UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães (44)

CARTA DO PORTO

 

Por Esse Douro Abaixo

Pouco passava das 11h da manhã quando o comboio parou finalmente na estação da Régua. Cerca de 150 pessoas, eu e a minha família incluídos, lideradas pelo Sr. Sérgio, que nos tinha recebido na estação de São Bento, saíram da composição da CP e dirigiram-se para o cais do rio Douro, que fica a poucas centenas de metros de distância. À nossa espera, um dos barcos da Companhia Barcadouro, o “Pirata Azul”.
O “Pirata Azul”, já tive oportunidade de o dizer na minha crónica nº 36, faz parte das minhas memórias desde o final dos anos setenta. Era minha vontade voltar a viajar neste barco desde que o descobri na Ribeira de Gaia. Aproveitava, assim, para juntar essa vontade a outra já com alguns anos de existência, a de fazer a subida ou a descida do Douro, desde Espanha até ao Porto. Optei pela descida a partir da Régua. Uma viagem para montante da Régua, ficará para outras núpcias.
Quando descia em direcção ao cais, lá vi o Pirata, parado ao lado do Independência, outro dos barcos que me suscitam memórias, na sua maioria boas, e todas passadas nas Ilhas da Madeira e do Porto Santo.

O Pirata Azul, e o Independência

O Pirata Azul, e o Independência

À entrada, no Pirata, fomos recebidos com um cálice de vinho do Porto, no deck superior.
Então, muito lentamente, quase sem se dar por isso, o Pirata fez-se ao rio, e começou a nossa aventura.
Sentamo-nos na ré, num espaço levemente sobrelevado, de onde se apreciava lindamente todo o barco, envolvendo-o na paisagem. Estávamos no rio Douro, e a paisagem é, não o esqueçamos, lindíssima.
O sol, não estava muito quente, e o vento, não soprava demasiadamente forte. Assim, durante alguns minutos deleitamo-nos com a descontracção que um estado de graça, provocado pelo êxtase de estar a bordo do Pirata, nos proporcionava. As pessoas presentes, de entre as quais um grande grupo oriundo dos lados da capital, alegres e ruidosos, e que eram a única distracção da calma que se vivia a bordo, mostravam-se muito agradadas com as primeiras impressões que a recepção, e o início da viagem, lhes provocara.
Enquanto não começavam a servir o almoço, fui dar uma volta pelo barco. As memórias do velho Pirata depressa desapareceram. Nada estava igual. Onde antes eram bancos corridos, agora tinha um salão enorme e muito bonito. O deck por onde entramos no barco, não existia antes. O bar e as casas de banho, muito bem arranjados, e as zonas privadas, onde funcionam as cozinhas, apresentavam-se impecáveis. A zona das máquinas, onde quem manda é o Mestre José Grulha dá confiança a quem viaja. Do barco que eu tinha conhecido, pouco mais restava que as linhas fluídas e quase perfeitas, que fazem dele, como em tempo fizeram na Madeira, o barco mais elegante a navegar no rio Douro. O velho e saudoso Pirata renasceu e deu origem a um lindo e maravilhoso Pirata Azul.
Devagar, o passeio ia acariciando os nossos olhos, com paisagens magníficas. Não sei se já disse que o rio Douro, juntamente com as suas margens, é belo.
Lamentei imenso o facto de não possuir o dom da ubiquidade, já que muito gostaria de, ao mesmo tempo que me deleitava com o passeio no barco, poder apreciar a partir das margens do Douro, o Pirata, enquadrado na paisagem, olhar os seus reflexos na água, e apreciar o seu lento e calmo evoluir rio abaixo.
Em certas zonas do barco, lateralmente, seja no deck superior o mais próximo possível da Ponte de Comando, seja no deck inferior nas varandinhas existentes junto às escadas de acesso ao bar, ou na proa, só se ouvem os restolhos da água e o leve cantar do vento. É um deleite para os sentidos.
Estava na hora de ser servido o almoço, e lá nos dirigimos para a mesa que nos estava, desde início, reservada.
Do local onde eu estava sentado, podia ver a azáfama do pessoal da cozinha e também a do pessoal das mesas, simpáticos e diligentes, excelentemente comandados pelo Chefe de Sala, o Sr. Francisco Sequeira. Não houve tempos mortos, nem podia, que eram muitas as pessoas a servir. Vinho branco e vinho tinto (do Douro, como é evidente), água e sumos, estavam já preparados nas mesas, em quantidade e, em qualidade.
Da confecção da comida, só se pode dizer que estava muito boa, e cozinhada no ponto certo.
A vontade de me deliciar com a viagem, fez com que não parasse muito tempo no mesmo lugar. Queria ver tudo, sentir tudo, gozar tudo.
Num ápice chegamos à Barragem do Carrapatelo, e à sua eclusa, que, com mais de trinta metros de altura, é a maior da Europa.
Diga-se que é realmente impressionante.

