin: há muitas coisas na intervenção de Jean-Marc Daniel. Talvez sobre a questão da regra, a última questão ou a do Banco Central ou, talvez, primeiro, dado que o relembraram, que o senhor é um linguista, Jean-Claude Milner, essa questão do termo capitalismo financeiro? Não há capitalismo que não seja financeiro, diz Jean-Marc Daniel.

Jean-Claude Milner: É um pouco difícil para mim responder. Jean-Marc Daniel argumentou com a citação de François Perroux, a palavra capitalismo não é usada sem se envolver imediatamente em crítica. Não vejo como isso se relaciona comigo. Não usei a palavra capitalismo para criticá-la. Eu simplesmente descrevi fenómenos. Em geral, sinto que a intervenção do Daniel, que certamente foi muito notável, tem muito pouco a ver comigo, salvo em termos de associações gratuitas. Na minha palestra, utilizei o artigo que publiquei no Le Monde, e o nome de Marx não é sequer citado. Não é utilizado nenhum conceito especificamente marxista. Foi Jean Birnbaum quem me lembrou que eu era, ao mesmo tempo, sensível a temas marxistas e Alain-Gérard Slama, que me conhecia desde há muito tempo, lembrou-se disso. Mas repito, nas minhas observações e nas observações que fiz diante de todos vós não há nenhuma referência particular a Marx, nenhuma. Por conseguinte, foi por pura associação, como uma ruido de estar a amarrotar papéis de rebuçados, que se falou de Marx  e que então  me explicaram, o que eu sei há muito tempo, que Marx não fala do Banco Central. Sim, é claro, esse não é o problema, já que não falo de Marx nem de outras coisas no género. Então explicaram-me que o Partido Comunista Chinês era a melhor forma de opressão, e é exatamente isso o que eu disse. Não tenho nada contra o facto de mo dizerem,  antes pelo contrário, é normal, mas que me repitam isso e que me apresentem isso mesmo como uma objeção absolutamente irresistível contra o que eu disse, isso, acho eu,  é do puro Coluche, é humor.

Emmanuel Laurentin: Tenho a impressão de que isso não é um elogio, na sua boca, dizer que é do tipo de Coluche?

Jean-Claude Milner: pelo contrário, não conheço nada melhor. O terceiro ponto, talvez eu pudesse ser mais preciso, mas acho que não deixei de falar em termos exatos, ao falar do capitalismo financeiro, todos entenderam do que é que se tratava.

Emmanuel Laurentin: obrigado a todos. Obrigado, Jean-Claude Milner, por ter esta abertura e por ter apresentado dado esta lição inaugural. Lembro-vos que este XXIV Encontro de Petrarca é organizado pela France Culture e Le Monde, sobre o tema “Após a crise, que revolução (s)”, com um possível plural e um ponto de interrogação, e que amanhã o tema é “Após a crise, que revoluções”, com Jean-Marc Daniel, Laurence Fontaine, Jacques Généreux e Michel Guénaire.


Esta é a última parte deste texto. Amanhã, 19/10/2017, 22h, será publicado novo texto.


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