Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado: uma exposição e uma análise crítica. Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise – 1. Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã – uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia (8ª parte). Por Finance Watch

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel the Younger, Satire on Tulip Mania, c. 1640

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte IV – A titularização como meio para continuar na trajetória da crise

 Parte IV texto 1 1

1. Uma oportunidade falhada de restabelecer a finança não-criativa, a finança segura, a finança sã – uma análise sobre a Iniciativa de Financiamento a Longo Prazo da União Europeia (8ª parte)

Por Finance Watch, em 15 de dezembro de 2014

Autor: Frédéric Hache. Editor: Greg Ford

(8ª parte)

 

II. Titularização 2.0

(…)

 

2. Benefícios da titularização.

A titularização proporciona uma forma barata de financiamento para o emitente

Da perspetiva de uma entidade emissora, a titularização oferece o acesso a uma fonte barata de financiamento: como os títulos criados são totalmente colateralisados, o risco de crédito melhorado e isolados da entidade emissora, ou seja da entidade que criou os empréstimos subjacentes à titularização, estes títulos podem obter uma notação mais alta e assim oferecer uma taxa mais baixa do que o estabelecimento financeiro que inicialmente gerou esses mesmos créditos, proporcionando assim uma fonte de financiamento mais barata do que a emissão de obrigações ou de empréstimos.

A titularização permite que os tomadores de empréstimos acedam a um leque mais alargado de investidores

A titularização permite igualmente aos bancos e aos devedores finais acederem a um leque mais alargado de investidores adaptando e combinando diferentes parcelas (tranches) de títulos colateralizados ao perfil de risco e de preferências dos investidores.

Transferindo o risco de crédito para investidores exteriores, a titularização liberta igualmente o capital regulamentar dos bancos, permitindo assim que os bancos concedam mais empréstimos, que criem mais dívida.

Quando comparado com outras formas de financiamento colateralizado, a oneração dos ativos associados à titularização é mais baixa: nas outras formas de financiamento colateralizado o banco utiliza os ativos como garantia mas não os vende. A proporção de ativos num balanço marcada como colateral, como garantia, e portanto fora do alcance de credores normais no caso de uma falência é chamada então oneração dos ativos [asset encumbrance]. Quando esta carga é alta, pode desencorajar os investidores de comprarem os títulos de um banco não seguro, os títulos não cobertos de dívida de um banco.

A transferência do risco de crédito, o financiamento mais barato e as taxas e comissões ganhas no processo também aumentam significativamente a rentabilidade.

Na perspetiva de um investidor, a titularização, se corretamente estruturada, pode colocar no mercado ativos altamente cotados que combinam com os seus mandatos de investimento e oferecem rendimentos atrativos, uma vez que o retorno ajustado pelo risco sobre os ABS é tipicamente mais alto relativamente a investimentos similarmente cotados e não colateralizados [87]. Embora em princípio os investidores pudessem aumentar diretamente os empréstimos, frequentemente, na prática não têm nem o conhecimento, nem as infra-estruturas ou o mandato para investirem em empréstimos ilíquidos. Pode igualmente permitir o acesso a outras classes de ativos e áreas geográficas, tais como empréstimos de estudantes dos EUA ou dívidas relativas a cartões de crédito do Canadá, embora a crise mostre que os benefícios da diversificação eram frequentemente mais baixos do que o esperado.

[A titularização] cria também ativos altamente cotados e líquidos que correspondem às preferências dos investidores e podem também ser usados como colateral

Na perspetiva de um banco central, ao libertar os balanços dos bancos a titularização poderia apoiar a transmissão da política monetária acomodatícia na medida em que o capital libertado é usado para fornecer mais empréstimos às sociedades não financeiras e às famílias.

Uma reativação da titularização também poderia aprofundar a disponibilidade de colateral altamente cotado num contexto em que, para melhor ou para pior, a garantia é cada vez mais o lubrificante de todas as transações.

Por último, é também afirmado que, contribuindo para a diversificação do financiamento e de uma distribuição mais ampla dos riscos, a titularização pode no longo prazo ajudar a economia europeia a aguentar melhor futuras crises  [88] e ser portanto benéfica para a estabilidade financeira [89] . O argumento é que a transferência de risco para os investidores não-bancários vai reduzir o risco nos balanços dos bancos e difundi-lo entre uma mais ampla gama de partes interessadas, proporcionando que os mutuários acedam a um leque mais vasto de potenciais financiadores e reduzindo assim a sua dependência dos bancos locais. Como veremos na parte seguinte, a validade desta afirmação depende fortemente do tipo de titularização que irá ressurgir.

