Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 1 – A centralidade do trabalho vivo – Parte II

O  projeto liberal claramente parece querer atacar não apenas este Código do Trabalho, mas o próprio trabalho em si-mesmo. Em qualquer caso, as explicações apresentadas para justificar um projeto específico baseiam-se principalmente na ideia de que o trabalho teria perdido a sua “centralidade”, ou mesmo que nunca teria tido a centralidade que alguns lhe conferem e que os direitos que o envolviam se tornaram obsoletos.


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A centralidade do trabalho vivo – Parte II

                    O que é o trabalho vivo ?  A  psico-sociologia do trabalho vivo

(Por Jean-Marie Harribey, Setembro de 2017)

É uma segunda abordagem possível para definir o trabalho vivo.  É o caso da psicodinâmica do trabalho, que considera que “o trabalho, enquanto trabalho vivo, é o termo que conceptualiza a ligação entre a subjetividade, a política e a cultura” [11]. Esta abordagem desenvolveu-se a partir das análises sobre o sofrimento no trabalho imposto  pela nova gestão neoliberal. Em particular, Christophe Dejours propôs uma síntese entre a pesquisa com base na psicanálise e as análises feitas pela psicodinâmica do trabalho: “ muito tardiamente foi possível estabelecer a coerência entre os dois campos: quando o paradoxo da dupla centralidade pode ser resolvido. Por paradoxo da dupla centralidade designa-se a centralidade do trabalho no que diz respeito à identidade, à autorrealização e mais amplamente à saúde mental, por um lado, a centralidade da sexualidade em relação ao que Freud designa pelo termo de Seelenleben (vida da alma), isto é, da vida subjetiva, por outro lado.

 Esta vida subjetiva também envolve a construção da identidade, da auto-realização e da saúde mental. Mas só há um centro! A resolução do paradoxo da centralidade passa, precisamente, pela teoria do corpo que se torna, portanto, um elemento crucial do programa teórico de manter juntos os dois polos tradicionais da teoria crítica desde os inícios da escola de Frankfurt: sexualidade e trabalho ou psicanálise e marxismo. “[12]

A integração do corpo na teoria crítica do trabalho renova os termos em que esta última é levantada, na medida em que já não se trata simplesmente de analisar o peso das estruturas sociais objetivas sobre os indivíduos no trabalho. Christophe Dejours escreve: a fenomenologia de Michel Henry realmente dá ao trabalho um lugar proeminente que tornou possível formular de forma precisa a relação entre o corpo e o real, ou seja, o que  se faz conhecer aquele que trabalha através da resistência do mundo ao seu controlo. Como resultado, é toda a inteligência no trabalho a nível individual que é reformulada graças ao conceito de “corpspropriation” do mundo. É então possível mostrar como é o corpo inteiro que está envolvido na familiaridade com o real, sem o qual a intuição das soluções para superar o real simplesmente não poderia ser formada. “[13]

No período entre-duas-guerras, Simone Weil tinha descrito a mina como “um mundo distante, separada do mundo dos vivos” onde “os homens só existem como trabalhadores” [14]. A mina tem regredido muito hoje, mas métodos néo taylorianos de “nova gestão” desenvolveram, como Danièle Linhart descreve: “despojar o empregado de sua experiência profissional, não é apenas estar a retirar-lhe a base de que ele precisa para não ser ultrapassado pelo seu trabalho, para sentir-se à altura, armado para o realizar e no direito de afirmar o seu ponto de vista. É também tirar-lhe uma parte da sua identidade, a que foi construída em torno desta experiência e graças a ela. Mudar o trabalho constantemente é igualmente afetar a constância da identidade dos trabalhadores. “[15]

Se o problema para o capital de despojar a identidade do trabalhador –e não apenas uma parte do valor económico que este acrescenta – é tão importante, é porque a experiência do trabalho é sempre uma experiência de atenção e do esforço para evitar erros, repetições e constrangimentos. Esta experiência   comporta sempre um  certo  sofrimento que pode ser compensado pela satisfação de exercitar faculdades corporais e intelectuais, pelo sucesso da transformação do trabalho prescrito no trabalho real, ou pelo reconhecimento de colegas ou da hierarquia. Mas esse sofrimento  nunca pode ser anulado  de modo que a atividade de trabalho é acompanhada por um trabalho psíquico de transformação da dureza no trabalho em satisfação cujo resultado nunca é garantido. “[16]

Da integração do corpo na teoria crítica do trabalho à integração no corpo, há aparentemente apenas um passo. Um passo que poderia aproximar o conceito de habituação definida esta por Pierre Bourdieu como a incorporação pelos indivíduos das formas de pensar, de sentir e de atuar, ao longo do processo de socialização [17]. Em todo o caso, há em Marx, na análise que ele faz da grande fábrica, a consciência da natureza ambivalente e contraditória do trabalho que não se pode compreender se separamos a sua dimensão “vital” da sua dimensão económica. Jacques Bidet di-lo da seguinte maneira : “o projeto de uma história social do corpo, conjuntamente biopolítica e económica, é anunciado no primeiro conceito da sua teoria, tradicionalmente referida como a do “ valor-trabalho “. Este nome é bastante impróprio. Isso não significa que o trabalho em si tenha um valor, mas que o valor será definido a partir do trabalho. Mais precisamente: do corpo para o trabalho. Se o valor das mercadorias for, em condições a definir, relativas à “despesa da força laboral” (“despesa produtiva do cérebro, músculos, nervos, mão humana”, diz Marx), o problema económico é imediatamente colocado em termos tangíveis. [18] (ver caixa “o valor” trabalho e o “valor-trabalho”).

