A crítica demolidora de Michael Pettis à teoria e à política económica neoliberal – 8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (2ª parte). Por Michael Pettis

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Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8. Estará Peter Navarro errado sobre o comércio internacional? (2ª parte)

michael pettis Por Michael Pettis

Publicado por Carnegie Michael Pettis em 2 de fevereiro de 2017

 

4. A origem dos desequilíbrios comerciais

Isto implica que, ao deslocar-se da análise da balança corrente para a compreensão da balança de capital na balança de pagamentos, podemos julgar com muito mais precisão o impacto de diferentes políticas e condições sobre o comércio internacional. Uma implicação importante é que é inútil ver o comércio principalmente como sendo o resultado da concorrência entre as indústrias mais eficientes e menos eficientes. Uma indústria mais eficiente num país pode facilmente sucumbir em face de uma menos eficiente num outro país, como consequência das políticas que distorcem os fluxos de capitais. Uma segunda implicação é que a melhor maneira de determinar se as economias individualmente consideradas estão ou não a contribuir para os desequilíbrios do comércio global é olhar para a posição agregada da balança corrente, que é muito provável que seja impulsionado pela posição da balança agregada de capital, e não pelas balanças comerciais bilaterais- e isto será analisado com muito mais detalhe na seção 9 deste trabalho.

Isso é particularmente importante para a administração Trump, no que diz respeito à sua preocupação com o papel do México nos desequilíbrios comerciais dos Estados Unidos. Em 2015, o México teve um défice na balança corrente de 2,8 por cento do seu PIB, e em 2016, espera-se que irá registar um défice novamente bastante grande. Isso significa que o México está a importar parte do excedente da poupança global e, mais do que contribuir para os desequilíbrios comerciais quer globais quer dos Estados Unidos, o México está de facto a ajudar a absorvê-los. Se Washington tomar medidas para reduzir ou eliminar o excedente bilateral do México para com os Estados Unidos, isso faz com que os fluxos líquidos de capital para o México venham a descer, o défice da balança corrente do México deve declinar, independentemente do que acontece com o seu excedente bilateral com Estados Unidos.

A consequência paradoxal poderia muito facilmente ser um maior défice comercial americano mesmo que se reduza o défice comercial americano bilateral com o México. Isto pode parecer contraintuitivo, mas apenas para aqueles para quem o comércio internacional é a soma de saldos comerciais bilaterais independentes. Uma vez que reconhecemos que o comércio bilateral reflete a complexidade do comércio na economia global, e não as fontes dos desequilíbrios comerciais (como eu explico na seção 9), torna-se claro que o México não é uma fonte dos desequilíbrios comerciais americanos, e é de facto muito mais provável que seja uma preciosa ajuda para a correção do desequilíbrio americano.

Isso leva a uma terceira implicação importante. A intervenção política que aborda a balança comercial sem abordar a balança de capital pode facilmente criar distorções inesperadas e prejudiciais para o país que implementa a política em questão. Se os Estados Unidos estivessem a impor uma tarifa sobre os bens importados, por exemplo, sem implementar políticas que restrinjam as importações de capitais, o aumento resultante dos fluxos de capitais poderia bem provocar uma bolha de ativos e um boom de consumo alimentado pela dívida o que cria mais problemas do que os que resolve.

Pode ser útil ilustrar a relação entre a balança de capital e a balança comercial, tomando como exemplo as atuais condições dos fluxos de capitais e de mercadorias entre a China e os Estados Unidos. Vamos considerar que o excedente atual da balança corrente da China é igual a 2,5 por cento do PIB, que é possivelmente um pouco mais elevado do que o excedente para 2016 provavelmente virá a ser. Com um registo de PIB de 74,41 milhões de milhões em renminbi (RMB) — ou $10,85 milhões de milhões — no final de 2016, o excedente da balança corrente da China em média mensal está atualmente em torno de $22 mil milhões.

Isto significa que as exportações de capitais líquidas chinesas eram em termos médios de $22 mil milhões por mês. Quando as entidades, que não o banco central chinês, são exportadores líquidos de mais de $22 mil milhões mensais, como têm sido desde junho de 2014, o banco central terá importado capital (terá vendido reservas) até atingir este valor de 22 mil milhões. Quando estas entidades são exportadores líquidos inferiores a $22 mil milhões, como tinham sido em grande parte do tempo em 2013 e 2014, ou importadores líquidos de capitais, como tinham sido durante as duas décadas anteriores, os bancos centrais terão exportado capital (acumularam reservas) para alcançar estes valores. (consulte o apêndice 2 para uma explicação).

