Sobre o mercado de trabalho atual: do século XXI ao século XIX, um retorno a Marx. 6 – O futuro do trabalho: sentido e valor do trabalho na Europa – Parte IV

Este artigo retoma em primeiro lugar a história longa do trabalho, mostrando como a noção de trabalho tem sido enriquecido por novos significados ao longo dos séculos. Em seguida, analisa-se a importância que os europeus dão ao trabalho e empenhamo-nos em descrever as consequências sobre o trabalho e a utilização do discurso atual, de acordo com o qual a revolução tecnológica atual seria um portador de transformações radicais. O documento examina então o futuro do trabalho nas próximas décadas à luz de três cenários principais que estão entre si em concorrência para descrever o futuro do trabalho nas próximas décadas.

Parte IV

(Dominique Méda, publicação da OIT, 2016, Tradução Júlio Marques Mota)

3 Os efeitos da automação no trabalho e no emprego

Embora as expectativas dos europeus em matéria de trabalho sejam intensas, uma série de estudos potenciais anunciam uma escassez de emprego e uma mudança na natureza do trabalho, devido ao desenvolvimento de uma nova era na automação. Se os resultados destes estudos devem ser considerados com a máxima cautela, uma série de alterações ao trabalho em vários sectores, embora ainda marginais, contribuem para a transformação das condições para o exercício do trabalho. De acordo com o diagnóstico dos desenvolvimentos atuais e os objetivos prosseguidos, políticas muito diferentes estão a ser propostas para acelerar, acompanhar ou, pelo contrário, para tentar impedir o processo.

3.1 O desaparecimento do emprego, a mudança na natureza do trabalho: a revolução tecnológica em curso

Desde o início da década de 2010, o discurso de que a automação está prestes a eliminar uma parte considerável dos empregos existentes e de revolucionar o trabalho passou por um rapidíssimo desenvolvimento e agora adquiriu o estatuto de estatuto de evidência (confirmada pelo último relatório apresentado em Davos, The Future of Jobs, 2016). Também é muito fácil ligar esta saturação dos espaços académicos e mediático com a publicação de alguns livros ou artigos seminais pouco numerosos mas que foram então repetidos em cadeia. O primeiro é o de Erik Brynjolfsson e de Andrew McAfee, dois investigadores do MIT Center for digital Business, publicado em 2011 e intitulado Race Against The Machine. . How The Digital Revolution Is Accelerating Innovation, Driving Productivity, and Irreversibly Transforming Employment and The Economy (A concorrência contra a máquina: como a revolução digital está a acelerar a inovação, impulsionando a produtividade, e transformando irreversivelmente o emprego e a economia). Neste livro, os dois autores argumentam que é hora de aceitar a tese de Rifkin (o autor do fim do trabalho em 1995[1]) com todo o crédito que ela merece. De acordo com estes autores, os computadores agora são capazes de perceber o que só os humanos sabiam fazer antes. Estamos no alvorecer de uma “grande reestruturação”, porque estamos a entrar na “segunda metade do tabuleiro de xadrez”, ou seja que estamos na época em que os progressos realizados pelas tecnologias digitais se tornarão exponenciais como é sugerido pela lei de Moore[2] . Os computadores pertencem a esta categoria de tecnologias de uso geral- as tecnologias que interrompem e aceleram o ritmo normal do progresso económico, porque eles são a fonte de uma multiplicidade de inovações incrementais (Lipsey, Carlaw e Bekkar, (2005) e Field (2008)). Os autores apontam que, mesmo no campo do puro trabalho intelectual puro e das profissões que não têm nenhuma componente física, os computadores agora ocupam o terreno. Mas estas tecnologias são, acreditam eles, extremamente criativas de valor: tornam possível melhorar a produtividade e assim a riqueza coletiva. Eles são suscetíveis de arrastar muitas convulsões e, provavelmente, uma polarização da sociedade (Collins, 2014; Autor e Dorn, 2013; Dorn, 2016) ou mesmo uma desqualificação generalizada (Beaudry, Green e Sand 2013), e portanto requerem inovações organizacionais radicais, orquestradas por empresários e por um enorme investimento em “capital humano”.

3.1.1 O fim do trabalho?

Trabalhos publicados em 2013 por dois investigadores da Universidade de Oxford elaborou uma imagem ainda mais precisa das consequências dessas mudanças nos empregos: em «The Future of Employment: how susceptible are Jobs to Computerisation», (o futuro do emprego: como provavelmente serão os empregos para a informática”, Carl Benedickt Frey e Michael A. Osborne estudaram 702 profissões e estimaram a probabilidade destes serem substituídas por máquinas inteligentes. Alguns setores correm um baixo risco de serem automatizados, como a educação ou a saúde. Por outro lado, as profissões de vendas, os empregos administrativos, agrícolas ou mesmo de transporte estão em alto risco. Para os Estados Unidos, os autores estimam que 47 por cento dos ativos estão em áreas de alto risco de desemprego e que seus empregos poderiam vir a ser substituídos por robôs ou máquinas inteligentes dentro de dez a vinte anos[3]. Desde então, muitos autores retomaram este tema (Ford, 2015;) Benzell et al. 2015; Grupo Boston Consulting, 2015).

