Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte II – Compreender a alta finança. 3. Compreender a finança nº 3 – De que mercados financeiros necessitamos ? (1ª parte). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

 Seleção de Júlio Marques Mota, tradução de Francisco Tavares

Parte II – Compreender a alta finança

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3. Compreender a finança nº 3 – De que mercados financeiros necessitamos? (1ª parte)

logo finance watch Por Finance Watch, 2014/2015

(1ª parte)

A acreditar nos livros, os mercados financeiros deveriam permitir alocar capital a projetos economicamente úteis (e deveriam idealmente ter um impacto social e ambiental positivo), em benefício da sociedade. Ou seja, deveriam desempenhar um papel essencial na nossa economia. Além disso, acontece que também estamos largamente implicados nos mercados financeiros enquanto consumidores, porque se pode aí encontrar uma parte da nossa poupança, das nossas pensões de reforma e dos nossos seguros.

O presente trabalho fornece informação sobre a natureza dos mercados financeiros e a sua evolução no decurso das últimas décadas. A segunda parte analisa determinados mitos veiculados pelos lóbis financeiros sobre os mercados e contrapõe uma série de argumentos.

 

ÍNDICE

Parte 1: O b.a.-ba

O que são os mercados financeiros e para que servem?

Que funções é suposto que os mercados financeiros devem cumprir?

Perspetiva histórica: como se passou do investimento à especulação?

Até que ponto necessitam os mercados financeiros de “liquidez”?

Parte 2: O debate e a posição de Finance Watch

Desmistificar as afirmações do lóbi financeiro

Qual a posição de Finance Watch? Promover o investimento, não a especulação

 

 PARTE 1: O b.a.-ba

O que são os mercados financeiros e para que servem?

Um mercado financeiro é um espaço onde os ativos financeiros (ações, obrigações, divisas, produtos derivados…) são comprados e vendidos por diferentes atores. Segundo as regras do mercado, os preços são fixados em função do nível de risco e das perspetivas de rentabilidade que apresentam os diferentes ativos.

Existem diversas formas de participar neste mercado:

  1. Enquanto emitente (empresa, governo…): o emitente procura um financiamento. Por conseguinte, emite títulos como sejam partes de capital (ações) ou instrumentos de dívida (obrigações). O emitente procura investidores estáveis a longo prazo. Indo ao mercado, poderá aceder aos fundos que procura e, em contrapartida, compromete-se a remunerar os seus investidores, pagando dividendos (ações) ou juros (obrigações).
  2. Enquanto investidor (individual, caixa de fundos de reforma ou de investimento, governo, empresa …): o investidor procura fazer crescer o seu capital. Procura uma remuneração justa pela sua exposição a diversos riscos: o risco de que o emitente se encontre em dificuldades financeiras e não possa pagar os juros previstos, o risco de que os títulos não possam ser revendidos no mercado secundário, etc. Os gestores de fundos de investimento e outros investidores institucionais (designados “zinzins”[1]) operam em nome de milhões de pessoas comuns que poupam para a sua reforma, colocam as suas economias: estes milhões de pessoas são os verdadeiros aforradores.
  3. Enquanto intermediário (banco, criador de mercado, corretor, gestor de fundos…): existe toda uma cadeia de intermediários que fazem a ligação entre os investidores e os emitentes. Os intermediários servem para facilitar o funcionamento dos mercados, mas ao mesmo tempo aumentam o custo de cada transação para os investidores. Quanto mais intermediários houver, mais se reduzirá a parte do rendimento recebido pelo investidor.

Com que se parece uma cadeia de intermediação financeira simples

No lado direito do gráfico (abaixo) estão os credores finais (chamados também aforradores finais). Este grupo compreende as famílias com as suas economias e os investidores prontos a comprar ativos (por exemplo, empresas, fundos de pensões, etc.). No lado esquerdo, estão os emitentes ou tomadores de empréstimos finais (por exemplo, as sociedades e instituições financeiras que emitem obrigações ou ações para se financiarem, famílias que contraem empréstimos para comprar a sua casa, etc. …). Os mercados financeiros são compostos por tudo o que neles se passa, ali onde os intermediários financeiros (bancos, corretores, criadores de mercado, gestores de fundos…) têm um papel chave. Por exemplo, a poupança das famílias pode ser utilizada através dos bancos tradicionais para financiar a concessão de empréstimos bancários. Também pode ser utilizada através dos fundos de investimento como os SICAV, ou através dos fundos de pensões, para investir em ações ou obrigações.

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“Perspetiva simplificada do processo de intermediação financeira”. Fonte: FMI

Uma boa infraestrutura não é suficiente para garantir um funcionamento eficaz dos mercados financeiros. A conduta correta dos atores determina igualmente o valor que os mercados financeiros trazem à economia real e à sociedade em geral. Isso necessita regras escritas por parte do legislador. Necessita também que existam autoridades públicas de supervisão que assegurem a boa aplicação das regras, bem como de códigos de conduta e outros compromissos dos atores do mercado.

