Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
(conclusão)
Uma peça de Paul Mason, uma peça da BBC.
Yiannis, uma das pessoas detidas, conta a história:
“Eles procuraram-nos, fizeram-me despir, colocaram-nos de joelhos. Bateram-me na cabeça e nos joelhos. Disseram-nos que sabiam onde todos nós vivemos.
Eu encontrei Yiannis e Maria, dois daqueles que alegaram maus tratos, num calmo apartamento em Exarchia, o bairro boémio de Atenas.
Ambos aceitaram falar apenas na condição de que alterássemos os seus nomes e os filmássemos sem mostrar os seus rostos. Eventualmente, terão sido acusados de delitos menores, mas ambos foram detidos por quatro noites em custódia na polícia.
Yiannis continua: “eles disseram: és um homem acabado, e as coisas não estão a ir no sentido em que estavam antes, estão a mudar daqui para a frente.
“Disseram-nos que iriam passar o vídeo em que nos filmaram para a Aurora Dourada . Acrescentaram que nos iam usar para servir como um exemplo para os outros. Eles fizeram-me dizer para cada novo detido : ‘ se lhes desobedecer estes atacarão também a vossa mãe. “
Maria, que tinha estado calma e confiante, enquanto nos estávamos a preparar para a entrevista, começa depois a ficar perturbada enquanto conta a sua história.
“Eles fizeram-me despir em frente de todos “, diz ela.
“A brigada da polícia Delta chegou e falou acerca da Aurora Dourada , como se fossem seus irmãos, incluindo o oficial responsável. Eles elogiaram Hitler, dizendo que ele era bem melhor do que Staline.
” Disseram-nos que devemos recordar isto – que eles agora são adeptos da Aurora Dourada.”
A questão que alimenta o apoio à Aurora Dourada é bem claro: a imigração ilegal “
Ao longo deste nosso calvário, os oficiais da Força Delta que nos prenderam diz Maria, continuamente estiveram a mostrar ser evidente o seu apoio político a Aurora Dourada.
Eu coloquei as questões ao oficial Christos Manouras, o porta-voz da polícia de Atenas. Ele respondeu-me:
“Eu sou categórico de que nesse incidente nenhuma dessas coisas aconteceu no edifício-sede da polícia de Ática. A polícia grega respeita os direitos humanos – e esta é uma não-história”.
E acrescentou: “essas acusações nunca foram feitas à polícia. Não seriam pressionados a nenhuns custos, e a polícia poderia olhar para isso desde o início.
” São todos os mesmos, se alguém quiser identificar-se – ou mesmo se uma alegação geral chega até nós – nós investigá-la-emos aprofundadamente . Se isso envolve a polícia, se se trata de violência racista ou violência contra outra qualquer pessoa, seja ela grega ou imigrante, podemos investigar em profundidade.”
Dimitris Psaras, cujo novo livro, Golden Dawn’s Black Bible, explica em detalhe o recente aumento da organização, acredita que a influência da extrema direita dentro das forças policiais funciona a um nível insidioso:
“Há uma osmose dos apoiantes da Aurora Dourada, entre aqueles que trabalham na polícia e aqueles que trabalham na segurança privada, bem como entre aqueles que fornecem a protecção dos clubes nocturnos”.
“Às vezes a mesma pessoa pode ser fornecer todos estes três serviços. Eles geralmente encontram-se em academias locais e em cafés bem específicos de propriedade daqueles que partilham da mesma ideologia.”
O senhor Psaras acredita que um tratamento duro das forças policiais para com os criminosos de droga e para com os imigrantes dá um sinal tacitamente à Aurora Dourada de que os seus ataques ilegais sobre estes grupos são bem-vindos.
Várias vezes coloquei a questão ao oficial da polícia Manouras assim como sobre a estratégia que os comandantes de polícia adoptaram para mitigar os riscos de que o apoio individual dos agentes da polícia à Aurora Dourada pudesse então comprometer as operações da polícia.
” Diariamente fazemos planos operacionais para decidir como lidar com tais fenómenos,” diz ele.
“Fique seguro de que estamos ao lado dos cidadãos e que nós tentamos evitar tais situações”.
“Claro que não podemos estar em cada esquina. Não somos mágicos, para sermos capazes de assegurar, dentro de dois minutos que nada esteja errado. Mas podemos intervir imediatamente para normalizar a situação.”
