A minha neta e a crise no Serviço Nacional de Saúde. Ainda algumas reflexões mais sobre a democracia, em Portugal e na União Europeia – Anexo 4 : A política económica e o custo de nada fazer – Parte C: O custo de nada fazer: impacto económico da pobreza infantil induzida pela recessão, por Michael Linden

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Anexo 4 : A política económica e o custo de nada fazer – Parte C: O custo de nada fazer: impacto económico da pobreza infantil induzida pela recessão, por Michael Linden

De forma a perceber-se bem os graves efeitos a prazo que comportam as situações de crise, tínhamos à mão dois textos de alta qualidade, o relatório da Cruz Vermelha Internacional e do Crescente Vermelho intitulado Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa (publicado em A Viagem dos Argonautas entre os dias 5 e 23 de janeiro de 2014), e o texto de Michael Linden publicado em First Focus, intitulado O custo de nada fazer: o impacto económico da pobreza infantil induzida pela recessão (publicado em estrolabio.blogs.sapo.pt em 25 e 26 de junho de 2011). Optámos por reproduzir aqui este último por ser mais curto e talvez também mais conciso.

 

O custo de nada fazer: o impacto económico da pobreza infantil induzida pela recessão, por Michael Linden em dezembro de 2008 (texto disponível em https://firstfocus.org/wp-content/uploads/2010/03/Cost-of-Doing-Nothing-2008.pdf)

SÍNTESE

Os Estados Unidos estão agora, faz já um ano, numa situação que muitos prevêem que será uma recessão muito grave. Uma turbulência económica deste tipo é provável que tenha consequências de longo alcance que não estão limitadas ao futuro imediato. As recentes estimativas são de que, em resultado da desaceleração económica, cerca de 2,6 a 3,3 milhões de crianças irão cair numa situação de pobreza. Permitir que estas crianças caiam na situação de pobreza revelar-se-á um obstáculo significativo a longo prazo para a economia americana. De facto, um acréscimo de 3 milhões de crianças às fileiras dos “pobres”, significaria uma perda económica global de pelo menos 1,7 milhões de milhões de dólares durante a vida dessas crianças. Isso equivale a uma perda anual de cerca de 0,27% do PIB, ou seja, de 35 mil milhões de dólares por ano.

Esta análise é baseada em estimativas anteriores dos custos agregados da pobreza infantil, incluindo os efeitos da pobreza infantil relativa à redução dos ganhos durante a vida e aos custos em saúde. Especificamente, os estudos sugerem que as crianças que passam mais de metade da sua infância em situação de pobreza ganharão, em média, 39% menos que o rendimento mediano. Além disso, uma criança pobre perde cerca de um quarto de milhão de dólares de custo de “qualidade de saúde” ao longo de sua vida. Ao agregar estes efeitos de longo prazo dos milhões adicionais de novas crianças pobres podemos obter uma estimativa de referência dos custos económicos ao permitir que este volume adicional de crianças se venha a tornar crianças pobres durante esta recessão.

Finalmente, em virtude das consequências negativas que resultam da pobreza infantil serem particularmente graves para as crianças que passam um grande número dos seus primeiros anos em situação de pobreza, é importante investigar se a pobreza induzida pela recessão é persistente ou “apenas” temporária. Uma análise dos dados do estudo do Painel da Dinâmica dos Rendimentos revela que mais de metade das crianças que caem na pobreza durante as recessões tendem a permanecer em situação de pobreza pelo menos durante algum tempo depois do fim da recessão. Na verdade, cerca de um quarto das crianças que sofrem de pobreza induzida pela recessão permanecerão pelo menos metade do seu tempo de infância restante em situação de pobreza.

