A NOSSA PENÍNSULA – 12 – SAUDADE –  por Carlos Loures

 

Saudade é palavra que tem ocupado muito espaço na memória colectiva dos portugueses. Desde as cantigas de amigo, de amor, de escárnio e maldizer, sob a roupagem arcaica de soidad, que saudade se transformou num ícone cultural que viria mesmo a dar lugar a uma corrente estética com ramificações filosóficas e políticas. Teixeira de Pascoais foi o impulsionador desse movimento que no alvor do século XX agitou a vida cultural portuguesa e que envolveu intelectuais respeitáveis como António Carneiro, Carolina Michaëlis, António Sérgio, Fernando Pessoa…

A base desse movimento seria a palavra saudade que significa um irreparável sentimento de perda. A intraduzibilidade do vocábulo daria à língua portuguesa uma profundidade ímpar. Embora experimentando a tal nostalgia de um passado que até pode situar-se no futuro, os falantes de outros idiomas, necessitam de um tratado de filosofia para explicar o que nós podemos dizer com uma palavra mágica.

No seu livro Dois Povos ibéricos (Portugal e Catalunha), o escritor catalão Fèlix Cucurull estuda o fenómeno da palavra saudade – e ficamos a saber que na Catalunha existe um substantivo com o mesmo poder e abrangente campo semântico – enyorança. Com a vantagem catalã de haver um verbo – enyorar que permite situar aquele sentimento por todo o leque da alma. Os galegos, além de terem a saudade, visto que o nosso idioma também lhes pertence, têm ainda o termo morriña com significado semelhante.  Os de língua castelhana não têm essa angústia existencial condensada numa palavra. Echar de menos (ou echar menos) é o melhor que podem fazer . Tal como Filipe II no poema de António Gedeão:

Filipe II tinha um colar de oiro/tinha um colar de oiro com pedras/rubis./Cingia a cintura com cinto de coiro,/com fivela de oiro,/olho de perdiz./Comia num prato/de prata lavrada/girafa trufada,/rissóis de serpente./O copo era um gomo/que em flor desabrocha,/de cristal de rocha/do mais transparente./Andava nas salas/forradas de Arrás,/com panos por cima,/pela frente e por trás./Tapetes flamengos,/combates de galos,/alões e podengos,/falcões e cavalos./Dormia na cama/de prata maciça/com dossel de lhama/de franja roliça./Na mesa do canto/vermelho damasco/a tíbia de um santo/guardada num frasco./Foi dono da terra,/foi senhor do mundo,/nada lhe faltava,/Filipe Segundo./Tinha oiro e prata,/pedras nunca vistas,/safira, topázios,/rubis, ametistas./Tinha tudo, tudo/sem peso nem conta,/bragas de veludo,/peliças de lontra./Um homem tão grande/tem tudo o que quer./O que ele não tinha/era um fecho éclair.

Nem um fecho éclair nem a palavra saudade. Echava de menos no tener saudade.

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s

%d bloggers like this: