Em 1999, uma criança nasceu, de parto prematuro e com deformidades congénitas: o Euro 20 anos depois – alguns textos sobre a sua atribulada existência. Texto nº 14. Uma análise sobre a criação da União Europeia e sobre a sua trajetória até aos dias de hoje – Parte I


Uma análise sobre a criação da União Europeia e sobre a sua trajetória até aos dias de hoje

Olivier Delorme é historiador e escritor. As suas áreas de especialização vão desde o genocídio arménio à Grécia – sobre a qual escreveu uma monumental obra de três volumes “A Grécia e os Balcãs”. Se a sua obra evolui na fronteira entre a literatura e a história mais erudita, é para um livro empenhado e voluntariamente polémico que decidimos entrevista-lo. Com efeito, Olivier Delorme opõe-se fortemente à União Europeia e foi com isso em mente que publicou, em 2016, “30 boas razões para deixar a Europa” (edições H&O), uma verdadeira resposta aos lugares comuns em torno desta instituição antidemocrática e neoliberal.


Parte I –“Afirmar que a Europa é a paz é um absurdo associado a uma mistificação”

DELORME

(Entrevista a  Olivier Delorme por GALAAD WILGOS, 27/12/2018)

G. W. O senhor zomba do lugar-comum europeísta dizendo que a Europa é a paz… A formação da União Europeia não ajudou a pacificar uma Europa que conheceu duas guerras mundiais e muitas outras?

Não, de modo nenhum. Na realidade, a guerra é impossível na Europa desde que os Estados Unidos da América, em 1945, e depois a União Soviética, em agosto de 1949, adquiriram a bomba atómica. Em Abril de 1949, dez Estados da Europa Ocidental juntaram-se ao Canadá e aos Estados Unidos através do pacto de assistência mútua conhecido como Aliança Atlântica, enquanto as tropas soviéticas estavam estacionadas na maior parte dos Estados da Europa Oriental que formariam o Pacto de Varsóvia em 1955. Consequentemente, os dois Grandes podem, na Europa, medir-se mutuamente, embaraçar-se mutuamente, mas a não questionarem o equilíbrio pois que, caso contrário, degeneraria num conflito nuclear, uma vez que todos consideram a sua “glacis europeia” como parte dos seus interesses vitais. É o equilíbrio do terror, e nada mais, que assegura a paz na Europa após 1945.

Quanto à possibilidade de uma guerra franco-alemã neste contexto geopolítico, trata-se simplesmente de uma guerra burlesca. Uma vez que os Estados Unidos exerceram uma hegemonia sem partilha sobre a Europa Ocidental até 1958, é de facto extravagante imaginar que Estados que dependem inteiramente dos USA para a sua segurança e em muito para o seu abastecimento e reconstrução (Plano Marshall), que também albergam bases americanas no seu território, poderiam entrar em guerra uns contra os outros. Por fim, quando a França abandonou a organização militar integrada da Aliança Atlântica em 1966, a sua força de dissuasão nuclear tinha-se tornado operacional: não era, portanto, possível qualquer agressão direta contra ela por parte de uma potência não nuclear. Nestas circunstâncias, afirmar que “a Europa é a paz” é um disparate associado a uma mistificação.

A realidade é que aquilo a que se chama “construção europeia” e esta é uma construção americana da Guerra Fria: nunca se tratou de organizar economicamente a parte da Europa senão sob a hegemonia americana. Sabemos agora que os serviços especiais americanos financiaram abundantemente os movimentos pan-europeus e que a maior parte dos “Pais da Europa” foram aquilo a que os arquivos da CIA chamam “mãos alugadas” (hired hands), o que proponho traduzir, nestas 30 boas razões para deixar a Europa, como mercenários ou homens de mão. Além disso, muitos destes pais tiveram também uma carreira na NATO e/ou uma reforma dourada nas multinacionais americanas.