Apoio crescente
O partido Aurora Dourada ganhou terreno espectacularmente em duas grandes fases . A primeira, foi durante o Verão de 2011, quando a ala direita do partido nacionalista cristão Laos se desintegrou o que aconteceu depois de se ter ligado à coligação pró-austeridade.
No mês passado, o primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, advertiu a Europa de que o seu país estava à beira de um colapso social do estilo do que teve a Alemanha de Weimar. “
Desaparecido o partido Laos é então Aurora Dourada que tomou o seu lugar, obtendo 6-7% nas eleições gregas inconclusivas de Maio e Junho de 2012.
O segundo elemento do seu fortalecimento dá-se agora em que o governo de coligação – que inclui os conservadores, socialistas e “moderados” marxistas do partido da esquerda democrática – falhou totalmente na sua suposta resposta à crise .
E a questão do apoio crescente a Aurora Dourada é claro : a imigração ilegal.
Confrontados com fronteiras praticamente incontroláveis, o governo de coligação lançou rusgas na detecção de imigrantes ilegais nas ruas das cidades e colocou cerca de 4.000 em campos improvisados. Para além de 3000 mais que foram deportados.
Um jurista e grande responsável nas decisões do partido Nova Democracia disse-me, já na altura, em Junho, : “o que vai resolver o problema da Aurora Dourada será uma política de imigração . Nós não temos nenhuma.”
Mas a repressão agora existente contra a imigração não parou a contínua ascensão de Aurora Dourada. Como os media se juntaram – relacionando de uma forma implacável os estrangeiros com o crime – a posição da extrema-direita grega nas sondagens subiu.
Theodora Oikonomides, um jornalista na rede da rádio alternativa RadioBubble, que fez a cobertura do aparecimento e do crescimento de Aurora Dourada expressa um medo comum a muita gente:
” Os temas favoritos de Aurora Dourada, tais como a homofobia, a xenofobia e o anti-semitismo tornaram-se parte do discurso público grego, quer a nível político quer a nível social.”
“Ao não tomar medidas contra o partido Aurora Dourada , acenando com a cabeça e piscando o olho ao seu eleitorado em todas as oportunidades, os políticos gregos – que agora estão no poder com o apoio dos parceiros europeus – abriram uma caixa de Pandora que que estará para durar, que não irá fechar tão depressa”.
Guerra política
No mês passado, o primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, advertiu a Europa que o seu país estava à beira de um colapso social ao estilo do que teve a Alemanha de Weimar. .
O que eu tenho visto nas ruas de Atenas convence-me que nisto não há aqui nenhuma retórica . A situação está a mudar e muito rapidamente, acrescente-se.
Há aqui um partido de extrema-direita violento, os seus membros no parlamento cometem e incitam à violência com toda a impunidade do mundo; há aqui uma polícia que não pode ou não quer impedir Aurora Dourada de apresentar uma força uniformizada nas ruas. e temos aqui uma classe média que se sente cada vez mais impotente para transformar a situação à sua volta.
Quando Angela Merkel chegou aqui na semana passada, houve cenas violentas e houve também um bloqueio total da cidade. Somente a partir das notícias dadas pela TV é que a Chanceler alemã pode testemunhar o impacto da austeridade imposta pela EU.
Bem, isto aqui está com isto a parecer-se cada vez mais com o que disse o segundo comando da Aurora, Ilias Panagiotaros.
No jardim e já fora da sua loja, protegida por altas cercas de 15 pés e de musculosos colegas com as t-shirt pretas, ele diz-me:
“Aurora Dourada está em guerra com o sistema político e com aqueles que o representam, com os banqueiros nacionais e internacionais, estamos em guerra com esses invasores – os imigrantes”.
“E se Syriza ganha as próximas eleições, nós iremos ganhar imediatamente as seguintes . Não se trata de sonho que dentro de um, dois ou três anos nós seremos o primeiro partido político.”
E aqui está como a situação é vista por Laertis Vassiliou, o director de teatro, cuja representação foi interdita:
“Se o Comissário Europeu para os direitos humanos, se o Parlamento Europeu, se o Parlamento grego não intervir nessa situação eu tenho muito medo de ser levado a pensar o que é que vai acontecer. A Europa deve fazer o que for possível se não se quer reviver a situação de um Terceiro Reich novamente.”
Em grande plano, por outras palavras, o resultado social e político das políticas impostas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e pelo programa de austeridade da UE (União Europeia) e pela implosão da política dominante na Grécia, parece transformar-se numa grande catástrofe para a democracia.