O vídeo seguinte é uma boa introdução aos mercados financeiros, feito por “Dessine-moi l’éco: «A bolsa e o financiamento das empresas»:

Que funções é suposto que os mercados financeiros devem cumprir?

O objetivo principal dos mercados financeiros é canalizar a poupança e o capital para as atividades económicas mais produtivas.

Mais precisamente, os mercados financeiros preenchem três funções económicas fundamentais:

  • Alocar o capital, remunerar a poupança, favorecer o investimento: os mercados primários são os espaços onde os ativos financeiros (ações, obrigações, produtos derivados) são criados e distribuídos. É aqui que as empresas e os governos acedem a capital “fresco”, vendendo a investidores ações ou obrigações recém emitidas no mercado. No caso de uma emissão de ações, uma empresa pode decidir fazer aquilo que se chama uma entrada em bolsa (Oferta Pública Inicial, IPO em inglês, Initial Pulic Offering). Pode proceder depois a outras emissões de títulos, conforme as suas necessidades. Os compradores são em grande parte investidores institucionais, como os fundos de investimento.

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  • Troca de ativos existentes e formação dos preços: os investidores devem estar em condições de revenderem os títulos negociáveis em que investiram se assim o desejarem. Eis porque motivo, uma vez vendidos os títulos uma primeira vez no mercado primário, eles são negociados no chamado mercado secundário. Os mercados secundários são muito mais importantes que os mercados primários. Economicamente, não emitem novos títulos, mas permitem aos investidores negociarem entre si os títulos existentes, entrarem e saírem do mercado, e fixarem os preços dos títulos trocados. Estas funções permitem indiretamente um correto funcionamento do mercado primário. Teoricamente, os preços deviam refletir o valor essencial dos títulos e flutuarem em função dos sucessos (e fracassos) do emitente (micro-economia, ou fatores endógenos). São estes sinais que contribuem para dirigir o capital em direção a uma utilização economicamente útil, por exemplo encorajando o investimento nas empresas que funcionam bem, e vice-versa. Mas os mercados secundários podem também tornar-se um paraíso para os especuladores, e os preços estão por vezes longe do valor intrínseco dos títulos. A possibilidade de formação de uma bolha está sempre presente.
  • Gestão dos riscos: a terceira função dos mercados financeiros é a de contribuírem para a gestão dos riscos que surgem na economia real e na esfera financeira. Por exemplo, uma empresa de construção pode querer defender-se de um aumento potencial do preço do aço; ou um fundo de pensões pode querer proteção contra uma descida potencial das taxas de juro. Por isso existem instrumentos específicos (principalmente os chamados produtos derivados) que permitem que os atores do mercado transfiram diversos riscos (risco de crédito, risco de taxa de juro …) para outros intervenientes do mercado dispostos a assumir esses riscos. Isso pode permitir a certas empresas lançarem-se em atividades que de outro modo não o teriam feito. Mas o que é preciso não esquecer, é que a transferência do risco não o elimina. A crise financeira foi disso uma demonstração dramática. Além disso, o facto de que numerosos produtos derivados possam ser emitidos e trocados em maior quantidade que os riscos que é suposto cobrirem – ou que os ativos aos quais estão ligados – fazem deles uma ferramenta de especulação ideal. E de facto – e isso é uma evolução recente, existem nos mercados muito mais produtos derivados do que ativos. O resultado é um montante nocional de produtos derivados em circulação que é cerca de 9 vezes o valor do PIB do mundo inteiro, ou seja, cerca de 100.000 USD por cada homem, mulher e criança do planeta.

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«99% das transações de títulos não aportam nada à economia nem aos investidores»

John Bogle, o fundador da gestora de ativos Vanguard, explicou numa entrevista recente (Time, 27 julho 2015; Slate publicou um artigo baseado nessa entrevista) porque motivo os mercados financeiros beneficiam principalmente os intermediários: « O papel da finança é fornecer capital às empresas. Nós fazemos isso com 250 milhares de milhões de dólares por ano sob a forma ofertas em bolsa e de aumentos de capital. E que mais fazemos? Incitamos os investidores a trocarem cerca de 32 000 milhares de milhões de dólares de títulos anualmente. Portanto, pelas minhas contas, 99% daquilo que fazemos nesta indústria consiste em transações de uma pessoa com outra no interesse exclusivo do intermediário. É um desperdício considerável de recursos.»

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A fim de cumprir a sua função de maneira eficaz, um mercado financeiro deve ser:

  • Justo: o acesso ao mercado deve ser igual para todos os participantes, e protegido de comportamentos abusivos.
  • Ordenado: a oferta e a procura de ativos devem ser basicamente legais, e a volatilidade fraca.
  • Transparente: a informação sobre as ofertas de compra ou de venda (antes da transação) bem como sobre as operações executadas (após a transação), incluídos o volume e o preço, deve ser pública.
  • Fiável: as estruturas e os mecanismos do mercado devem assegurar as transações em cada fase da cadeia: negociação, compensação e liquidação.

 

(continua)

Texto original em http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/1142-comprendre-finance-3?lang=fr

 

Nota

[1] Jargão da finança. Literalmente significa malucos, principiantes, loucos.

 

 

 

 

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