“Os Estados-nação têm desempenhado um papel muito mais activo na pacificação da Europa do que a integração europeia. »

Quanto à pacificação das relações entre os dois blocos da Guerra Fria, esta também não teve absolutamente nada a ver com a “construção europeia”. Foi primeiramente iniciada pelo General de Gaulle, que falou da Europa do Atlântico aos Urais, isto é, sem qualquer ligação com a Europa americana de Monnet e os seus colegas, e em parte em reacção ao fracasso do único plano europeu que não foi inspirado ou patrocinado pelos americanos (Plano Fouchet, 1961-1962) e que, por esta razão, os então parceiros da Comunidade Económica Europeia (CEE) fizeram falhar. Do mesmo modo, a outra política europeia de desanuviamento foi iniciada por outro Estado-nação do continente, e novamente fora do quadro da CEE. É a Ostpolitik do alemão Willy Brandt, que responde essencialmente aos imperativos nacionais alemães. Os Estados-nação desempenharam, portanto, um papel muito mais activo na pacificação da Europa do que a “construção europeia”.

Acresce ainda que, em Chipre, a União Europeia (UE) só ratificou a ocupação e a colonização ilegal (desde 1974) de 37% de um Estado que se tornou membro em 2004 (República de Chipre) por um Estado candidato (Turquia): uma situação perfeitamente ubuesca! E a UE nunca tentou seriamente nada, nem exerceu qualquer pressão significativa sobre a Turquia, para encontrar uma solução política para este conflito. Também não demonstrou qualquer solidariedade para com os cipriotas que, desde há vários meses, enfrentam a intimidação da marinha turca para impedir o desenvolvimento de campos de gás situados na zona económica exclusiva da República de Chipre.

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Legenda: Konstantinos Parthenis, Grand nu (1920-25)

De igual modo, a UE nunca tentou nada de sério para levar a Turquia – que já está a financiá-la em grande medida no âmbito do processo de pré-adesão e, mais recentemente, como forma de chantagem com os migrantes – a pôr fim às suas inúmeras violações do espaço aéreo e marítimo grego, ou seja, à violação das fronteiras da União! E quando, em 1996, a Turquia ocupou os ilhéus gregos de Imia (novamente ameaçados na Primavera passada), colocando os dois países à beira do conflito (três mortes na queda de um helicóptero grego), a Comissão e o Conselho permaneceram em silêncio. Só o Parlamento Europeu adotou uma resolução, sem consequências práticas, reafirmando os direitos soberanos da Grécia e instando o Conselho a “tomar as medidas necessárias para melhorar as relações entre a Grécia e a Turquia”. O que ele não fará. É finalmente uma mediação americana que restabelecerá o status quo.

“As então chamadas “Comunidades Europeias” desempenharam um papel singularmente tóxico na eclosão das guerras de secessão jugoslavas. »

No entanto, a persistência da ameaça turca, recentemente renovada sem mais reações por parte da UE, obriga a Grécia a apoiar um esforço militar desproporcionado: é o país da NATO que dedica, depois dos Estados Unidos, a maior parte do seu PIB às despesas militares. E este esforço contribuiu significativamente para a “construção” da famosa dívida grega, enriquecendo simultaneamente as indústrias de defesa alemã e francesa, de que a Grécia é um dos clientes mais importantes.

Por fim, as então chamadas “Comunidades Europeias” desempenharam um papel singularmente tóxico na eclosão das guerras de secessão jugoslavas e demonstraram que a chamada solidariedade europeia não pesa nada assim que estão em jogo poderosos interesses nacionais. Com efeito, se em 16 de Dezembro de 1991 o Conselho Europeu estabeleceu por unanimidade os critérios para o reconhecimento da independência da Eslovénia e da Croácia e encarregou um comité de arbitragem de os avaliar, a Alemanha e a Áustria, ansiosas por se reconstituírem como zona de influência mais ou menos exclusiva nas antigas terras austro-húngaras que se tinham tornado jugoslavas em 1918, violaram a decisão do Conselho de 23 de Dezembro, colocando a mecha no rastilho do que se passou depois.. Do mesmo modo, as decisões europeias, como explico no terceiro volume da Grécia e os Balcãs (Gallimard, 2013), contribuíram significativamente para o surto de hostilidades intercomunitárias na Bósnia-Herzegovina. Assim, não só a “construção europeia” não criou as condições para a paz na Europa, como se revelou incapaz de contribuir para a sua manutenção.

