Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 6 – O futuro do trabalho: sentido e valor do trabalho na Europa – Parte I

Este artigo retoma em primeiro lugar a história longa do trabalho, mostrando como a noção de trabalho tem sido enriquecido por novos significados ao longo dos séculos. Em seguida, analisa-se a importância que os europeus dão ao trabalho e empenhamo-nos em descrever as consequências sobre o trabalho e a utilização do discurso atual, de acordo com o qual a revolução tecnológica atual seria um portador de transformações radicais. O documento examina então o futuro do trabalho nas próximas décadas à luz de três cenários principais que estão entre si em concorrência para descrever o futuro do trabalho nas próximas décadas.

Parte I

(Dominique Méda, publicação da OIT, 2016, Tradução Júlio Marques Mota)

A um amigo meu dedico esta peça, ao Paulo Pedroso amigo de muitos anos

Meus caros

Hoje, um amigo meu faz anos, razão mais que suficiente para lhe dedicar um texto. Mas esse amigo  meu, em tempos com um promissor futuro político, foi pela lógica  do sistema  vítima de uma verdadeira cabala, montada por muita gente, uns no plano dos factos, o Juiz Rui Teixeira e a máquina da justiça ( ou injustiça? ) portuguesa , outros no plano das conjeturas, como o matraquear dos media diariamente a afirmar que os “pedófilos” eram tão inteligentes que enganam toda a gente e, portanto, tudo o que dizem para se salvarem das garras da justiça  é mentira, mas uma mentira tão inteligentemente urdida que seria impossível de desmontar. 

Condenado portanto por toda a gente antes de ser julgado. Ah, se Zenão fosse hoje vivo  diria simplesmente ironizando: eu, Zenão sou pedófilo e todos os pedófilos são mentirosos. A justiça que decida então. E Zenão, num ato de desprezo viraria as costas a homens como Durão Barroso que afirmavam orgulhosamente: agora é que a justiça  se vai verdadeiramente mostrar como Justiça, agora que vai atacar essa gente poderosa. E Durão Barroso sabia que as origens de classe social dele e do meu amigo seriam muito semelhantes, o meu amigo criado nas berças das Beiras  e o Durão Barroso criado pelas ruelas da Cova da Piedade. Sabia pois que mentia, mas aqui já não entra Zenão, porque a mentira transformava-spor magia em verdade e numa verdade que era então indestrutível. 

Desta história suja relembro uma outra versão. Numa discussão com um homem de Direito mas que não era de direita comentei uma informação de alguém bem informado do processo montante pelo juiz Teixeira como um processo  sem pés nem cabeça, sem estrutura jurídica que valha e que o sustente. Resposta deste meu amigo, nada diferente da de Durão Barroso: a maquinação é tal que até o juiz Teixeira fez isso de propósito para se desfazer a acusação em fanicos. Esta foi a outra verão da “verdade” indestrutível que eu ouvi. Zenão, aqui, cuspir-lhe-ia na cara.

Este meu amigo era e é um dos melhores especialistas em Portugal sobre mercados de trabalho e, portanto, é adicionalmente com muito prazer que lhe dedico esta peça sobre o mal-estar do Trabalho na Europa

Que conte muitos anos, bem mais que eu que já sou velho, mas que desse muitos eu  ainda esteja por aqui alguns  anos para ajudar a criar as minhas netas que bem precisam.

Boa leitura.

Júlio Marques Mota


Resumo

Este artigo retoma em primeiro lugar a história longa do trabalho, mostrando como a noção de trabalho tem sido enriquecido por novos significados ao longo dos séculos. Em seguida, analisa-se a importância que os europeus dão ao trabalho e empenhamo-nos em descrever as consequências sobre o trabalho e a utilização do discurso atual, de acordo com o qual a revolução tecnológica atual seria um portador de transformações radicais. O documento examina então o futuro do trabalho nas próximas décadas à luz de três cenários principais que estão entre si em concorrência para descrever o futuro do trabalho nas próximas décadas. São discutidas as consequências do primeiro cenário, intitulado “desmantelamento da lei do trabalho “. A validade do segundo cenário, o cenário da “revolução tecnológica” que anuncia o fim do trabalho devido à automação é então questionado. O terceiro cenário – o da reconversão ecológica – que parece ser ao mesmo tempo o mais apto a responder aos desafios ecológicos que as nossas sociedades enfrentam e a satisfazer as imensas expectativas que se colocam no trabalho e no emprego é então discutido e são examinadas as suas condições de possibilidade.

