Sobre o que foi o ano de 2018, sobre os perigos que nos ameaçam em 2019 – uma pequena série de textos. 12. O Fantasma do Futuro Natal – Um mundo assustador nos espera, a menos que mudemos os nossos hábitos.

Aqui, no breve período entre o Natal e o Ano Novo, como escritor sou obrigado a dizer coisas alegres, a desejar felicidades para os tempos que aí vem. Devo confessar, não estou a sentir nada disto, este ano, daí que desse ponto de vista diga o mínimo é voltar a ser um rabugento, porque é isso que os tempos exigem.

O Fantasma do Futuro Natal – Um mundo assustador nos espera, a menos que mudemos os nossos hábitos

(Chris Martenson, 28 de Dezembro de 2018)

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Aqui, no breve período entre o Natal e o Ano Novo, como escritor sou obrigado a dizer coisas alegres, a desejar felicidades para os tempos que aí vem. Devo confessar, não estou a sentir nada disto, este ano, daí que desse ponto de vista diga o mínimo é voltar a ser um rabugento, porque é isso que os tempos exigem.

Então, Feliz Ano Novo. Espero que tudo corra bem para toda a gente, em 2019.

Então, com tudo o que temos por detrás de nós, podemos agora voltar a nossa atenção para o verdadeiro estado do mundo, que se está a deteriorar e a ficar cada vez pior.

Para a maioria das pessoas as coisas serão decididamente piores, não melhores, à medida que as coisas progridem ao longo das suas trajetórias atuais. O único planeta em que temos que viver está a ser morto pela atividade humana e pela desatenção grosseira, enquanto economicamente a maior e mais imprudente bolha de crédito de toda a história da humanidade flirta com o tipo de desastre repentino que se segue logo após o fracasso do para-quedas, isto é dos mecanismos de proteção em reserva.

Como tenho repetido muitas vezes, gostava que não fosse este o caso. Pessoalmente, não tenho um “gene chato” que goste de más notícias nem gosto de ser “aquele tipo ” que diz o que ninguém quer ouvir.

Muitos dos leitores que me lêem sabem isso, sabem exatamente do que estou a falar. Os leitores também tiveram que manter os lábios fechados durante as férias de Natal para que a conversa fiada da família e a abertura de presentes baratos e esquecidos não fossem estragadas por qualquer conversa sobre a “realidade”. Claro, toda a gente pode interiormente vacilar com o sexto copo de Bourbon do tio Jack e tolerar a conversa de coisa nenhuma e a estranheza social que certamente se seguirá, porque “é só uma vez por ano”.

Mas o colapso das populações de insetos, a perda de espécies, o encolhimento dos volumes aquíferos e a traição total das gerações mais jovens pelos “velhos” que determinam e aplicam as políticas orçamentais e monetárias do mundo não é tão facilmente rejeitada. Não há alívio no final do dia, quando o problema nos acompanha para casa.

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Em vez disso, essas muitas dificuldades espreitam e vão-se degradando, piorando, vão apodrecendo, e tão teimosamente quanto um feixe de lenha na cave de casa. Um adulto com um feixe de problemas na cave lida com ele. Mas uma pessoa imatura finge que o problema não existe e então repreende e envergonha quem o menciona.

Bem, para aqueles de nós que nos situamos no campo da maturidade, baseando-nos na realidade, podemos apontar não uma, mas muitas dezenas de vigas podres na cave, assim como as paredes e o telhado. Deste modo, as férias são muitas vezes para nós mais um fardo do que um conforto. “Porque, sim, tia Karen, foi um belo conjunto de bases para copos, o que deu ao John“, como pensa-se para si mesmo “Pergunto-me se essas bases não são feitas de microplásticos prensados ou a partir da floresta tropical virgem?”

Para ser absolutamente claro, lamento as decisões que nos levaram a este ponto da história. Mas é aqui que nós estamos.

Gostaria que a Reserva Federal, o BCE e o resto dos principais bancos centrais do mundo não tivessem imprimido 16 milhões de milhões de dólares em dinheiro, a partir de quase nada, de pouco mais que ar, e provocado a maior coleção de bolhas de preços de ativos de toda a história.