G.W. Fala-se muito em “fazer a Europa”, e os euroliberais argumentam que esta é a única forma de se opor a grandes nações como os EUA, a China ou a Rússia. Mas isto não está em contradição com o crescente envolvimento da OTAN na UE? Quais são as ligações com esta organização que é um produto da Guerra Fria?

A NATO e a UE têm uma origem comum – a Guerra Fria – e um objetivo comum: a integração entre os dois lados do Atlântico. Como de novo se mostrou, veja-se a raiva da Comissão Europeia de negociar a TAFTA em total opacidade, de modo a esconder a realidade das opiniões europeias amplamente hostis a este acordo, e a sua vontade de contornar os parlamentos nacionais na ratificação da CETA.

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Konstantinos Parthenis, L’apothéose d’Athanasios Diakos (1933)

Olhando para a cronologia, a criação, em 1952, da primeira Comunidade Europeia, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), concebida por Monnet, um agente de influência americana – pago ou não, tanto faz – é seguida pela substituição  (1), nas importações feitas pelos países desta CECA, do carvão polaco, de muito melhor qualidade mas localizado numa Europa com a qual os Estados Unidos pretendiam a cessação do comércio, pelo   carvão americano em sobreprodução. Seguidamente, em 1953, os Estados Unidos concederam à CECA um empréstimo, cuja contrapartida foi um aumento da compra do seu carvão a um custo reduzido pelas subvenções ao transporte de mercadorias. Por fim, a CECA permitiu que os Estados Unidos exportassem a sua produção excedentária para a Europa, o que acabou por conduzir ao encerramento das minas dos próprios Estados-membros da CECA.

Acrescente-se que o primeiro embaixador americano junto da CECA, nomeado a pedido urgente de Monnet, foi David Bruce, chefe do ramo europeu da OSS (o antepassado da CIA) e depois embaixador muito intervencionista em França (1949-1952); nomeado depois na Alemanha (1957-1959) e no Reino Unido (1961-1969). Bruce será também responsável pela promoção da criação da Comunidade Europeia de Defesa (CED), destinada a satisfazer as exigências americanas quanto ao rearmamento alemão após o início da Guerra da Coreia (Junho de 1950). Porque os Estados Unidos têm de enviar tropas para a Coreia, pedem aos europeus que participem mais na sua própria defesa (isto não é de Trump!). A CED foi novamente concebida por Monnet (ou por aqueles que lhe deram as suas ideias) para neutralizar a oposição na Europa ao renascimento de um exército alemão, cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, e o governo francês de René Pleven fez sua esta ideia (Outubro de 1950). O tratado foi assinado em Maio de 1952, mas a oposição dos Gaullistas e Comunistas derrotou a sua ratificação no Parlamento francês em Agosto de 1954.

“A NATO e a “integração europeia” estão intimamente ligadas: sempre foram duas faces da mesma moeda! »

Ao mesmo tempo, em Fevereiro de 1952, a Conferência de Lisboa dos Estados-Membros da Aliança Atlântica aprovou o relatório de um comité de sábios – entre os quais Monnet, o indispensável faz-tudo dos americanos, que é evidentemente um dos seus membros – que criou uma organização militar integrada, a NATO, destinada a colocar o chamado exército europeu (CED) sob comando americano, que não tem outra função senão a de ser uma tropa de supletivos. Por último, Bruce foi igualmente incumbido de promover a criação de um órgão político europeu único. Menos de um ano após a morte do CED, dá-se a Conferência de Messina (Junho de 1955) para lançar as negociações sobre os Tratados de Roma assinados em 25 de Março de 1957. E a 16 de Maio, o belga Paul-Henri Spaak, que foi o principal arquiteto destes tratados, tornou-se o 2º Secretário-Geral da OTAN, uma posição em que outro dos “pais signatários” de Roma em 1957, o holandês Joseph Luns, seria o recordista a longo prazo (1971-1984). A NATO e a “integração europeia” estão intimamente ligadas: sempre foram duas faces da mesma moeda!

