A propósito de gente sem nada nos bolsos e pouco na vida, de gente talvez sem futuro
Júlio Marques Mota
(continuação)
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Mudo de artigo. Revejo o que fiz sobre a França. O chefe de redacção da revista Causeur assina um texto em que considera que a disciplina republicana chegou ao fim.
Sobre esta questão Jérôme Leroy afirma:
Durante muito tempo, pensei que se permanecesse apenas um, esse um seria eu: o eleitor comunista que vê o seu candidato eliminado na primeira volta e que vota socialista na segunda. A este comportamento chamava-se a disciplina republicana. Devemos confessá-lo e de imediato: para mim, esta disciplina acabou, e para sempre. Em 2017, independentemente do caso que aqui figura, na segunda volta das eleições presidenciais, não votarei socialista – supondo que seja possível, o que não é garantido.
A disciplina republicana era recíproca. O eleitor socialista votava pelo candidato comunista se era este que passava à segunda volta contra a direita, excepto nas presidenciais. Certas pessoas, talvez mal intencionadas, observavam que se as transferências de votos dos comunistas para os socialistas se faziam muito bem, muito frequentemente não acontecia a mesma coisa com as transferências em sentido inverso. Não importa, o sistema não funcionou tão mal como isso, nos anos que seguiram à assinatura do Programa comum, em 1972.
No fundo, um mundo que ruiu e a certeza de que quanto ao outro a dúvida é total. À vista se verá depois, com o correr do tempo. Desse outro mundo, sabe-se perspectivar tão pouco, sabe-se apenas o que não se quer ter, não se sabe nada do que se pode ter.
A este artigo de Jérôme Leroy responde um analista político de alto gabarito, Régis de Castelnau, advogado de profissão. Diz-nos este tomando como referência o dia em que os franceses elegeram François Hollande como Presidente da República, contra Sarkozy:
Mas eis que temos agora um enorme osso espetado na garganta. Há precisamente dez anos, a 29 de maio de 2005, realizou-se um referendo. Os Franceses eram consultados para saber se queriam ratificar o tratado constitucional europeu. O Partido Socialista tinha escolhido oficialmente fazer campanha pelo “sim”. Com o conjunto dos meios de comunicação social, com a intelligentsia autorizada, das elites universitárias, numa incrível irrupção em que aqueles que se opunham ao referendo – ou simplesmente punham questões sobre o mesmo – eram tratados de imbecis e isto quando não eram tratados de nazis. E vive-se então um povo em que se anunciava nas sondagens algumas semanas antes do voto, que 60% eram pelo “ Sim” e que esta taxa iria ainda disparar para valores bem mais altos. E responderam não 55%, levando a que as elites ficassem completamente sem cor face a estes resultados e a regressarem as suas bem caras análises. Para mim, que já perdi tantas eleições na minha vida, foi um belo dia.
E é aqui que o partido socialista fez o pior. A capitulação e a traição estão na sua própria natureza, e não é o único partido a ser assim. Mas pior ainda, é que batido de forma leal e legal, preferiu pisar aos pés a democracia, negar os seus princípios, e às claras cometer uma deslealdade.
Nicolas Sarkozy, na sua campanha para as presidenciais de 2007, tinha anunciado a elaboração “de um novo tratado” gémeo do precedente, e que este seria ratificado pelo Parlamento. Pelo menos, este tinha anunciado a cor. O problema, é que esta ratificação necessitava de uma reforma prévia da Constituição. E quando esta é efectuada por via parlamentar, deve ser feita com uma maioria reforçada das duas câmaras reunidas em Congresso. Sem o contributo apressado do Partido socialista que lhe passa os pratos, Nicolas Sarkozy não teria podido reunir esta maioria qualificada e assim violar a vontade do povo francês claramente expressa no referendo. Este voto desenrolou-se no 4 de Fevereiro de 2008. Encontrar-se-á no Jornal Oficial os nomes do punhado destes socialistas que salvaram a honra [do convento] recusando alinhar na infâmia.