Porque a pobreza induzida pela recessão é, pelo menos, bastante persistente entre as crianças, e porque sabemos que o prolongamento da situação de pobreza durante a infância leva a custos económicos no longo prazo, podemos concluir que existe uma material e comensurável vantagem económica em agir agora, de modo a evitar que dispare a taxa de pobreza infantil. No fundo, se formos capazes de simplesmente manter a actual taxa de pobreza infantil, a economia americana irá beneficiar de pelo menos 1,7 milhão de milhões de dólares durante as próximas décadas.

INTRODUÇÃO

Recentemente, o National Bureau of Economic Research calculou que a economia americana deixou de crescer e que caiu em recessão com início em dezembro de 2007. Isto significa que vinha a sofrer uma contração económica durante mais de nove meses, mesmo antes do colapso do Lehman Brothers ter provocado uma crise aguda. Agora, cerca de um ano depois de ter entrado em recessão sem se ver claramente o fim do túnel, o governo federal centra a sua atenção na tentativa de simultaneamente acalmar os mercados financeiros agora nervosos e de impulsionar o conjunto da economia com um amplo pacote de estímulos orçamentais. Grande parte da discussão em torno de um hipotético programa de gastos do governo americano para melhorar a economia tem estado concentrada em investimentos que forneçam simultaneamente um impulso imediato e preparem o caminho para que haja mais crescimento económico a prazo.

No entanto, tem havido pouca discussão sobre o impacto desta crise económica sobre o desenvolvimento a longo prazo do mais importante recurso de que dispõe a nossa nação: o seu capital humano.

Não há dúvida de que todas as recessões, mesmo as menos severas do que a que estamos agora a sofrer, têm um impacto comensurável sobre a força de trabalho actual. Naturalmente, as recessões estão associadas com um aumento significativo nas taxas de desemprego das quais se leva geralmente vários anos a recuperar. O aumento do desemprego significa uma perda de rendimento e mais ainda de perda de experiência.

Por exemplo, existem evidências de que a economia inclusive sofre de uma perda de rendimentos devido a que durante as recessões os recém-licenciados recém chegados ao mercado de trabalho encontram um mercado muito em baixa relativamente aos níveis de formação de que são portadores. Os prejuízos, nestes casos, podem levar uma década a recuperar.

Mas há um outro aspecto nas recessões que é muitas vezes ignorado, e que é o impacto a longo prazo sobre o crescimento económico que decorre do aumento da pobreza infantil que sempre acompanha uma prolongada recessão económica. De acordo com um relatório recente divulgado pelo Center on Budget and Policy Priorities (CBPP), as três últimas recessões viram aumentar significativamente a pobreza infantil. Isso não é surpreendente dado que os elementos mais vulneráveis da sociedade são geralmente aqueles que são mais duramente atingidos nos tempos difíceis; e as crianças claramente fazem parte desta categoria. Na recessão do início dos anos 1980, por exemplo, três milhões e meio de crianças caíram na situação de pobreza, aumentando a taxa de pobreza infantil uns impressionantes 5,9 pontos percentuais, ou seja, um aumento de cerca de 36% em relação ao nível pré-recessão. As mais recentes recessões têm trazido com elas, embora de forma menos grave, o aumento da situação de pobreza infantil, com cerca de 2,6 milhões de crianças a caírem em situação de pobreza durante a recessão do início dos anos 90, e 1,7 milhões durante a recessão que começou em 2001.

Usando as estimativas de aumento do desemprego e aplicando a relação entre as taxas de desemprego e as taxas de pobreza infantil a partir das três últimas recessões, o Center on Budget and Policy Priorities (CBPP) chega à conclusão de que a atual recessão económica levará a entre 2,6 a 3,3 milhões de novas crianças para a situação de pobreza.