3. Os riscos de titularização

Muito tem sido escrito sobre os riscos de titularização. Sem pretender ser exaustivo, vamos tentar descrever os principais riscos ligados à titularização, quer os riscos para as instituições individuais quer os riscos sistémicos, bem como os fatores que criam esses riscos. Também vamos tentar distinguir sempre que possível entre riscos gerais e riscos e fatores que cresceram especificamente nos anos de pré-crise.

Contudo, a titularização aumenta a pro-ciclicidade do sistema financeiro … o que na prática significa mais crédito durante as bolhas especulativas e uma maior redução do crédito durante as recessões

Riscos gerais

a. Pró-ciclicidade da criação de alavancagem e a excessiva alavancagem

A pro-ciclicidade é endémica à finança, mas é especialmente alta na titularização. A alavancagem é dita ser pró-cíclica quando é positivamente correlacionada com o estado geral da economia, dando mais amplitude às tendências em presença na economia, à subida ou à descida da atividade económica. Praticamente isso toma a forma de mais empréstimos durante os booms e duma redução no crédito durante as recessões.

Há uma série de fatores que contribuem para essa pró-ciclicidade:

1. Uso de modelos Valor sujeito a Risco [Value-at-Risk] e do método da contabilidade pelos valores de mercado.

Primeiro, a pró-ciclicidade da alavancagem é uma consequência dos bancos visarem ter o seu próprio capital numa proporção fixa do seu próprio Valor sujeito a Risco [90] em conjunto com a prática generalizada da contabilização ao valor de mercado que faz com que o valor dos ativos dos bancos dependam fortemente da variação de preços de ativos negociados nos mercados  financeiros [91] : num cenário de crescimento, a medida do risco sobre os ativos dos bancos diminui e o valor corrente de mercado [marked-to-market value] do capital do banco sobe [92], proporcionando aos bancos uma capacidade adicional para aumentar as suas detenções de títulos e alavancagem. A detenção adicional de títulos leva a um aumento de pressão crescente sobre os preços dos ativos, proporcionando maior capacidade e alimentando uma espiral ascendente dos seus preços. Inversamente, um declínio nos preços dos ativos irá alimentar uma espiral descendente de alavancagem e dos preços dos ativos.

Uma vez que uma exposição sobre posições titularizadas leva a uma maior proporção de ativos dos bancos avaliados aos preços correntes de mercado comparativamente com uma carteira de crédito, isso implica uma maior pró-ciclicidade da dimensão do balanço dos bancos e da sua alavancagem.

2. A parcelização ou divisão em tranches do pool dos créditos

A titularização e o uso de CDS [93] permite aos bancos diversificarem mais o seu risco. Porém, isto conduz igualmente os bancos a terem portfólios globais de ativos mais similares entre si do que no caso de portfólios de créditos locais. Embora isto permita aos bancos reduzir o seu risco individualmente, a correlação entre os balanços dos bancos aumenta o que é um problema em termos de risco sistémico ou de uma perspetiva de prudência macro, porque o risco é deslocado para a cauda.

A parcelização também introduz um risco de contágio entre parcelas de títulos (tranches) o que aumenta o risco no sistema, pois pode criar impactos abruptos e vendas ao desbarato quando os investidores com títulos de parcelas seniores têm de vender os ativos após um rebaixamento do rating, contribuindo assim para uma pró-ciclicidade adicional.

