RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

França – O objectivo do défice a 3 por cento é perigoso

Texto de Henri Guaino, antigo conselheiro especial de Nicolas Sarkozy

 

O objectivo do défice de 3% em 2013 é perigoso, entrevista com Henri Guaino, Le Monde, 19 de Outubro de 2012

François Hollande está empenhada em reduzir o défice público para 3% do PIB em 2013. É isto viável?

Agarrar-se a este  objectivo enquanto  que a economia francesa e europeia entra  numa fase crítica é ilógico, irreal e perigoso. Se o crescimento for zero no próximo ano, será necessário fazer  um ajustamento orçamental  de 40 mil milhões de euros. O risco de precipitar o país na recessão é real e a recessão não reduz os défices, ela aumenta-os. .

Hollande  acredita que estamos “mesmo muito perto” da saída da crise da zona euro…

Acreditar que a crise está a acabar  é estar  perigosamente a ficar cego.

O que pretende Guaino ? Provocar a Alemanha…  ?

Mas não! Eu quero apenas que nós nos olhemos e enfrentemos  o risco do desastre económico e social para o qual caminha a Europa se ela se obstina  em continuar numa  política macroeconómica errada: uma restrição orçamental e monetária  cega, quando a recessão ameaça sobre um fundo de crise financeira,  leva à depressão, isto é a qualquer coisa que se conseguiu  à justa  evitar em 2008-2009 e que pode parecer-se com a crise  da  década de 1930.   Não abrir este debate  em nome de eu não sei de que tipo de consideração diplomática,  seria assumir  uma terrível responsabilidade. Além disso, quando a situação o exigia, a Alemanha não hesitou, no passado,  em sair da sua  ortodoxia restritiva.

Mas hoje, ela está a portar-se muito melhor do que a França e suporta cada vez menos o nosso muito interesse pela dívida …

Mas esta não é a questão! A questão é a de se saber , a curto prazo, se uma restrição muito forte nos leva ou não para um precipício de onde que nós sairemos muito mais endividados ainda. Não se deve renunciar em reduzir o endividamento, mas há um problema de método: não pode haver  finanças públicas  sãs se a economia e a sociedade estão a funcionar mal.

A chave para o reequilíbrio das nossas  contas  públicas  está na  competitividade global, que  se constrói  com os  investimento e com as reformas estruturais, não na fuga para a frente,   matizada de pânico,  com o   enorme aumento de impostos e de cortes cego nas despesas  ditas de futuro . A contabilidade do Estado incita a esta inépcia. Esta não faz qualquer distinção entre as despesas de investimento para as quais tem sentido continuar a contrair empréstimos e as despesas  correntes  que,  fora dos períodos de crise, deverão ser financiadas pelos impostos.

Como tranquilizar a Alemanha?

A relação franco-alemã é de uma suma importância para a Europa, mas há um problema alemão: o da sua  demografia. A Alemanha faz  a  política da sua  demografia. Ela quer  ter excedentes para pagar os seus futuros aposentados, e tem um medo pavoroso pela  inflação. Mas o principal perigo que paira sobre a Europa não é o da  inflação, mas sim o da deflação. Entrámos num ciclo de desendividamento que cria a depressão e deflação A lição da história, é a de que esta não pode gerida sem a política monetária.

É isso que faz Mario Draghi, o patrão do Banco Central Europeu, que compra a dívida dos países mais doentes…

O BCE compra a dívida pública em condições drásticas e esteriliza as suas intervenções monetárias com a venda de dívida privada, com o risco de fazer subir as taxas de financiamento  para as empresas. Na década de 1930, num contexto semelhante, uma política monetária demasiado restritiva mergulhou o mundo no desastre. Posso compreender que se tenham enganado uma vez mas se isso ocorrer uma segunda vez, então, será uma falha moral porque agora conhecemos a história .

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O antigo assessor  especial do Presidente Sarkozy  publica o  livro ” La nuit et le jour “, pela editora  Plon. Henri Guaino  teme ” que se esteja a colocar a democracia em perigo”.

Entrevista feita por Elisabeth Chavelet – Paris Match

Paris Match. No  seu livro,  lamenta, com a eleição de François Hollande, “o retorno  à IVª  República”. Com o risco de que “as mesmas causas produzam os mesmos efeitos”.  Na verdade, teme mesmo um desfecho  trágico?

Henri Guaino.  Lembro que no final da IVª República, a guerra da Argélia foi-se  transformando   em  tragédia e o FMI estava a bater à nossa porta! O comportamento de François Hollande  e a sua relação com o poder  não estão à altura das circunstâncias: a saber,  uma profunda crise e um mundo perigoso.  À frente do país, precisamos de um Roosevelt e certamente não de um Guy Mollet.

Será capaz de se ver  em  situação de apelo  como de Gaulle em 1958?

Eu não tenho essa pretensão.  Um apelo, são as circunstâncias históricas que o ditam. Há-de chegar um momento em que a França vai precisar de alguém capaz de enfrentar  a dimensão trágica da história. Quanto a mim, espero apenas estar à altura das circunstâncias, onde a história me tiver  colocado.

Como é que pode  dizer que “a esquerda baixou os braços na hora da  austeridade ‘?

Ela  deixou  cair os braços desde há muito  tempo. A esquerda de François Hollande não é a esquerda de  Blum ou de Jaurès  mas sim  a  de Mitterrand e  de Jospin que diziam sempre: ” Eu aí não posso fazer nada!” É a esquerda  social democrata  menos voluntarista,  hoje simbolizada por um PS do estilo SFIO dos anos de 1950 e pelo  retorno dos notáveis e dos seus pequenos arranjos .

O senhor escreve: “Nós  não estamos no início de uma política de sacrifício, mas no seu  final.” Claramente, os franceses não podem com  mais sacrifícios. Será então que acredita numa  explosão da Europa?

Os povos já sofreram muito. Estes  não vão aceitar continuar a sofrer mais. Não acredito de modo nenhum que  a solução seja a  fuga para a frente que  seja o federalismo. A curto prazo, se o BCE não desempenhar o seu papel, como  se  está fazer  nos Estados Unidos e na Inglaterra, se nós não monetarizarmos  as dívidas através da criação de moeda, mesmo que isso signifique aceitar um pouco mais de inflação, o risco de explosão é então bem real.

 “Quem  for eleito  terá por missão  ajudar-nos  a viver sem chefe”

Estará a pensar numa nova guerra mundial ou no aumento dos extremismos?

Em todo o caso,  penso em que se está a colocar a Democracia em perigo . Quem diria há cinquenta anos que a Europa seria um dia novamente minada pela ascensão dos extremismos e dos populismos? Veja a ascensão desta França da recusa que quer dizer não a tudo.

Copé, Fillon? Qual escolheria?

Aquele que for  eleito não será no meu ponto de vista nem o líder, nem o candidato presidencial para  2017. Ele terá por missão  ajudar-nos a  viver sem um líder, terá como missão  animar a UMP enquanto  que os militantes e simpatizantes não fizerem  o seu luto por  Nicolas Sarkozy.

Mas é um partidário de Seguin, tal como François Fillon. Assim, este deve ser o seu candidato natural, ou não ?

Nem eu nem ninguém se pode apropriar deste apadrinhamento. Quem sabe o que é que ele teria dito de tudo isso? De toda a maneira, a ideia de que poderia haver um candidato natural é-me totalmente estranha!

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