Gostaria que os EUA tivessem dado ouvidos a Jimmy Carter na década de 1970 e tivessem desenvolvido uma estratégia energética viável a longo prazo que fizesse sentido. Eu desejaria que a população de insetos desaparecidos não tivesse sido relegada para as últimas páginas dos principais jornais, e em vez disso estivessem nas primeiras páginas e no centro das preocupações em cada um dos nossos dias até que ações responsáveis sejam realizadas. Eu gostaria que os aforradores, pensionistas e os jovens não tivessem sido sacrificados no altar dos lucros dos bancos para que os obscenamente ricos se pudessem tornar ainda mais ricos.

Mas não foi assim que as coisas correram. Por isso, agora só temos de tirar o melhor partido disso individualmente, aconteça o que acontecer.

Duas perguntas

Em novembro de 2018, participei de um magnífico evento noturno realizado pelo moderno poeta-histórico Stephen Jenkinson, onde ele colocou a seguinte questão para o público, que consistia principalmente de pessoas de cabelo grisalho. Jenkinson disse que cada pessoa mais velha precisa de estar preparada para o dia em que uma pessoa mais jovem se aproxima dela e lhes faça estas duas perguntas:

  1. Quando é que soube  e
  1. O que é que fez a esse respeito?

Quando é que o leitor soube dos muitos problemas e dificuldades que o mundo enfrenta hoje? Quando é que soube da perda de espécies e do pico do petróleo, das políticas destrutivas de geração em geração levadas a cabo pelos seus pares e da insustentabilidade de todo o nosso modelo económico?

E o que é que fez quanto a tudo isso? Será que fez alguma mudança no seu comportamento, ou fechou os olhos e mergulhou numa estratégia de falsa esperança? Esperou que “alguém” fizesse “alguma coisa” por si? O leitor lutou por todas as coisas em que alguma vez acreditou?

Estas não são perguntas fáceis de enfrentar, porque incidem diretamente no âmago da questão. Elas colocam a nossa integridade em questão e ameaçam a exposição se temos alguma coisa a expor.

Não é uma coisa fácil, com certeza.

Então, como preparação para o que está para vir, deixe-me agir como um substituto daquele jovem do futuro e ser eu a perguntar ao leitor :

Quando é que soube?

E o que é que fez a esse respeito ?

Projeção Psicológica

A projeção psicológica é um mecanismo de defesa em que o ego humano se defende contra impulsos ou qualidades inconscientes (tanto positivas como negativas), negando a sua existência neles próprios e atribuindo-as aos outros.

Nos EUA, a geração mais velha, os Baby Boomers, (geração de gente nascida entre 1945 e 1965) tem muito que responder. Eu estou entre eles, então estou a apontar os meus dedos acusadores para mim também. Cabe a cada grupo ser o seu próprio melhor crítico (um credo de que o FBI, muitos departamentos de polícia, grandes empresas e partidos políticos parecem ser lamentavelmente ignorantes).

Em vez de ser apropriadamente autocrítico, 2018 foi o ano em que todo o establishment político atual decidiu envolver-se num ato de projeção psicológica em massa. Com os Millennials, ditos também geração Y, a serem os alvos infelizes.

Nos EUA, depois de se gastarem US$ milhões de milhões em guerras desnecessárias e de se desprezar investir para o futuro (financiar adequadamente as pensões, manter as infraestruturas vitais, etc.), o establishment decidiu que 2018 seria um bom ano para colocar o seu dedo coletivo a acusar a geração dos Millennials, chegando ao ponto de culpar a sua baixa taxa de proprietários de casa própria por andarem a comer muitas torradas de abacate:

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Mas isto não parou por aqui. O establishment entrou numa onda de culpabilizações. Acusou os Millennials de tantos vícios que tiveram de ser criadas longas listas de itens acusatórias. Como essas listas se tornaram exaustivamente longas, os Millennials foram marcados como “assassinos em massa”:

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A razão pela qual tantos Millennials se estão a afastar dos cegos padrões de consumo dos seus pais é porque eles ficaram trancados fora do jogo e por muito tempo para poderem voltar atrás. Como eles fizeram, muitos deles decidiram que as atividades materiais dos seus pais e as escolhas de vida que estes fizeram não valiam a pena serem repetidas.

Toda uma vida inteira a pagar hipotecas e outras dívidas a banqueiros ou… gastarem o seu dinheiro em experiências valiosas enquanto ainda jovens e vigoroso? Hmmmmmm. Não é exatamente uma escolha difícil, pois não?