O CUSTO ECONÓMICO DA POBREZA

Naturalmente, os Estados Unidos têm um interesse moral em agirem de modo a evitar que estas crianças caiam na situação de pobreza, mas é menos compreendido que haja uma base material, um impacto económico comensurável pelo facto de se permitir que exista um volume adicional de crianças a sofrerem o fardo da pobreza. É amplamente aceite que a pobreza, em todas as suas formas, tem um enorme custo económico. Um relatório divulgado pelo Government Accountability Office (GAO) no ano passado, sintetizou a literatura relevante sobre esta matéria e concluiu: “A análise mostra que a pobreza pode ter impactos negativos sobre o crescimento económico uma vez que afeta o processo de acumulação de capital humano e as taxas de criminalidade e de agitação social”. Mais ainda, o relatório do GAO sublinha que “estudos empíricos recentes começaram a demonstrar que taxas mais elevadas de pobreza estão associadas a menores taxas de crescimento na economia como um todo”. Por exemplo, Saura Dev Bhatta num artigo publicado em Journal of Urban Affairs de 2001 considera que as áreas metropolitanas dos Estados Unidos com as taxas mais elevadas de pobreza são as que têm tido um crescimento económico muito mais lento do que as áreas com menores taxas de pobreza. Estudos como estes sublinham o facto de que a pobreza, como um todo, age como um travão sobre o progresso económico.

Se a pobreza, em geral, tem um efeito negativo sobre o crescimento, então, a pobreza infantil tem certamente um papel especial neste processo. Têm sido feitas várias tentativas para quantificar os custos económicos associados com a pobreza infantil. Há mais de uma década, o Children’s Defense Fund (CDF) publicou “Wasting America’s Future: The Children’s Fund Report on Costs of Children poverty”. Esta extensiva análise sobre a pobreza infantil e os seus efeitos estimou que os custos anuais associados com a redução futura da produtividade do trabalhador e o emprego se situam entre 0,5% e 2,5% do PIB. Este ano, isto representa uma perda entre 65 e 325 mil milhões de dólares resultante da redução da atividade económica. A análise de 1994 do CDF não tem em linha de conta as perdas decorrentes dos efeitos de longo prazo sobre a saúde resultantes da pobreza, nem inclui os custos da criminalidade que resultam da pobreza infantil. No entanto, este relatório pioneiro demonstra claramente que a situação de pobreza infantil tem efeitos de longo prazo muito reais e mensuráveis para a nossa economia.

Mais recentemente, uma equipe de investigadores, sob os auspícios do Center for American Progress (CAP) constatou que os custos agregados para a economia atual da situação de pobreza infantil são de cerca de 4% do PIB anualmente. No seu texto de 2007 intitulado “Os custos económicos da pobreza nos Estados Unidos: efeitos subsequentes das crianças que crescem pobres”, Harry Holzer et al., analisam a literatura relevante sobre “as relações estatísticas médias entre as crianças que crescem em situação de pobreza e os seus rendimentos, a propensão para cometer crimes e a qualidade de saúde mais tarde nas suas vidas”. Depois de estabelecer uma forte relação entre o crescimento da pobreza e estes resultados negativos, os autores, então, utilizando uma variedade de hipóteses conservadoras, ligaram os prejuízos estimados associados com a perda de remunerações, com problemas de saúde, com a criminalidade numa estimativa global dos custos para a economia americana resultantes da pobreza infantil.

Embora a análise de Halzer e outros seja preferível à análise anteriormente feita pelo Children’s Defense Fund (CDF) em virtude de utilizar dados mais recentes assim como a inclusão da criminalidade e dos custos da saúde, os dois relatórios estão realmente basicamente em sintonia. Como se mencionou, o relatório CDF constatou que os custos económicos da situação de pobreza da infantil estavam na faixa de 0,5% a 2,5% do PIB, tendo apenas em conta a produtividade negativa e o maior nível de desemprego que resulta de se crescer na pobreza. O mais recente relatório do CAP estimou que estes custos se situam em cerca de 1,3% do PIB, um pouco inferior ao ponto médio da estimativa CDF. Além disso, nos 13 anos entre a publicação dos dois relatórios, as taxas de pobreza infantil caíram um pouco. Em 1994, a taxa de pobreza infantil era pouco menos de 22%. Felizmente, essa taxa caiu de forma consistente durante toda a década de 1990. Em 2000, a taxa de situação de pobreza infantil caiu para 16,2%. No entanto, nos últimos sete anos esta taxa começou a subir novamente, mas o nível de 2006 (17,4%) ainda era muito inferior ao de 1994. Não deve ser surpreendente, portanto, verificar que os custos da pobreza infantil tenham diminuído ligeiramente entre 1994 e 2006. Na verdade, seria de esperar tal resultado. Por conseguinte, apesar dos 12 anos que separam as duas análises, os autores chegaram a conclusões impressionantemente similares. Uma persistente situação de pobreza infantil representa uma significativa perda de atividade económica. Estes custos, que apenas têm em conta a perda de rendimentos e a redução da produtividade, provavelmente ultrapassam 1% do PIB.

