10. O consenso de Paris : a França e as regras da finança mundializada – Parte III

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 10 – Parte III

(Por Rawi Abdelal, 2005)

rawi

A direita francesa não teria ousado levantar nem os controlos internos nem os controlos externos sobre as operações em capital. Como diz Pascal Lamy, “quando se trata de liberalizar, não há mais direita em França. A esquerda devia fazê-lo, porque não é a direita que seria capaz de a fazer” (30); e Julius Friend a este respeito observa: “O que teria feito recuar um governo conservador, um governo socialista realizou-o” (31). De facto, os conservadores franceses, quando estiveram no poder, mostraram-se muito menos entusiastas sobre esta matéria. Jacques de Larosière oferece assim um contraste impressionante com Delors, Mitterrand, Fabius e Bérégovoy. Formado por uma tradição gaulista de centro direita, foi diretor de gabinete de Valéry Giscard d’Estaing na época em que este era ministro das Finanças. Diretor‑Geral do FMI durante quase dez anos (1978-1987) seguidamente governador de Banque de France até 1993, Larosière é talvez o melhor representante do pensamento económico de centro‑direita da elite financeira e administrativa francesa. Ora, para ele, os benefícios da liberdade de circulação dos capitais são-lhe “matizados, indefinidos”. “Sem as instituições e os procedimentos de vigilância adequados, os movimentos de capitais podem causar devastações. Já o têm feito”, afirma, e a propósito do fervor liberal completamente novo dos seus compatriotas acrescenta: “Nunca fui seduzido” (32).

O ardor da esquerda francesa em ultrapassar a direita não se limitou à finança e estendeu-se a todos os domínios da política económica. “O programa aplicado por Delors, por Fabius e Bérégovoy, escreve Levy, ia bem para além de uma supressão do dirigismo” (33). Em matéria monetária, por exemplo, dois economistas franceses detetam nas políticas seguidas pelos governos de esquerda “uma ortodoxia financeira globalmente mais forte que a observada no caso dos governos de direita”, o que se explica talvez pela necessidade de ganhar credibilidade (34). Outros autores argumentaram que a esquerda francesa tinha considerado necessário ir mais longe ainda do que o exigia a ortodoxia económica. A acreditar Serge Halimi, há aí “a ambição de fazer as suas provas sobre o próprio terreno da oposição. Para a esquerda, esta convicção traduz-se por uma política ainda mais brutal que a da direita, quando se trata de aplicar as políticas económicas ortodoxas” (35). E, para David Howarth, “era necessário que os socialistas fabricassem uma imagem de gestores económicos responsáveis, tanto por razões de política interna como para se oporem à especulação internacional contra o franco” (36). Esta lógica de conquista da credibilidade aos olhos dos mercados financeiros mundiais exigia da esquerda francesa que esta se fizesse “mais monárquica que o monarca ”.

Os especialistas da política francesa continuam a debater sobre a questão de se saber se a união de Marx e Ricardo daria uma nova juventude ao Partido socialista ou se o destruiria. Os que têm simpatias pelo sonho original de Mitterrand falam-nos sobre o seu sentimento de traição, dizem-nos da sua deceção em ter visto o Partido socialista propor soluções “ortodoxas” que “diferiam pouco ou mesmo nada dos seus adversários de direita” (37). George Ross, refletindo, pelo seu lado, sobre as consequências para a esquerda em geral: “Tiveram de viver uma mudança profunda sem nenhuma outra estratégia plausível, tiveram que debater-se em contradições e encaixar golpes, tendo como única compensação – certamente não negligenciável – poderem permanecer no poder. O resultado foi, em alguns socialistas, um certo cinismo; noutros, uma lenta conversão ao neoliberalismo de rosto humano. Mas a esquerda francesa como um todo encontrava-se completamente privada de qualquer forte convicção ” (38).

E, de facto, a esquerda consegue permanecer no poder, graças, de acordo com Patrick McCarthy, à capacidade dos socialistas “em transformar a sua versão “da politica de rigor” em estratégia” (39).

O internacionalismo liberal desenvolvido pela esquerda nos anos 1980 não é único na história francesa, nem mesmo excecional em similar caso. Encontra-se um precedente na primeira época de mundialização, que se situa aproximadamente entre 1880 e 1914. Não somente a esquerda francesa afirmava que enquanto os trabalhadores dos outros países melhorariam o seu destino graças ao comércio, a sua posição assentava também sobre considerações políticas mais profundas.

Escreve Suzanne Berger: “Para realizar os seus objetivos de política interna a esquerda tinha necessidade de uma larga coligação republicana e compreendeu que o programa em torno do qual uma tal coligação podia ser construída exigia um anti protecionismo e a aceitação de uma economia internacional aberta (40). ” Do resto, um dos traços notáveis da mundialização de hoje é que os episódios de reforma liberal são muito mais frequentemente o resultado de governos supostos de esquerda que de governos de direita (41).