E a “defesa europeia”, agora como nos tempos da CED, nunca foi mais do que um chamariz. Durante a negociação do Tratado de Maastricht, rapidamente se tornou claro que a maioria dos Estados não podia conceber o “pilar” da defesa e segurança comuns como sendo diferente da NATO. Foi posto em forma porque a França ainda não tinha liquidado a herança gaullista, mas a sua reintegração nesta organização militar sob comando americano, elaborada por Chirac, concluída por Sarkozy e ratificada (apesar dos compromissos em contrário) por François Hollande, torna desnecessárias as circunlocuções do passado. Não é tanto que haja um “envolvimento crescente” da NATO na UE, é exatamente porque se esconde uma realidade menos consubstancial com a “construção europeia”.

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Konstantinos Parthenis, Nature morte avec l’Acropole en arrière plan (1931)

Além disso, para os antigos Estados da Europa sob a hegemonia soviética, a integração na UE foi a antecâmara da integração na NATO (razão pela qual Moscovo reagiu tão fortemente à associação da Ucrânia à UE). E atrever-me-ia a dizer que, para eles, a adesão à NATO é muito mais importante do que a sua adesão à UE.

Mas hoje, o mais engraçado é que as orientações da nova administração americana estão a perturbar este jogo muito antigo. Porque a moeda europeia, largamente subvalorizada pelos fundamentais  da economia alemã (e largamente sobrevalorizada pela maioria das economias da região que esta moeda sufoca), se tornou um formidável instrumento de dumping ao serviço das exportações alemãs, Trump classifica agora a UE entre os inimigos dos Estados Unidos e põe em causa o comércio livre com esta zona. Embora saibamos que, no passado, os Estados Unidos foram a força motriz do comércio livre (que continua a ser a lei dos mais fortes… mas os Estados Unidos já não são os mais fortes atualmente, pelo que já não têm interesse no comércio livre) e da moeda única. A abertura dos arquivos americanos revelou assim um memorando da Secção Europa do Departamento de Estado americano de 11 de Junho de 1965, no qual Robert Marjolin, à sombra de Monnet e Vice-Presidente da Comissão (1958-1967), era obrigado a “prosseguir a união monetária furtivamente (ou apressadamente)”, até que “a adoção destas propostas se tenha tornado quase inevitável” (2)… Isto deve ser visto no contexto da decisão da Cimeira Europeia de Haia, de Dezembro de 1969, na decisão de confiar a uma comissão presidida por Pierre Werner do Luxemburgo a preparação do primeiro projeto (relatório apresentado em Outubro de 1970) de União Económica e Monetária.

“Ontem, como hoje, a questão da dimensão é uma questão falsa. »

Além disso, o mesmo Trump já não tem mais palavras suficientemente duras para a NATO, que, na sua opinião, é demasiado cara para os americanos. Especialmente porque as suas relações com Putin parecem indicar que ele quer sair do atual remake da Guerra Fria. Muitas vezes esquece-se na Europa que o princípio fundamental da diplomacia americana, desde a independência até 1948, era a rejeição de alianças permanentes. Foi apenas o contexto da Guerra Fria que justificou o voto no Congresso sobre a resolução de Vandenberg que autoriza o Presidente dos Estados Unidos a estabelecer alianças em tempo de paz. Tenciona Trump encerrar o que pode ter sido apenas uma pausa de setenta anos?

A hostilidade para com a UE e o desinteresse pela NATO – duas criações americanas – é pelo menos o que está a causar uma forma de pânico entre muitos líderes europeus e na nomenklatura europeia atual: como poderão as marionetes europeias viverem sem o seu marionetista ?

 G.W. O senhor defende a independência da França, mas não será a França demasiado pequena para se impor na cena internacional?

 Não. Ontem, como hoje, a questão da dimensão é uma questão falsa. Não vou enumerar todos os Impérios, colossos de pés de barro – mesmo a URSS – que não pereceram, não obstante isso, no todo ou em parte, por causa da sua dimensão e heterogeneidade. Nem a lista dos pequenos Estados que tiveram um impacto profundo na história da humanidade – as cidades gregas mais do que o imenso Império Persa – ou o mundo contemporâneo, quer que seja o que pensa da sua ação – Israel, por exemplo. O pequeno Uruguai é hoje um laboratório político, económico e social que alcançou muito mais sucesso do que os seus dois gigantescos vizinhos, Argentina e Brasil.