3. As decisões de empréstimos baseadas nos mercados e os seus enviesamentos na pré-seleção.

A título de exemplo, quando os emitentes estão mais preocupados com a obtenção de uma boa notação do que com a avaliação da credibilidade dos mutuários… as decisões de empréstimos passam a basear-se mais nos fatores do mercado

Na titularização as agências de rating de crédito substituíram os agentes de crédito e os comités de crédito. Isto envolve um certo número de consequências: uma vez que as agências de notação estão distantes dos devedores, só podem processar a informação dita dura [94], tais como as pontuações de crédito e os empréstimos visto em termos de rácios de valor, e não têm nenhum conhecimento da informação de proximidade, mais detalhada, que os agentes de crédito recolhem para avaliar a credibilidade do crédito pelo potencial devedor. Por sua vez, isto significa que os originadores do pool de empréstimos centrados sobre a obtenção de uma boa notação deixam de recolher esta informação útil e centram-se, em vez disso, apenas sobre a necessidade de se assegurarem de que os devedores tenham as boas pontuações de crédito e um percetível baixo ratio empréstimo-valor [95] . A avaliação do crédito deixa de incorporar a acumulação de conhecimentos sobre os devedores ao longo do tempo e em circunstâncias estáveis.

Em vez disso as agências de notação procuram correlações estatísticas entre grupos de ativos com notações de crédito agregado e da sua probabilidade de reembolso [96]. Esta abordagem quantitativa para a concessão de empréstimos transforma o negócio tradicional de empréstimo de uma relação baseada em muitos conhecimentos de proximidade sobre os tomadores de empréstimos numa relação impulsionada basicamente pelo mercado, aumentando a dependência da tomada de decisões dos movimentos mais gerais do mercado [97] e, consequentemente, aumentando a próciclicidade.

Este procedimento é aplicado não apenas após a titularização dos ativos, mas também na forma como são selecionados os empréstimos da carteira de ativos para se conseguir uma determinada probabilidade de reembolso a fim de obter uma boa notação, mas não pelo passado histórico dos mutuários. Por conseguinte, este processo cria um enviesamento de pré-seleção para cumprir os critérios das agências de rating e não incorpora o conhecimento sobre os mutuários ao longo do tempo em condições estáveis. Isso significa também que a influência das metodologias das agências de notação de crédito têm impactos não só sobre a notação da operação de titularização, mas também sobre a decisão original de empréstimo – a aprovação de linhas de crédito, os volumes concedidos e os preços cobrados – devido ao forte desejo dos originadores do crédito em terem uma boa classificação para os seus pools de empréstimos.

Além disso, as agências de notação de crédito não se centram sobre o mérito global de crédito do mutuário, mas sim em previsões inerentemente incertas sobre o futuro sucesso de um projeto de investimento. Os bancos tradicionais, por contraste, são empresas em atividade e quando concedem um empréstimo pretendem saber não apenas se o mutuário irá pagar este dado empréstimo mas também, e mais importante ainda, se o banco pode emprestar novamente a esse cliente, e também se preocupam em não quebrar as relações existentes. Porque as avaliações de crédito dos bancos não são feitas apenas com base nas frágeis previsões de fluxos de caixa de um projeto, mas sim numa avaliação global mais ampla de solvabilidade e com uma visão de longo prazo sobre a capacidade de um cliente para pedir um novo empréstimo, eles terão uma maior margem de segurança e será mais improvável que sejam necessários ajustamentos. Estas diferenças fazem os processos tradicionais de aprovação de empréstimos não somente mais robustos, mas também menos pró-cíclicos. Alguns argumentam que a intensificação da ligação ao mercado de capitais pode enfraquecer as propriedades clássicas do relacionamento na concessão de empréstimos: seguro contra desenvolvimentos adversos ao nível da empresa [98].

4. Comportamento mimético e estruturas de compensação.

A titularização também atrai menos investidores sofisticados que são mais dependentes da notação das agências … enquanto que as agências de notação exigem mais qualidade dos créditos durante as recessões e vice versa para manterem as notações estáveis …

Apesar do facto de que a titularização envolve um maior número de participantes e deve, assim, levar a uma maior diversidade de opiniões e ações, a concorrência e as estruturas de compensação desalinhadas podem induzir a uma correlação nos comportamentos maior quer o desejável, levando a que aumentem os comportamentos pro-cíclicos [99].

Como discutido pelo antigo economista chefe do FMI, Raghuram Rajan, a titularização atrai novos investidores não sofisticados que se centram sobre determinadas partes da informação pública prontamente disponível. Porque estes investidores não sofisticados tendem a mover-se no mercado com comportamentos que são difíceis de neutralizar, os investidores sofisticados “podem reduzir a sua busca de fontes de informação alternativas e menos públicas. O mercado pode tornar-se informativamente menos diversificado à medida que se torna mais extensivo aumentando o risco se a informação pública se tornar menos fiável. Embora um mercado “Hayekiano”, agregando de todas as formas a informação, seja o ideal dos defensores do mercado, os incentivos para a aquisição da informação podem tornar-se mudos e, em vez disso, os participantes do mercado podem focalizar-se excessivamente em fontes prontamente disponíveis em que eles acreditam que todos se focam sobre essas fontes ” [100].