ESTIMAR OS CUSTOS DECORRENTES DA POBREZA INFANTIL INDUZIDA PELA RECESSÃO

Sabemos que a pobreza em geral, e mais especificamente a situação de pobreza infantil, dificulta significativamente o futuro crescimento económico. Sabemos também, como já mencionámos, que o Center on Budget and Policy Priorities estima que cerca de 2,6 a 3,3 milhões de crianças irão provavelmente cair na situação de pobreza em resultado da atual turbulência económica. Se não fizermos nada para impedir que essas crianças venham a cair na situação de pobreza, quais são os prováveis custos a longo prazo para a economia americana? Utilizando as conclusões de Holzer et al., podemos estimar o impacto económico de se permitir que estas crianças adicionais venham a cair em situação de pobreza durante a recessão atual.

Conforme se disse, Holzer et al., distinguem três diferentes ramificações negativas da situação de pobreza infantil: perda de rendimentos futuros, diminuição do tempo de vida com qualidade de saúde e aumento da propensão para comportamentos criminosos. Eles atribuem à situação de pobreza infantil um custo anual equivalente a 1,3% do PIB decorrente da perda de produtividade e de rendimentos, 1,2% do PIB decorrente do aumento de custos de saúde, e 1,3% do PIB, decorrente do aumento da criminalidade. Estas estimativas baseiam-se, em grande medida, ou nas atuais taxas de pobreza ou de hipóteses de uma relativamente baixa situação de pobreza infantil no futuro (15%). Como é que estas estimativas mudam se tivermos em conta o aumento da situação de pobreza infantil, que é provável que ocorra se não fizermos nada para mitigar os efeitos da recessão actual?

Perda de rendimentos

Holzer et al., analisam uma ampla literatura sobre a mobilidade dos rendimentos e sobre os efeitos ao longo da vida por se ter crescido pobre e concluem que, em média, uma criança que passa a maior parte da sua infância em situação de pobreza vai obter, quando adulto, um rendimento 39%  inferior ao rendimento mediano anual, enquanto uma criança que vive entre um quarto e metade da sua infância em situação de pobreza virá a sofrer uma redução nos seus ganhos em cerca de metade da anterior. Estas conclusões, articuladas e combinadas com os dados apontam para que cerca de 10% das crianças americanas entre 1974 e 1994 viviam na situação de pobreza infantil durante pelo menos metade da sua infância e outras 8% sofreram durante um quarto da sua infância uma situação de pobreza, o que leva a concluir que a perda bruta anual de rendimentos imputáveis à pobreza é de cerca de 2,1% do PIB. Finalmente, os autores subtraem 40% a este valor, afim de levar em linha de conta a parte dos custos que consideram um produto da hereditariedade mais do que de fatores do meio ambiente social. Então, três quintos de 2,1% geram uma estimativa final de 1,3% do PIB, como sendo o custo anual como resultado de perda de rendimentos.

