Da crise atual à próxima crise, sinais de alarme – Leituras em torno de Chemnitz (V) – Para determinados adversários da AFD, a identidade significa Hitler. Por Alain Finkielkraut

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Leituras em torno de Chemnitz (V)

Para determinados adversários da AFD, a identidade significa Hitler

Alain Finkielkraut Por Alain Finkielkraut

Publicado por le causeur em 16 de novembro de 2017

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Cartaz da AFP vandalizado em Waldkirch (Allemagne). AFP. ROLF HAID / PICTURE ALLIANCE / DPA.

 

“Wir Schaffen das!”, “nós vamos conseguir!”, martelava Angela Merkel, desde que abriu as fronteiras do seu país a um milhão de refugiados sírios. Ainda é muito cedo para saber se a aposta será conseguida, mas uma coisa é certa: esta aposta desestabilizou a Alemanha.

90 deputados da AFD (Alternative für Deutschland), um partido nascido das frustrações e ansiedades causadas pela política de “Mutti”, acabaram de entrar no Bundestag. Os admiradores de Merkel não estão abalados, no entanto. Este sobressalto reforça, pelo contrário, a sua admiração. Concluem que as pessoas, ou uma fração do povo alemão, não estão à altura das grandes expectativas que Angela Merkel e toda a Europa iluminada tinham nele colocado. O povo alemão desiludiu. Em vez de aproveitar a oportunidade para expiar os seus crimes, aceitando o imenso desafio da hospitalidade incondicional, ele preferiu sacudir o jugo da memória e deu-se ao direito de se tornar um povo duro e mau. Alguns sinais parecem validar esta interpretação. Vejo no jornal Le Figaro que, durante a conferência de imprensa dada pela AFD, no rescaldo desta eleição triunfante, Alexander Gauland, o doutrinário desta formação, questionou o compromisso da Alemanha com o direito de Israel de existir, e que Wilhelm von Gottberg, eleito na Baixa Saxónia, cita num ensaio publicado em 2001, um autor italiano do movimento neo-fascista lamentando que a verdade judaica do Holocausto esteja sob proteção legal. Descubro que neste Partido há antigos informadores da Stasi. Acontece que o programa da AFD não elogia o partido único, nem pede que sejam derrubadas as instituições, nem se apresenta com veleidades de genocídio, nem a exaltação de uma raça superior. E eu não vejo nada que tenha a ver com Hitler em Marc Jongen, antigo assistente de Peter Sloterdijk em Karlsruhe, hoje co-presidente da AFD de Baden Württemberg, quando afirma: “as nações europeias devem substituir a cultura da autosupressão pela vontade de sobreviver “. Nesta cultura da autosupressão teorizada por Habermas sob o nome de patriotismo constitucional, o grande historiador Thomas Nipperdey já discerniu uma mutação inesperada do pangermanismo. Pela inculcação da sua consciência pós-nacional nos infelizes que ainda vivem num estado deplorável de atraso, a germanidade progressista avançada, portanto, «teria uma vez mais de assumir a missão de curar o mundo. A rejeição da nossa nação é uma reedição da peculiaridade alemã, e é isso que é necessário ultrapassar». Por outras palavras, ao invés de se embriagar com ideias missionárias e querer liderar o mundo novamente, a Alemanha deve regressar ao “nacionalismo normal da sua identidade e auto-preservação”.

Mas para os adversários determinados da AFD, não existe uma identidade normal. A identidade já é em si mesma Hitler, a acreditarmos em Carolin Emcke, uma dos intelectuais mais influentes de além- Reno. E no seu ensaio Contra o Ódio que lhe valeu a atribuição do Prémio dos livreiros para a paz, ela cita em apoio a este diagnóstico uma famosa passagem do Livro dos justos. Trata-se da guerra entre o povo de Galaad e o de Ephraim: “quando um dos fugitivos de Ephraim disse:” Eu quero passar! ” As gentes de Galaad perguntaram-lhe: “és tu de Ephraim?” E se ele dissesse que não, eles pedir-lhe-iam: “pronuncie pois a palavra” Shibboleth “[contra-senha]” E ele pronunciou “Sibboleth” porque ele não conseguiu falar corretamente. Então nós agarrámo-lo e degolávamo-lo.  Nas águas do Jordão, tombaram naquela época 42 000 homens de Ephraim” e Carolin Emcke comentou: a velha história de Shibboleth é sempre atual, ela sintetiza todos os processos arbitrários que as sociedades podem utilizar para afastar ou denegrir indivíduos ou grupos isolados.»

