UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (367)

Sem vacina à vista, assim vai a nossa Arqueologia

 

– A presente pandemia, ao agravar a crise financeira e ao restringir o tráfego internacional, realçou uma evidência que há muito venho denunciando: o património arqueológico lusíada, em prejuízo da ciência histórica e da nossa identidade cultural, continua à mercê de oportunistas e pilha-galinhas…

Alguns dos segredos mais excitantes que a vida me revelou, resultaram de incursões pela “grande floresta da arqueologia”, um recanto de evasão. Nessas longas “caminhadas”, que me abriram a um conhecimento mais profundo sobre o desenvolvimento humano, tive a felicidade de apreciar, e em certos casos até de poder preservar, inúmeras raridades de quase todas as civilizações e épocas.

Um raríssimo auroque em mármore, proveniente do Alentejo, ainda com a assinatura em X, corrente na pré-história

No rescaldo dessas “aquisições”, que agora procuro distribuir por museus, uma certeza assentei: dotado de um clima privilegiado e de um confinamento imposto pelo oceano, sem espécies concorrentes fortes e com uma orografia que permitiu bons abrigos, o território que habitamos facilitou suaves povoamentos que deixaram marcas geniais. Sem dúvida, Portugal é dos países mais ricos em achados arqueológicos.

Rara estátua de uma “deusa da fertilidade”, em alabastro, encontrada em Abrantes

Mas como pode um simples “curioso” sugerir tal opinião se, desde há décadas, não aparecem artefactos com interesse e se os nossos museus apenas se enchem de cacos? Há quantos anos não aparece ouro, por exemplo?

Estátua de mamute, rarissima, talvez única no mundo que não é de osso ou marfim, encontrada em Sintra

A resposta a esta magna questão vai sempre “bater no mesmo ceguinho”. Com uma Jurisprudência assente em leis que “protegem ferozmente o interesse público”, a nossa Justiça, quando funciona, quase sempre sacrifica o justo e protege o pecador. E é assim que até o património à guarda de importantes instituições se volatiliza, ainda de forma mais segura do que em Palmira ou Bagdad. Será preciso recordar exemplos?

A explicação para esta “anomalia” é muito simples. A nossa legislação foi plasmada da lei francesa, onde qualquer novo “tesouro arqueológico” é pertença do Estado. Um quadro legal que os franceses contornaram habilmente porque, desde aí, a Bélgica passou a ser sede oficial de quase todos os achamentos relevantes. Já no nosso país, com a obrigação de se suspenderem imediatamente demolições ou escavações, restam duas “safas” a quem tiver o “azar” de topar qualquer “coisinha”: ou cala o bico e arrasa tudo; ou, dentro do velho princípio de que o segredo é a alma do negócio, procura retirar algum provento nas redes de tráfico dirigidas sobretudo para a vizinha Espanha.

Mas há ainda mais e ainda pior. A par da “garimpagem privada” que, tal como a prostituição, só em teoria é combatida, o “negócio” depressa alastrou ao setor público onde se desenvolveu uma cultura de pilhagem a que raros investigadores escapam.

Passo a explicar, até por ser uma “praia” que frequento há dezenas de anos. As investigações arqueológicas, ancestralmente entregues a estudantes em férias sob a égide de professores credíveis e interessados, passou, entretanto, a ser pasto de dezenas de “empresas privadas” a quem o Estado contratualiza os serviços de exploração. Sociedades controladas na maioria por agentes do Estado, não espanta a garantia de negócios lucrativos: se nada aparece de relevante, a empreitada é a “despachar”; se surgem “peças boas”, sacam-se pela calada da noite e ainda voam mais depressa do que no Egipto, no século XIX; e se aparecem cacos ainda bem, pois assim se reforçam currículos e se alimenta a indústria de restauros que também tem direito à vida.

Há muito procurado para emitir pareceres técnicos sobre peças antigas, e vítima como os demais portugueses de confinamento físico, em 2020 fui surpreendido pela mostragem de peças que, na posse de privados, não conseguiram “passaporte” fácil para sair de Portugal. Desde sempre interessado em promover a defesa do nosso património e cultura, e com muito tempo livre, entre outras preciosidades que me foram presentes dei-me ao cuidado de, recentemente, destacar uma coleção que integra milhares de peças do Paleolítico e que será uma das mais importantes “jazidas” extraída numa só “estação”, em todo o mundo.

Resgatada, há décadas, por um amador, sob a ameaça constante da burocracia e da “ciência oficial”, que neste caso optaram por privilegiar uma abusiva extração de areias, nunca a “autópsia” ao local foi promovida. E, no entanto, pela morfologia e composição dos artefactos, tudo ali aponta para que o povoamento da Europa se tenha iniciado há centenas de milhares de anos e pelo Estreito de Gibraltar.

Há cerca de dois meses, quando anunciei este “achado” em crónica que mereceu várias publicações e milhares de visualizações, acrescentei ser essa também a tese adiantada por novos autores que, com base em estudos genéticos, sugeriam que os nossos primitivos seriam berberes e não caucasianos. Para minha surpresa, dias depois, também a revista “Super Interessante” avançava com a mesma tese, agora num extenso artigo de um reputado autor espanhol que se fundamentava em provas arqueológicas bem menos consistentes do que as que Portugal dispõe.