Então, votar pelo PS, antes já era difícil, mas depois de 4 de Fevereiro de 2008 é definitivamente mais difícil do que nunca! No entanto muitos fizeram-no. No dia 6 de Maio de 2012 precisamente, escolheram para dirigir o país um apparatchik inconsistente de quem cada um conhecia o nível, o cinismo e sobretudo a natureza dos seus compromisso políticos. Toda a gente deveria saber que a catástrofe era inevitável. Quem é que podia acreditar “no Hollandisme revolucionário”? Que “a guerra à finança” não era mais que uma pequena graçola? Que Sapin, Moscovici, Rebsamen, Désir, Cambadelis e tantos outros fariam outra coisa diferente do que têm andado a fazer? Seriam eles alguma vez outra coisa diferente do que são ?
No dia 6 de Maio de 2012, não deveria ter havido nenhuma questão quanto à disciplina republicana. A escolha estava entre dois cenários. Em primeiro lugar reconduzir Nicolas Sarkozy para fazer uma política que não teria podido ser pior do que a de François Hollande mas em condições diferentes. Ou seja com uma oposição ainda consistente. Hegemónica nas colectividades territoriais e solidamente implantada na sociedade civil. Isto defendia-se.
Ou, escolher François Hollande sabendo que era o passaporte para o agravamento da crise, para o desarmamento das lutas, que seria a forte expansão da Frente Nacional. Mas também o passaporte para a destruição desta esquerda e do seu Partido Socialista. O cúmulo do desastre. O trabalho já começou com as catástrofes das eleições locais. O descrédito é de tal forma enorme, de tal modo desmobilizador que é pouco provável que François Hollande esteja na segunda volta em 2017. Nicolas Sarkozy será re-eleito presidente. A Frente Nacional terá cerca de 35%, e os socialistas terão entre trinta e cinquenta deputados nas legislativas seguintes. Só resta esperar que Sarkozy possa servir de amortecedor a esta brutal viragem à direita. É possível? Infelizmente, como o seu verdadeiro adversário será então a Frente Nacional, a sua tarefa prioritária será de a reduzir como tinha começado a fazê-lo em 2007. E isso não será colocando-se no centro-esquerda.
E é aqui talvez, que finalmente tudo isto se pode tornar interessante. Para que possa emergir em França um movimento como Syriza ou Podemos, o dado preliminar que é a destruição deste partido socialista é então incontornável. E só depois é que nos poderemos ocupar da Frente Nacional. Os trabalhadores e os assalariados de execução dos serviços, ou seja as camadas populares, votam na Frente Nacional. É necessário retomar estes eleitores . Então, “uma aliança objectiva” sobre este ponto (e apenas sobre este ponto…) com o sarkozysmo?
A solução é então abater este Partido socialista e só depois se atacar à questão da Frente Nacional de Marine Le Pen, esperando-se, entretanto, que Sarkozy e os seus milhões da Goldman Sachs reduzam a importância política da Frente Nacional. Este é o caminho sinuoso que este autor nos propõe para se reconstruir u a França livre, dadas as amarras da Europa tecidas por uma série de traidores conscientes e de muitos outros actores do jogo político completamente enganados que sem o saber nesta construção europeia se empenharam.
Deparamo-nos aqui com o mesmo problema que se encontra no artigo do Guardian, o da traição no altar desta União Europeia, com uma proposta de solução a prazo, somente, porque desiludidos, a classe das gentes de baixos rendimentos, da agricultura, da indústria, dos serviços, enganada por toda a gente e no quadro deste modelo tem agora como única esperança Marine Le Pen. Prometeram-lhes tudo, nesta trágica Europa, recusaram-lhes tudo, excepto a precariedade como almofada para nela assentarem os pesadelos com que vão refazendo as suas próprias vidas. Gente de nada, gente sem nada, sem direito a não esperar mais nada do que o desconforto de existir. E a classe média segue o mesmo caminho. Captar o seu eleitorado, o da Frente Nacional, o que foi o nosso, afinal, é essa finalidade seja de Jerome Leroy seja de Régis de Castelnau e isto porque à esquerda da esquerda oficial não há agora praticamente esquerda. Mas a Grécia e Syriza, se não capitularem ou até mesmo se capitularem, a Espanha e Podemos, a Irlanda e o Sinn Fein, podem-nos indicar que a força da crise pode levar a soluções sociais mais rápidas, traçadas nos caminhos dolorosos das urgências sociais que a crise vai dilatando e até à explosão. Quando muita desta gente despertar e se tornar como um rio a correr para o sentido da vida, colectivamente, com um só estandarte , o de direito ao trabalho e à dignidade, as coisas irão então mudar. Irão mudar e muito rapidamente.
(continua)
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