Por clareza e facilidade de exposição, deixem-me supor que os 22 mil milhões são exportados para os Estados Unidos. O impacto que terá tido sobre a economia dos EUA é muito mais fácil de entender do que poderíamos à primeira vista pensar. Por uma questão de rigor, começaremos ainda por considerar que as exportações líquidas chinesas para os Estados Unidos de 22 mil milhões fortaleceram de certa maneira o dólar (contra outras moedas, e não contra o RMB, porque a intervenção feita pelo Banco do Povo Chinês neutraliza o efeito sobre o RMB), e como consequência os investidores americanos em busca de ativos baratos no exterior, investiram $3 mil milhões do seu capital em ativos estrangeiros. Nesse caso, o excedente da balança de capital dos EUA aumentou em $19 mil milhões [os 22 milhões de dólares de chineses entrados menos os 3 mil milhões de dólares saídos dos americanos], que são simultaneamente compensados por um aumento de $19 mil milhões no défice comercial.

Isto esclarece imediatamente um ponto muito importante quase sempre negligenciado na maioria das discussões do comércio internacional. O défice da balança de capital da China de $22 mil milhões que foi exportado para os Estados Unidos e depois do ajustamento pelo seu impacto sobre as decisões dos investidores norte-americanos, causou um aumento de $19 mil milhões no excedente da balança de capital americana. As implicações comerciais são claras: a China registou um excedente comercial de $22 mil milhões e o défice comercial dos EUA aumentou em $19 mil milhões.

Mas note-se que eu não disse nada sobre o comércio bilateral. Pode facilmente ser o caso que o défice comercial americano com a China tenha apenas aumentado de 10 mil milhões, caso em que o défice comercial americano com o resto do mundo necessariamente subiu por $9 mil milhões, enquanto o excedente comercial chinês com o resto do mundo necessariamente aumentou por $ 12 mil milhões. A mudança no equilíbrio comercial dos dois países não tem absolutamente nenhuma razão para aparecer nos números do seu comércio bilateral. Como eu discuto no apêndice 1, os economistas que tentam explicar as fontes dos desequilíbrios comerciais analisando os saldos bilaterais do comércio estão quase sempre apenas a baralhar a discussão. Embora os saldos comerciais bilaterais nos digam muito sobre a complexidade do comércio na economia global, eles dizem-nos muito pouco sobre as fontes dos desequilíbrios comerciais.

O problema é que muitas vezes os nossos pressupostos não assumidos sobre a forma como o mundo funciona não se ajustam com as mudanças na economia mundial e, por isso, são muitas vezes errados, mas ainda assim profundamente ancorados na nossa forma de pensar e são assim mantidos. As condições eram diferentes durante a maior parte do século XIX, quando desenvolvemos grande parte da nossa compreensão teórica sobre o comércio internacional, e certamente também antes disso, quando o comércio tinha a primazia e a balança comercial determinava em grande parte a balança de capital. (Embora isto não tenha sido sempre o caso, e basta-nos apenas traçar a história da descoberta europeia das minas de prata primeiramente na Alemanha, depois no México, e finalmente na Bolívia, e a sua relação com a procura chinesa de prata, para ver como as anteriores vagas de globalização também se manifestaram em relações complicadas entre balança de capitais e balança corrente em todo o mundo). Durante a maior parte deste período, os desequilíbrios bilaterais disseram-nos a maior parte do que precisávamos de saber e dizem-nos como foi útil supor que a balança comercial era a determinante sobre a balança de capital. No entanto, desde o final do século XIX, exceto talvez por um breve período antes e depois da segunda guerra mundial, isto deixou de ser assim, e não devemos permitir que este pressuposto não assumido determine as nossas explicações sobre os desequilíbrios comerciais.

 

5. A conta de poupança e de investimento

Para regressarmos ao nosso exemplo, nós queremos compreender o que acontecerá se a China incorrer numa situação de excedente na balança comercial de $22 mil milhões e exportar todo este valor para os Estados Unidos, o que faz com que o excedente da balança de capital dos Estados Unidos e o défice na sua balança corrente se situem em $19 mil milhões. Este é o lugar onde a última identidade contabilística da seção 3 acaba por ser extremamente útil:

Exportações – Importações = Poupança – Investimento

Com um lembrete de que o que estamos a apelidar de défice comercial (exportações menos importações) deveria realmente ser o défice da balança corrente (embora sem afetar significativamente a nossa análise em tudo o que estamos a expor), a identidade contabilística diz-nos que o défice comercial americano é exatamente igual ao excesso de investimento americano relativamente à poupança americana. Por outras palavras, se o défice da balança corrente aumentou $19 mil milhões, a diferença entre o investimento americano e a poupança americana também aumentou exatamente de $19 mil milhões [5].