Este contexto político teve consequências sobre a forma como os Franceses debatem a mundialização. O seu discurso é curioso, observa Sophie Meunier: “Na França, é socialmente aceitável denunciar as devastações do liberalismo e proibir que se cantem os seus louvores.” (42). Os socialistas foram certamente capazes de se manterem no poder, mas a sua adesão ao liberalismo, ao mesmo tempo que desativa as recriminações da direita, mina o terreno da esquerda tradicional. De facto, nota Meunier, “a posição do governo socialista sobre a mundialização pode ser tudo menos clara e ela contribuiu para fazer estoirar a esquerda” (43).

Ora, durante este episódio de liberalização, três personalidades francesas que tinham defendido as políticas ditas de rigor chegavam ao topo das organizações que governam o sistema financeiro internacional: Jacques Delors, tornado presidente da Comissão Europeia, em Bruxelas; Henri Chavranski, nomeado presidente do Comité da OCDE encarregado de supervisionar a aplicação do Código de liberalização dos movimentos de capitais, em Paris; e Michel Camdessus, Diretor Geral do FMI, em Washington. As políticas de liberalização financeira passaram a ser a partir daí firmemente ancoradas em França, estes três personagens dispunham portanto das possibilidades de influenciar o governo da finança à escala mundial. Quando deixaram os seus postos respetivos, Chavranski em 1994, Delors em 1995 e Camdessus em 2000, estes três Franceses tinham influenciado profundamente as suas organizações e deixavam a UE, a OCDE e o FMI muito mais liberais do que as tinham encontrado.


Notas:

[30] Entrevista  com P. Lamy, citado.

[31] Julius W. Friend, Seven Years in France : François Mitterrand and the Unintended Revolution, 1981-1988, Boulder, Westview, 1989, p. 106-107.

[32] Entrevista com  Jacques de Larosière, Paris, 21 Abril  2004.

[33] J. D. Levy, Tocqueville’s Revenge : State, Society, and Economy in Contemporary France, op. cit., p. 52.

[34] Christian Aubin, Jean-Dominique Lafay, « Objectifs politiques et contraintes institutionnelles dans les décisions de politique monétaire. Analyse économétrique du cas français », Revue économique, 46 ( 3), 1995, p. 876, cité dans Ben Clift, French Socialism in a Global Era : The Political Economy of the New Social Democracy in France, New York, Londres, Continuum, 2003.

[35] Serge Halimi, « Less Exceptionalism than Meets the Eye », em  A. Daley (ed.), The Mitterrand Era : Policy Alternatives and Political Mobilization in France, op. cit., p. 89.

[36] D. J. Howarth, The French Road to European Monetary Union, op. cit., p. 79.

[37] A. Daley, « François Mitterrand, the Left, and Political Mobilization in France », em  A. Daley (ed.), The Mitterrand Era : Policy Alternatives and Political Mobilization in France, op. cit., p. 1.

[38] G. Ross, « The Limits of Political Economy : Mitterrand and the Crisis of the French Left », ibid., p. 38.

[39] Patrick McCarthy, « France Faces Reality : Rigueur and the Germans », em  David P. Calleo, Claudia Morgenstern (eds), Recasting Europe’s Economies, Lanham, Washington Foundation for European Studies & University Press of America, 1990, p. 37.

[40] Veja-se  Suzanne Berger, Notre première mondialisation : leçons d’un échec oublié, Paris, Le Seuil, 2003. Citação  traduzida da versão inglesa, The First Globalization : Lessons from the French, manuscrit, p. 118.

[41] John Williamson, Stephan Haggard, « The Political Conditions for Economic Reform », dans J. Williamson (ed.), The Political Economy of Policy Reform, Washington, Institute for International Economics, 1994. Veja-se  Alex Cukierman, Mariano Tommasi, « When Does It Take a Nixon to Go to China ? », American Economic Review, 88 (1), 1998, p. 180-197 ; A. Cukierman, M. Tommasi, « Credibility of Policymakers and of Economic Reforms, dans Federico Sturzenegger, Mariano Tommasi (eds), The Political Economy of Reform, Cambridge (Mass.), MIT Press, 1998 ; Dani Rodrik, « Promises, Promises : Credible Policy Reform via Signalling », The Economic Journal, 99 (397), 1989, p. 756-772.

[42] S. Meunier, « France’s Double-talk on Globalization », French Politics, Culture and Society, 21 ( 1), 2003, p. 21.

[43] Ibid., p. 26.


(A quarta parte deste texto será publicada amanhã, 03/07/2017, 22h)


Texto original (em tradução francesa) aqui

.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: