Nuvens bem negras sobre a Europa, sobre o mundo, enquanto lhe vendem a esperança dos amanhãs que cantam – “Os fantasmas de Versalhes”. Por Harold James

nuvens negras

 

 

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Os fantasmas de Versalhes

harold james Por Harold James

Publicado por Project syndicate em 1 de fevereiro de 2019

Exatamente 100 anos após o início do processo de paz de Paris que formalizou o fim da Primeira Guerra Mundial, o mundo está novamente numa encruzilhada histórica. Como em 1919, a tentação de alcançar mais democracia e uma cooperação internacional mais profunda deve ser administrada com cuidado, para que não surjam consequências trágicas não esperadas.

Fantasmas de versalhes

 

PRINCETON – Passaram pouco mais de 100 anos desde a abertura da Conferência de Paz de Paris, que produziu os Tratados de Versalhes, Saint-Germain-en-Laye, Neuilly-sur-Seine, Trianon e Sèvres, pondo fim à Primeira Guerra Mundial. Até hoje, o ressentimento contra o Tratado de Trianon alimenta o nacionalismo e o revisionismo húngaros, especialmente sob o atual governo do Primeiro-Ministro Viktor Orbán.

Com efeito, o processo de paz de Paris é geralmente recordado como um exemplo do falhanço de uma cooperação internacional e da promoção da democracia bem-intencionadas. Agora que estamos a viver um momento em que o multilateralismo e a democracia estão novamente sob tensão, vale a pena questionar porque razão é que os esforços para promover a cooperação internacional e a democracia fracassam tantas vezes.

Em 1919, a tentativa do Presidente dos EUA, Woodrow Wilson, de forjar uma paz duradoura através da destruição das autocracias do mundo revelou-se excessivamente ambiciosa, mesmo quando inaugurou o consenso intervencionista que desde então tem dominado o pensamento da política externa dos EUA. Embora o presidente dos EUA, Donald Trump, afirme ter abandonado essa tradição, ele ordenou ataques aéreos contra locais militares do governo na Síria e reconheceu o líder da oposição da Venezuela como o presidente legítimo do país.

O processo de Paris fracassou porque criou expectativas demasiado elevadas. A vitória dos poderes democráticos não significava que os desejos democráticos se concretizassem, especialmente quando esses desejos exigiam que os perdedores pagassem. Durante a Primeira Guerra Mundial, todos os lados assumiram simplesmente que um eventual acordo de paz deveria sobrecarregar os vencidos com os custos materiais – e mesmo emocionais – da guerra, assegurando praticamente uma resolução insatisfatória do conflito.

Da mesma forma, em 2019, os problemas resultantes das rápidas mudanças tecnológicas e da globalização podem não admitir a existência de soluções amplamente aceitáveis. Como resultado, os diferentes países produzirão as suas próprias narrativas sobre serem enganados pela globalização. E, tal como em 1919, estes mesmos países vão inventar “vilões” para carregarem a culpa. Por exemplo, o governo Trump queixa-se rotineiramente das práticas comerciais desleais da China, do excessivo excedente na balança corrente da Alemanha, da ajuda aos países em desenvolvimento e assim por diante. Escusado será dizer que compilar uma ladainha de queixas dificilmente equivale a uma solução.

Uma segunda explicação para o fracasso do processo de Paris é que alguns dos envolvidos – o Primeiro-Ministro francês Georges Clemenceau, o Primeiro-Ministro britânico David Lloyd George e Wilson – eram excecionalmente incompetentes ou mal-dispostos. Clemenceau era um nacionalista de toda uma vida, maniacamente dedicado apenas à prossecução dos interesses franceses, ao passo que Lloyd George era o oposto e, portanto, demasiado maleável e sem princípios face à enorme tarefa que tinha pela frente. Lloyd George  tinha a tendência de atacar pessoalmente as outras pessoas, para depois esquecer o que tinha feito isso ao encontrar novamente essas mesmas pessoas.

