UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (127) – Reposição + Podcast

 

 

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7 de Abril de 2016

 

A ORDEM DOS MÍNIMOS E A CAPELA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA

A Ordem dos Mínimos é uma ordem religiosa católica, do tipo mendicante, e desde o começo da sua existência precisou, como qualquer outra sociedade humana, de uma “regra” que pudesse resumir os ideais dos seus membros. São Francisco de Paula propôs um código espiritual que reflectisse um novo tipo de vida a que convidava a viver os seus discípulos.

Os primeiros estatutos da Ordem foram aprovados em 1493, sendo a aprovação definitiva obtida em 1506. São Francisco define desta forma a intenção que devem ter os que desejarem entrar para a Ordem dos Mínimos: “aqueles que se sentem chamados a viver uma quaresma perpétua e uma penitência maior…”.

A 13 de Julho de 1717 El Rei D. João V autorizou que se abrisse um hospício desta Ordem em Lisboa. No Porto, sabe-se que em 1780 sete frades da Regra Severa de Frades Mínimos de S. Francisco de Paula, ocupavam uma quinta, que possuía hospício, casas e capela, e que para viver pediam esmola pela cidade. A capela já se encontrava referenciada nas memórias paroquiais da divisão administrativa de Lordelo do Ouro, no ano de 1758, onde se pode ler “Uma capela particular, no lugar do Monte da Carreira, pertencente ao Padre Manoel Preyra Godim, devotado a S. Francisco Xavier…”.

A Fábrica de Lanifícios de Lordelo ou Fábrica de Serralves estava localizada na rua de Serralves, freguesia do Lordelo do Ouro. Foi edificada em 1803, no lugar da Monteira ou Mouteira, por Plácido Lino dos Santos Teixeira. Devido à proximidade da quinta dos frades Mínimos, há autores que afirmam que a fábrica teria sido construída nos edifícios de um antigo convento. No entanto, no processo de licenciamento da fábrica de Plácido Lino dos Santos Teixeira, apenas se faz referência aos campos que pertenciam aos frades e dos quais se pede adjudicação.

Sondagens arqueológicas em 2007 detectaram a existência de três estruturas diferenciadas: Uma fábrica do século XIX, a “fábrica de panos”, uma fábrica do século XX, e um reduto militar das guerras liberais, o Forte de Serralves, no local da cisterna de abastecimento de água da fábrica do século XX.

Em Setembro de 2011 a fábrica estava já demolida, dando origem à construção de habitações, actualmente desabitadas se bem que aparentemente prontas.

(Agosto de 2021 … esta situação já se encontra resolvida)

FRÁBICA DE LORDELO E URBANIZAÇÃO DESABITADA
FRÁBICA DE LORDELO E URBANIZAÇÃO DESABITADA

A Quinta dos Frades, que englobava um total de cerca de nove hectares, é hoje conhecida pela Quinta do Gouveia, nome de um antigo proprietário, armador de bacalhoeiros, dono de uma seca de bacalhau que funcionou, em terrenos anexos à quinta, até meados dos anos 1960. Após a morte do armador, a quinta foi dividida pelos herdeiros, cabendo a um deles a parte onde está situada a casa e a capela.

QUINTA, CAPELA, E URBANIZAÇÃO DA FÁBRICA (AO FUNDO)
QUINTA, CAPELA, E URBANIZAÇÃO DA FÁBRICA (AO FUNDO)

A Quinta está há muitos anos ao mais completo abandono, com a capela em ruínas e entaipada. Tudo a cair aos pedaços! É uma tristeza passar pela rua de Serralves e ver, continuadamente, aquele espectáculo.

Esta capela, também conhecida como de São Francisco Xavier, chegou a estar referenciada pelo IGESPAR, no entanto o processo foi lamentavelmente encerrado, não beneficiando actualmente de qualquer tipo de protecção legal (Despacho de encerramento de 18-02-2003 do vice-presidente do IPPAR).

CAPELA DE SÃO FRANCISCO XAVIER
CAPELA DE SÃO FRANCISCO XAVIER

O NDMALO-GE, Núcleo de Defesa do Meio Ambiente de Lordelo do Ouro – Grupo Ecológico, autor do primeiro pedido de classificação do imóvel, teve, pelo menos desde 1983, um papel muito importante na defesa desta capela e na tentativa de vir a ser classificada pelo IPPAR. O processo arrastou-se durante anos até que foi arquivado. Não houve nem parece haver qualquer interesse das autoridades no restauro e conservação da capela. As notícias da sua demolição, bem assim como da sua preservação, foram muitas durante os anos do fim do século passado. A torre sineira que a capela ostentava, foi retirada pela proprietária já há muitos anos, e apesar de se dizer que foi instada a reposicioná-la no local devido, isso nunca aconteceu.

 

DOCUMENTOS GENTILMENTE CEDIDOS PELO NDMALO-GE
DOCUMENTOS GENTILMENTE CEDIDOS PELO NDMALO-GE

 

DOCUMENTOS GENTILMENTE CEDIDOS PELO NDMALO-GE
DOCUMENTOS GENTILMENTE CEDIDOS PELO NDMALO-GE

 

ARRUAMENTO FECHADO AO TRÂNSITO
ARRUAMENTO FECHADO AO TRÂNSITO

Hoje, no mais estranho e incrível esquecimento (há dezenas e dezenas de situações como esta espalhadas pela cidade, quase todas à espera de autorização e de subsídios para exploração imobiliária), já só falta que, de um dia para o outro e sem que se dê por ela, nos deparemos com o seu desaparecimento e, no seu lugar, com a construção de algum edifício de apartamentos. Estudos, projectos e até arruamentos já construídos (se bem que fechados ao trânsito?!?!) já existem e esperam aprovação. O desaparecimento da casa senhorial e da capela está previsto, sendo que, se tal se vier a verificar, irá ser mais uma machadada no nosso património e na nossa história.

 

 

PRIMEIRO EPISÓDIO DE

Por José Fernando Magalhães

SEGUNDO EPISÓDIO

 

 

5 Comments

  1. Bom dia professor José Magalhães,

    eu sou uma estudante italiana da arquitectura na Faup em Porto. Tenho que fazer uma investigação sobre a historia da Capela de Sao Francisco de Paula e da Quinta dos Frades em Lordelo do Ouro. Eu li o seu blog sobre a Capela e queria saber se você podia dar-me mais informações sobre o tema, e ajudar-me encontrar a bibliografia e as fontes que você uso.

    Muito obrigada,

    Carolina Guerra

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