MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 5. Da morte de Roosevelt à queda de Marriner Eccles com Truman: 5.3. Ponto final na ruptura: Discurso de encerramento do 58º ano letivo no Utah State Agricultural College. Por Marriner Eccles

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. A publicação de hoje Ponto final na ruptura: Discurso de encerramento do 58º ano letivo no Utah State Agricultural College” de Marriner Eccles, é o terceiro e último texto da 5ª parte da série – 5. Da morte de Roosevelt à queda de Marriner Eccles com Truman”.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

 


5. Da morte de Roosevelt à queda de Marriner Eccles com Truman

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

17 m de leitura

5.3. Ponto final na ruptura: Discurso de encerramento do 58º ano letivo no Utah State Agricultural College

Por Marriner Eccles

em 4 de Junho de 1951

Publicado por , St. Louis Federal Reserve (ver aqui)

 

Presidente Madsen, estudantes finalistas, senhores professores, ilustres convidados: agradeço profundamente a honra que me deram de fazer o discurso de encerramento do ano letivo no Agricultural College de Utah na que foi por muitos anos a minha cidade natal de Logan. Há muitos anos que não me atrevo a admitir que nasci na casa da minha avó que se situava na esquina de Maine com a Terceira Rua Norte. Essa casa já não existe, mas como um viajante que regressa ao seu país depois de uma longa e interessante viagem, frequentemente emocionante, às vezes difícil, sinto-me rejuvenescido e revigorado por me sentir no meio de imagens da minha infância e de caras conhecidas que revejo em Logan.

Aceitei o convite para fazer o discurso de encerramento do ano letivo com as dúvidas habituais que assaltam qualquer um que é suposto proferir palavras de sabedoria face uma geração de gente mais jovem. Pela minha parte, os erros tanto da minha geração como das anteriores, que levaram a duas guerras mundiais e, no meio, à maior depressão económica até agora verificada, parecem desmentir quaisquer palavras de sabedoria. Da vossa parte, é claro, têm pouca escolha, exceto sentarem-se aqui e suportarem a provação. Eu não pretendo dizer-vos palavras de sabedoria, mas eu posso falar a partir da experiência – esse mestre de quem podemos, pelo menos, aprender a evitar cometer os mesmos erros no futuro que fizemos no passado.

Os erros deste século foram cometidos numa altura em que se testemunhou o maior progresso tecnológico e científico de toda a história. Antes da Primeira Guerra Mundial imaginávamos que podíamos viver num mundo à parte, que poderíamos ter paz e prosperidade no nosso país enquanto a Europa Ocidental se envolvia numa luta titânica, um resultado para o qual poderíamos olhar com uma distanciada neutralidade. Quando depois se nos tornou claro que a nossa própria sobrevivência como nação também podia estar em jogo ficámos dispostos a jogar tudo o que tínhamos na batalha sob o slogan de tornar o mundo seguro para a democracia. Assim, mergulhámos depois no que pensávamos que seria um período de “normalidade” confortável. Nós falávamos então de uma era sem fim preenchida por uma paz fácil e de abundância. Praticamente todos as nações do mundo proibiram solenemente a guerra. Estávamos tão certos de que o mundo tinha sido tornado seguro para a democracia que as nações democráticas desarmaram-se. Os poucos homens de visão, como Churchill, que advertiu da tempestade crescente, passaram então despercebidos.

