Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. Parte III – A finança ao serviço da sociedade e não a sociedade ao serviço da finança – 3. Investir não é andar a apostar (1ª parte). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte III – A finança ao serviço da sociedade e não a sociedade ao serviço da finança.

Parte III texto 3 1 investing not betting

3. Investir não é andar a apostar (1ª parte)

Colocando os mercados financeiros ao serviço da sociedade. Tomada de posição sobre MiFID 2/MiFIR, a Diretiva relativa aos mercados de instrumentos financeiros

 

Por Finance Watch, 24 de abril 2012

Autor: Benoît Lallemand. Editores: Thierry Philipponnat, Greg Ford, Emily McCaffrey

(1ª parte)

De entre as máximas da finança ortodoxa nenhuma é, seguramente, mais anti-social do que o fetiche da liquidez, uma doutrina considerada uma virtude positiva por parte das instituições de investimento para concentrarem os seus recursos pela detenção na sua posse de títulos “líquidos”. Esquecem-se que não existe tal coisa de liquidez do investimento do ponto de vista do conjunto da comunidade. O objetivo social do investimento qualificado deveria ser vencer as forças negras do tempo e da ignorância que envolvem o nosso futuro. O atual objetivo, privado, dos mais qualificados investimentos de hoje é ganhar no prazo limite [“to beat the gun”], como os americanos tão bem o expressam, a fim de enganar a multidão, e passar a má, ou desvalorizada, meia coroa para outros.

Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money, Chapt.12, V

 

Indice

Pontos fundamentais

Recomendações

Preâmbulo: posição de Finance Watch face à UE

Introdução

I. O valor social dos Mercados Financeiros

A. O que são mercados financeiros?

B. Porque devem os Mercados Financeiros ser regulados?

C. Investimento e especulação

D. Liquidez e volume

II. Os mercados atuais e o impacto de MiFID 1

A. O contexto da MiFID

B. A lógica da MiFID

C. Terá a MiFID 1 contribuído para mercados mais eficazes?

D. O desafio da MiFID 2

III. A negociação em alta frequência

A. O que é?

B. Qual é o problema?

C. O que deve ser feito

IV. Especulação em derivados sobre matérias-primas

A. Qual é o problema?

B. O que deve ser feito

V. O lado escuro da negociação bolsista

A. O que é?

B. Qual é o problema?

C. O que deve ser feito

VI. A proteção ao investidor e ao empregado

A. Qual é o problema?

B. O que deve ser feito

Conclusões

Bibliografia

Pontos fundamentais

1. Servir a economia real e a sociedade real como um todo.

Este título deve ser mais do que uma frase de efeito: uma lição clara da crise é que os mercados financeiros perderam de vista a sua própria finalidade. Esta falha minou o objetivo central de MiFID (Diretiva sobre Mercados de Instrumentos Financeiros), que era o de apoiar o crescimento económico através da disponibilização de mais créditos baseados no mercado.

2. Os mercados financeiros não cumprirão a sua função principal sem regulação.

É perfeitamente natural que os participantes do mercado desenvolvam as suas atividades mais rentáveis, independentemente do panorama geral. Os mercados precisam de incentivos institucionais e de regulação para assegurar que proporcionem os benefícios sociais e económicos, e bem assim como os lucros, resultantes de uma rentável alocação de recursos e de estabilidade financeira.

3. A utilidade do papel das estruturas de mercado tem sido afetada sob o impulso da concorrência entre plataformas

Mesmo a concorrência crescente entre plataformas de negociação tem mostrado os seus limites. As plataformas de negociação, as câmaras de compensação e os depositários centrais de títulos têm um papel de serviço público a desempenhar; promovendo a negociação transparente e equitativa, limitando o risco de contraparte e o risco sistémico, garantindo a concretização das transações e atuando como um “notário de títulos”. Um tal papel não deve ser obscurecido pelo objetivo único de fazer lucros, ou ser internalizado como um serviço auxiliar pelas grandes empresas de investimento.

