Homenagem ao Carlos Tenreiro, uma série de textos sobre questões de macroeconomia e de alta finança – 7. Não haverá nenhum boom económico (2ª parte-conclusão). Por Lance Roberts

Carlos Tenreiro

Carlos Tenreiro, um estudante de excecional maturidade emocional, de rara cultura, de rara sensibilidade e de alta capacidade pedagógica para transmitir o que sabia e até muitas vezes a gerar nos estudantes uma apetência por aquilo que ele mesmo ainda não sabia, mas que faria parte da sua trajetória de conhecimentos a desenvolver.

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7. Não haverá nenhum boom económico (2ª parte-conclusão)

Por Lance Roberts lance roberts de real investment advice

real investment advice em 8 de março de 2018

Texto 7 8

Na terça-feira, apresentei na Conferência da Financial Planning Association (FPA) em Houston, as questões que envolvem o planeamento financeiro num ambiente de altas valorizações financeiras e de baixos retornos futuros. Após a minha apresentação, alguns dos presentes abordaram-me para discutir a premissa de que os recentes “cortes / reformas de impostos” levarão a um ressurgimento do crescimento económico o que irá impulsionar os lucros e, portanto, negam o problema da sobrevalorização financeira.

É improvável que seja esse o caso e é o que discuti recentemente em “Não haverá nenhum boom económico- 1ª Parte“. No entanto, esse artigo centrou-se sobre o impacto da aprovação da “Resolução Contínua” de dois anos, que levará a um aumento do défice nacional, uma vez que os gastos sem quaisquer restrições negam o efeito da “reforma tributária” na economia dos EUA.

Mas há mais nesta história.

Quando o projeto de “redução de impostos” estava a ser aprovado, todos, desde o Congresso até aos grandes media e até mesmo as pessoas presentes nesta conferência com quem conversei ontem, regurgitavam a mesma narrativa:

“Os cortes de impostos levarão a um boom económico à medida que as empresas aumentem os salários, contratem mais gente e produzem mais e os consumidores tenham dinheiro extra nos seus bolsos para poder gastar”.

Como anteriormente escrevi muitas vezes, isso sempre foi mais “desejo” do que “realidade”.

Deixem-me explicar.

A economia, como o calculamos atualmente, é impulsionada em aproximadamente 70% pelo que o leitor e eu consumimos, ou seja, pelos nossos “gastos de consumo pessoal -PCE) “. O gráfico abaixo mostra a história do PCE real, corrigido pela inflação, como percentagem do PIB real.

Texto 7 9

Se os “cortes de impostos” aumentarem substancialmente a taxa de crescimento da economia dos EUA, conforme anunciado pelo atual governo, então o PCE precisa ser diretamente visado.

No entanto, embora a maioria dos consumidores vá receber uma “média” de US $ 1.182 na forma de uma redução de impostos (ou US $ 98,50 por mês), o aumento na remuneração já foi compensado pelo aumento nos custos de saúde, aluguer, energia e mais elevados custos do serviço da  dívida . Como se mostra na tabela abaixo – os maiores itens do que constitui o “orçamento familiar não discricionário” estão a aumentar mais.

Texto 7 10

Assim, uma vez que os cortes de impostos, por si só, não devem compensar o aumento dos preços de bens e serviços essenciais, é difícil ver como esses cortes vão alimentar um aumento significativo na despesa dos consumidores.

“Sem problemas. O ‘lucro inesperado’ para as empresas (já que é nelas que a maior parte da legislação de reforma tributária está focada) levará a um aumento no emprego, a salários mais altos e aumento da produção.

Afinal de contas, como as grandes empresas podem agora repatriar os ‘milhões de milhões de dólares’ que estão no exterior, certamente serão suficientemente magnânimas para ‘partilharem a riqueza’ com os trabalhadores. Certo?”

Talvez. Mas qualquer pessoa que tenha observado o comportamento das empresas desde a “crise financeira” deve saber que essa crença não tem nenhuma sustentação.

No entanto, agora que já passámos um par de meses do Ano Novo, os dados estão aí e podemos ver exatamente o que as “empresas ” estão a fazer com os seus dólares.

Aumentos salariais

Imediatamente após a aprovação do projeto de reforma tributária, as empresas fizeram fila para obter “favores políticos”, emitindo cheques de bónus de US $ 1.000 aos empregados. Enquanto os grandes media e a Casa Branca engalanaram em arco com o “sucesso imediato” da reforma tributária, a visão geral sobre a mesma tinha-lhes escapado totalmente.

Um bónus de US $ 1000 para um funcionário é um evento único de “sentir-se bem”. Aumentos salariais são “permanentes e onerosos”.

A realidade é que as empresas NÃO estão a aumentar os salários porque os salários mais altos aumentam o passivo tributário, os custos com benefícios, etc. Os custos mais elevados da folha de pagamento reduzem a lucratividade do resultado final. Numa economia com crescimento muito fraco de receitas, as empresas são extremamente protetoras da sua rentabilidade para corresponder às estimativas de Wall Street e para apoiar o valor de mercado das suas ações, o que tem um impacto direto sobre a remuneração dos executivos.

Assim, enquanto as empresas estão a ganhar a atenção dos media e dos favores políticos, emitindo cheques de bónus únicos, os 80% dos trabalhadores estão a descer lamentavelmente atrás dos 20% do topo.

Texto 7 11

Os salários não conseguem acompanhar nem mesmo as taxas historicamente baixas de inflação “publicitada”. Novamente, ressaltamos que é provável que a inflação sentida pelo leitor, se incluir os itens não discricionários acima listados, seja maior do que a inflação “publicitada “, e o gráfico abaixo é então realmente pior do que parece.