A nova era de prosperidade entrou em colapso com uma rapidez e uma intensidade que poucos previram. O Presidente Hoover queixou-se, não sem justificação, que os Jeremias, os profetas do desastre, só apareceram depois desse evento. Estávamos tão perplexos com as causas desta Depressão, a maior de todas até agora verificada, como estávamos indecisos sobre o que fazer quanto a isso. A palavra de ordem daquela altura foi “equilíbrio orçamental para restaurar a confiança”, um conceito vazio e que desde então se desfez, se é que alguma vez houve um. Quando Hitler mergulhou o mundo num outro vasto conflito ainda éramos uma nação dividida, acreditando preponderantemente ou, pelo menos, com a esperança de que pudéssemos novamente ficar de lado e ter negócios como sempre em casa enquanto a maior parte do resto do mundo lutava até ao fim. Nem mesmo então tínhamos aprendido como vencer o problema do desemprego, como distribuir a abundância de bens e serviços que as nossas capacidades industriais, tecnológicas, bem como agrícolas, podiam produzir. Havia cerca de 10 milhões de pessoas à procura de trabalho enquanto ainda estávamos em paz. Os homens falavam do paradoxo da pobreza no meio da abundância. E hoje em dia o paradoxo é que as enormes despesas de defesa parecem ser a única cura para o desemprego em massa e para a estagnação industrial.

A culpa e causa comum destes enormes fracassos do passado não reside nas nossas instituições democráticas, não reside na nossa capacidade de produzir e distribuir bens, mas reside, isso sim, no nosso pensamento. O fracasso não se deve, por enquanto, à insuficiência de recursos materiais ou a qualquer falta de génio científico e inventivo no mundo – deve-se à nossa incapacidade de lidar com as causas básicas das convulsões políticas e sociais no estrangeiro que conduzem à guerra, na qual inevitavelmente nos envolvemos, e às nossas falhas no nosso país para encontrar qualquer resposta, exceto a guerra ou a preparação para a guerra, ao problema da distribuição da nossa abundância que é tão cobiçada pelo mundo comunista. É fácil culpar as nossas instituições democráticas e políticas, mas atrevo-me a dizer que o problema não reside tanto nestas instituições como na nossa incapacidade de adaptar essas instituições às necessidades do mundo moderno. O nosso pensamento económico não tem acompanhado o ritmo do progresso material e científico. O nosso pensamento sobre os problemas mundiais parece-me ainda demasiado irrealista. Somos demasiado pródigos em desviar os nossos recursos humanos e materiais para os preparativos militares para a guerra e a defesa, e demasiado conservadores na sua utilização para aliviar a miséria humana da qual o comunismo e a violência tanto se alimentam. Após a Segunda Guerra Mundial, tal como após a Primeira Guerra Mundial, as nações democráticas estavam em posição de estabelecer as bases para uma paz duradoura e falharam miseravelmente em fazê-lo. Os paradoxos a que me referi são paradoxos apenas porque não fomos capazes de pensar e, depois, de agir inteligentemente à luz da experiência e dos factos frios das realidades do mundo de hoje.

Sem dúvida que se pode ficar aborrecido com o truísmo de que se terá de lutar com, e resolver, os problemas herdados dos seus antecessores. Tudo o que posso dizer-vos é que não serão resolvidos sabiamente a menos que se pense neles de forma mais realista do que aquela que tem caracterizado muito do nosso pensamento desde há algumas décadas passadas. Presumivelmente, o que vos é ensinado aqui, acima de tudo, é como pensar. Há alguns anos, perguntaram-me se eu não pensava que as autoridades públicas deveriam ter mais tempo para pensar e, em resposta, disse:

“Conheci um bom número de homens que pensam que pensam, mas na sua maioria, são homens que apenas estão a fazer eco de opiniões ou preconceitos que ouviram falar durante o almoço ou na base dos quais cresceram. Ou papagueiam a conversa habitual sobre negócios ou sobre a profissão se é que têm alguma. “

“No Governo, particularmente aqueles que ocupam posições de grande responsabilidade devem ter um entendimento abrangente não meramente do seu próprio departamento ou especialidade, mas de toda a cena económica e política no país e no estrangeiro, se quiserem tomar decisões políticas inteligentes. Poucos homens na vida pública têm algo que se pareça com uma visão abrangente da realidade”.

“Não é suficiente que cada um de nós organize o seu tempo em ordem a ser livre para pensar. É preciso saber pensar, saber reunir, relacionar e relatar factos, que são tão frequentemente esquivos. E depois, se a reflexão nos pode levar a algum lado, é necessário que haja carácter e coragem, a vontade de tomar decisões e de fazer inimigos ou de fazer face a uma oposição inevitável. São apenas as pessoas, pensem-no elas ou não, que se pavoneiam ou que evitam as questões que também evitam fazer inimigos”.