Esta estimativa é especialmente útil porque podemos facilmente calcular o impacto de taxas de pobreza mais elevadas. A metodologia de Holzer sugere, essencialmente, que um 1 ponto percentual de aumento na taxa de crianças que sofrem de modo persistente uma situação de pobreza produz uma perda económica adicional de cerca de 0,09% do PIB. Da mesma forma, a 1 ponto percentual no aumento da taxa de crianças que vivem na situação de pobreza intermitente gera uma perda económica adicional de cerca de 0,045% do PIB.

Segundo a análise CBPP, entre 2,6 e 3,3 milhões de crianças vão cair na situação de pobreza como resultado da presente recessão. O Census Bureau’s annual American Community Survey sugere que há cerca de 74 milhões de crianças nos Estados Unidos, o que significa que um aumento de 3 milhões de crianças em situação de pobreza é equivalente a um aumento de 4% na taxa global da situação de pobreza na infância. Contudo, a análise de Holzer não se baseia na taxa total de pobreza, baseia-se na taxa de crianças que vivem em situação de pobreza persistente e intermitente. Como se mencionou anteriormente, uma análise do Panel Study on Income Dynamics mostrou que 9,6% das crianças norte-americanas caíram na primeira categoria, e um valor adicional de 8% caiu na segunda. Se esse padrão é válido para as novas crianças pobres e cerca de metade destas crianças sofrem de situação de pobreza de modo persistente e a outra metade sofre de situação de modo intermitente, nós podemos esperar, no futuro, uma perda anual de aproximadamente 0,3% do PIB (veja abaixo para uma mais ampla discussão sobre a persistência da situação de pobreza induzida pela recessão). Na economia de hoje, uma perda de 0,3% do PIB traduzir-se-ia num prejuízo de cerca de 39 mil milhões de dólares.

Saúde

De modo a poder estimar os custos com a saúde que resultam da situação de pobreza na infância, Holzer calcula dois custos distintos: aumento directo das despesas em saúde resultantes da situação de pobreza e diminuição do “capital em saúde”. Holzer calcula que os custos da situação de pobreza na infância para o país são de cerca de 26 mil milhões por ano em despesas adicionais de saúde, ou seja, cerca de 0,2% do PIB, assumindo uma taxa de pobreza nas crianças de apenas 15%. No entanto, a suplantar estes custos, estão os que resultam da redução da esperança de vida, de uma maior incidência de doenças graves e em geral de uma menor qualidade da saúde. De acordo com uma análise da literatura mais importante sobre esta matéria, Holzer et al., concluem que estes custos podem aproximar-se de um quarto de milhão de dólares, por criança, ao longo da sua vida.

Estimando-se que 600 mil crianças nascem na situação de pobreza todos os anos (aqui, de novo, assume-se uma taxa de pobreza de 15%), Holzer calcula que esta diminuição do capital de saúde representa uma perda anual de 149 mil milhões de dólares, ou seja, cerca de 1,1% do PIB.

Para efeito dos nossos objetivos, podemos considerar os 3 milhões de crianças adicionais que vão cair na situação de pobreza durante esta recessão como “recém-nascidos”, que vão agora sofrer ao longo da sua vida, as consequências de terem vivido numa situação de pobreza durante a sua infância.

Especificamente, cada uma destas crianças vai perder aproximadamente 250.000 dólares de capital em saúde, ao longo das suas vidas. No total, isso equivale a uma perda total de quase 750 mil milhões. Se, em seguida, repartimos proporcionalmente estes custos ao longo de sessenta anos, o tempo de vida adulta aproximado destas crianças, os prejuízos anuais ascendem a cerca de 12,5 mil milhões, ou cerca de 0,1% do atual PIB.

Crime

Comparado com as suas estimativas sobre os rendimentos auferidos e os prejuízos de saúde, Holzer e sua equipa, utilizam uma metodologia significativamente diferente ao estimar o impacto da situação de pobreza na infância sobre os custos do crime. Em vez de começarem por determinar os custos que são atribuíveis a quem individualmente tenha vivido na situação de pobreza e, em seguida agregarem todas as crianças pobres, neste caso eles começam com os custos agregados para a sociedade como resultado da actividade criminosa e procuram determinar a quota desse montante que resulta da situação de pobreza.

