Dê-se uma chance à paz, dê-se sentido de vida a este nosso mundo — Texto 5. Pôr fim à Guerra de Desgaste na Ucrânia.  Por Jeffrey D. Sachs

 

Nota do editor:

O texto de Jeffrey Sachs que publicamos abaixo, foi escrito em 10 de Maio p.p.. e dá por aceite factos sobre as ditas atrocidades de Bucha e outras que foram desmentidas objetiva e expressamente quer em artigos de analistas (vd. “Um falso massacre em nome de verdadeiras sanções” por Batko Milacic, em 11 de Abril; “Bucha: massacre ou provocação. Onde pára a verdade?” por AbrilAbril em 4 de Abril; “As atrocidades de Bucha e o carácter tendencioso das reportagens sobre a Ucrânia” por Thomas Palley em 7 de Abril; “O Legado de Madeleine Albright continua vivo” por Martin Jay em 17 de Abril; “Zelenskymania e a imagem arruinada da Suíça” por G Mettan em 10 de Abril) quer por especialistas militares e políticos (vd. Desinformação e perfídia, é o que temos na comunicação social, por major-general Raul Cunha em 3 de Abril; Entrevista do coronel e ex-senador dos EUA Richard Black em 6 de Maio).

Embora sendo certa a absoluta necessidade e a possibilidade de se negociar a paz na Ucrânia, o autor parte desde logo de uma permissa comprovadamente falsa: a de que “ a Ucrânia deveria intensificar a procura de uma paz negociada do tipo que estava em cima da mesa em finais de Março, mas que depois abandonou na sequência de provas de atrocidades russas em Bucha”. Aliás, o próprio acrescenta: “e talvez devido à mudança de perceções das suas perspetivas militares”. Traduzindo: o governo ucraniano apoiado massivamente pelos EUA/NATO, e em coordenação com o Departamento de Estado dos EUA, é levado a abandonar as negociações com a perspetiva de imposição da sua posição negocial por via da ação militar. Naturalmente, até quando, fica por saber.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 m de leitura

 

“Tivemos em pouco tempo uma sequência abreviada da história que antecede o Juízo Final: mergulhámos no inferno do aquecimento da Terra, (à medida de uma escala macro) enfrentámos a catástrofe sanitária  provocada pelo vírus (descemos então para a escala micro) e despertámos para o apocalipse sem Reino da ameaça nuclear ( sintonizando-nos com a medida humana, demasiado humana)”

(…)

“Quando todas as informações e comentários redundam em exclamações, indignações e interjeições  percebemos que a escalada não é apenas a da guerra, é também a da idiotice”

António Guerreiro, Público, 13 de maio de 2022

 

Texto 5. Pôr fim à Guerra de Desgaste na Ucrânia 

 Por Jeffrey D. Sachs

Publicado por em em 10 de Maio de 2022 (original aqui)

 

 

 

A invasão da Ucrânia por Vladimir Putin degenerou numa selvagem guerra de desgaste que cada lado acredita que ganhará, mas que na realidade ambos os lados perderão. A Ucrânia deveria intensificar a procura de uma paz negociada do tipo que estava sobre a mesa em Março, mas que foi abandonada após as atrocidades russas em Bucha.

 

NOVA IORQUE – As guerras entram frequentemente em erupção e persistem devido a erros de cálculo dos dois lados no que diz respeito ao seu poder relativo. No caso da Ucrânia, a Rússia cometeu um erro grave ao subestimar a determinação dos ucranianos em lutar e a eficácia do armamento fornecido pela NATO. Contudo, a Ucrânia e a NATO estão também a sobrestimar a sua capacidade de derrotar a Rússia no campo de batalha. O resultado é uma guerra de desgaste que cada lado acredita que irá ganhar, mas que ambos os lados irão perder. A Ucrânia deveria intensificar a procura de uma paz negociada do tipo que estava em cima da mesa em finais de Março, mas que depois abandonou na sequência de provas de atrocidades russas em Bucha – e talvez devido à mudança de perceções das suas perspetivas militares.

Os termos de paz em discussão no final de Março apelaram à neutralidade da Ucrânia, apoiada por garantias de segurança e um calendário para abordar questões controversas como o estatuto da Crimeia e do Donbas. Os negociadores russos e ucranianos declararam que havia progressos nas negociações, tal como os mediadores turcos. As negociações entraram em colapso após os relatos sobre Bucha, tendo o negociador ucraniano declarado que, “a sociedade ucraniana é agora muito mais negativa sobre qualquer conceito de negociação que diga respeito à Federação Russa”.

Mas os argumentos a favor das negociações continuam a ser urgentes e esmagadores. A alternativa não é a vitória da Ucrânia, mas sim uma devastadora guerra de desgaste. Para se chegar a um acordo, ambas as partes precisam de recalibrar as suas expectativas.

Quando a Rússia atacou a Ucrânia, esperava claramente uma vitória rápida e fácil. A Rússia subestimou largamente a atualização das forças armadas ucranianas após anos de apoio e treino militar dos EUA, britânicos e outros desde 2014. Além disso, a Rússia subestimou a medida em que a tecnologia militar da NATO iria contrariar o maior número de tropas russas. Sem dúvida, o maior erro da Rússia foi assumir que os ucranianos não lutariam – ou talvez até mudassem de lado.