O “valor” trabalho e o “valor-trabalho”

Há apenas uma palavra (valor) para designar duas realidades bem diferentes.

Num primeiro nível, quando se trata de “valor” trabalho, refere-se ao conteúdo ético, filosófico ou político que está ligado ao trabalho ou de outra forma que lhe é negado. Assim, o conceção que vem de Hegel faz do trabalho um valor em si-mesmo, dado que este se refere à essência humana. Pelo contrário, na tradição decorrente da Arendt muitas vezes retomada nas teorias favoráveis ao rendimento de subsistência, este valor associado ao trabalho é negado, ou “está em vias de extinção”. Os inquéritos sociológicas agora disponíveis desmentem esta ideia, mostrando que, em grande maioria, parte, os indivíduos querem-se encaixar no mundo do trabalho

O termo “valor” também é usado no campo económico e está associado com o trabalho em particular. E é aqui que as coisas se complicam. A economia política, que nasceu no final do século XVIII sob a mão de Smith e Ricardo, desenvolveu a teoria dita de valor-trabalho que faz com que o trabalho seja a base do valor da troca dos bens, o valor de uso sendo apenas a motivação de sua produção. Marx assumirá esta ideia de que só o trabalho produz valor mas muda a sua redação para explicar dois fenómenos. (1) o valor de uma mercadoria expressa a fração do trabalho coletivo que é socialmente validado nela. (2) O capitalista não compra o trabalho do assalariado, nem o seu produto, mas a sua força de trabalho,  de onde ele vai obter uma mais valia, dita o ganho de capital.

A polissemia do termo “valor”, em seguida, desdobra-se então de uma dificuldade adicional: falar de “valor do trabalho” presta-se à confusão porque, sem mais esclarecimentos, não se sabe se estamos a falar do “valor” trabalho no sentido filosófico, ou do valor recebido pelo trabalhador sob a forma de salários, ou, por fim, do valor produzido pelo trabalhador, muito maior do que o seu salário, a diferença correspondente ao lucro capitalista. Para colocá-lo sem rodeios, mas elegantemente, como Marx o fez: “o trabalho é a substância e a medida inerente dos valores, mas não tem valor em si mesmo.” 19]

D’après l’encadré de la « Note sur le revenu d’existence universel », Attac, février 2017, JMH

 


Notas

[11] Christophe Dejours, Travail vivant, tome II : Travail et émancipation, Paris, Payot, 2009, p. 177, cité par Alexis Cukier, « Introduction » à Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 7.

[12] Christophe Dejours, « Théorie du travail, théorie des pulsions et théorie critique : quelle articulation ? », in Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 131.

[13] Ibid., p. 133.

[14] Simone Weil, « Après la visite d’une mine », L’Effort, n° 229, 19 mars 1932, reproduit dans Geneviève Azam et Françoise Valon, Simone Weil ou l’expérience de la nécessité, Noisy-en-Campagne, Le Passager clandestin, 2016, p. 91-93.

[15] Danièle Linhart, « D’ou vient la souffrance des salariés du XXIe siècle ? Ruptures et continuités entre management moderne et logique taylorienne », dans ce numéro des Possibles.

[16] Emmanuel Renault, « Héritages et actualité de la critique immanente du travail », in Alexis Cukier (dir.), Travail vivant et théorie critique. Affects, pouvoir et critique du travail, Paris, PUF, 2017, p. 79.

[17] Pierre Bourdieu écrit dans Le sens pratique, Paris, Ed. de Minuit, 1980, p. 88 :  “De acordo com o programa sugerido por Marx nas Teses sobre Feuerbach, a noção de habitus visa a tornar possível uma teoria materialista do conhecimento que não abandone  ao idealismo a ideia que todo o  conhecimento, ingénuo ou douto, pressupõe um trabalho de construção (…). Todos os que utilizaram antes de mim este velho conceito (…) inspiravam-se (…)  de uma  intenção teórica vizinha do minha, ou seja da intenção de escapar ao mesmo tempo à filosofia do sujeito mas sem estar a sacrificar o agente, e à filosofia da estrutura, mas sem estar a renunciar  tomar em conta os efeitos que exerce sobre o agente e através dele. “

[18] Jacques Bidet, Marx et la Loi travail, Le corps biopolitique du Capital, Paris, Les Éditions sociales, 2016, p. 16.

[19] Karl Marx, Le Capital, Livre I, 1867, in Œuvres, Paris, Gallimard, La Pléiade, 1965, tome I, p. 1031.


.Artigo original aqui

 A terceira parte deste texto será publicada, amanhã, 26/10/2017, 22h


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