Outros estudos prospetivos, menos baseados em projeções quantificadas do que em coleções de testemunhos ou de inquéritos junto de consultores, gestores ou líderes de grandes grupos, elaboram uma imagem das consequências desses desenvolvimentos, em particular do desenvolvimento de tecnologias digitais sobre a natureza do trabalho (Bollier, 2010; WEF, 2016)[4]. De acordo com estas fontes, o trabalho, que já é feito de colaboração será levado a uma colaboração ainda mais profunda. A colaboração coletiva ( crowdsourcing) será uma das modalidades mais comuns para o exercício do trabalho, deixando um lugar central para a coprodução. Ele deixará de ser principalmente realizada dentro de grandes organizações hierárquicas, mas dentro de plataformas de criação de valor. A unidade de lugar e tempo que anteriormente caracterizava o trabalho está em perigo de desaparecer: este deixará cada vez mais de estar localizado num tempo e num espaço determinado: Haverá cada vez menos diferença entre trabalho e não trabalho, entre vida profissional e vida privada. O trabalho confundir-se-á com um envolvimento profissional de 24 horas diárias, a carreira é uma sucessão de empregos que caberá a cada um gerir por si-mesmo. Uma vez que uma grande parte das profissões serão automatizados e as competências específicas ficarão sujeitas a uma rápida obsolescência, são as disposições dos indivíduos que serão decisivas, em especial a capacidade de assegurar a liderança, de comunicar, de procurar constantemente o que é novidade, de inovar. Este será o fim da hierarquia do assalariado: cada um será o seu próprio empregador, terá que se tornar a si-mesmo numa empresa. A lógica de gestão com base no resultado será acompanhada de uma avaliação “a 720 °”, uma avaliação permanente na qual assenta pois a reputação. A revolução tecnológica que está em marcha -e de que ainda não viram todos os efeitos sobre a taxa de crescimento e produtividade, por razões de desfasamento temporal e de inadequação das ferramentas de medição existentes de acordo com os proponentes dessas ideias- constitui a pista principal para evitar que as nossas sociedades corram o risco de estagnação secular (Teulings e Baldwin, 2014)

3.1.2 O setor digital: vanguarda das transformações

Para alguns autores, o setor digital está na vanguarda dessas transformações e destacam a inadequação da legislação do trabalho, incapaz de dar às empresas a flexibilidade de que elas precisariam e protegendo os trabalhadores de uma carga de trabalho muito grande. Na sequência do relatório que moderniza a legislação laboral para enfrentar os desafios do século XXI publicado em 2006 pela Comissão das Comunidades Europeias, alguns apelam à flexibilização das regras a funcionarem no seio do assalariado (por exemplo, a extensão da dispositivo francês do pacote-dias para mais categorias de trabalhadores (Mettling, 2015) ou a revisão da Diretiva Europeia do tempo de trabalho de uma forma mais favorável às derrogações, ao opt-out e ao aumento do número de trabalhadores autónomos) e o desenvolvimento de para-subordinação (já implementado em Itália e Espanha), indicando que, caso contrário, a adaptação será feita pela expansão massiva de formas atípicas de emprego já em pleno desenvolvimento (freelancers, auto empreendedores…). A promoção desta solução – que poderia acomodar-se duma redução nas proteções associadas aos salários – é acompanhada por um discurso muitas vezes encantado sobre as virtudes da economia colaborativa, incluindo a capacidade de criar laços sociais e de aumentar a mercantilização é louvada, bem como o alegado desejo de jovens não se quererem juntar ao assalariado, o que seria sinónimo de uma hierarquia pesada ao contrário da criação de uma empresa, muitas vezes apresentado como a via real combinando flexibilidade e autonomia. Então, o que é chamado de uberização da empresa (a ligação imediata entre quem oferece e quem procura serviços através de plataformas de computador) é muitas vezes considerada como uma das melhores maneiras de acabar com os monopólios e proteções que rodeiam certas profissões, bem como com as denominadas rigidezes de certos mercados de trabalho europeus.

O cenário da revolução tecnológica parece pois particularmente bem  acomodar-se com um desmantelamento das proteções do trabalho e emprego ainda em vigor na Europa. Os seus efeitos sobre o emprego e o trabalho exigem pois ser precisamente avaliados.