Eclusa da Barragem do Carrapatelo

Eclusa da Barragem do Carrapatelo

Mais à frente, tivemos o privilégio de entrar no Rio Tâmega. O Comandante Carlos Ferreira, que é natural daquela zona, e nos trouxe em segurança até ao Porto, quis, muito simpaticamente, levar-nos a conhecer a Ponte Duarte Pacheco. Uma ponte lindíssima, com três arcos de pedra. Passamos por baixo da ponte e demos a volta, regressando ao caminho normal no rio Douro. Um presente muito bonito que foi oferecido aos passageiros desta viagem, e que eu tive a sorte de poder usufruir.

Rio Tâmega - Ponte Duarte Pacheco

Rio Tâmega – Ponte Duarte Pacheco

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A viagem rio abaixo continuava. A segunda eclusa, a da barragem de Crestuma / Lever, parecia uma coisita de nada, comparada com a anterior. Mesmo assim, impressiona a força e o engenho necessários à sua construção.
Vagarosamente, aproximava-se o fim da viagem. O Freixo já à vista, a última volta do rio antes de chegar ao Porto. O fotógrafo da Barcadouro, excelente profissional, e a sua muito simpática assistente, “insistiam” com os últimos passageiros para que fossem, também eles, fotografados.
A calma, a paisagem soberba, as margens suaves e cheias de arvoredo, explodem de repente numa cascata de cores, espalhadas ao longo das margens altas, o branco e o amarelo das casas, o vermelho dos telhados, o verde das copas das árvores, as pontes (passamos por baixo de cinco das seis que Porto e Gaia têm), os carros e as pessoas. Os barcos rabelos cheios de turistas, e os barquinhos que, amarrados às margens, polvilham o rio e lhe dão cor e movimento, completam o quadro idílico, com as cores do fim de tarde a dourarem o ambiente.
O Pirata Azul passa por baixo da Ponte Luís I, e em frente às Ribeiras do Porto e de Gaia faz a sua última volta, roda a bombordo, vira a proa para nascente, e atraca suavemente na margem esquerda do rio Douro, de onde se pode usufruir da mais bonita vista sobre a cidade do Porto.

PORTO, visto do lado de Vila Nova de Gaia

PORTO, visto do lado de Vila Nova de Gaia

Este vosso escriba e a sua família, posaram para a posteridade tendo como pano de fundo as lindíssimas casas da Ribeira do Porto.
É a hora do adeus, das despedidas, dos cumprimentos e dos agradecimentos.
O grupo, alegre e ruidoso dos lados da capital, já há algum tempo que se não fazia ouvir, por certo tristes com a aproximação do fim de uma viagem que lhes ficará na memória por muitos anos.
Os estrangeiros, Alemães e Ingleses na sua maioria, traziam um ar de satisfação estampada nos rostos. Irão, com toda a certeza, fazer uma óptima propaganda ao rio Douro, ao Porto, e à companhia que os transportou, tecendo loas ao serviço prestado.
Ao casal mais simpático que connosco viajou, desejo “felicidades e uma curta e boa horinha”, frase com que, aqui no Porto, mimamos os amigos que estão prestes a serem pais.

O casal mais simpático da viagem

O casal mais simpático da viagem

Viajar no Pirata, é um “must”.

Comandante Carlos Ferreira

Comandante Carlos Ferreira

 

Mestre José Grulha

Mestre José Grulha

Zona privada do Pirata

Zona privada do Pirata

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Foz do Rio Sousa - Ponte, igual à Ponte da Arrábida, que serviu como teste

Foz do Rio Sousa – Ponte, igual à Ponte da Arrábida, que serviu como teste

Alegria a bordo

Alegria a bordo

Silêncio e calma

Silêncio e calma

Quatro das seis pontes do Porto - S.João, Maria Pia, Infante D. Henrique e Luís I

Quatro das seis pontes do Porto – S.João, Maria Pia, Infante D. Henrique e Luís I

O Pirata Azul - O barco mais elegante do rio Douro

O Pirata Azul – O barco mais elegante do rio Douro

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Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

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