A geração dos baby-boomers e os seus lacaios jornalistas descrevem a opção de contração dos Millennials como estando a “matar ” instituições de valor como as faculdades com fins lucrativos e o mercado imobiliário, mas a realidade é que se o leitor der às pessoas um pouco de espaço de manobra para avaliar as suas opções, poucos escolherão voluntariamente uma vida inteira de servidão marcada pelo endividamento. A maioria prefere a liberdade financeira e uma vida bem vivida.

Eu sei que os meus próprios filhos (agora todos jovens adultos) optaram por não entrar numa opção de vida assente no endividamento. Ou em gastar demais na faculdade. Ou em comprar carros até que de uma maneira ou de outra tenham necessidade imperiosa de comprar (e mesmo assim compraram carros usados, uns calhambeques).

Gosto de pensar que eles têm alguma dessa frugalidade como característica herdada dos pais, mas, sinceramente, depois da idade dos 13 anos a influência dos pais sobre os filhos situa-se entre 0 e -3. A partir da idade de 13 anos formam com os seus colegas a sua própria perspectiva da vida e do mundo. E muitos dos colegas dos meus filhos estão a tomar decisões de compra e de vida semelhantes, o que define a direção da sua faixa etária.

Para os jornalistas que se esforçam para compreender porque é que os Millennials estão a fazer escolhas diferentes das dos Boomers, apresento-lhes esta citação :

It is difficult to get a man to understand something, when his salary depends upon his not understanding it.”

“É difícil conseguir que um homem compreenda alguma coisa, quando o seu salário depende da sua não compreensão.”  (Upton Sinclair).

É importante notar que a imprensa dominante do sistema tem alguns trabalhos importantes: manter todos firmemente fixos na ideia de querer consumir e desviar também qualquer crítica para longe dos ricos e dos executivos das suas empresas (caso exista alguma distinção entre esses dois grupos).

Se eu pareço duro sobre a imprensa mainstream, é porque muitos nessa profissão se acomodaram em ser pouco mais do que escribas para os poderosos; fazendo pouco mais do que repetir pontos de discussão escritos, “factos” imprecisos, e abertamente propaganda sobre o mundo empresarial e político.

Por outras palavras: a crítica é inteiramente merecida. Especialmente quando se pergunta: “Quando é que soube? E o que é que fez relativamente a isso ?

2019: O Início do Fim

2018 foi o ano em que as coisas começaram a desmoronar-se, à medida que os erros acumulados das décadas anteriores acabaram finalmente por se instalar.

2019 verá as repercussões desse desfazer-se. Vai ser um ano muito difícil quando a realidade começar a instalar-se.

No que diz respeito aos mercados financeiros, que são os dispositivos preferidos de auto-enriquecimento e da sinalização pública dos poderes em exercício, o nosso modelo operacional está contido na frase: Até e a menos que.

Até e a menos que os bancos centrais do mundo não tenham invertido a tendência e, mais uma vez, não façam mais flexibilização quantitativa, ou “QE”, os preços dos ativos financeiros continuarão a cair ao longo de 2019. Ações, títulos, imóveis. O leitor pode nomeá-los.

Para todos os investidores, agora habituados ao aumento constante dos preços dos ativos, este será um período muito desagradável e doloroso.

Mas, para além das nossas carteiras de títulos, os desequilíbrios que enfrentamos são extraordinários e estão espalhados por todo o mundo – económica, política, ecológica e demograficamente – e simplesmente não existem recursos suficientes para voltar ao ritmo fiável e rápido do crescimento económico registado no século XX.

Está na hora de cada um de nós se concentrar na preparação financeira, emocional e física. As coisas estão a mudar, rapidamente, e fingir que isso não está a acontecer, não é uma estratégia vencedora.

Poucos são os que estão prontos para ouvir essas mensagens. Mas serão mais a estarem prontos para as ouvir ao longo do próximo ano, mas ainda assim os números serão surpreendentemente pequenos.

Isto torna ainda mais importante que nos mantenhamos unidos e ofereçamos apoio e encorajamento uns aos outros enquanto navegamos em águas cada vez mais difíceis durante os próximos meses e anos.

Por fim, gostaria de me poder juntar aos milhões incontáveis ao olhar para além de todas essas dificuldades e alegremente desejar a todos um Feliz Ano Novo e deixar as coisas assim. Mas não sou capaz disso.

Não escolhemos os tempos em que vivemos, mas podemos controlar a forma como lhes respondemos, bem como a forma com que decidimos enfrentar os desafios que teremos pela frente.


Artigo original aqui

 O décimo terceiro texto desta série será publicado, amanhã, 04/02/2019, 22h)


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