Há um cinismo crescente no mundo de hoje, especialmente entre os jovens – o cinismo resultante dos fracassos humanos que conduziram às trágicas condições  existentes em todo o mundo. Fiz numa recente recensão de um livro no New York Times o comentário sobre a posição de alguns autores contemporâneos ao afirmarem que “a vida não tem uma direção ou propósito discernível, que os ideais são ilusões, que os valores comuns desapareceram, e que uma pessoa sensível está destinada a ser destruída ou corrompida numa sociedade moderna em que os valores comuns desapareceram”. Tendo admitido francamente que a minha geração cometeu muitos erros, continuo a dizer, a partir da minha própria experiência pessoal, que a vida tem tanto uma direção como um propósito discerníveis, que os ideais não são ilusões, que os valores comuns não desapareceram, e que uma pessoa sensível não tem de ser destruída ou corrompido pela sociedade moderna. Aqueles de nós que olham para o presente e o futuro com cinismo devem esforçar-se por recuperar uma perspetiva adequada. Não devemos deixar que os acontecimentos do momento obscureçam o ilustre registo do progresso de civilização. Não devemos, como Tennyson uma vez escreveu, deixar que  “as colinas do tempo  [presente] nos impeçam de ver as montanhas da eternidade”. (“the hills of time shut out the mountains of eternity”.)

Apesar dos nossos erros, a nossa nação floresceu e o nosso sistema de liberdade empresarial da democracia tem-nos proporcionado de longe o mais alto padrão de vida de qualquer nação na terra. Ao contrário de alguns países que eu poderia nomear onde os ricos se têm tornado mais ricos e os pobres têm ficado mais pobres, o nosso desenvolvimento durante as últimas duas décadas tem sido exatamente o oposto. Nós fomos muito mais longe em conseguir uma distribuição mais equitativa do rendimento, do que o que se fez há 20 anos atrás, em termos dos bens e serviços que nós, como nação, podemos produzir. Em 1929, os 5% de rendimentos mais elevados de todos os beneficiários de rendimentos obtiveram 34 por cento do total do rendimento nacional, enquanto que, atualmente, recebem cerca de 13 por cento do total. Entretanto, a parte do rendimento total recebido pelas pessoas das classes de rendimentos mais baixos aumentou proporcionalmente. Isto significa que, nos anos que se seguiram a 1929, realizámos uma das grandes revoluções sociais da história, uma revolução que se tem desenvolvido gradualmente e tem sido, e continuará a ser, de um benefício inestimável para toda a nossa nação.

O facto de uma tal redistribuição de rendimentos ter sido efetuada sem agitação social e perturbação ou deslocação das nossas atividades produtivas é em si mesmo um testemunho eloquente da nossa economia, das nossas instituições sociais e políticas.

Embora reconhecendo e prestando homenagem às vantagens do nosso tipo de sociedade, não devemos perder de vista as suas deficiências e fracassos, particularmente na sua relação com outras nações do mundo. Temos conversado ruidosamente em capitais estrangeiras sobre as vantagens do capitalismo democrático, mas não conseguimos convencer os nossos ouvintes estrangeiros com a nossa ação. Tome-se, por exemplo, a grave situação no Irão, que poderia vir a dar uma outra guerra mundial. Uma autoridade, comentando esta situação, disse recentemente:

“Infelizmente, à medida que as coisas se equilibram para os iranianos, as possíveis consequências económicas das suas ações não pesam muito fortemente. Eles não sentem que têm muito a perder. Este é o grande fracasso do Ocidente. A Pérsia, outrora orgulhosa, é um país pobre e atrasado, um país estagnado, feudal, governado ao acaso por umas poucas famílias ricas. Aqui os ressentimentos, profundos e amargos, são agravados por antagonismos religiosos. Conduzem, inevitavelmente, a um nacionalismo raivoso, a um sentimento assumido tanto pela direita como pela esquerda política. O Irão é um exemplo clássico da zona colonial que o capitalismo deixou apodrecer para o comunismo. Os britânicos e nós próprios temos falado muito em ajudar a melhorar a vida do cidadão médio. Mas nunca se passou disso, de conversa fiada.”