As estruturas da compensação podem igualmente incentivar comportamentos mimético á medida que os resultados dos gestores de ativos são comparados com os dos seus pares: o comportamento mimético fornece a confiança de que o gestor de ativos não vai ficar significativamente aquém das possibilidades dos seus pares, sobreavaliando o facto de que o comportamento mimético significa que os preços dos ativos se encontram longe o seu valor fundamental durante os períodos de forte alta. “É necessário um gestor de investimentos com muita coragem e com investidores infinitamente pacientes para poderem lutar contra a tendência, mesmo se a tendência é um desvio do valor fundamental”  [101]. De qualquer modo, os comportamentos miméticos são uma correlação de comportamento e por conseguinte amplificam as tendências e a pró-ciclicidade.

5. Os mecanismos acionadores de resposta aos resultados da titularização

Como foi mencionado pelo BIS, alguns mecanismos de melhoria da qualidade do crédito incorporados na estrutura de titularização podem aumentar ainda mais a pró-ciclicidade. Um exemplo são “os mecanismos acionadores de resposta aos resultados da titularização (como o desencadear de amortização antecipada na renovação das titularizações ou os mecanismos acionadores associados ao valor dos mercados), que durante a crise provaram que poderiam estar altamente inter-relacionados, correlacionados e pró-cíclicos ” [102].

Os mecanismos acionadores de resposta aos resultados da titularização são cláusulas do contrato que podem estipular, por exemplo, que, desde que alguns limiares em termos de perdas e/ou de número de empréstimos cujo pagamento está por cumprir não estejam atingidos depois de um determinado período, o dinheiro detido em reservas é libertado para pagar algumas tranches subordinadas, aumentando o seu valor e reduzindo o seu risco. Como as perdas e os empréstimos em falha de cumprimento são afetados pelo ciclo económico, os mecanismos de acionamento neles baseados são pró-cíclicos: um boom imobiliário levará a perdas mais baixas e a uma menor quantidade de empréstimos sobre hipotecas com pagamentos por efetuar, o que, por sua vez, levará a uma redução do risco medido sobre as tranches subordinadas, permitindo mais tomada de risco e alimentando o boom.

6. Os efeitos pró-cíclicos dos ratings à medida que se avança no ciclo e efeitos abruptos na regulação

Diferentemente dos ratings de obrigações de empresas baseados em grande parte em características específicas das empresas e assentes no julgamento dos analistas, as notações dos ABS são baseadas em modelos quantitativos e assentam explicitamente numa previsão de condições macroeconómicas para se avaliar a distribuição das perdas e os fluxos de caixa futuros da carteira de ativos subjacentes.

Em consequência, à medida que as condições económicas se deterioram, as agências de notação devem responder à mudança na distribuição de perdas, aumentando a quantidade de melhorias de crédito para manter as classificações estáveis. Daqui resulta que a estabilização das notações ao longo do ciclo está associada a uma melhoria de qualidade do crédito prócíclica [103]: à medida que o mercado imobiliário melhora, a melhoria da qualidade de crédito diminui; inversamente com o mercado da habitação a desacelerar, o a melhoria da qualidade de crédito aumenta o que tem o potencial de ampliar o ciclo do imobiliário de habitação.

Manter a melhoria da qualidade de crédito constante ao longo do ciclo resultaria em notações de instabilidade, com melhorias durante um boom e degradações durante uma recessão, enquanto que as agências de notação visam proporcionar classificações estáveis. Por conseguinte, a pró-ciclicidade da melhoria da qualidade de crédito a fim de manter ratings estáveis, mas com a infeliz consequência de amplificar os ciclos do mercado de habitação (no caso das hipotecas): quando o mercado da habitação desacelera, as agências de notação exigirão mais melhorias da qualidade do crédito, nomeadamente uma maior parcela subordinada para manterem a classificação AAA das tranches seniores, aumentando assim o custo de financiamento (uma vez que as tranches subordinadas pagam uma taxa de juro mais elevada). Este custo mais elevado dos fundos exigirá maiores taxas de juros sobre os empréstimos hipotecários ou um endurecimento nos padrões de subscrição, em ambos os casos reduzindo a oferta de crédito pro-cíclica e ampliando o declínio do mercado de habitação.