Para aqueles que lhe objetariam que não é possível reduzir a uma questão de pronúncia o modo como o Islão e as suas  palavras ontem desconhecidas de “Kouffars”, “jihad”, “niqab”, “Allah Akbar” invadiram o nosso presente, Carolin Emcke responde sem pestanejar: “imaginem uma página no Facebook, um jornal, um programa de televisão onde os cristãos seriam mencionados exclusivamente quando eles tivessem cometido um crime ou uma ofensa, e onde cada crime seria representado numa relação causal com a sua religião. Como é que esse esquema mudaria a nossa perceção?” O feliz destinatário do Friendenspreis esquece uma diferença essencial: os islâmicos levam o Alcorão à letra. O Islão encarado à letra significa a Jihad ou, no mínimo, a rutura com a sociedade circundante. Mas quando um cristão toma os Evangelhos ao pé da letra, isso dá ao Papa Francisco a hospitalidade incondicional, e o “Wir Schaffen das!” da protestante Angela Merkel. E o que alimenta a insegurança cultural de muitos alemães e europeus é a sensação de que o literalismo cristão é a resposta menos adequada ao literalismo islâmico. Mas nada desmonta Carolin Emcke. Apoiado pelo seu “Shibboleth”, ela recita o catecismo dos bem-pensantes. “Tudo isso já aconteceu, o ódio ao estrangeiro, a exclusão de qualquer diferença, os gritos de raiva nas ruas, os graffiti que se sucedem, a invenção do entre-nós como uma nação, como um povo, e a criação por completo destes outros que de tudo isto devem ser excluídos, os depravados, os anti-sociais. A ideia de que os homens estrangeiros estão a incomodar as nossas mulheres e filhas também já existiu, é uma das afirmações da propaganda nazi, os textos antissemitas e as caricaturas regularmente alertavam contra os judeus, supostamente a agredirem as mulheres alemãs

Compreende-se, ao ler este texto, porque é que os judeus se sentem tão sozinhos em face do novo antissemitismo. Tomá-los em conta, de facto, arruinaria o edifício ideológico da vigilância. Isto é, pois, silenciado ou, como é desbatizado por Eric Hazan e Alain Badiou: «a hostilidade dos jovens suburbanos para com os judeus está fundamentalmente ligada ao que está a acontecer na Palestina. Sabem que lá os israelitas judeus oprimem os palestinos que consideram, por razões históricas óbvias, como seus irmãos. E cabe-lhes observar que as organizações representativas da comunidade judaica fornecem apoio incondicional ao estado racista de Israel.» Uma vez que os judeus se tornaram alvo da ideologia antirracista, devemos lutar contra essa ideologia como uma vez lutamos contra as ideologias totalitárias. Bem-vindos pois ao século XXI!

O século XX entretanto ainda não disse a sua última palavra. É possível que a xenofobia sem exceção e a nostalgia do grande Reich superem nas fileiras da AFD a lucidez ansiosa e a preocupação com a auto-preservação. A discussão pública seria então reduzida totalmente ao confronto do politicamente correto contra o politicamente abjeto. E como na América, essas duas ilusões autoalimentam-se. Ninguém poderia imaginar coisa pior.

 

Texto original em https://www.causeur.fr/afd-allemagne-merkel-immigration-identite-147790

 

Alain Finkielkraut (1949) é um filósofo francês de origem polaca. Antigo aluno da Escola Normal Superior de St. Cloud, ensina cultura geral na Escola Politécnica. Foi eleito membro da Academia Francesa em 2014.

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