No entanto, agora a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais estão a sobrestimar as hipóteses de derrotar a Rússia no campo de batalha. A ideia de que o exército russo está prestes a entrar em colapso é uma ilusão. A Rússia tem a capacidade militar para destruir as infraestruturas ucranianas (como as linhas ferroviárias agora atacadas) e para ganhar e manter território na região de Donbas e na costa do Mar Negro. Os ucranianos estão a lutar com determinação, mas é altamente improvável que possam forçar uma derrota russa.

Nem podem as sanções financeiras ocidentais, que são muito menos abrangentes e eficazes do que reconhecem os governos que as impuseram. As sanções dos EUA contra a Venezuela, Irão, Coreia do Norte e outros não alteraram a política desses regimes, e as sanções contra a Rússia já estão a ficar muito aquém da propaganda com que foram introduzidas. A exclusão dos bancos russos do sistema de pagamentos internacionais SWIFT não foi a “opção nuclear” que muitos pretendiam. De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a economia russa irá contrair-se em cerca de 8,5% em 2022 – mau mas dificilmente catastrófico.

Além disso, as sanções estão a criar graves consequências económicas para os Estados Unidos e especialmente para a Europa. A inflação americana está a um máximo de 40 anos e é provável que persista devido aos milhões de milhões de dólares de liquidez que tinham sido criados pela Reserva Federal nos últimos anos. Ao mesmo tempo, as economias americana e europeia estão a abrandar, talvez mesmo a contrair-se, à medida que proliferam as roturas da cadeia de abastecimento.

A posição política interna do Presidente dos EUA Joe Biden é fraca e é provável que se enfraqueça ainda mais à medida que as dificuldades económicas se forem acumulando nos próximos meses. O apoio público à guerra também irá provavelmente diminuir à medida que a situação da economia se deteriore. O Partido Republicano está dividido por causa da guerra, com a fação Trump pouco interessada em confrontar a Rússia sobre a Ucrânia. Também os Democratas se ressentirão cada vez mais da estagflação que provavelmente irá custar ao partido a sua maioria em uma ou ambas as casas do Congresso nas eleições intercalares de Novembro.

As consequências económicas adversas do regime de guerra e das sanções atingirão também proporções terríveis em dezenas de países em desenvolvimento que dependem da importação de alimentos e energia. As deslocações económicas nestes países conduzirão a apelos urgentes em todo o mundo para pôr fim à guerra e ao regime de sanções.

WFP/Hebatallah Munassar -A woman sits with her son at the family’s makeshift home in Lahj, Yemen. Foto de notícias da ONU em 12/04/2022 (ver aqui)

 

Entretanto, a Ucrânia continua a sofrer gravemente em termos de mortes, deslocações e destruição. O FMI prevê agora uma contração de 35% da economia da Ucrânia em 2022, refletindo a destruição brutal de habitações, fábricas, transporte ferroviário, capacidade de armazenamento e transporte de energia, e outras infraestruturas vitais.

O mais perigoso de todos os problemas, enquanto a guerra continuar, é que o risco de uma escalada nuclear é real. Se as forças convencionais da Rússia fossem realmente empurradas para a derrota, como os EUA estão agora a procurar, a Rússia poderia muito bem contra-atacar com armas nucleares táticas. Um avião norte-americano ou russo poderia ser abatido pelo outro lado à medida que sobrevoasse o Mar Negro, o que, por sua vez, poderia levar a um conflito militar direto. Os meios de comunicação social relatam que os EUA têm forças encobertas no terreno, e a revelação pela comunidade de inteligência norte-americana de que ajudou a Ucrânia a matar generais russos e a afundar o navio-estandarte russo do Mar Negro sublinham o perigo.

A realidade da ameaça nuclear significa que ambas as partes nunca devem renunciar à possibilidade de negociações. Esta é a lição central da Crise dos Mísseis Cubanos, que teve lugar há 60 anos, em Outubro próximo. O Presidente John F. Kennedy salvou o mundo então ao negociar o fim da crise – concordando que os EUA nunca mais invadiriam Cuba e que os EUA retirariam os seus mísseis da Turquia em troca da retirada dos mísseis soviéticos de Cuba. Isso não era ceder à chantagem nuclear soviética. Isso foi Kennedy sabiamente evitar o Armagedão.

Ainda é possível estabelecer a paz na Ucrânia com base nos parâmetros que estavam sobre a mesa no final de Março: neutralidade, garantias de segurança, um quadro para abordar a Crimeia e o Donbas, e a retirada russa. Este continua a ser o único curso realista e seguro para a Ucrânia, Rússia, e o mundo. O mundo juntar-se-ia a tal acordo, e, para a sua própria sobrevivência e bem-estar, o mesmo deveria acontecer com a Ucrânia.

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O autor: Jeffrey D. Sachs, é Professor Universitário na Universidade de Columbia, é Director do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia e Presidente da UN Sustainable Development Solutions Network. Foi conselheiro de três secretários-gerais da ONU, e actualmente é advogado do Secretário-Geral António Guterres. Os seus livros incluem The End of Poverty, Common Wealth, The Age of Sustainable Development, Building the New American Economy, A New Foreign Policy: Beyond American Exceptionalism, e mais recentemente, The Ages of Globalization.

 

 

 

 

 

 

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