No Irão, China, Coreia, Indo-China e noutros lugares, nós e os outros países do Mundo Ocidental falhámos singularmente em fornecer os tangíveis benefícios do capitalismo democrático que teriam evitado a propagação do comunismo. Em vez disso, demos a nossa bênção e o nosso apoio a governos reacionários que não têm a confiança e o apoio do povo. Não nos apercebemos que grande parte do mundo está num estado de revolução económica que consideramos de inspiração comunista e tentamos comprá-los com dólares ou dominá-los através da guerra. Temos de reconhecer que os comunistas só podem explorar as condições que continuarão a existir se nós próprios, na nossa política externa, não lidarmos com as causas subjacentes à revolução mundial. Como disse o Juiz do Supremo Tribunal de Justiça Douglas:

“A política externa americana nunca foi dirigida às condições em que estas revoluções florescem. Enviamos peritos técnicos para ajudar na seleção de sementes, conservação do solo, controlos da malária e afins. Mas nunca levantamos a nossa voz para as reformas do sistema de arrendamento perverso sob o qual o aumento da produção funciona em benefício de uns poucos. Falamos sobre democracia e justiça, e, ao mesmo tempo, apoiamos regimes em países cujo objetivo é manter de forma definitiva a democracia e a justiça fora do alcance dos camponeses”.

O capitalismo democrático, para sobreviver, deve estar contra o comunismo, por obras e não por palavras, nas zonas atrasadas do mundo não desenvolvido. Falar sozinho não conquistará muitos convertidos à causa democrática e só trazendo-lhes os benefícios tangíveis do aumento da produção agrícola e industrial, dos métodos de distribuição mais eficientes e de uma maior igualdade de rendimentos podemos esperar que as massas desprivilegiadas do mundo abandonem as promessas brilhantes mas nunca cumpridas do comunismo. Aqueles que se queixam que o custo de tal programa seria exorbitante devem lembrar-se que nunca hesitamos em gastar na guerra ou defesa o que for necessário mas que nos tornamos relativamente limitados nas nossas despesas civis para manter a paz do mundo. Só este país gastou mais de 400 mil milhões de dólares para ganhar a Segunda Guerra Mundial, e está agora embarcado num programa de defesa que custará 50 a 60 mil milhões de dólares por ano durante um período de tempo indefinido. No entanto, as guerras nunca resolvem nenhum dos problemas do mundo, mas apenas os acentuam. Será que o mundo nunca aprenderá, antes que seja demasiado tarde, a utilizar os recursos desperdiçados na guerra ou na defesa contra a guerra em benefício dos povos do mundo, num esforço para erradicar as causas básicas da guerra e a necessidade de defesa?

Além de encontrarmos formas e meios de partilhar os benefícios materiais, bem como os ideais da democracia com as outras nações do mundo, temos de enfrentar aquele que é talvez o problema mais fundamental de todos: a superpopulação. Um biólogo, Julian Huxley, disse que “a população humana é provavelmente o maior problema do nosso tempo, precisamos de uma política populacional positiva para o mundo como um todo e para cada uma das nações que o compõem. Uma tal política populacional será no mais alto grau moral, ao salientar a maldade de permitir que as gerações futuras nasçam em crescente miséria e de permitir que toda a raça humana a sofra degeneração genética”.