Um estado não é forte porque o seu território é grande ou sua população é numerosa. Um Estado é forte porque aí expressa uma vontade de existir e de se projetar no futuro como povo, porque aí há uma consciência de ter interesses comuns, de formar uma comunidade que se traduza em vontade política.

“A UE é apenas a expressão de vinte e sete expressões de cobardia, vinte e sete renúncias a existir por si mesmas »

A UE não é uma vontade – porque os europeus não formam nem formarão um povo, pelo menos não antes de se ter de esperar muito tempo. Também não é uma soma de vontades. Porque os seus Estados-Membros, e os povos de que são a sua expressão, não têm nem os mesmos interesses, nem a mesma visão do mundo, nem a mesma conceção do seu papel neste mundo, nem o mesmo modo de vida, etc.

A UE nunca é mais do que a subtração de vinte e oito ou vinte e sete objeções a cada decisão que deve tomar, e cada decisão é, em última análise, apenas o menor denominador comum entre vinte e sete ou vinte e oito interesses divergentes. Um menor denominador comum que deve ser negociado com dureza cada vez que os comboios da história passam. Não desempenhamos qualquer papel, não pesamos nada quando somos um mínimo denominador comum: estamos apenas sujeitos à vontade daqueles que têm a coragem de a exprimir.

Na realidade, a UE é apenas a expressão de vinte e sete cobardias, vinte e sete renúncias a existir por si própria; a UE só pode ser um monstro brando, um gigante indeciso, sem vontade, incapaz de decidir seja o que for e sem agilidade. Hoje como ontem, e talvez mais do que ontem, é melhor ser uma potência média, ágil, que sabe o que quer e coopera em todas as direções com os outros, com base na igualdade e nos benefícios mútuos, do que uma parte impotente de um Império impotente – mais a cana do que o carvalho, parafraseando La Fontaine.

G. W. Além disso, o que dizer de um país como a Bélgica, fragmentado por dentro e pequeno em termos geográficos, militares e demográficos ? Pablo Iglesias, pelas mesmas razões, recusa-se a considerar a hipótese de abandonar a UE. A saída não é uma prerrogativa das nações privilegiadas ?

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Konstantinos Parthenis, Pins de Kerkyra (1914-17)

Como disse há pouco, a questão não é a dimensão, mas sim a vontade de formar uma comunidade política. Há, creio eu, 193 Estados membros da ONU, o que significa que nunca houve tantos Estados no nosso planeta e trata-se de Estados de todas as dimensões. Fingir, portanto, que os tempos dos Estados nacionais terminaram é uma piada: estamos a viver precisamente o triunfo dos Estados nacionais, independentemente da sua dimensão territorial, do nível do seu PIB ou da dimensão da sua população.

Por outro lado, quanto mais se afasta o cidadão dos verdadeiros centros de decisão, mais se afasta o poder real de qualquer controlo democrático real, mais se desacredita a democracia e o Estado nacional. Mas, ao contrário do plano dos eurólatras, este descrédito não se traduz numa exigência de “mais Europa”, mas sim num recuo para o infranacional. Uma vez que sabemos que o Estado nacional já não protege e que a Europa não protege, voltamos às identidades – reais ou imaginárias – culturais, linguísticas, religiosas… das quais esperamos outra forma de proteção. E este fenómeno é particularmente notório em alguns Estados recém-formados ou frágeis devido a um forte regionalismo como a Bélgica, a Espanha ou a Itália.

“À esquerda, continua-se a estar cegos quanto à natureza intrínseca, ou seja, não-reformável, da UE. »

