Em 1999, uma criança nasceu, de parto prematuro e com deformidades congénitas: o Euro 20 anos depois – alguns textos sobre a sua atribulada existência. Texto nº 13. Joseph Stiglitz : « Será talvez necessário abandonar o euro para salvar o projeto europeu »


Joseph Stiglitz 

«Será talvez necessário abandonar o euro para salvar o  projeto europeu»

(Entrevista a Joseph Stiglitz por Benoit GEORGES, 16/09/2016)

stiglitz

LE CERCLE/ENTRETIEN –  No seu novo ensaio, o Prémio Nobel da Economia e professor na Columbia afirma que o fracasso da Europa em sair da crise se deve principalmente à moeda única.

Para toda uma geração de europeus, parece impensável questionar a existência do euro. Vivemos com ele, é uma moeda em que confiamos… Como pode um economista como o senhor dizer que o euro é um fracasso?

Stiglitz.  O euro foi criado não como um fim em si mesmo, mas como um meio para atingir um fim. O objetivo era criar uma Europa mais próspera e com uma maior solidariedade política. Em relação a este objetivo, o euro não é um êxito. A economia na Europa está em muito mau estado. Lembre-se, a crise de 2008 começou nos Estados Unidos, mas os Estados Unidos recuperaram em grande parte. A Europa continua em situação de estagnação.

Les Echos. Mas, na Europa, acredita-se que a crise não está ligada ao euro, que está ligada ao financiamento e que, se o nosso continente tem dificuldade em recuperar dele, não é por razões monetárias… O senhor diz que o euro é o único responsável…

Stiglitz. Esse não é o único problema, mas é o principal. O princípio de uma moeda é permitir que a economia se ajuste em caso de choque. Tem uma moeda única, utilizada por 19 países diferentes e muito diferentes, e o teste surge quando se enfrenta um choque. E quando a crise chegou, o euro falhou neste teste. Porque a capacidade de resposta dos países europeus a este choque era limitada.

Quando a crise surgiu, o euro falhou (…) porque a capacidade de resposta dos países europeus ao choque era limitada.

Normalmente, existem várias formas de responder a uma crise: baixam-se as taxas de câmbio, baixam-se as taxas de juro, diferentes países podem agir de forma diferente. Com a moeda única, estes mecanismos foram suprimidos. E nada foi posto em prática. Ao fazê-lo, a Europa está de mãos atadas: não se pode utilizar taxas de câmbio, instrumentos de política monetária, fiscalidade… porque se tem de limitar os défices a 3% do PIB. Todos os instrumentos de ajustamento foram suprimidos. E, pior ainda, não foram criadas as instituições necessárias.

Les Echos. O senhor explica no seu livro que os critérios de convergência, que deveriam ter aproximado os países pobres dos mais ricos, não tiveram qualquer utilidade. O senhor  diz que houve, pelo contrário, uma divergência entre  países……

Os números mostram que existe uma divergência,  mas o que estou a tentar explicar no meu livro é como é que a própria estrutura da zona euro quase tornou isto inevitável. Não se pode culpar os países. Tem havido muitas tentativas de acusar a Grécia ou a Espanha de não fazerem a coisa certa. Mas na raiz do problema estava a obrigação de limitar os défices e a inflação. Veja-se a Espanha ou a Grécia: eram excedentários antes da crise! Não foi o seu défice que causou a crise, foi a crise que causou o seu défice.

Hoje, até mesmo o FMI diz que a austeridade não traz o crescimento de volta.

E dizer que o problema pode ser resolvido reduzindo os défices é um erro: agrava a situação. Hoje, nos países europeus em dificuldade, a amplitude da depressão é maior do que durante a Grande Depressão.

E dizer que o problema pode ser resolvido reduzindo os défices é um erro: agrava a situação. Hoje, nos países europeus em dificuldade, a amplitude da depressão é maior do que durante a Grande Depressão.

Les Echos. O senhor descreve uma falha comum dos dirigentes europeus, mas é particularmente duro com a Alemanha. Era a economia mais forte da Europa antes da crise, e é a que acaba por se  sair melhor.

Stiglitz: A economia  baseia-se na lei da gravidade: fluxos de dinheiro de países ricos em capital, onde os retornos são baixos, para países onde há escassez de capital. Pressupõe-se que, nestes países, os retornos, depois de ajustados pelo risco, serão elevados. Mas na Europa do euro, os movimentos de capitais, e também os movimentos de trabalhadores, parecem desafiar a lei da gravidade. O dinheiro flui para cima, dos pobres para os ricos.

E o problema com a Alemanha é duplo. Primeiro, mantém o seu excedente. Este é um princípio básico da economia: se alguns países exportam mais do que importam, outros importam mais do que exportam. Se alguém tem um excedente, outra pessoa tem um défice. E os défices traduzem-se em crises financeiras, em economias enfraquecidas… Os alemães recusaram-se a agir sobre o seu excedente, o que poderiam ter feito aumentando o salário mínimo, gastando mais dinheiro, o que teria ajudado a reduzir os desequilíbrios….