Se quisermos entender o impacto da mudança no défice da balança corrente americana sobre a economia dos Estados Unidos, temos de entender como é que se deu esta variação. Obviamente, existem apenas duas variáveis que aqui podem mudar de modo que o excesso de investimento americano sobre as poupanças americanas aumenta de $19 mil milhões: ou aumentou o investimento ou a poupança americana caiu, ou então ambas as coisas, dando a diferença em $19 mil milhões.

Como eu explico no apêndice 3, verifica-se que, logicamente, há apenas duas maneiras de investimento americano poder aumentar: ou há aumento de investimento produtivo, e com isto queremos dizer que estamos a falar de um investimento que faz com que a produtividade do futuro americano venha a subir e em mais do que o custo do investimento, ou então que há um aumento no investimento não desejado ou não-produtivo (incluindo aumento de inventário), caso em que o fardo da dívida dos EUA sobe. Também acontece que, praticamente falando, há apenas duas maneiras em que a poupança americana pode declinar: o desemprego pode aumentar, o que faz com que as poupanças estejam a cair, ou os americanos podem-se envolver num boom de consumo que reduz a quota de poupança relativamente ao rendimento, e isso faz com que haja um aumento do peso da dívida dos EUA.

Para simplificar todos estas trajetórias possíveis, podemos dizer que um aumento no défice na balança corrente americana deve ser acompanhado por um aumento no investimento produtivo nos Estados Unidos ou por um aumento do desemprego americano ou ainda por um aumento do serviço da dívida (para financiar ou o investimento improdutivo ou o consumo). Não há nenhum outro mecanismo de ajustamento significativo consistente com um aumento no défice na balança corrente dos EUA.

Esta relação muito simples e clara está, ou deve estar, no cerne de qualquer avaliação do impacto do desequilíbrio comercial americano: se o que faz com que o défice esteja a amentar também faz com que o fardo da dívida esteja a subir, ou faz com que o desemprego esteja a aumentar, é seguro então dizer que um mais elevado défice comercial torna os Estados Unidos mais pobres e um menor défice comercial torna o país mais rico. Se, por outro lado, faz com que o investimento produtivo suba, é o contrário: um maior défice comercial torna os Estados Unidos mais ricos.

Este último caso descreve a história económica dos Estados Unidos durante grande parte do século XIX. Pelo menos parcialmente, por causa do seu sistema financeiro muito instável, as poupanças americanas eram demasiado baixas para financiar necessidades muito elevadas de investimento na economia. Felizmente, os americanos tiveram acesso a importantes poupanças britânicas, holandesas e de outros países europeus, e como estes países exportaram as suas poupanças excedentárias para os Estados Unidos, os Estados Unidos passaram, por isso mesmo, a ter um excedente na balança de capital e o necessário défice comercial, utilizando o excedente na balança de capital na compra de bens de capital ou de matérias-primas produzidas no estrangeiro ou, quando usado para comprar bens de consumo estrangeiros, para libertar rendimento interno para financiar o investimento. Quanto maior o défice comercial, maior a quantidade líquida de capital que os Estados Unidos estavam a importar e, em média, os americanos poderiam então financiar mais investimentos produtivos. Durante este tempo, os produtores americanos enriqueceram com as poupanças europeias, enquanto os aforradores europeus enriqueceram com o aumento da produtividade americana, e assim ambos os lados beneficiaram a longo prazo com o défice comercial dos EUA.

 

6. O investimento produtivo é limitado pela falta de capital?

Aqui deparamo-nos com uma segunda hipótese errada, mas implícita e profundamente sustentada e mantida, que prejudica seriamente a utilidade de muita análise económica e conduz diretamente a políticas muito nocivas, não apenas no que diz respeito ao comércio internacional, mas também no que se refere à distribuição de rendimento. Muitos economistas parecem implicitamente admitir que a quantidade de investimento produtivo em qualquer economia, incluindo a dos Estados Unidos, é condicionada pela quantidade ou disponibilidade de poupança. Nesse caso, as políticas destinadas a aumentar o montante ou a disponibilidade de poupança levarão a um aumento da quantidade de investimento produtivo.