Texto 7 12

Mas isso não é novidade, já que as empresas fracassaram em “partilhar a riqueza” nas últimas décadas.

Texto 7 13

 

Recompras

O quebra-cabeças para os “executivos empresariais ” é que, se os consumidores não têm mais dinheiro para gastar, eles não podem comprar os bens e serviços que lhes são oferecidos e que impulsionam as receitas das empresas. Se a receita não subir substancialmente acima da sua linha de referência, os lucros serão afetados no resultado final, isto é a descerem, em última instância, ameaçando a “remuneração dos executivos”.

Não surpreendentemente, a cura mais fácil para esse pequeno problema foi, e continua a ser, recomprar as suas ações. Como discuti anteriormente:

A utilização de ‘recompras de ações’ para vencer “a aposta na estimativa” não deve ser prontamente descartada pelos investidores. Uma das principais ferramentas usadas pelas empresas para aumentar a lucratividade foi através da grande recompra de ações. O gráfico abaixo mostra ações em circulação em comparação com a diferença entre os lucros operacionais numa base por ação antes e depois das recompras.

Texto 7 14

Quero chamar a atenção para a parte de baixo do gráfico. Desde 2009, o crescimento total das vendas por ação foi de apenas 39%, ou cerca de 3,9% ao ano, e no entanto os ganhos cresceram 253% ou 25,3% ao ano. O diferencial de 21,4% foi impulsionado principalmente pela redução das ações em circulação.

O ponto importante aqui é que 70% da economia é impulsionada pelo consumo e as taxas muito fracas de vendas (ou seja, o consumo) mostram porque o crescimento económico continua fraco.

Então, estão as empresas a utilizar a sua nova riqueza para aumentar os salários? Não, não muito. Como Jesse Colombo mostrou recentemente:

“A aprovação do plano de reforma fiscal do presidente Donald Trump foi o principal catalisador que estimulou as empresas a aumentarem drasticamente os seus planos de recompra de ações.”

Texto 7 15

 

Dividendos

É claro que os executivos das grandes empresas (que tendem a possuir muitas ações e opções da empresa) também podem recompensar-se a si mesmos através do aumento do pagamento de dividendos. Não surpreendentemente, conforme observado por Political Calculations, os Conselhos das grandes empresas utilizaram a recente reforma tributária para seu próprio benefício.

Quando se trata do valor dos aumentos de dividendos declarados durante um único mês, o mercado de ações dos EUA registou o seu melhor mês de fevereiro de sempre“.

Texto 7 16

 

Conclusão

Esta questão sobre se os cortes de impostos levam ou não ao crescimento económico foi analisada num estudo de 2014 de William Gale e Andrew Samwick:

O argumento de que os cortes nos impostos sobre rendimentos aumentam o crescimento é repetido com tanta frequência que às vezes é considerado um evangelho. No entanto, estudos teóricos e empíricos assim como estudos à base de simulações contam uma história diferente e bem mais complicada. Os cortes nos impostos oferecem o potencial para aumentar o crescimento económico melhorando os incentivos para trabalhar, poupar e investir. Mas também podem criar efeitos de rendimento que reduzem a necessidade de se empenharem numa atividade económica produtiva e podem subsidiar o capital produtivo já obsoleto que proporciona ganhos inesperados aos detentores de ativos ganhos estes que minam os incentivos para a criação de novas atividades.

Além disso, os cortes de impostos como uma política autónoma (ou seja, não acompanhada de cortes de despesa) normalmente elevarão o défice orçamental federal. O aumento do défice reduzirá a poupança nacional – e, com isso, o stock de capital de propriedade dos americanos e o rendimento futuro dos americanos – e aumentará as taxas de juros, o que afetará negativamente o investimento. O efeito líquido dos cortes de impostos sobre o crescimento é, portanto, teoricamente incerto e depende tanto da estrutura do corte de impostos em si quanto do momento e da estrutura do seu financiamento. “

Embora os cortes de impostos POSSAM ser pró-crescimento, eles têm que se concentrar nos 80% dos americanos que compõem a maior parte do consumo na economia. Com os benefícios dos cortes de impostos a serem acumulados pelos 20% mais ricos, que já consomem à larga, há pouca propensão a aumentar substancialmente o consumo, em oposição à acumulação de riqueza adicional.

Além disso, a reforma tributária faz pouco para enfrentar os principais desafios estruturais que representam os maiores obstáculos para a economia no futuro:

  • Demografia
  • Mudanças estruturais no emprego
  • Inovações tecnológicas
  • Globalização
  • Pensões
  • Financeirização
  • Dívida

Estes desafios mudaram permanentemente os fundamentos financeiros da economia como um todo. Isto sugeriria que o estado atual de crescimento económico lento provavelmente estará connosco por muito mais tempo do que a maioria antecipa. Isto também põe em questão quanto espaço o Fed tem para retirar o seu apoio monetário antes que as rachaduras na base económica se comecem a ampliar.

Simplesmente, até que se consiga aumentar substancialmente a capacidade de consumo dos 80% da população com menores rendimentos, não haverá nenhum “boom económico”.

 

Texto original em http://realinvestmentadvice.com/there-will-be-no-economic-boom-part-ii/

Republicado por Gonzalo Raffo Infonews THERE WILL BE NO ECONOMIC BOOM – PART II / SEEKING ALPHA

 

O autor: Lance Roberts é economista, especialista em mercados financeiros, diretor e editor chefe de Real Investment Advice, chefe de estratégia de portfolio em Clarity Financial.

 

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