Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Grécia: Tsipras salvou a Europa
Precisamos de referendos em todos os países!
Jérôme Léroy, Grèce: Tsipras a sauvé l’Europe. Il nous faut des referendums, partout!
Revista Causeur, 6 de Julho de 2015
Ontem, o governo Tsipras, ganhando o referendo que tinha aprovado numa situação de urgência, salvou a Europa. Evidentemente, não salvou a Europa do dogma neoliberal. Evidentemente, não salvou a Europa que, sob o nome de União Europeia, se tornou a última zona de comércio livre integrista dado que mesmo os EUA – que nos querem suavemente impor o Tafta – sabem-no bem, quando é-o necessário, fazer funcionar a máquina de imprimir dólares para salvar a sua siderurgia ou a sua indústria automóvel. O proteccionismo, é assim que se chama, e parece que está muito mal. Excepto quando é americano, por conseguinte.
Evidentemente, Tsipras não salvou a Europa do desprezo tecnocrático, do desprezo que se pode muito rapidamente transformar-se em ódio frio por causa desta coisa incontrolável que se chama a vontade de um povo soberano. Quem se lembrará por exemplo, daqui a vinte anos, da senhora Lagarde que afirma o seu monopólio “de adulto” sob pretexto de que a advogada francesa de um grande gabinete de negócios dos Estados Unidos seguidamente ministro das Finanças de Sarkosy aconselhava há pouco aos Franceses que utilizem a bicicleta para remediar ao aumento da gasolina, pretende saber o que é o real, melhor que um país inteiro que desde há cinco anos vive uma crise humanitária entre a fome que esmaga, o sistema de saúde destruído, os suicídios e as depressões que explodem, o desemprego que atinge um terço da população e desta há metade da juventude no desemprego enquanto que o PIB recuou de 25% e onde os salários foram amputados de metade em média. Quem recordará, então, de Martin Schulz, presidente deste Parlamento europeu, inútil pião da Comissão onde desfilam os últimos fantoches liberal-libertários à boa maneira de Cohn-Bendit e os velhos cavalos da extrema direita a estarem de regresso eleitos sobre o estrume da desesperança social e sobre o pânico identidade.
Este Martin Schulz que ousa orgulhar-se do bonito nome de socialista enquanto que desejava a nomeação “de um governo de tecnocratas” na Grécia para terminar com “a era Syriza”, depois de uma eventual vitória do sim ao referendo de Domingo, como um putschista cinzento em fato e gravata que deixou de sair do seu gabinete climatizado. Imaginemos, por instantes, a situação inversa, Tsipras a tratar Lagarde “de menina demasiado mimada ” ou pedindo ao povo alemão que se levante , todo ele, contra a ditadura monetarista que só interessa aos velhos sem descendência crispados sobre os seus fundos de pensão como pessoas extravagantes, prontos a empurrar todo um continente para a recessão
Mas aí está, Tsipras manteve a sua compostura, Tsipras re-legitimou-se da única maneira que conta para um democrata: junto do povo, junto do seu povo e não a procurar o aval dos mercados e dos economistas de guarda que se comovem sobre o destino dos reformados gregos em frente a uma máquina ATM, multibanco, vazia, mas somente quando é a esquerda que está no poder e que, eles e os seus mestres, forçaram um governo a restabelecer o controlo dos capitais. Tsipras não insulta, ganha e o paradoxo é que esta simples vitória, repita-se, com mais de 60%, tão ardentemente combatida nestes últimos dias por todas as vozes autorizadas, filósofos neoconservadores que enviam “Ciao Tsipras!” aos editorialistas que predizem o apocalipse, esta vitória, por conseguinte, é uma verdadeira afronta.
Nos comentários desta noite que parecia ser a noite de todos os Europeus sinceros, o não grego foi posto em perspectiva com os esforços que teriam sido consentidos por outros países, pela Letónia ou pela Irlanda, por Portugal ou pela Eslováquia, países que teriam sido sujeitos a uma sangria feita sob as quatro veias e ter-se-iam tirado bem, isto é, bem comportado. É necessário saber que “tirar-se” na novilíngua europeita significa agradar às bolsas de valores mas de modo algum terão assegurado um desenvolvimento económico duradouro, um progresso social ou cultural notável. Eu estaria assim bastante curioso em ver o que daria um referendo nestes países que se dizem ultrajados pelo tratamento de favor de que teria beneficiado a Grécia, tratamento de favor, recordemos, que mergulhou o país numa miséria sem nome.
Sim, o dia 5 de Julho permanecerá como uma bela noite para a Europa que tem a possibilidade de ter este kairos oferecido pela Grécia: em vez de escutar alguns velhos apparatchiks supranacionais que somente têm na boca a ortodoxia ineficaz de uma ideologia em plena implosão, a Europa pode retomar a palavra para se salvar a si própria. Convoquemos referendos sobre todos os países da zona euro, mesmo na Alemanha, e coloque-se a sua pergunta simples posta por Tsipras ao seu povo e que alguns se obstinam em fingir não compreender. Porque não se age de saber se se diz sim ou não à Europa. A Europa, não esperou o Tratado de Roma para amar também na própria carne que se goste do nosso país e para ouvir em Dante, Goethe ou Camões uma voz tão fraternal como em Rabelais, Molière, Hugo.
Não, a pergunta de Tsipras é a de se saber se dizemos sim ou não a esta Europa que já não é senão a capa para se esconder um capitalismo financeirizado , com as suas muito ténues relações com o projecto de um continente exemplar em matéria de fraternidade, de paz e de progresso social.
E os gregos responderam. Gostaríamos que não fossem só eles a responder.
*Photo: Emilio Morenatti/AP/SIPA.
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Ver o original em:
http://www.causeur.fr/grece-referendum-tsipras-martin-schulz-33662.html




Infelizmente, Tsipras, tal como Varoufakis fazem parte dos sistema. Toda esta encenação, com referendo pelo meio, faz parte de uma subjugação orquestrada.