Índice  

1. Introdução

 2 A importância do trabalho na vida dos europeus

2.1 Uma história do conceito de trabalho

2.2 A relação dos europeus para com o trabalho

2.3 Fortes expectativas que se confrontam com a realidade do trabalho

 3 Os efeitos da automação sobre o trabalho e o emprego

3.1 O desaparecimento de postos de trabalho, mudança da natureza do trabalho: a revolução tecnológica em curso

 3.2  Os efeitos da digitalização, do desenvolvimento de plataformas e a uberização do emprego e do  trabalho

3.3 Que   política do trabalho e emprego perante o desenvolvimento da tecnologia digital e automação?

4 Três cenários para o futuro do trabalho

4.1 Dois cenários em voga: desmantelamento do direito do trabalho e revolução tecnológica

4.2 O cenário de reconversão ecológica: uma oportunidade para retomar a ideia do pleno emprego e do trabalho decente?

4.3 Quelles conditions pour l’avènement d’une reconversion écologique favorable à l’emploi et au travail décent? Que condições para a realização de uma reconversão ecológica  favorável ao emprego e ao trabalho  decente

5. Conclusão


1 Introdução

A maioria dos discursos dedicados ao futuro do trabalho sublinham o caráter radicalmente novo dos desenvolvimentos atuais. A mundialização das cadeias de comércio e de produção, por um lado, o rápido progresso da automatização, por outro lado, exigiria uma revisão drástica das regras em vigor nos mercados de trabalho europeus para adaptá-las à concorrência mundial. Deve ser assegurado que o fator trabalho não é um obstáculo para as empresas que exigem mais do que nunca mais flexibilidade, agilidade e capacidade de resposta. Mas, ao mesmo tempo, as expectativas colocadas pelos indivíduos sobre o trabalho nunca foram tão intensas e o desejo de que o trabalho lhes permitiria expressar-se tão forte. Por outro lado, os riscos ecológicos obrigam-nos a reconstruir completamente o nosso sistema produtivo.

O objetivo deste texto é tentar dar algumas respostas às perguntas que surgem hoje sobre o futuro do trabalho. Na seção 2, voltamos à história longa do trabalho, com base na hipótese de que a noção de trabalho é histórica e tem-se enriquecido com novos significados ao longo dos séculos, como é mostrado pela vasta literatura existente. Está-se então interessado na forma como esta pluralidade de significados é a base para uma diversidade de relações com o trabalho na tentativa de fazer um panorama rápido das expectativas dos europeus no que diz respeito ao trabalho e como essas expectativas são ou não são satisfeitas pela realidade do trabalho hoje. Na seção 3, o texto interessa-se com os efeitos sobre o trabalho e a utilização do discurso atualmente em voga, de acordo com o qual a revolução tecnológica atual levaria a transformações radicais, interrogando-se em particular sobre o determinismo tecnologia que se baseia nesta visão, analisando as políticas que ela implica. Na secção 4, o texto apresenta os três cenários principais em que o futuro do trabalho pode ser escrito: ao lado do cenário que incide sobre a revolução tecnológica, outro cenário prevê a redução drástica das proteções laborais e o emprego como uma das formas possíveis, enquanto que um terceiro, o cenário de reconversão ecológica, poderia constituir uma grande oportunidade para se articular com o pleno emprego, o sentido de trabalho e de trabalho decente ideias bem caras à Organização Internacional do Trabalho. As condições para a verificação de um tal cenário são então exploradas

2. A  importância do trabalho na vida dos europeus

Esta seção se concentra em apresentar uma longa história da ideia de trabalho destacando como as várias dimensões atualmente constitutivos deste conceito surgiram gradualmente para compor nosso conceito moderno de trabalho. Está então interessada na forma como estas diferentes dimensões são agora articuladas e valorizadas pelos europeus antes de medir a amplitude do fosso entre estas expectativas e a perceção catual do trabalho na Europa.