A antiga regulação prudencial bancária assente nas notações externas também criou efeitos abruptos pró-cíclicos sobre os requisitos de capital, uma vez que as operações de titularização eram totalmente dedutíveis do capital social, sob a condição de responderem a determinadas qualidades de crédito quanto aos critérios de ratings, mas a quantidade de capital exigida pela regulação, uma vez que se passasse um dado limite, levaria potencialmente a vendas ao desbarato das exposições titularizadas.

 

7. O financiamento por grosso [104]

Quando as titularizações criadas são utilizadas como garantia para obter financiamento, isso cria mais pro-ciclicidade… uma vez que a margem de segurança exigida pelos financiadores flutua com as condições económicas

O financiamento por grosso descreve os empréstimos de curto prazo colateralizados [105]contraídos pelos bancos a outros bancos e instituições financeiras. Muitas das atividades e entidades envolvidas no processo de titularização são financiadas no mercado de financiamento por grosso por fornecedores tais como os fundos do mercado monetário e os fundos de rendimentos fixos. Durante os anos que antecederam a crise viu-se uma utilização extensiva desta forma de financiamento.

Para os bancos aumentarem os seus empréstimos, necessitam mais capital regulamentar ou então uma redução dos seus riscos existentes, o que libertará capital e possibilitará mais financiamento. As principais responsabilidades dos bancos são depósitos, mas estes são relativamente estáveis ao longo do tempo e, portanto, não vão permitir um rápido e grande aumento dos empréstimos concedidos. O financiamento por grosso, por outro lado, oferece uma grande fonte de financiamento limitada apenas pela quantidade de ativos de alta qualidade e da sua liquidez que podem ser usados como garantia, os mesmos ativos que são criados através do processo de titularização.

O financiamento por grosso permite, assim, aos bancos aumentarem a concessão de empréstimos e fazerem crescer o seu balanço para além das suas responsabilidades fundamentais, permitindo-lhes tirar proveito do aumento do seu capital próprio e a diminuição dos riscos calculados nos períodos de booms expandir o seu balanço e a sua alavancagem [106].

A única restrição sobre o valor em que uma compra de ativos pode ser financiada por empréstimos contra o seu colateral é a depreciação potencial desse mesmo colateral, o que os americanos chamam de tesourada. Uma tesourada é o desconto aplicado ao valor de mercado de um ativo usado garantia, destinado a funcionar como um amortecedor porque o valor do colateral, a garantia dada contra o empréstimo concedido, pode diminuir durante o período de transacção de mercado. O tamanho da tesourada é proporcional aos riscos que se considera ter com a sua detenção.

Quando os mercados sobem e o apetite pelo risco é alto, os investidores estão dispostos a aceitar mais ativos como garantia, e estão dispostos também a aceitar uma margem inferior de segurança, portanto, uma tesourada inferior [107], e o valor de mercado do colateral dado como garantia também aumenta, enquanto a sua volatilidade declina, permitindo que os bancos possam obter mais e mais financiamento contra um determinado ativo e isto nos bons tempos. Simetricamente, quando os mercados mudam de perspectiva, e os investidores começam a ficar preocupados, acontece o processo inverso, os investidores começam a recusar ativos de qualidade inferior como garantia, mas também começam a pedir tesouradas mais fortes ( maiores depreciações no valor dos ativos) e os valores de mercado dos ativos apresentados como garantia diminui, provocando mesmo uma crise de crédito e uma venda ao desbarato de ativos que alimentam fortemente, por sua vez, o ciclo vicioso de queda dos preços dos ativos e contaminando outras instituições.

Tesouradas, pools de colateral elegível e o valor de mercado dos ativos apresentados como colateral são, portanto, elementos altamente pró-cíclicos nos mercados de financiamento por grosso.

