Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Parte II
(continuação)
Aceleração da fuga de capitais
O ritmo dos levantamentos de dinheiro dos bancos aumentou este ano. Os depósitos bancários em Espanha caíram 7 por cento desde o início de Janeiro até ao final de Julho, em comparação com uma queda de 4 por cento nos seis meses anteriores. O declínio da poupança em Portugal acelerou de 1 por cento para 6 por cento, ao mesmo tempo que na Irlanda os depósitos caíram 10 por cento em comparação com uma alteração quase nula nos últimos seis meses de 2011.
O Banco Santander SA (SAN), o maior banco da Espanha, perdeu em Julho 6,3% dos depósitos a nível nacional, segundo dados divulgados pela associação de bancos do país. As poupanças depositadas no Banco Popular Espanol SA, o sexto maior banco, caíram 9,5 por cento no mesmo mês.
O Eurobank Ergasias SA, o segundo maior banco da Grécia, perdeu 22 por cento dos depósitos dos seus clientes nos 12 meses anteriores a 31 de Março, segundo os últimos dados do banco. O Alpha Bank SA (ALPHA), o terceiro maior do país, perdeu 26 por cento das poupanças dos clientes neste mesmo período.
Os dados do BCE incluem itens tais como depósitos de titularização de fundos que os bancos espanhóis dizem não serem fiáveis para financiarem das suas actividades. Os depósitos das famílias e das empresas a nível nacional são estáveis se incluírem o financiamento através de instrumentos tais como papel comercial disponibilizado aos clientes a retalho nos seus balcões, referiu o Banco Bilbao Vizcaya Argentaria SA (BBVA) num relatório de 04 de Setembro.
Bancos irlandeses
As autoridades governamentais da Irlanda e os executivos dos bancos dizem que os depósitos bancários nos três bancos intervencionados pelo Estado estabilizaram, depois de quase três anos de levantamentos de depósitos. O Bank of Ireland, Plc, a maior instituição de crédito, viu os depósitos dos seus clientes aumentarem cerca de 11 por cento no exercício anual que terminou em 30 de Junho, segundo dados das autoridades reguladoras. A Irlanda também alberga muitas instituições estrangeiras, as quais usam Dublin como uma base offshore para beneficiarem de taxas de impostos mais baixas, cujos movimentos de fundos seriam revelados nos dados do BCE relativos à Irlanda.
A Irlanda nacionalizou, em 2010, quase todos os bancos nacionais, forçando-os a reconhecer as perdas no crédito imobiliário, tendo injectado cerca de 63 mil milhões de euros para os manter em actividade. A Espanha resistiu a uma limpeza similar que lhe poderia custar várias centenas de milhares de milhões de euros, de acordo com algumas estimativas. Depois de aceitar, em Junho, uma ajuda potencial de 100 mil milhões de euros da EU, o governo espanhol ainda não decidiu quanto deve utilizar e o que fazer com as suas instituições financeiras em crise.
Tapar buracos
O dinheiro do BCE pode ter tapado muitos buracos nas instituições que, de outra maneira, teriam que vender activos a preços de saldo por não terem financiamento privado. O auxílio não evitou que os custos de financiamento subissem no restante endividamento dos bancos, designadamente nos depósitos.
Embora as instituições de crédito italianas tenham estancado o declínio dos depósitos este ano, pagaram para isso um preço elevado, com taxas médias dos depósitos a subirem, num ano, cerca de 50 por cento, atingindo 3,1 por cento em Julho, segundo dados do BCE. Isto é mais do que os 2,4 por cento pagos pelos bancos espanhóis, cuja guerra pelos depósitos só foi estancada pela fixação legal de um limite máximo das taxas no ano passado. Estes limites foram levantados no mês passado e os bancos espanhóis começaram novamente a aumentar as taxas de juro dos depósitos.
O custo médio dos depósitos para os bancos alemães era 1,5 por cento em Julho. Há dois anos, as taxas de juro dos depósitos italianos e alemães eram as mesmas, ou seja, cerca de 1,3 por cento.
A diferença de custos de financiamento dos bancos reflecte-se no custo dos empréstimos que concedem. As taxas de juro italianas no crédito ao consumo para prazos até um ano, com uma média de 8,2%, ultrapassaram até as taxas praticadas na Grécia e em Portugal, segundo dados do BCE. Os consumidores espanhóis tiveram que pagar 7,3 por cento pelos empréstimos dos seus bancos, comparado com 4,5 por cento pago pelos alemães.
Outro golpe para a integração financeira é a localização geográfica dos financiadores e dos financiados. As filiais de bancos alemães, franceses e holandeses em Espanha, Itália e noutros países periféricos também recorreram ao BCE, a fim de reduzir as necessidades de fundos das respectivas casas-mãe. O Deutsche Bank AG, o maior banco da Alemanha, referiu na semana passada que tinha feito baixar em 87 por cento a dependência das suas filiais do financiamento pela casa-mãe de Frankfurt, através de empréstimos do BCE.
Embora os maiores bancos digam que estão a proteger-se a si próprios contra a redenominação monetária no caso de algum país abandonar a União, tais movimentos contribuem fortemente para exacerbar as divisões entre os países do núcleo duro da zona euro e os países da periferia. Uma filial do Deutsche Bank financiada a nível local não pode conceder créditos que reflictam as fontes de financiamento mais baratas da sua casa-mãe.
Resgate encapotado
Ao assumir o financiamento dos bancos em situação de fragilidade, o BCE está, na verdade, a socorrer os respectivos credores dos países do núcleo duro da zona euro, segundo Edward Harrison, analista da Global Macro Advisors, uma firma de consultoria económica de Bethesda, Maryland. Se deixassem falir os bancos da Irlanda ou da Espanha atingidos pelas perdas no crédito especulativo à habitação, os bancos alemães e franceses perderiam dinheiro nos empréstimos concedidos às instituições financeiras dos países da periferia.
O último plano do BCE para comprar dívida soberana de alguns países é uma forma de continuar a acção de resgate aos bancos alemães e franceses, disse Harrison.
“Os dirigentes dos países do núcleo duro da zona euro não vão deixar que os países periféricos entrem em incumprimento do pagamento da dívida, porque então teriam de recapitalizar os seus bancos em função do dinheiro perdido nesses investimentos, afirmou Harrison. “Isto é um bem encapotado resgate dos seus bancos, mas, mesmo assim, não resolve a questão da solvência da Itália ou da Espanha”.
Este resgate transfere o risco de incumprimento das dívidas soberanas, dos accionistas privados dos bancos do núcleo duro da zona euro para o BCE, e, no fim de contas, para os contribuintes da zona euro. Quando a Grécia reestruturou a sua dívida no início deste ano, muito desse risco já tinha sido transferido para o público, de forma que as perdas dos bancos europeus fora da Grécia foram reduzidas a metade. Porque o BCE e outros bancos europeus não suportariam quaisquer perdas, a carga de endividamento não foi reduzida o suficiente para torná-la sustentável.