Não podemos esperar melhorar a sorte do homem comum na China, Índia, Japão ou qualquer outra nação superpovoada e subdesenvolvida do mundo se o único controlo do número dos seus habitantes for a disponibilidade de alimentos. A existência de grandes massas de pessoas que subsistem a níveis de fome é um convite aberto à revolução e ao comunismo, uma vez que a maioria das pessoas tentará lutar para sair de uma situação má antes de morrer à fome. Tais melhorias no nível de vida como o sistema democrático de produção e distribuição do mundo ocidental poderia proporcionar, seriam, na ausência de uma política populacional positiva, rapidamente dissipadas entre o rápido aumento do número de pessoas. Mesmo no nosso próprio país poderemos estar a enfrentar a prazo um grave problema de sobrepopulação se a nossa atual taxa de crescimento da população continuar. A esse ritmo, só os Estados Unidos teriam, dentro de 150 anos, mais pessoas do que a atual população de todo o planeta.

As duas causas básicas do conflito mundial – a população que se encontra em conflito e a consequente inadequação dos meios de produção e distribuição necessários para alimentar e vestir esse número de pessoas – devem ser tratadas de forma realista em muitas áreas da Terra, se quisermos estabelecer e manter a paz. Não se deve permitir que o idealismo mal orientado obscureça a necessidade de um realismo sem erros para lidar com as causas básicas da guerra. Embora tenhamos adaptado as leis da natureza para servir os nossos próprios fins no domínio das ciências físicas, optámos por ignorar ou negligenciar essa adaptação nas ciências sociais. Foi dito: “Vivemos num Universo que não tolera nenhuma insensatez da parte de ninguém e que nos impõe que não nos façamos de tolos, mas sim de pessoas capazes de resolvermos os nossos problemas”.

Como no passado falhámos em remediar as causas básicas do conflito mundial, encontramo-nos hoje confrontados com uma necessidade imediata e premente de fornecer uma defesa nacional mais adequada, num esforço para evitar a deflagração de outra guerra mundial. Contudo, temos de reconhecer o facto de que o nosso programa de preparação da defesa é, na melhor das hipóteses, uma solução temporária e transitória – um meio de dissuasão da guerra, enquanto nos esforçamos por alcançar uma solução mais permanente para os problemas fundamentais que conduzem à guerra. Outra guerra global significaria uma guerra total com armas atómicas e todas as outras armas de destruição, e provavelmente não poderia ser ganha por ninguém; pelo contrário, pode muito bem levar à destruição da própria civilização. Creio que os povos do mundo, incluindo o povo russo, são contra a guerra, porque a guerra moderna coloca todos os homens, mulheres e crianças na linha da frente da batalha, expondo-os ao sofrimento e às dificuldades para além dos limites da resistência humana – a guerra de hoje obliterou o significado das distâncias espaciais e temporais e as barreiras oceânicas já não oferecem proteção; toda a terra foi englobada num bairro relativamente pequeno. Não devemos, portanto, permitir-nos pensar na guerra como inevitável, pois, para citar um editorial recente, “de outra guerra viria uma tal abominação de destruição e aniquilação, um rescaldo tão desolador de tristeza e agitação, de tanta tristeza e repulsa por toda a parte que o único povo feliz seria o povo morto”.

Devemos ser resolutos na nossa determinação de evitar a guerra; devemos conceber e executar um programa de preparação de defesa e de ajuda externa que dissuada os líderes russos de iniciar uma terceira guerra mundial. Ao fazê-lo, devemos escolher cuidadosamente a nossa estratégia e as nossas armas de defesa, tendo em conta o seu custo e a sua eficácia, para não destruirmos o próprio sistema que o nosso programa foi concebido para proteger. E isto pode acontecer se permitirmos uma maior deterioração do poder de compra do dólar e o enfraquecimento das nossas defesas, desperdiçando os nossos recursos de mão-de-obra e de materiais.

Isto significa um programa de que somos capazes e estamos dispostos a pagar atualmente, uma vez que deve ser sustentável por um período de tempo indefinido. A esperança do Kremlin, claro, é que através da nossa incapacidade de controlar a inflação, consigamos realizar a destruição do nosso próprio sistema económico e político e fazer com que a conquista comunista dos Estados Unidos seja barata e fácil, tal como a inflação abriu caminho para a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. Do ponto de vista político, a inflação que leva à falência económica é o mais poderoso instrumento de infiltração comunista.