Para os nossos objectivos, esta abordagem é mais complicada pelo facto de que, para determinar os “custos do crime”, Holzer baseia-se numa definição relativa de “pobres”, ao invés de uma definição absoluta (para estas duas categorias, Holzer parece usar aqui os conceitos habituais). Depois de uma análise sobre os trabalhos relevantes, Holzer calcula que cerca de 40% de todos os crimes são o resultado da pobreza. Aplicando esta taxa ao valor anual de cerca de 700 mil milhões que resultam dos “crimes de rua”, e depois de descontar uma taxa de 40% resultante de factores hereditários e que não são o resultado do meio social, Holzer conclui que o “custo do crime” anual resultante da pobreza é de 170 mil milhões de dólares.

A via para se chegar a esta conclusão, infelizmente, não nos permite obter uma estimativa credível sobre os custos adicionais de crime que venham a ser o resultado de se permitir que 3 milhões de crianças venham adicionalmente a cair numa situação de pobreza. Holzer identifica uma parte do total dos custos do crime que vem da pobreza, mas não tenta desvendar como é que essa parte pode mudar se a pobreza aumenta ou diminui. Como resultado, apesar de podermos ter a certeza de que somar 3 milhões mais de crianças ao conjunto dos pobres terá, certamente, “custos de crimes” no futuro, teremos de deixar para os outros a tentativa de uma estimativa mais precisa dos custos acrescidos e, portanto, a nossa estimativa final levará em conta apenas as despesas de saúde e as perdas de rendimentos.

A PERSISTÊNCIA DA POBREZA INDUZIDA PELA RECESSÃO

Antes de concluirmos, é necessário avaliar se a pobreza induzida pela recessão deve ser tratada da mesma forma, em termos de custos económicos de longo prazo, que a persistência da situação de pobreza na infância que existe mesmo em períodos de crescimento. Holzer e a sua equipa fizeram uma distinção, pelo menos na determinação do valor da perda de rendimentos, entre as crianças que passaram pelo menos metade da sua infância em situação de pobreza e aquelas que viveram pelo menos um quarto de sua infância em situação de pobreza. Na verdade, eles não fazem o cálculo para as crianças que só passam um a quatro anos da sua infância em situação de pobreza. Por conseguinte, a fim de fazer uma estimativa razoável destes custos, é importante determinar a probabilidade de que as crianças que caem na pobreza durante esta recessão poderão aí continuar durante uma parte adicional significativa da sua infância.

Para responder a esta questão, realizámos uma análise dos dados do estudo do Panel Study of Income Dynamics (PSID). O PSID é um “estudo longitudinal feito a nível nacional incidindo sobre cerca de 8.000 famílias americanas. Seguindo as mesmas famílias e os indivíduos desde 1968, o PSID recolhe dados sobre a situação económica, a saúde e o comportamento social”. Essencialmente, ao seguir as crianças da amostra do PSID através dos diferentes altos e baixos económicos ao longo dos anos das suas vidas, podemos ter uma melhor noção do que vai acontecer no futuro às crianças que caem na situação de pobreza durante as recessões.

Fundamentalmente, queremos saber qual a probabilidade das crianças que vivem em situações de pobreza induzidas pela recessão continuarem a viver na pobreza mesmo depois do fim da recessão. Ao responder a essa questão, podemos fazer uma avaliação mais exacta dos custos a longo prazo de uma situação de pobreza na infância induzida pela recessão, uma vez que quanto mais prolongada for a situação de pobreza, mais graves serão as suas consequências futuras.