Quanto aos chamados políticos de esquerda radicais ou populistas, a sua pusilanimidade em relação à questão europeia deve-se, na minha opinião, a dois mal-entendidos que lhes podem ser fatais. Acreditam que não se pode ganhar uma eleição explicando por que razão deixar a UE é essencial para a reconstrução da democracia e do Estado social. Mas no referendo grego de 2015, os gregos foram bombardeados de manhã à noite e de noite até de manhã, com propaganda extravagante, afirmando que, se votassem “não”, a Grécia seria expulsa do euro e da União Europeia. No entanto, os gregos votaram “não” a 61,31%, com uma taxa de participação de 62,5%. Certamente não eram todos a favor da saída, mas todos correram o risco. Depois houve o Brexit. Da mesma forma, as taxas de participação desastrosas nas eleições europeias (atingiu-se 13% na Eslováquia em 2014, e penosamente 43% em todos os países, apenas porque alguns praticam o voto obrigatório) são um excelente indicador da falta total de apoio popular a este projeto. E veremos provavelmente, na próxima Primavera, um novo declínio na participação, combinado com ganhos substanciais para os partidos mais ou menos hostis à UE – com um Parlamento que é provavelmente muito diferente do atual e uma Comissão que incluirá provavelmente um número significativo de eurocéticos mais ou menos determinados.

A segunda razão é que, a esquerda, continua a estar cega quanto à natureza intrínseca, ou seja, não-reformável, da UE. Por outras palavras, significa que se está a tomar  o discurso dos ordoliberais e dos defensores do comércio livre da UE como as lanternas do internacionalismo.

G.W. A França forma realmente um par com a Alemanha? De fora, temos antes a impressão de um patrão e do sem empregado de quarto que cumpre à letra tudo o que o seu amo lhe diz para fazer.

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Konstantinos Parthenis, Baigneurs (1919)

Esta história de um “casal franco-alemão” é uma mistificação. Como qualquer relação bilateral, a França e a Alemanha assentam num equilíbrio de forças e têm os seus altos e baixos – mais baixos do que altos se se estiver com um mínimo de boa fé.

A fábula do casal começaria com o tão celebrado tratado franco-alemão de 1963. Uma iniciativa francesa tomada em resposta ao fracasso do Plano Fouchet que mencionei anteriormente, este tratado foi assinado pelo Chanceler Adenauer. Mas desencadeou uma oposição tão odiosa no seu governo e no Bundestag que Adenauer foi obrigado a comprometer-se a demitir-se para obter a sua ratificação e que o Bundestag lhe acrescentou – um caso único na história da diplomacia – um preâmbulo interpretativo unilateral – parcialmente escrito pelo inevitável Monnet ! – que esvaziou o texto do seu conteúdo político, especificando que os laços da RFA com os Estados Unidos teriam sempre precedência sobre os seus compromissos com a França. Ludwig Erhard substituiu Adenauer na Chancelaria: era o homem anglo-americano desde 1947, e provavelmente o político alemão mais francófobo do seu tempo. Que sagrado casamento!

O único casal efetivo  pode ser assumido por Helmut Schmidt e Valéry Giscard d’Estaing (1974-1981). Sabemos como Mitterrand viveu a reunificação,  a marcha forçada imposta por Helmut Kohl e pela sua política jugoslava, que era o oposto do que a França queria. Chegou então o momento – que em breve será um quarto de século – em que a França, presa na armadilha mortal do euro, se viu confrontada com perpétuas injunções alemãs para proceder às “reformas necessárias” para satisfazer as regras cada vez mais insensatas e restritivas de uma moeda única absurda. Vinte e cinco anos durante os quais os governos franceses – para preservar o “casal” e pelo delírio dos eurolatras  – desistiram de defender os interesses da França contra o governo de um país, a Alemanha, que prossegue uma política económica e monetária ditada exclusivamente pelos seus interesses: se há um casal, é agora apenas constituído pelo patrão e o seu lacaio.

G.W. O senhor fala da influência ordoliberal sobre a vontade de subtrair as questões económicas das decisões políticas (relacionadas com as eleições). Antonin Cohen, que traça os laços entre Vichy e a Comunidade Europeia, recorda que a Declaração de Schuman de 1950 se destinava precisamente a promover a emergência de uma tecnocracia económica – uma declaração que recorda as teorias tecnocráticas dos anos 30. De onde vem esta profunda desconfiança pela política e pela democracia em todas as suas formas?