Tendo, desde sempre, os legítimos proprietários deste “resgate” manifestado firme vontade em o disponibilizar aos “estudiosos” de carreira, quando divulguei a sua existência acreditei, ingenuamente, que em breve seria contatado por alguém. No entanto, apesar das explícitas fotos que acompanhavam o texto “Adão e Eva”, nunca tal veio a acontecer. Inconformado, resolvi então informar alguns investigadores nacionais, na berra, da existência desta coleção. No entanto, espantosamente ou talvez não, nenhum respondeu a uma comunicação que certamente fará as delícias de qualquer Instituto Europeu da especialidade.

Um verdadeiro sarilho se tal vier a acontecer, comprovando uma pandemia negada por todos os interesses dominantes, em Portugal. Como tudo indicia, refiro-me ao “vírus da corrupção”, contra o qual parece não  haver vacina disponível nos próximos anos.

 

Adão e Eva?

– O “jardim da arte e do conhecimento” é tão vasto, e a vida tão curta, que não se pode desperdiçar minuto. Confinados os corpos pela pandemia, há que soltar os espíritos na revisitação dos recantos que mais nos seduzem…

A frondosa “árvore” da Arqueologia sempre me atraiu: por proporcionar histórias fantásticas e um constante tropeçar em segredos ocultos; pelos ramos que projeta sobre mistérios ainda por revelar; mas, sobretudo, por abrir novas pistas para uma melhor compreensão da génese do pensamento humano… de onde viemos, onde estamos e para onde vamos.

Tendo apreciado, ao longo da minha vida, inúmeros artefactos de quase todas as civilizações e épocas, esta é a altura certa para tecer comparações e extrair algum “sumo”: não uma “xaropada artificial”, adocicada com diletantismos detestáveis; antes um “extrato” despretensioso, isento de “corantes e conservantes”.

Nem podia deixar de ser assim. O território é tão fértil e a “produção caseira” tão abundante que, embora a necessitar de cuidados, toda a nossa “fruta” dispensa aditivos. Um clima privilegiado, a não concorrência com outras espécies, uma orografia que permitiu bons abrigos e o “confinamento” imposto pelo oceano facilitaram suaves povoamentos que aqui deixaram marcas geniais. Portugal é, de certeza, um dos países mais ricos do mundo, em achados arqueológicos.

Eis uma pequena amostra de um conjunto de milhares de peças do Paleolítico, porventura a mais copiosa e variada “jazida” encontrada numa só “estação”, em todo o planeta. Preservada desde há décadas, na sequência de uma abusiva extração de areias destinadas a cimento, toda esta “Pré-História” passou, entretanto, por estórias incríveis.

Evitando páginas que ferem consciências, resumo a saga recente desta coleção a três frases: foi corajosamente salva, perante a intimidação ou mesmo o saque de diversas entidades, então alertadas; apesar de ulteriores tentativas, a “ciência oficial”, na aparência comprometida a orientações superiores, nunca ousou “tratá-la”; pior ainda, a “cultura vigente”, servida de quadros legais que permitem leituras transviadas, ainda hoje confunde este “resgate in extremis” com atos de pirataria.

Um verdadeiro sarilho, num país moderno que é confrontado com um “achado” fabuloso, não obstante já estar irremediavelmente desenquadrado do local de origem, onde devia ter merecido oportuna “autópsia”. Um conjunto que, ainda assim, encerra “novidades” que devem promover uma profunda reflexão técnica, pois sugere uma das mais antigas “oficinas paleolíticas” do mundo e indicia a passagem de hominídeos, pelo nosso litoral, durante centenas de milhares de anos. Até à ocorrência de um cataclismo, muito mais recente, talvez há trinta mil anos…

Pela sua morfologia e composição, estes artefactos apontam ainda para que o povoamento da Europa se tenha iniciado pelo Estreito de Gibraltar, a partir dos povos berberes. Nada que surpreenda, porque esta é a tese recentemente adiantada por autores que se baseiam em estudos genéticos e que põem em causa a “verdade científica” de sermos caucasianos, tal como a generalidade dos europeus.

Longe de mim, um amador em áreas em que deve dominar a ciência, ousar promover opiniões mal fundamentadas, muito menos pôr em causa pessoas ou instituições em concreto. Porém, de tudo quanto vi até hoje, posso garantir que muita da nossa melhor arqueologia se encontra ainda por referenciar e na posse de particulares. Preocupado em “salvar” esse património, há muitos anos que procuro estancar o fluxo de algumas dessas peças para o estrangeiro, adquirindo-as e doando-as a entidades em que confio. Nos últimos meses, contudo, talvez devido a problemas de tráfego e dificuldades financeiras, têm-me sido exibidas peças incríveis, antes inimagináveis.

Estas são as imagens de duas “urnas funerárias” quase intactas, que há semanas me foram presentes para avaliação. Terão sido encontradas há cerca de setenta anos, perto de Chaves, por um arqueólogo amador. Não sendo perito, calculo que estas obras geniais possam ter sido criadas entre 4000 a 2200 AC.

“Património da Humanidade”, esta “Eva” e este “Adão”, bem “portugueses” antes de Portugal, mais do que peças raras que só nos podem encher de orgulho, espelham de forma soberana o feminino e o masculino, uma constante ainda presente na matriz sociocultural do nosso povo.

Um bom pretexto para, ligando tudo numa numa próxima crónica, desenvolver um tema bem polémico… que é a “igualdade de género”. Afinal, mais uma oportunidade para nova “excursão espiritual” em tempos de confinamento físico.

 

 

 

Obs: – Um agradecimento muito especial ao Dr. Cândido Ferreira pela autorização dada para a publicação destes seus artigos.

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