Embora isso fosse verdade para os Estados Unidos e para o resto do mundo durante grande parte do século XIX e até antes disso, e também para a maioria dos países durante parte do século XX, eu expliquei num texto anterior (na seção intitulada Um século de dominação) [6], que esta hipótese não tem sido verdadeira para países altamente credíveis, incluindo os Estados Unidos, ao longo de várias décadas. Uma vez que os países desenvolvidos da Europa e da Ásia Oriental reconstruíram substancialmente as suas economias após a devastação da guerra, e os Estados Unidos tinham completado um importante processo de investimento em infraestruturas da década de 1930 até à década de 1960, a capacidade produtiva total mundial alcançou níveis extraordinariamente elevados.

No início, grande parte do rendimento gerado pela capacidade produtiva foi distribuído equitativamente por todas as populações dos países ricos, de modo que se manifestava em altos níveis de rendimento disponível e por altos níveis de consumo. A partir da década de 1970, várias tendências importantes levaram a uma maior concentração de rendimento. Este processo começou com o aumento do preço do petróleo da década de 1970, cujo efeito foi canalizar o rendimento quer das nações avançadas quer das nações em desenvolvimento para um pequeno número de países produtores de petróleo, muitas vezes com populações extremamente pequenas incapazes de absorver em consumo muito do seu novo rendimento. No final da década de 1970, provavelmente em primeiro lugar, como consequência das maiores taxas de juros reais na história dos EUA, projetadas pelo Federa Reserve com Paul Volcker à sua frente, os Estados Unidos começaram um processo de concentração de rendimento que continuou até agora por razões que são forte e contundentemente debatidas.

O mesmo processo de crescente desigualdade de riqueza e de rendimento tornou-se rapidamente uma característica em grande parte do resto do mundo desenvolvido, bem como nas maiores economias de mercado emergente, incluindo a Rússia, o Brasil, e o mais importante deles, a China. A concentração de rendimentos e de riqueza dentro das economias nacionais tende a aumentar as respetivas taxas de poupança nacional, uma vez que as famílias que ficam mais ricas poupam uma maior parcela do seu rendimento. A relação entre a concentração de riqueza e a poupança é bastante bem compreendida e tem sido muito discutida entre os economistas. Menos bem compreendido é um outro processo que tem fortemente exacerbado a pressão ascendente sobre as poupanças, em que o rendimento está a ser transferido dos agregados familiares comuns não para os ricos de baixo consumo mas sobretudo para entidades, que não as famílias, que ainda consomem muito menos.

Isto ocorreu principalmente na Alemanha e na China. Na Alemanha, as leis Hartz de 2003-05, as reformas neoliberais do mercado de trabalho alemão, efetivamente transferiram rendimento familiar para as empresas alemãs. Algo semelhante, mas ainda de forma mais extrema, ocorreu na China, onde as políticas destinadas a aumentar o investimento – entre elas, a mais importante do ponto de vista financeiro foi a imposição pura e dura de baixas taxas de juros – o fizeram de forma extremamente eficaz, levando o rendimento das famílias a descer para cerca de 50 por cento do PIB, uma das mais baixas taxas de repartição do rendimento para as famílias já alguma vez registada.

O efeito da crescente desigualdade de rendimentos em todo o mundo e um decréscimo da parcela do rendimento das famílias em relação ao PIB nalgumas das principais economias têm tido o mesmo efeito. Ambos tendiam a aumentar ex ante a taxa de poupança global, estabelecendo o que muitos chamaram um excesso de poupança, principalmente por restringir o crescimento do consumo.

(continua)

 

Texto disponível em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/67867

Notas

[5] Eu deveria dispensar o que é sempre a refutação estandardizada. A afirmação de que um aumento no défice da balança corrente deve ter a sua correspondência no aumento da diferença entre a poupança e o investimento não nos diz nada sobre a direção da causalidade. No entanto, muitos economistas, nem sempre claros sobre a lógica da balança de pagamentos, vão alegar que a falha neste argumento é a suposição de que um aumento no défice da balança corrente deve causar um aumento na diferença entre poupança e investimento, e porque este é claramente um raciocínio errado não há necessidade de seguir o resto do raciocínio. Mas isso não é de todo a hipótese. A abordagem de saldo de pagamentos simplesmente propõe que, se o défice comercial americano aumentou de 19 mil milhões de dólares, é indiscutível, e implícita na sua própria definição, que a diferença entre o investimento americano e a poupança americana aumentou de 19 mil milhões de dólares. Nenhuma direção na causalidade está contida nesta afirmação.

[6] N.E. Texto a ser publicado na presente série sob o número 10, “Uma redução no peso dos Estados Unidos no comércio global não vai levar a nenhuma mudança de poder“.

 

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