Por seu lado, as elevadas aspirações de Wilson excederam largamente a sua perspicácia na negociação política, tanto a nível nacional como internacional. E os seus crescentes problemas de saúde certamente não o ajudaram. Devido à sua pressão arterial estratosfericamente alta, que em grande parte não foi tratada, Wilson sofreu um acidente vascular cerebral grave pouco depois dos procedimentos de Paris. Uma lição óbvia deste episódio da história é que é importante monitorizar a saúde física e mental dos líderes mundiais, particularmente do presidente dos Estados Unidos, durante o período de tomada de decisões de grandes consequências.

Quando se trata de falhas de caráter dos líderes, 2019 é um ano tão preocupante quanto o foi 1919. Trump e a primeira-ministra britânica Theresa May não poderiam ser mais diferentes em termos de personalidades, mas ambos dispensaram o conselho de especialistas e causaram sérios danos aos sistemas políticos dos seus países. Enquanto o presidente francês Emmanuel Macron é frequentemente criticado pela sua relativa inexperiência, a chanceler alemã Angela Merkel é, ao contrário, vista como demasiado experiente e muito agarrada a um status quo ultrapassado.

A terceira razão pela qual o processo de Paris falhou é talvez a mais importante. Os objetivos excessivamente ambiciosos da conferência e os defeitos de personalidade das pessoas em presença que os prosseguiam eram tão óbvios que convidavam a uma crítica pública mortífera. Essa crítica veio do economista britânico John Maynard Keynes, uma das mentes mais brilhantes da época, no seu livro de 1919, As Consequências Económicas da Paz.

A crítica de Keynes ao processo de Paris e aos seus participantes foi devastadora, e ele sabia disso. Em Outubro e Novembro de 1919, participou em reuniões, organizadas pelo banqueiro holandês Gerard Vissering, onde banqueiros dos EUA e de várias potências neutras conceberam um plano sofisticado para alavancar o financiamento privado dos EUA para a reconstrução da Europa. O plano era muito promissor, mas Keynes não podia associar-se a ele, porque com a sua polémica brilhante tinha perdido o apoio dos dirigentes políticos necessários para o levar a cabo. No fim de contas, apenas alguns elementos do plano foram adotados, e só em 1924, quando já era demasiado tarde.

A lição a tirar é que uma crítica cerrada pode ser contraproducente. Fazer com que os dirigentes políticos se coloquem numa trajetória política correta requer persuasão, não polémicas. Daí que, quando chegou a hora de refazer o mundo em 1944-45, Keynes adotou uma abordagem muito diferente. Ele elaborou um complexo plano de reconstrução, mas desta vez operou nos bastidores. Não teria sido difícil atacar o primeiro-ministro britânico Winston Churchill e o presidente dos EUA Franklin D. Roosevelt pelas políticas económicas que cada um destes dirigentes tinha anteriormente praticado mas com isso também não teria conseguido nada.

É verdade que Churchill e Roosevelt eram dirigentes muito melhores do que Lloyd George e Wilson. Mas mesmo que tivessem sido igualmente imperfeitos, Keynes tinha aprendido os custos de se concentrar excessivamente sobre as fraquezas dos maus dirigentes tendo pela frente tempos difíceis. Seja em 1919 ou 2019, a obsessão pela crítica aos dirigentes em si-mesmos pode desviar-nos de trabalhar em prol das soluções que os problemas mais urgentes de hoje exigem.

 

HAROLD JAMES, Project Syndicate, The Ghosts of Versailles, 1 de Fevereiro de 2019. Texto disponível em https://www.project-syndicate.org/commentary/lessons-from-versailles-paris-peace-conference-by-harold-james-2019-02

 

Harold James escreve para Project Syndicate desde 2001. É Professor de História e Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton e colega senior no Center for International Governance Innovation. É especialista em história económica alemã e em globalização. Co-autor do novo livro The Euro and The Battle of Ideas, e autor de The Creation and Destruction of Value: The Globalization Cycle, Krupp: A History of the Legendary German Firm, e Making the European Monetary Union.

 

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