Conforme se viu nos anos de pré-crise uma adicional e indesejadas depreciações de capital, para os bancos ligadas à subestimação das correlações, deslocando alguns riscos para fora do balanço, escondendo-os em modelos ou ignorando-os, como iremos descrever mais tarde, tudo isto significa na prática que são a depreciação dos ativos [as tesouradas], mais do que o capital regulamentar, que determinam o nível de alavancagem no sistema.

Como afirmou o Fed de Nova York há já alguns anos atrás “Podemos compreender as flutuações de alavancagem em termos de implícita alavancagem máxima permitida pela parte dos credores em operações de empréstimo com garantia real (repos). (..) Quando a depreciação nominal dos ativos, as tesouradas, aumenta, todos os balanços encolhem em uníssono, resultando daí um declínio generalizado no desejo de emprestar ” [108].

O uso extensivo de financiamento por grosso combinado com a subestimação do risco permitiu às instituições financeiras construírem níveis muito mais elevados e excessivos de alavancagem pré-crise, emprestando mais umas às outras.

 

8. Um ambiente de baixas taxas de juros

Os bancos centrais ao baixarem as taxas de juro podem também aumentar a pro-ciclicidade

Citando novamente o ex-economista-chefe do FMI e governador do Banco da Reserva da Índia, Raghuram Rajan, “as taxas de juros baixas induzem um grau adicional de risco pró-cíclico tomado pelos mercados financeiros”. “Um ambiente de baixas taxas de juros, depois de um período de altas taxas é particularmente problemático, pois não apenas incentiva alguns participantes em “busca de aumento de rendimento”, mas também se dá o impulso inicial aos preços dos ativos, o que pode levar a uma espiral ascendente, criando as condições para um movimento de realinhamento acentuado e caótico“.

Por outras palavras, uma descida das taxas de juro incentiva os investidores a procurar investimentos mais arriscados, mas mais rentáveis, como também possibilita um financiamento mais barato para aumentar a sua alavancagem, e também leva a um aumento nos preços dos ativos, iniciando um declínio nos riscos calculados e um aumento nos valores em investimentos de capital.

A assunção de riscos excessiva relacionada traduz-se em riscos para a economia real, pois leva a uma “vontade excessiva para financiar o investimento real, com o potencial de excesso de capacidade e de um desperdício de recursos reais para a sociedade.”

A pró-ciclicidade na criação de alavancagem gera uma série de riscos. Em primeiro lugar, como veremos mais tarde, leva à pró-ciclicidade na interconexão e na transformação de maturidades.

Mais importante ainda, a pró-ciclicidade cria efeitos económicos desestabilizadores que se manifestam durante as recessões, quando todas as instituições reduzem a sua alavancagem simultaneamente, levando a vendas em massa, vendas ao desbarato e a uma crise de crédito.

Como as instituições expandem e contraem a sua alavancagem simultaneamente seguindo o ciclo económico ou de mercado, a pró-ciclicidade aumenta a probabilidade de incumprimento conjunto de instituições, precisamente a definição de risco sistémico.

A pró-ciclicidade também aumenta a necessidade de barreiras capazes de alavancar e de fornecer liquidez contracíclica, uma vez que todas as instituições estão no mesmo lado do negócio, a terem necessidade urgente de liquidez, o que é particularmente problemático uma vez que as entidades bancárias sombra envolvidas na titularização não têm acesso direto explícito aos apoios públicos.

Portanto ,a pró-ciclicidade significa que o risco do sistema total é maior do que a soma dos riscos dos bancos individuais e das instituições financeiras. “Devido à pró-ciclicidade, os bancos são transformados de mecanismos de mitigação em mecanismos de ampliação das mudanças na atividade económica afetando potencialmente a estabilidade financeira” [109].

Constatou-se que os bancos europeus envolvidos na atividade de banca de investimento apresentavam uma pró-ciclicidade mais elevada do que os bancos comerciais mais tradicionais não envolvidos na titularização [110]. Isto é consistente com o que acima se disse e ilustra bem o caso de que a banca tradicional cria um risco sistémico menor do que os bancos envolvidos na banca de investimento, o modelo que agora a União Europeia quer promover. 