4. Investir é fundamentalmente diferente de apostar

Os investidores partilham do destino dos emitentes: centram-se sobre o valor fundamental e a administração, e eles ganham ou perdem com o sucesso do projeto subjacente. Os especuladores centram-se sobre os movimentos dos preços – qualquer que seja o seu sentido, de baixa ou de alta – e o comportamento de outros especuladores. Um mercado dominado pela especulação torna-se rapidamente um mercado divorciado da atividade económica, levando a que a sociedade carregue com os resultados de uma má e pobre afetação de recursos.

5. Liquidez não deve ser confundida com volume

A liquidez é a capacidade para que um participante do mercado compre e venda com impacto mínimo do mercado. Muito diferentemente, o volume é uma medida do número e do valor monetário das transações realizadas efetivamente independentemente do impacto sobre os preços dessas transações. A liquidez e o volume não são somente conceitos diferentes, mas igualmente, e com muita frequência, contradizem-se como, por exemplo, quando o volume gerado pelo comportamento especulativo agressivo retira liquidez a outros participantes do mercado.

6. A negociação de Alta Frequência prejudica a liquidez

A negociação de alta frequência cria volume, mas não liquidez. É construída, ou sobre estratégias de seguimento de tendências que geram volume de liquidez mas cujo impacto leva a que se retire liquidez de outros operadores no mercado, ou então sobre as chamadas estratégias de criação de liquidez que recolhem os descontos de liquidez mas que na realidade não fornecem liquidez, porque a limitada profundidade e a duração das suas cotações em milésimos de segundo priva os verdadeiros investidores da possibilidade de transacionarem significativas quantidades quando necessário. A negociação de alta frequência ameaça a equidade, a ordem e a integridade dos mercados.

7. A especulação excessiva sobre matérias-primas [commodities] aumenta os preços artificialmente e prejudica o mercado para os verdadeiros compradores e vendedores.

Os produtos financeiros ligados a matérias-primas comprovadamente fazem subir os preços das mercadorias para níveis artificialmente altos, prejudicando os consumidores em todos os lugares e os mais pobres acima de tudo. Eles também dificultam o funcionamento normal dos mercados de derivados sobre matérias-primas, de tal forma que os verdadeiros compradores e vendedores de matérias-primas não podem cobrir os seus riscos tão eficazmente.

8. A negociação paralela/sombra de larga escala é prejudicial para a equidade e a formação dos preços.

O aumento das transações via bolsas paralelas ou mercados de balcão (mercados OTC) reflete uma crescente falta de confiança nos mercados, causada em grande parte por uma explosão de transações de alta frequência e por insuficientes restrições quanto às derrogações nas regras sobre a transparência. Isso tem um impacto negativo no significado económico dos preços de mercado e permite a grandes firmas de investimentos ganharem à custa de outros operadores de mercado. Os clubes de investimento privados que estão abertos apenas para alguns “jogadores” devem ser banidos.

9. A maioria dos derivados pode ser negociada na base das categorias de plataformas de negociação existentes na diretiva MiFID 1.

O compromisso do G20 em tornar transparente a negociação dos derivados em mercados de balcão já é possível atualmente através das categorias de plataformas de negociação existentes do ‘Mercado regulado’ e da ‘Estrutura de negociação multilateral’. A proposta de uma categoria nova e menos regulamentada, ‘Estrutura de negociação organizada’ (Organized Trading Facility), é desnecessária e corre o risco de se ter de recorrer a arbitragem regulatória.

10. A proteção dos investidores e dos empregados evolui lado a lado.

Os incentivos pagos aos distribuidores de produtos financeiros criam conflitos de interesses que põem em risco a qualidade do conselho dado aos pequenos investidores aos balcões. Similarmente, as metas de vendas podem incentivar a venda de instrumentos inadequados aos clientes e fazer com que estes empregados deixem de cumprir adequadamente o seu papel de aconselhamento dos clientes.

 

(continua)

“Investing not betting”, disponível em http://www.finance-watch.org/press/press-releases/328-investing-not-betting-fw-position-paper/

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