2.1 Uma longa história do conceito de trabalho

A nossa ideia moderna do trabalho é o resultado de uma história: o termo não significou sempre a mesma coisa nem foi objeto da mesma valorização ao longo dos diferentes séculos (MEDA, 2010). As investigações antropológicas e etnológicas sobre o estilo de vida das sociedades pré económicas (Sahlins, 1968;) Decola, 1983; (Chamoux, 1994) mostram que é impossível encontrar um significado idêntico para o termo de trabalho utilizado pelas diferentes sociedades estudadas. Na Grécia, há profissões, atividades, tarefas, procurar-se-ia em vão o trabalho, continua Jean-Pierre Vernnt (1965): as atividades são classificadas em categorias irredutivelmente diversas e atravessadas por distinções que impedem que se considere o trabalho como uma função única. A valorização do trabalho em germe no Novo Testamento foi expressa apenas gradualmente ao longo da Idade Média, a palavra “trabalho” tornando-se sinónimo de atividade produtiva apenas no século XVII (Rey, 2012). A nossa ideia moderna de trabalho foi gradualmente construída ao longo dos séculos XVIII e XIX, em várias ocasiões, cada uma delas adicionando uma camada adicional de significação (Meyersn, 1955).

2.1.1 A invenção do trabalho-abstrato

O século XVIII é o século onde o termo trabalho encontra a sua unidade: torna-se possível dizer o trabalho a partir do momento em que um certo número de atividades são consideradas suficientemente homogéneas para poderem ser agrupadas numa só palavra. Mas a noção de trabalho encontra a sua unidade ao custo do conteúdo concreto das atividades que abrange: é o trabalho-abstrato, comercializável e destacável da pessoa. O jurista Pothier (1764), descrevendo a categoria de coisas que podem ser alugadas, cita “casas, terra, mobiliário, direitos intangíveis, e os serviços de um homem livre”. Embora considerado como uma fonte de autonomia individual, principalmente por Locke (1690), a atividade de trabalho em si-mesma não é, no entanto, de forma alguma valorizada. O trabalho permanece com Smith (1776) e os seus contemporâneos sinónimo de dificuldade, esforço, sacrifício, e Marx criticará mais tarde ao autor de Riqueza das Nações.  [1]

2.1.2 A essência do trabalho do homem

No início do século XIX, muitos textos ecoavam a mesma transformação: o trabalho já não era considerado apenas como dificuldade, esforço, sacrifício, como uma despesa, como uma “desutilidade”, mas também como uma “liberdade criativa”, através da qual o homem pode transformar o mundo, torná-lo gerivel, habitável, imprimindo nele a sua marca.

O trabalho é então concebido como a essência do homem. Ao mesmo tempo, torna-se sinônimo de trabalho: no objeto que faço, onde coloco algo de mim mesmo, eu expresso-me através dele. Marx (1979) argumenta que, quando o trabalho deixar de ser trabalho alienado e em produziremos de maneira livre, não precisaremos mais do dinheiro como meio e os bens ou serviços que produziremos nos revelarão a uns e outros o que nós somos em nós mesmos: “Suponhamos que produzamos como seres humanos […]. As nossas produções seriam tantos espelhos em que nossos seres se refletiriam uns nos outros “. [2] Mas o trabalho só se tornará uma “primeira necessidade vital” quando produzirmos livremente, isto é, quando o trabalho assalariado foi abolido e a abundância foi alcançada.


Notas

[1] “considerar o trabalho simplesmente como um sacrifício, logo,  como fonte de valor, como o preço pago pelas coisas e conferindo  o preço às coisas, segundo o que elas custam  mais ou menos trabalho, é aceitarmos uma definição puramente negativa (…) O trabalho é uma atividade positiva, criativa “em K. Marx,”trabalhar como sacrifício e como mão de obra livre.”

Œuvres, Economie, tome II, p. 291-292, Gallimard, coll. La Pléiade, 1979

[2] Marx, Notes de lecture, in Économie et philosophie, Œuvres, Économie, t. II, Gallimard, 1979, p. 33.


Artigo original aqui

 A segunda parte deste texto será publicada, amanhã, 13/12/2017, 22h


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