QUANDO É QUE SE DECIDE QUE A EUROPA DEVE REESTRUTURAR UMA GRANDE PARTE DA SUA DÍVIDA? por MICHAEL PETTIS – IV

Temaseconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Quando é que se decide que a Europa deve reestruturar uma grande parte da sua dívida?

 Michael PettisWhen do we decide that Europe must restructure much of its debt?

Blogue mpettis.com, 25 de Fevereiro de 2015 

(continuação)

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Quais são as funções do lado do passivo no balanço?

Deve ficar claro sobre  as razões que acima discuto quanto aos níveis  da dívida na Europa serem excessivos e quanto ao facto de haver muita incerteza sobre a resolução da dívida soberana. A fim de explicar porque é que esta incerteza requer que a Europa avance  para a reestruturação da  sua dívida, ou, para usar uma frase talvez politicamente menos carregada, para reduzir a incerteza associada com a resolução da dívida, é necessário compreender como é que a dívida — e a situação financeira, mais geralmente, ou seja, através do que entendo não apenas a dívida pública pendente mas todo o sistema financeiro e as operações financeiras da economia — afecta o crescimento económico. A situação e a estrutura do balanço  pode exacerbar o crescimento em ambas as direcções, da mesma maneira que  as crises financeiras são sempre crises de situação do balanço, e há também quase sempre uma componente importante na situação de balanço em  cada milagre de crescimento.

Isto precisa de explicação. Para os economistas mais académicos, o “crescimento” ocorre principalmente como função da forma como é gerido o lado do activo do balanço. Se os activos são bem geridos, aumenta o seu valor, e quanto melhor eles  são  geridos, tanto  maior é o aumento no valor, de tal modo que  o crescimento das actividades económicas é em grande parte uma função da forma os activos são produtivamente geridos. Os políticos que querem aumentar o crescimento económico, de acordo com esta visão, poderiam fazê-lo, melhorando a qualidade das infra-estruturas, removendo as restrições legais e regulamentares para as empresas, compatibilizando  melhor os incentivos para encorajar o o investimento produtivo e o comportamento e assim sucessivamente, a fim de melhorar a produtividade com a qual são utilizados os recursos e os activos do país.

Especialistas em finanças, no entanto, entendem que a gestão optimizada de activos fornece apenas o limite máximo de crescimento para a actividade económica. Isto é assim porque, sob determinadas condições, a estrutura do passivo de uma actividade económica  pode actuar como uma restrição ao crescimento. Se o seu nível de endividamento é suficiente alto para que distorça  os incentivos por distorcer a forma  como o valor é distribuído e em que, ou  faz com que as partes interessadas reajam à incerteza, prejudicando a criação de valor, ou então agrava o impacto dos choques externos adversos, não apenas porque o crescimento no valor da entidade em actividade  será muito menor do que poderia ser, mas na verdade pode até muito facilmente tornar-se negativo. Os especialistas financeiros referem-se ao processo — em que a probabilidade crescente de falência  obriga as partes envolvidas  a alterarem o  seu comportamento e isto leva a minar o crescimento — como é facto de se  estar a incorrer em custos de “dificuldades financeiras”.

O que os especialistas financeiros muitas vezes não entendem, no entanto, é porque é que a estrutura do passivo de uma entidade empresarial pode também levar a que o crescimento patine  acima do seu nível “natural”. Quando este passivo reforça o comportamento ou exacerba os choques, os períodos de crescimento são frequentemente períodos de crescimento muito elevado. Isto torna-se evidente a partir da observação de que muitas vezes é o país com mais elevado  crescimento que têm maior probabilidade de colapso ou de passar a ter fortes problemas, logo  que um período de boom se inverta. Pelo menos uma boa parte do seu crescimento durante o boom não era sustentável, mas em vez disso foi o resultado  de uma situação de  balanço distorcida que exacerbou  os choques positivos típicos de um “boom”.