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Konstantinos Parthenis

Se lermos Monnet, que Charles de Gaulle define como o inspirador de toda essa “construção”, o que nos impressiona é a desconfiança que ele tem pelos povos. Resumindo com quase nenhum exagero pedagógico, a doutrina Monnet é a seguinte: as pessoas são estúpidas e, portanto, inclinadas a fazer coisas estúpidas; o nosso papel, como pessoas razoáveis e conhecedoras, é impedi-las de o fazerem. Consequentemente, e desde o início, o princípio central da “construção europeia” consiste em retirar dos órgãos democráticos as suas alavancas essenciais para as colocar nas mãos de sábios que sabem melhor do que os povos o que é bom para eles.

É tão antigo quanto a política ! Quando Heródoto, no século V a.C., põe a discutir três hierarcas persas sobre qual o melhor regime político, pôs na boca daquele que defende a oligarquia as seguintes palavras: “Vamos escolher um grupo de homens entre os melhores, e vamos investi-los com o poder; porque, evidentemente, nós próprios seremos um deles, e é na ordem da probabilidade que os melhores tomam as melhores decisões“. Monnet e a “construção europeia” fazem parte integrante deste processo.

“No caso europeu, a tecnocracia é um instrumento ao serviço de um projeto oligárquico.»

Porque, apesar do que alguns dizem, a Europa não é uma “bela ideia” que tenha sido desviada do seu objetivo original. O projeto europeu visa, desde o início e intrinsecamente, colocar uma oligarquia acima das democracias nacionais, que as esvazia de todo o seu conteúdo, reduzindo-as a formas vazias, a um rito eleitoral sem sentido, pois o que está em jogo é apenas designar aquele que conduzirá, no seu país, a política única determinada no seio da oligarquia europeia com base nos princípios que esta estabeleceu nos Tratados.

Além disso, o fracasso do CED convenceu Monnet de que, para atingir o objetivo, as pessoas comuns tinham de o ignorar. É, pois, oportuno, em vez de apresentar um projeto federal condenado ao fracasso, empilhar os factos aparentemente técnicos que acabarão por tornar inevitável a realização do objetivo político.

O “método europeu” sempre consistiu apenas em acumular micro golpes de Estado tecnocráticos, invisíveis na altura, que secam as democracias nacionais do interior, privando-as de eficiência e de credibilidade. Se nos recusamos a ver estas realidades, reduzimo-nos à impotência contra o Moloch europeu.

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Konstantinos Parthenis, Dépôt

Então, sim, a ilusão tecnocrática está no centro da história do século XX: tanto as tiranias totalitárias como as democracias nacionais do pós-guerra que procuraram conciliar democracia, eficiência e justiça partilham este gosto pelos “especialistas”. Mas, no caso europeu, a tecnocracia é um instrumento ao serviço de um projeto oligárquico.

Assim, na Grécia e na Itália, em novembro de 2011, com menos de uma semana de intervalo, a UE combina e, na verdade, impõe a substituição de dois chefes de governo eleitos, um social-democrata e um conservador (Papandreou e Berlusconi), por dois tecnocratas sem qualquer legitimidade democrática: Papadimos, antigo banqueiro central grego e antigo vice-presidente do Banco Central Europeu, e Monti, antigo professor de economia e gestão e antigo Comissário Europeu, ambos membros de alto nível da nomenklatura tecnocrática europeia. E vemos hoje em França um governo que é ao mesmo tempo o mais tecnocrático, o mais autoritário e o que mais despreza os direitos do seu Parlamento, e que pretende reduzi-lo,  ao mesmo tempo que se afirma como o mais europeu. Um exemplo que, tal como os outros dois, não deve nada ao acaso, mas deve tudo à realidade do projecto europeu.


Notas :

1 Veja-se: Régine Perron, Le Marché du charbon, en enjeu entre l’Europe et les États-Unis de 1945 à 1958 (Publications de la Sorbonne, 2014).

2 « The State Department also played a role. A memo from the European section, dated June 11, 1965, advises the vice-president of the European Economic Community, Robert Marjolin, to pursue monetary union by stealth. It recommends suppressing debate until the point at which “adoption of such proposals would become virtually inescapable“. » Ambrose Evans-Pritchard, « Euro-federalists financed by US spy chiefs », The Telegraph (19 septembre 2000).


0 próximo texto desta série será publicado amanhã, 08/04/2019, 22h.


Tradução de Júlio Marques Mota – Fonte aqui

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