A TRAGÉDIA DO EURO. Por François Asselineau.

Selecção, tradução, montagem e introdução por Júlio Marques Mota

PARTE III

(continuação)

Qualquer que seja a sua origem, a grande maioria dos imigrantes tornou-se francesa rapidamente pois integrarem-se facilmente na sociedade francesa, particularmente a partir da segunda ou terceira geração. A diferença com os países anglo-saxónicos  é aqui impressionante . Esta realidade mostra a inegável capacidade da França na matéria: o cadinho republicano ainda funciona e dele podemos estar orgulhosos.

Março de 1965: imigrantes portugueses na sala de espera de estação de Hendaye

Março de 1965: imigrantes portugueses à chegada à Paris (Gare d’Austerlitz)

Linda de Suza (do seu verdadeiro nome Teolinda Joaquina de Sousa Lança ), nasceu em 1948 em Beringel, na região do Alentejo, em Portugal, tornou-se o símbolo dos emigrantes portugueses em França no final da década de 1960. Tendo deixado o seu país e vindo para a França em 1969, ela conseguiu, depois de muitos empregos precários, tornar-se uma cantora de sucesso: entre 1978 e 1998, ele vendeu um total 750.000 singles e de 511 800 álbuns. Mais espectacular ainda, ela obteve um sucesso tão fenomenal quanto inesperado com a sua autobiografia A mala de cartão, publicada em 1984, que vendeu 2 milhões de exemplares.

Uma série da televisão portuguesa foi consagrada à história da emigração para a França na década de 1960.

A CRISE DO EURO E A DESTRUIÇÃO Dos Direitos Sociais adquiridos exigido pela União Europeia levam a que a emigração portuguesa atinja os seus mais elevados níveis históricos

Para avaliar a extensão dos acontecimentos actuais, é instrutivo estudar a evolução da emigração portuguesa ao longo de um período muito longo, afim de compreender as inflexões e para comparar as diferentes fases.

A figura abaixo apresenta esta evolução sobre 156 anps, em número de emigrantes por ano de 1855 à 2011:

Como se vê esta emigração seguiu várias fases muito diferenciadas:

  • a partir de 1888, data da abolição da escravatura no Brasil e da consecutiva  necessidade de mão-de-obra que esta abolição provocou, a emigração portuguesa progrediu claramente desde o final do século XIX até a eclosão da primeira Guerra Mundial. O número de emigrantes terá mesmo atingido cerca de 90 mil pessoas em 1913. O país de escolha para os emigrantes foi o Brasil.
  • depois de uma brutal contracção de saídas concomitante com a primeira Guerra Mundial, esta emigração retomou a seguir de forma mais moderada na década de 1920: o número de emigrantes estabeleceu-se entre 30-50.000 por ano e o país de escolha para os emigrantes foi, desta vez, menos o Brasil do que os Estados Unidos, onde o crescimento económico precedente ao grande crash de 1929 era muito forte.
  • a crise da década de 1930, depois a Segunda Guerra Mundial, reduziram este fluxo migratório a quase nada até 1945.
  • durante a década de 1950, o fluxo de emigração retomou o ritmo da década de 1920, com cerca de 30.000 partidas anuais.
  • Depois a década de 1960 testemunhou uma explosão da emigração portuguesa para os países da Europa, que estavam com forte ritmo de crescimento económico. Este crescimento muito forte, conhecido como o período dos “Trinta gloriosos “, é também o resultado da chegada à idade adulta de muitas gerações do pós-guerra e devido a aplicação geral das políticas de tipo keynesiano, a visarem a constituição de uma enorme classe média e o consumo em massa. Como já se disse, esta emigração teve primeiramente a ver com a França e também respondeu a incentivos de política interna portuguesa (pobreza, ditadura, recusa dos jovens adultos em irem combater durante anos nas guerras coloniais). O maior número de saídas atingiu cerca de 160.000 para 180.000 por ano no período de 1969-1970.
  • A partir de 1973, o fluxo de emigrantes foi fortemente reduzido, sob o efeito combinado de dois fenómenos separados: de um lado a “Revolução dos cravos” de 1974 acabou repentinamente  com duas das mais poderosas razões para a emigração (a ditadura política e a guerra colonial e o novo governo de Lisboa concedeu a sua independência a Angola e a Moçambique); por outro lado, a guerra do Kippur, em 1973 e a quadruplicação do preço do petróleo que se lhe seguiu fez baixar drasticamente o crescimento nos países da Europa Ocidental e particularmente em França em que nós nunca mais retomámos com a taxa de crescimento dessa época. Desde então, os candidatos à emigração já não estavam em condições de conseguirem facilmente emprego bem remunerados.
  • ao longo dos anos 80 e 90, o número de emigrantes permaneceu moderado ou até mesmo baixo, entre 20 e 50 000 partidas por ano. Este fenómeno é principalmente devido à adesão de Portugal à CEE (que se tornou UE com o Tratado de Maastricht de 1992), que forneceu ao país apoios financeiros consideráveis, sob o programa dos “Fundos estruturais europeus”. Estes fundos, que só têm de europeus o seu nome uma vez que foram financiados principalmente pelos contribuintes alemães, franceses e holandeses, têm como objectivo criar condições de convergência dos novos Estados-Membros, em termos económicos e de infra-estruturas. Foi isto que aconteceu a Portugal, onde a injecção desses fundos claramente estimulou o crescimento económico, como era esperado, suscitando assim a criação de empregos e esta  foi assim fortemente dissuasora da emigração.
  • os anos 2000 foram no entanto, marcados  uma primeira inversão de tendência, com uma emigração que começava a subir: a crise económica no mundo em 2000, com o rebentar da bolha  da Internet e especialmente o alargamento da UE a 10 novos países a leste (em 2005) e, em seguida, para os 2 outros países (Bulgária e Roménia) em 2007, na verdade acabaram com o crescimento económico em Portugal. Pela simples razão de que os famosos “fundos estruturais”, que em grande parte explicavam largamente os chamados “milagres” irlandês, espanhol ou português, pararam subitamente para serem repartidos agora em benefício dos novos membros do leste. De repente, o desemprego fez a sua reaparição no Portugal, e o número de emigrantes subiu rapidamente até aproximadamente 100.000 em 2008-2009, um limite que não tinha sido observado desde 1972.
  • enfim, a crise do euro, a crise das dívidas públicas e as medidas economicamente recessivas exigidas pela Comissão Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional a partir de 2010 desencadearam um novo surto de emigração sobre um fundo de forte taxa de desemprego. Este é acompanhado de uma redução drástica das conquistas sociais, de uma tendência ao empobrecimento generalizado e de um sentimento unânime de desespero e futuro bloqueado.
  • É esta a fase na qual Portugal se está hoje a afundar. Como os jornais o têm publicado recentemente nas suas “Caixas” esta crise multifacetada impulsionou o número de emigrantes para novos valores: em 2011, atingiu-se o limite de 150 000 partidas nesse ano:

150.000 imigrantes num só e único ano, é um volume que está próximo dos valores recordes registados em 1969 e 1970, quando em Portugal não se vislumbrava nem uma saída da ditadura de Salazar nem o fim da guerra colonial.

(continua)

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