O mesmo processo ocorre dentro de qualquer entidade económica, incluindo uma economia nacional. Não é um acidente que em quase todos os casos na história em que os países têm níveis excessivamente elevados de dívida ou foram submetidos a crises de dívida, os legisladores nunca foram capazes de manter as suas promessas de que, com a paciência de credores e a implementação das reformas correctas, o país pode crescer e retomar o seu caminho de retorno a situação de completa solvência. Os precedentes históricos são muito claros sobre este ponto. Os países que sofrem de crises de dívida nunca recuperam  o crescimento até que a dívida seja  parcialmente perdoada — explicita  ou implicitamente — e a incerteza associada com a sua resolução ter sido ou  ter-se  drasticamente reduzido ou mesmo eliminada.[1]

Questões de dívida. Para os economistas ortodoxos, a dívida é simplesmente a maneira de como as operações são financiadas e o que importa principalmente é o custo da dívida ou, na melhor das hipóteses, os fluxos de caixa associados com o serviço da dívida. Mas na verdade a estrutura do passivo do balanço de qualquer entidade económica tem diversas funções que afectam significativamente o comportamento económico. Isto é tão verdadeiro para as  pequenas entidades económicas, como as famílias e as empresas, como para as  grandes entidades, como países ou até mesmo a economia global. As principais funções são:

  1. a estrutura do passivo é a soma das vias utilizadas para financiamento dos activos e das operações necessárias, e a dívida pode ser usada ou para financiar investimentos ou para realocar sobre o consumo ao longo do tempo.

  2. A estrutura de responsabilidades, a do passivo, afecta as diversas formas em que os  ganhos operacionais e os do crescimento económico são distribuídos. Para uma entidade económica,  as várias maneiras em que os diversos  acordos sobre a dívida são indexados e os seus níveis de prioridade de pagamento (senioridade) determinam como é que os ganhos operacionais após impostos são distribuídos, com o ganho residual a ficar para os seus detentores. É um pouco mais complicado quando estamos a lidar  com uma economia nacional, mas o princípio é o mesmo. O que importa para uma economia nacional é que o governo é nela um actor extremamente importante e são importantes as formas pelas quais  recolhe os seus impostos, directos e indirectos, as formas pelas quais decide os seus  investimento e as políticas que desenvolve e aplica para melhorar ou afectar  determinados tipos de actividade económica, explícita ou implícitamente, as formas pelas quais age  colectivamente como o principal determinante sobre a forma como os ganhos do  crescimento da economia são distribuídos entre as diferentes partes envolvidas. Como consequência de tudo isto, todas as partes envolvidas  irão ajustar os seu comportamentos  como resposta às suas percepções de como as políticas do  governo os irão afectar.

  1. A estrutura de responsabilidades, a do passivo, também determina como é  a volatilidade exógena e como é que os choques externos são absorvidos e é aqui que o conceito de “inversão” da situação do balanço  pode ser especialmente útil. Como explico no livro, The Volatility Machine (a máquina da volatilidade)  uma inversão da situação de balanço[1]  dá-se  quando os empréstimos estão estruturados pro-ciclicamente, de tal forma que eles reforçam os choques externos, automaticamente, provocando mudanças de comportamento que levam a que se alterem as formas que estão a agravar o impacto dos choques (ao contrário do balanço de  um balanço “hedged”, que dissipa automaticamente os choques), as despesas de financiamento, a dívida de curto-prazo  ou de taxa flutuante, empréstimos baseados em activos e margem de empréstimo no mercado accionista, tudo pode ser altamente invertido como formas de empréstimos, porque um mercado crescente permite que os investidores  aumentem as suas compras, o que leva a que os preços subam  e um mercado em declínio força os investidores a vender, o que leva a que os preços desçam  ainda mais.

A estrutura do sistema bancário e financeiro de um país pode também exacerbar ou dissipar a volatilidade externa, no primeiro caso por encaixar os mecanismos pro-cíclicos na economia. Na China, por exemplo, porque o seu rápido crescimento foi impulsionado principalmente pelos investimentos, que tendem a ser fortemente intensivos  em bens de capital, um rápido crescimento levaria ao aumento global dos preços das commodities de quase dez vezes durante a primeira década deste século. Claro, as  entidades empresariais que geram os maiores valores em stockagem de produtos base  lucraram pesadamente em detrimento dos  seus concorrentes mais prudentes, e isso causou uma mudança de tipo à  “Minsky” na composição da indústria no sentido de um maior risco especulativo recompensando fortemente a especulação sobre as mercadorias de base . Este processo de funcionamento levou a que  o sistema financeiro  se  torne cada a vez mais  exposto  ao risco do preço das mercadorias de base, de tal forma que a China cresceu mais rapidamente  e  os bancos chineses foram mais rapidamente capazes de expandir o crédito, o que por sua vez levou a que  a economia tenha crescido  ainda mais rapidamente e os preços das commodities tenham subido  ainda mais. Claro, todo o processo entrou em inversão  depois de Pequim ter  reconhecido os desequilíbrios profundos que se estavam a acumular no interior da economia chinesa, actuando no sentido de retardar o crescimento do investimento, e só agora é que estamos a ver  que o que se vai passar   será pois um longo e demorado    processo de ajustamento  pro-cíclico.