(continua)

Finance Watch, A missed opportunity to revive “boring” finance? A position paper on the long term financing initiative,  good securitisation and securities financing. Texto disponível em: http://www.finance-watch.org/press/press-releases/995fwposition-paper-on-ltf-securitisation-and-securities-financing

Notas

[87]  BIS 2011a

[88]  European Commission, Communication on Long-Term Financing of the European Economy (COM(2014) 168 final), 27 March 2014c

[89]  Bank of England and ECB, Discussion paper, The case for a better functioning securitisation market in the European Union, May 2014; European Parliament, Own Initiative Report on Long-term financing of the European economy (2013/2175(INI)), 26 February 2014a

[90] Valor sujeito a Risco é uma métrica utilizada para medir o risco de perdas de uma carteira de ativos financeiros.

[91] Adrian and Shin (2010a) in Baglioni et al., Leverage pro-cyclicality and securitization in US banking, 2012

[92]  BIS, Song Shin, H., Working Paper No 304 Financial intermediation and the post-crisis financial system, March 2010

[93]  Credit Default Swap: contrato financeiro equivalente a uma apólice de seguro em que o vendedor se compromete a compensar o comprador no caso de ocorrer um evento específico, como o incumprimento de uma empresa. O comprador paga ao vendedor um prémio forte pelo seguro. CDS pode ser utilizado para cobrir posições não diversificadas aquando da sua compra, ou para ganhar posições a ativos quando estes são vendidos.

[94] N.T. Informação dura é quantitativa, fácil de armazenar e de transmitir de forma impessoal, e o seu conteúdo é independente do processo de recolha. Por Mitchell A. Petersen em https://www.scholars.northwestern.edu/en/publications/information-hard-and-soft

[95]  Diamond, D. W., Rajan, R., The Credit Crisis: Conjectures About Causes and Remedies, National Bureau of Economic Research, Working Paper No. 14739, 2009

[96]  Kregel, J., Public policy brief Minsky’s cushions of safety: Systemic risk and the crisis in the US subprime mortgage market, Jerome Levy Economics Institute of Bard College, No. 93, 2008

[97]  Hänsel, D. and Krahnen, J. P., Does credit securitization reduce bank risk? Evidence from the European CDO market, Jerome Levy Economics Institute of Bard College, Public policy brief No. 932006, 2006

[98] Ibid.

[99]  Rajan, R., Has financial development made the world riskier?, Proceedings – Economic Policy Symposium – Jackson Hole, Federal Reserve Bank of Kansas City, August 2005, pp. 313-369

[100]  Ibid.

[101]  Ibid.

[102]  BIS 2011a

[103] Federal Reserve Bank of New York, Ashcraft, A. B. and Schuermann, T., Staff Report no. 318 Understanding the Securitization of Subprime Mortgage Credit, March 2008a

[104]  N.T. Wholesale funding é um termo muito genérico, mas diz respeito principalmente a fundos federais, depósitos no estrangeiro, depósitos intermediados. Alguns também incluem aqui contração de empréstimos mo mercado da dívida pública. Os bancos tradicionais podem utilizar o financiamento por grosso como alternativa, mas as empresas financeiras comerciais dependem particularmente desta fonte de financiamento. Vd. https://www.investopedia.com/articles/economics/09/when-wholesale-funding-goes-bad.asp?ad=dirN&qo=serpSearchTopBox&qsrc=1&o=40186

[105] Algumas formas de financiamento por grosso não são colateralizados tais como depósitos interbancários não garantidos, papel comercial. Referimo-nos aqui a formas colateralizadas tais como operações de financiamento titularizadas.

[106]  Se os bancos têm mais capital próprio mas não conseguem contrair mais empréstimos, não podem tirar proveito do seu maior capital para emprestarem mais.

[107]  Por exemplo, um ativo avaliado em €1000 com uma tesourada de 10% pode ser utilizado para sair de um empréstimo de €900. Se a volatilidade do ativo aumenta, eg o risco de que o seu valor diminua os aumentos, o financiador poderá aumentar a tesourada quando o empréstimo é renovado, digamos 20%, o que significa que o financiamento que pode ser obtido contra este colateral diminuirá de €900 para €800.

[108]  Federal Reserve Bank of New York, Adrian, T. and Song Shin, H., The Shadow Banking System: Implications for Financial Regulation, Staff Report no. 382, July 2009

[109]  Bank of Greece, Athanasoglou, P.P. and Daniilidis, I., Procyclicality in the banking industry: causes, consequences and response, Working Paper 139, October 2011

[110] Baglioni et al 2012

 

 

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