Deixem a Itália em paz
(Dr. Michael Ivanovitch, 14 de Outubro de 2018)

Deixem a Itália em paz: A UE quer que se aplique a austeridade orçamental numa economia que se está a afundar
– Em vez de atacar os países que sistematicamente desestabilizam o euro com os seus excedentes comerciais egoístas e excessivos, a UE está a atacar a Itália pela sua tentativa de salvar a economia.
– A Itália deve “manter a calma e continuar” com seu modesto apoio fiscal ao crescimento e ao emprego.
– A Itália tem estado no centro do projeto épico da Europa de unidade, paz e prosperidade – e o leitor pode acreditar que ela aí continuará a estar.
Um ataque ridiculamente feroz às políticas fiscais de apoio moderado da Itália apresentadas no orçamento para o próximo ano está a provocar o pânico do mercado e um espetáculo pouco edificante de relações intra-europeias cronicamente mal geridas.
O azedume que conduziu à revisão do orçamento italiano pela Comissão Europeia já sobrecarregou os contribuintes italianos com um aumento desnecessário do seu endividamento para as gerações vindouras. Apenas nos últimos dois meses, o custo já elevado dos empréstimos a 10 anos do governo subiu mais de 100 pontos de base – um duro golpe para um país que tem 2,4 milhões de milhões de euros de dívida pública. Essa dívida é aproximadamente equivalente a 150% do produto interno bruto da Itália.
Aqui está o problema que o governo italiano enfrenta.
Privada de uma política monetária independente para gerir a procura e o emprego, a Itália inverteu ligeiramente a sua orientação orçamental restritiva, a fim de prestar algum apoio à atividade económica e evitar o que claramente parece ser uma desaceleração cíclica incipiente de amplitude e duração desconhecidas.
O crescimento económico do país no segundo trimestre deste ano continuou a enfraquecer, com apenas 0,2% de aumento em relação a um ritmo já lento no início do ano. Com exceção das exportações, todos os principais componentes da procura parecem fracos.
A austeridade fiscal pró-cíclica é uma verdadeira loucura
O consumo das famílias – quase dois terços do PIB – é travado pelo elevado desemprego e pela ausência de ganhos reais de rendimento. O volume de vendas a retalho nos primeiros sete meses deste ano diminuiu a uma taxa anual de 0,7%, devido à estagnação dos salários reais e à terceira maior taxa de desemprego (depois da Grécia e Espanha) da zona euro.
Em agosto passado, 9,7% da força de trabalho da Itália estava desempregada, com 31% da juventude do país sem emprego e sem um futuro significativo. Além disso, há 6,5 milhões de italianos, 11% da população total, a viverem abaixo da linha da pobreza.
Infelizmente, porém, há ainda pior: a EU tornou público num relatório que 30% da população italiana está em risco de pobreza e de exclusão social.
Perante estas más perspetivas da procura interna, há quem se pergunte se a receita alemã sugerida poderá ajudar. As exportações são, naturalmente, o principal ingrediente do nostrum de Berlim, pois representam 30% da economia italiana.
Infelizmente, isso é mais uma cana rachada e uma tentativa de manipulação flagrante. Nos últimos três anos, as exportações líquidas reduziram em 0,5% o crescimento quase estagnado de 1,1% do PIB italiano. E enquanto as exportações nos primeiros sete meses deste ano aumentaram 4% em relação ao ano anterior, isso não fez absolutamente nada para reanimar a produção industrial do país. A produção industrial durante o período de janeiro a julho caiu a uma taxa anual de 0,5%.
Isso, naturalmente, é mau presságio para os investimentos empresariais, porque a fraqueza no sector da indústria transformadora indica uma grande capacidade de produção excedentária. Por outras palavras, as empresas italianas não precisam de novas máquinas e de pisos de fábrica maiores; já têm o que precisam para satisfazer a procura atual e esperada de vendas.
Então, o que é que resta para apoiar os empregos e os rendimentos da Itália? Nada – enfaticamente nada – continua a gritar à UE gerida pela Alemanha: A Itália não tem uma política monetária independente e, de acordo com a Comissão Europeia, a orientação orçamental deve permanecer congelada num modo restritivo de duração indefinida
O momento do “não importa o quê” da Itália
A Itália sabe o que isso significa. Antes do início da crise financeira da última década e da austeridade fiscal imposta pela Alemanha, o défice orçamental na Itália em 2007 foi reduzido para 1,5% do PIB (em comparação com quase 3% do PIB em França), o excedente primário (orçamento com exclusão dos juros da dívida pública) foi aumentado para 1,7% do PIB, ajudando a reduzir a dívida pública para 112% do PIB em comparação com uma média anual de 117% nos seis anos anteriores.