Em economias com as estruturas de balanço altamente invertidas, os choques podem ser de tal forma auto-sustentados  que os  períodos de crescimento rápido podem-se  tornar períodos de crescimento “milagre”, mas, como aconteceu em quase todos os casos de milagre de crescimento na história, os períodos subsequentes são  de desaceleração do crescimento e em rapidamente podem degenerar num colapso das economias ou em décadas perdidas de baixo e inesperado crescimento. No caso da Europa, a relação intensamente reflexiva entre risco de crédito soberano e o sistema bancário interno  pode ser a forma mais preocupante da  inversão. Para os bancos na Europa periférica uma parte considerável dos  seus  activos líquidos consiste nos seus títulos de dívida pública, de tal forma  que qualquer deterioração no risco de crédito soberano causaria enormes prejuízos para os bancos, mas como a fonte principal de passivos contingentes para o governo é o sistema bancário, as perdas no sistema bancário imediatamente levariam a que  a solvência soberana se começasse a degradar.  A inversão dos saldos de balanço é a razão mais importante para que se verifiquem as crises financeiras soberanas, como explico no  meu livro, mas os legisladores não estão  tão aterrorizados por esta situação como o deveriam estar.

  1. Finalmente, a expansão ou contracção no lado do passivo, que ocorre mais facilmente na forma de expansão ou de contracção no crédito, pode acelerar ou reduzir o crescimento esperado nos rendimentos de exploração ou no PIB.

(continua)

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[1] Nota de tradução. Michael Pettis distingue duas situações de balanço: a  situação de balanço coberto  e a  situação de balanço invertido (inverted balance). Diz-se que se está perante um balanço coberto, quando a situação de balanço está totalmente coberta, ou seja,  quando  a única coisa que muda o seu valor global é o acréscimo de produtividade. Uma situação de balanço coberto (hedged)  é simplesmente uma situação em que o balanço está estruturado  para minimizar a volatibilidade global de uma entidade económica seja ela empresa ou país.

Neste caso, qualquer choque  exógeno que afecte o activo e passivo, ou que afecte o rendimento e a despesa, tem efeitos opostos  sobre os activos e sobre os passivos e conjuntamente  a sua soma dá zero. É claro que que quanto mais uma entidade económica tiver uma  estrutura de balanço coberto, mais baixo é o  custo  de capital, (…) mais dilatado é o horizonte temporal  para os empresários e para os decisores planearem  as suas actividades futuras.

Por oposição a esta estrutura de balanço, uma estrutura de balanço invertido e é o oposto de um balanço “coberto”. No balanço invertido,  os valores das  responsabilidades estão inversamente correlacionados com os valores dos activos. Estas estruturas de balanço  incorporam um tipo de mecanismo pró-cíclico, que reforça os efeitos dos choques externos , porque estes  automaticamente provocam  mudanças nos valores ou nos comportamentos   que levam a agravarem-se  os impactos dos choques exógenos. Quando os valores dos  activos aumentam, no caso da estrutura de balanço invertido, neste caso então,  o valor dos passivos cai (ou, posto de maneira diferente, aumenta o custo do passivo) e vice-versa.

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Ver o original em:

http://blog.mpettis.com/2015/02/when-do-we-decide-that-europe-must-restructure-much-of-its-debt/

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Para ler a parte III deste trabalho de Michael Pettis, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

QUANDO É QUE SE DECIDE QUE A EUROPA DEVE REESTRUTURAR UMA GRANDE PARTE DA SUA DÍVIDA? por MICHAEL PETTIS – III

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