A fim de utilizar os nossos recursos de mão-de-obra e material da forma mais eficaz, devemos apoiarmo-nos principalmente no controlo esmagador do ar e do mar com o objetivo de dissuadir a agressão comunista, e devemos conservar a nossa mão-de-obra para a utilizar  onde ela é mais eficaz – isto é nas nossas linhas de produção. Não podemos dar-nos ao luxo de nos envolvermos mais com exércitos terrestres no continente europeu ou asiático. Devemos reconhecer os factos de que a nossa incomparável capacidade produtiva é a nossa linha de defesa mais forte, que a nossa capacidade de produzir é largamente determinada pela nossa mão-de-obra disponível, e que o nosso país é o arsenal e a pedra angular das nações livres do mundo.

Tenho procurado enfrentar os grandes problemas, os problemas  que nos são incontornáveis, tal como os vejo, que são um desafio ao nosso melhor pensamento e ao nosso carácter como nação nos dias de hoje. Podemos derrotarmo-nos a nós próprios pelo cinismo, pela tibieza, e pela incapacidade de pensar clara e corajosamente. Podemos ter êxito se tivermos a coragem, o carácter, o espírito de vencer e a visão que inspirou os antepassados da nossa nação. Os vossos antepassados e os meus, que vieram para estas montanhas e vales nas suas carroças cobertas e criaram a partir das terras desérticas este Estado fértil e próspero, não claudicaram perante os perigos e as dificuldades. Na fundação da sua nação e na extensão das suas fronteiras, o nosso povo ultrapassou obstáculos que então eram tão grandes como aqueles com que nos confrontamos agora. Faríamos bem em recordar o que S. Paulo disse aos Romanos:

Nós glorificamo-nos na dificuldade; sabendo que a dificuldade produz a perseverança, a perseverança a experiência, e a experiência a esperança. (Romanos, 5:3-4)

O grande dramaturgo, Robert Sherwood, ao comentar esta citação, disse o seguinte:

“Após a eclosão da Segunda Guerra Mundial – depois dos nazis terem invadido a Polónia e o Exército Vermelho ter invadido a Finlândia – citei essas palavras de São Paulo, e Alfred Lunt disse-as na peça There Shall Be No Night. Aqueles foram tempos de dificuldade, de facto, e dificuldades muito piores estavam ainda por vir, e essas palavras foram submetidas a um teste supremo. Mas havia homens de fé – homens que podiam dizer: “Não tenho nada a oferecer a não ser o meu sangue, o meu trabalho, as minhas lágrimas  e o meu suor” , ou “A única coisa que devemos temer é o próprio medo” – e essa paciência gerou experiência, e a experiência gerou esperança e vitória final.

“Novamente estamos em tempos de (grande) dificuldade”.

“Faríamos muito bem em lembrar que as palavras de eterno conforto de S. Paulo ainda estão disponíveis para homens e mulheres de (visão e) fé.”

Não poderia fazer melhor, em conclusão, do que citar um discurso de um grande dirigente político – Woodrow Wilson – ao falar no Swarthmore College em Outubro de 1913:

“Quantos de vocês se oferecerão para levar as mensagens espirituais de liberdade ao mundo? Quantos de vocês renunciarão a qualquer coisa, exceto à fidelidade ao que é justo e ao que está certo? Morremos apenas uma vez, e morremos sem distinção se não estamos dispostos a morrer de sacrifício.

“Cobiça-se a honra? Nunca ninguém a alcançará servindo-se a si mesmo. Cobiça-se a distinção? Nunca ninguém  a obterá senão enquanto servo da humanidade. Nunca ninguém se deve esquecer, então, ao caminhar por esses lugares clássicos, porque é que está aqui. Cada um de nós não está aqui somente para se preparar para ganhar a sua vida. Cada um de nós está aqui para permitir que toda a gente viva melhor, com uma maior visão, com um melhor espírito de esperança e de realização. Cada um de nós está aqui para enriquecer o mundo e cada um de nós ficará mais pobre se esquecer essa missão. “

 

 

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