Em seguida,  os alemães insistiram que outros países praticassem a austeridade. Mas hoje, mesmo o FMI diz que a austeridade não nos traz o crescimento de volta. Por último, os alemães impediram a criação das instituições que teriam feito o euro funcionar. E o prejuízo daí resultante não é apenas económico, mas também político.

Se não é possível criar as instituições necessárias para que o euro funcione, porque não criar um sistema mais flexível?

Les Echos. O seu livro não só critica, como também dá sugestões quanto a soluções. E entre estas soluções, não se propõe uma saída pura e simples do euro com um súbito regresso ao franco ou ao marco, mas sim uma saída suave. Que cenários propõe?

Stiglitz. Em primeiro lugar, a melhor solução seria criar as instituições que fizessem o euro funcionar. Não é assim tão complicado, muitas pessoas na União Europeia pedem-no. Um seguro comum para depósitos, empréstimos comuns em euros……. Registaram-se progressos, mas muito poucos e muito lentos. E as respostas políticas e económicas não estão de acordo com a necessidade de reformas, especialmente porque as políticas de direita estão a ganhar terreno em cada vez mais países

Portanto, o que estou a dizer é o seguinte: se não é possível criar as instituições que farão funcionar o euro, por que não criar um sistema mais flexível?

Les Echos. Então, está a propor um euro a várias velocidades?

Stiglitz. Não se trata de voltar a 19 moedas diferentes, mas poderíamos ter diferenças entre o norte e o sul, poderíamos ter três níveis… O objetivo seria ter mais semelhanças económicas em cada grupo, mais convergência política… e quando há mais convergência, uma moeda única pode funcionar. O problema é que, com 19 países, há demasiadas diferenças económicas e políticas e até filosóficas para a Europa funcionar. Mas em grupos mais pequenos, pode haver harmonia suficiente.

Estou também a tentar descrever uma forma de, com o tempo, a Europa poder criar as instituições necessárias. O problema é que se põe o carro à frente dos bois. As ambições eram altas, a visão era alta, mas a economia não estava em condições para tal.

O que estou a tentar dizer é o seguinte: criem-se as instituições, e depois poder-se-á enfrentar os problemas de uma moeda única.

Les Echos. – A Europa enfrenta atualmente um aumento do populismo na maioria dos países. A maioria dos políticos que querem sair do euro, ou que acusam constantemente Bruxelas, ou são da extrema direita ou da extrema esquerda, o que não é o seu caso. Poderá haver uma forma moderada de criticar o euro e de salvar a Europa?

Stiglitz. Isso mesmo. Isso mesmo. Mais uma vez, a  moeda  é um meio e não um fim em si mesmo. Não proporciona um nível de vida. Na verdade, a ironia da história é que com  as  moedas múltiplas, as restrições de se ter diferentes moedas estão a desaparecer. Com dinheiro eletrónico, cartões de crédito, já nem sequer precisa de dinheiro: pode ir a qualquer lugar da Europa e pagar com cartão.

Se eu critico o euro, é apenas para criar uma Europa mais forte.

Mas a moeda única era um meio para atingir um fim, e o perigo é que hoje se tenha tornado um fim em si mesmo. E porque não foi perfeitamente concebido, as suas imperfeições contribuíram para enfraquecer a Europa, e é por isso que tudo deve ser feito para resolver estes problemas.

Mas se eu critico o euro, é apenas para criar uma Europa mais forte. Poderá ter de se abandonar o euro para salvar o projeto europeu. Os extremistas, por outro lado, querem pôr fim ao projeto europeu. É exatamente o contrário.

Les Echos. Quanto aos Estados Unidos, é um país também confrontado com o populismo, ainda que os Estados Unidos tenham recuperado mais facilmente da crise do que a Europa. Como é que avalia a situação económica e política que aí se vive?

Stiglitz. O euro não é o único problema do mundo. Mas há uma coisa que a Europa e os Estados Unidos têm em comum: os dirigentes políticos não se preocuparam com os muitos grupos de pessoas que se sentem deixados para trás. Fizeram promessas, disseram que a liberalização dos mercados financeiros, a globalização, o euro… tornaria a economia mais próspera e que todos beneficiariam.

Les Echos. Mas as desigualdades, assunto de outro dos seus livros (*), aumentaram….

Stiglitz. Aumentaram de ambos os lados do Atlântico e as pessoas ficaram para trás. Acabamos de saber que os rendimentos  das famílias americanas de classe média finalmente começaram a subir novamente. E, no entanto, para as famílias comuns, esse rendimento  ainda está abaixo do nível de 1999, 17 anos antes.

Este é o sinal de uma economia que não funciona. São 17 anos de estagnação….. E se olharmos para os dados ao longo de um período de tempo mais longo, veremos que foi um quarto de século, ou mesmo um terço de século, uma vez que os 50%, 60% ou 70% das pessoas menos ricos  quase não tiveram  qualquer aumento do seu nível de vida. Falamos das virtudes dos mercados, do capitalismo, do aumento do nível de vida… Sim, foi o caso do grupo dos   1% mais ricos. Mas não para os outros.

O próximo texto desta série será publicado amanhã, 05/04/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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