A nossa análise incidiu sobre as crianças que caíram na pobreza durante duas situações de recessão recentes, as que ocorreram de 1980 a 1983 e de 1990 a 1993. Seguimos essas crianças, crianças que viviam em famílias com rendimento acima da linha oficial de pobreza no ano anterior ao do início da recessão, mas que caíram em situação de pobreza durante os anos de recessão, nos dez anos depois da recessão ter acabado. Entre as crianças que caíram na pobreza durante a recessão da década de 1980, aproximadamente 26% delas passaram pelo menos metade dos seus restantes anos de infância em situação de pobreza, mesmo depois de a recessão ter terminado. Outros 17% passaram pelo menos um quarto dos seus restantes anos de infância em situação de pobreza. Finalmente, outros 21% sofreram pelo menos um ano adicional de pobreza depois da recessão ter terminado. Tudo junto, para cerca de dois terços destas crianças, a pobreza continuou a atormentá-las mesmo depois da economia ter recuperado.

Os números foram muito semelhantes para o grupo da recessão dos anos 1990. 29% das crianças que caíram durante a recessão numa situação de pobreza viveram pelo menos metade dos seus restantes tempos de infância em situação de pobreza, mesmo depois da recessão ter terminado e um grupo adicional de 10% viveram em situação de pobreza, pelo menos, um quarto do seu restante tempo de infância. Embora possa parecer uma pequena parte (39%) das crianças que sofreram situações de pobreza na infância durante vários anos depois da recessão ter sido ultrapassada, vale a pena comparar este grupo de crianças com as crianças da mesma idade que não caíram em situação de pobreza na infância durante a recessão.

De entre as crianças que ficaram fora da situação de pobreza durante o início dos anos 1990, apesar da turbulência económica, apenas 3% delas caiu em situação de pobreza, em qualquer momento durante o resto da sua infância (por outro lado, 65% das crianças que começaram, em 1989, já em situação de pobreza, continuaram a estar sujeitos à situação de pobreza depois da recessão ter acabado). Por outras palavras, as crianças que caíram em situação de pobreza durante a recessão tiveram uma probabilidade 13 vezes maior de virem a sofrer anos adicionais de situação de pobreza na infância, depois da economia ter recuperado do que as crianças que não caíram em situação de pobreza induzida pela recessão.

CONCLUSÃO

É claro que cair na situação de pobreza durante uma recessão carrega consigo uma possibilidade significativa de pobreza persistente que acompanha uma criança mesmo depois de a recessão ter terminado. No entanto, é também evidente que uma parte das crianças que sofrem uma situação de pobreza induzida pela recessão poderão sair dela depois do fim da recessão e, portanto, escapar à maioria das desvantagens de longo prazo que acompanham a situação de pobreza na infância. A nossa melhor estimativa, baseada na nossa análise dos dados PSID é que, se não fizermos nada, cerca de 60% dos 3 milhões de crianças que se prevê que sejam vítimas da pobreza durante esta recessão irão sofrer uma situação de pobreza persistente ou intermitente, que provocará graves danos a longo prazo. Destas, cerca de metade irá ainda cair na primeira categoria que é a mais prejudicial.

Utilizando a nossa análise dos dados PSID, podemos ajustar a nossa estimativa para ter em conta o facto de que nem todas as crianças que caem na pobreza durante esta recessão ficarão sujeitos em toda a sua extensão aos efeitos negativos de longo prazo de se ter caído numa situação prolongada de pobreza na infância. Esse ajustamento reduz a nossa estimativa de perdas de rendimento de 0,3% do PIB para cerca de 0,17% do PIB, o que representa cerca de 22 mil milhões de dólares por ano.

Considerando apenas os prejuízos a longo prazo sobre as condições de saúde e sobre as perdas de rendimentos que são efeitos da situação de pobreza na infância e com hipóteses muito conservadoras, os custos anuais futuros de permitir que três milhões de crianças adicionais venham a cair numa situação de pobreza durante esta recessão ultrapassa, pelo menos, os 35 mil milhões de dólares por ano. Durante a vida dessas crianças, esses custos serão agregados e representarão um encargo económico total de aproximadamente 1,7 milhão de milhões de dólares (em dólares de 2008).

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