Mas então todo o inferno se soltou quando os alemães – rejeitando co m altivez a chamada à razão de Washington – começaram a dar uma lição aos “delinquentes orçamentais “, impondo políticas de austeridade às economias da zona do euro que se estavam a afundar.
A Itália não deve permitir que isso volte a acontecer.
O que deve, então, a Itália fazer? A resposta é simples: Exatamente o que diz que quer fazer no orçamento de 2019, aprovado na última quinta-feira por uma maioria esmagadora no Senado (61% dos votos) e na Câmara dos Deputados (63,4% dos votos).
A Itália está confortavelmente dentro da regra orçamental da área do euro. O seu défice orçamental projetado de 2,4% do PIB para o próximo ano fiscal está abaixo do limite de 3% do défice da União Monetária.
Então, porquê tanto alarido? Porque é que ninguém parece opor-se ao facto de a França e a Espanha terem défices superiores aos da Itália?
A França aumentou recentemente a sua estimativa do défice para o próximo ano para 2,8% do PIB, em comparação com um compromisso anterior de 2,6%. E isso não é o fim da história. As revisões em baixa do crescimento ainda estão a acontecer, não há consenso político sobre que despesas devem ser cortadas e um governo cada vez mais fraco e impopular pode até não conseguir manter o défice orçamental abaixo de 3% do PIB.
O instável governo minoritário de Espanha está a debater-se com o mesmo problema. A economia está a abrandar e Madrid tem uma longa história de ultrapassagem das suas previsões de défice orçamental. O déficit deste ano, por exemplo, deve agora atingir 2,7% do PIB em comparação com uma previsão oficial anterior de 2,2%. Como as coisas estão agora, será uma luta épica para manter o défice orçamental da Espanha abaixo do limite de 3% do PIB.
Porque é que tudo isto está a ser realizado com um silêncio ensurdecedor de Bruxelas? Será que a leniência da UE em relação à França e à Espanha tem muito a ver com a sua dívida pública mais baixa?
É possível, mas, se for verdade, é um grande erro. Esses países têm uma dívida mais baixa com uma tendência de agravamento do orçamento. A dívida da França representa 122% do PIB. O défice orçamental primário francês significa que a dívida continuará a aumentar. A dívida pública da Espanha é de 115% do PIB, praticamente sem excedentes ais rios no orçamento. E ambos os países estão a caminho de aumentar o passivo do setor público como resultado do aumento dos défices orçamentais.
Não admira que algumas pessoas estejam a perguntar: Será que o ataque da UE à política orçamental italiana faz parte de uma agenda diferente? Dou-lhe uma dica abaixo, mas é uma história para um outro dia.
Pensamentos sobre o investimento
A austeridade orçamental numa economia italiana em abrandamento – assolada por um desemprego elevado, pobreza crescente e infra-estruturas em ruínas – seria uma pura loucura.
O espaço para o alívio fiscal é muito pequeno, mas este é o momento “o que quer que seja” da Itália: Roma tem de apoiar a sua atividade económica, o crescimento do emprego e a sua despesa em infraestruturas.
Os líderes governamentais da Itália podem não gostar de alguns dos seus vizinhos, mas essa não é a razão para denegrir a UE. Os italianos não lhes deram os seus votos para isso.
Os pais fundadores da UE – Alcide de Gasperi e Altiero Spinelli – colocaram a Itália onde ela deve estar. A Grécia e a Itália são o berço da civilização europeia.
O processo de unificação europeia trouxe paz, um mercado único enorme e cada vez mais homogéneo, o euro e o Banco Central Europeu – sem dúvida as maiores conquistas da história da Europa após a Segunda Guerra Mundial. É uma aposta segura de que a Itália quer permanecer no centro desse projeto épico.
Comentário de Michael Ivanovitch, analista independente focado na economia mundial, na geopolítica e nas estratégias de investimento. Foi economista sénior na OCDE em Paris, economista da área internacional do Federal Reserve Bank of New York e professor de economia da Columbia Business School.
O quinto texto desta série será publicado amanhã, 20/11/2019, 22h
Tradução de Júlio Marques Mota