3.2 Os efeitos da digitalização, o desenvolvimento das plataformas e a uberização no emprego e no trabalho

Continuemos a ter em conta as previsões acima referidas sobre os efeitos da digitalização no emprego. Esses estudos são de fato extremamente controversos: os investigadores Graetz e Michaels (2015), analisando o que aconteceu em dezassete países em quinze anos, mostram, por exemplo, que a robótica fez ganhar quase metade de um ponto de crescimento por ano, sem prejudicar o emprego. Um estudo da Deloitte feito a partir de 140 anos de estatística sobre a Inglaterra e o país de Gales destacou o facto de que o processo de robótica tinha sido uma “máquina formidável para criar empregos”. O economista Jean Gadrey (2015) recorda, ridicularizando as previsões alarmistas do relatório Nora-Minc sobre a informatização da sociedade publicado em 1978 em França: anunciaram o fim da criação de emprego nos serviços (p. 35). No entanto, a quota de serviços no total do emprego aumentou de 57 por cento em 1980 para mais de 70 por cento em 2000. Caminharíamos, segundo eles, para uma inevitável redução no pessoal das secretarias (estes aumentaram entre 1980 e 2000), e para um forte declínio no emprego em bancos e seguros: este emprego continuou a progredir nos 1980 anos e, se começou em seguida um declínio, isso não tem nada a ver com a informática mas acima de tudo ao contexto da “desintermediação” dos anos 1990 (…) A quota de serviços no emprego está agora perto de 80 por cento. Entre os sectores e profissões cujo emprego progrediu mais desde o relatório Nora-Minc estão quase todos aqueles cujo relatório anunciou que se tornariam a “indústria siderúrgica de amanhã ” [5]. Na mesma linha, durante o Congresso organizado pelo Instituto Sindical Europeu e pela Confederação Europeia dos Sindicatos sob o tema «Shaping the New World of Work», ( “Moldando o novo mundo do trabalho”, Loungani (2016) apresentou um gráfico destacando que o número de funcionários da banca tinha continuou a aumentar, apesar da propagação das máquinas ATM. Melhor, um estudo recente (Arntz , Gregory e Zierahn, 2016) mostrou que o dado de 47 por cento dos postos de trabalho ameaçados no estudo Frey e Osborne foi significativamente sobrevalorizado e reduziu esse valor para 9 por cento do trabalho. A metodologia do estudo dos dois pesquisadores de Oxford também foi criticada (Vendramin e V, 2016).

Não se pode deixar de ter de acompanhar Gadrey (2015) quando este explica porque é que a previsão está enganada: eles generalizam a setores inteiros o caso de segmentos onde a máquina substitui o ser humano; Eles raciocinam, com tudo o resto igual, e esquecem que quando o conteúdo da atividade e da produção muda fortemente, um processo de enriquecimento em novos serviços e, portanto, muitas vezes em postos de trabalho é também criado; por fim, negligenciam a resistência das populações. Só temos de nos espantar pelo determinismo tecnológico que caracteriza todas essas previsões, como se tudo o que era possível teria mesmo de acontecer e como se as pessoas fossem silenciosamente deixar suprimir metade dos postos de trabalhos em dez anos ou aceitar deixaram-se tratar, acompanhar, educar, conduzir, por robôs. Estes trabalhos também esquecem que a substituição pura de seres humanos por robôs não é a única solução: a cooperação, cobotisation, (robótica colaborativa) que permite, por exemplo, reduzir significativamente o que é penoso no trabalho e que organiza as complementaridades estreitas entre o trabalho humano e o trabalho do robô, é uma opção igualmente plausível.


Notas

[1] Neste livro, Rifkin explica que o progresso tecnológico e a automação irão inevitavelmente destruir empregos e causar o aumento do desemprego. Apenas alguns profissionais especializados em manipulação de símbolos serão capazes de manter os seus empregos. Um setor quaternário desenvolver-se-á para manter os laços sociais.

[2] Segundo a qual o poder da informática grande público em  geral dobra em  cada dois anos. Não obstante, Moore assinalou que a sua lei toprnar-se-á obsoleta por volta de  2020.

[3]  «47 percent of total US employment is in the high risk category, meaning that associated occupations are potentially automatable over some unspecified number of years, perhaps a decade or two» (Frey et Osborne 2013, p. 38)

[4] O relatório proposto no  Fórum de Davos, sob o título The future of jobs,, vai na  mesma direção, com base em entrevistas realizado com 371 gestores  e diretores de recursos humanos de grandes empresas de todo o mundo que responderam a um questionário On-line

[5] 15 http://alternatives-economiques.fr/blogs/gadrey/2015/06/01/le-mythe-de-la-robotisation-detruisant-desemplois-par-millions-1/


Artigo original aqui

 A quinta parte deste texto será publicada, amanhã, 20/12/2017, 22h


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