15. Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club – Parte VI

Esta geração, imobilizada e condenada, não somente porque esta elite pseudo – decadente, cínica e queixosa, nos faz desesperar para os vinte próximos anos, mas também porque vocês souberam apenas empurrar os outros ao heroísmo do qual vocês são completamente incapazes.

Os socialistas franceses têm mais de 30 anos de avanço sobre a Troika a defenderem as políticas de austeridade.

Crónica sobre os anos 80, sobre “Viva a Crise! “ – Texto 15 – Parte V

MAO_1968

(Por Guy Hocquenghem)

De segundo nível

A personalidade renegada, de que vocês expressam tão alegremente o seu alinhamento de princípio a todos os conformismos, é também uma estética, uma forma de viver as suas emoções, ou melhor, de as viciar. Recorrer, no vosso caso, vocês, à indignação espontânea é estarem a perder o vosso  tempo; todas as vossas causas são de segundo nível,  o segundo grau da renegação e até mesmo as indignações são  fabricadas.

As causas são produtos: segundo grau no militantismo. A política em segundo grau, a moda em  segundo grau, a arte em  segundo grau, quantas vezes a fórmula vos serviu ela,  sob a sua cómoda etiqueta para voltar ao velho fundo  das convenções! Mesmo o vosso  cientificismo, o vosso “informativismo” estão no segundo grau, são vulgarizações mal digeridos.

“Herdeiros”: assim Bourdieu e Passeron apelavam eles aos estudantes de Maio de 68. Uma geração de herdeiros prova tudo em segundo grau; e a pretensão a este famoso segundo grau, como no neoconformismo  tende a colocá-lo  como sendo só ele valor.  Valor frio de uma estética à distância, não passional, interessada e mesquinhamente ocupada  a proclamar a sua própria  sofisticação.

Por exemplo, o estilo cinéfilo. “O mundo é belo  como um bilhete postal  de Wenders ou de Hitchcock”, pensa esta geração sem  emoção imediata, que imita a dos outros, e para a qual o horizonte mais vasto é o de um ecrã de cinemascópio. Incapazes de viver uma emoção sem referente, para dizer que é comovente vocês não encontram nada de mais a dizer que não seja que é como no cinema. Ouçam Serge July começar o seu editorial sobre a questão  Villemin-Grégory que “se ofereceu aos telespectadores que nós somos, como o mais formidável folhetim. Mais eficiente, mais eficaz, dado que é uma série verdadeira, onde crianças, mulheres e homens morrem e se destroem quase que em direto”. Quanto de lamentações, neste “quase”! Vamos, Christine, só mais  um esforço, suicidem-se vocês em  direto! Panem et circenses: em  segundo grau, tudo é espetáculo. Quando Montand e Guillebaud querem mostrar, na sua emissão “la guerre en face”, a Europa afogada sob o afluxo dos refugiados  ou a invasão soviética, eles reclamam-se no seu “cenário” do modelo cinéfilo. Seria como um filme de Hollywood, entre a ciência e a política-ficção, aí está tudo o que pode proferir a inteligência e o sentimentalismo em segundo grau. Há uma publicidade de carniceiro que diz: bifes bons como no restaurante. É verdade como no cinema: Montand-Reagan em cientista louco, aqui está o nosso universo.

O look retro, a animosidade para com o pacifismo e a utopia, o moralismo guerreiro, o cientifismo, o fantasma militarista, a chamada aos valores viris e ao sagrado psicanalítico  da Lei do Pai, tudo é feito, é certo, de  impotência e de culpabilidade.  O segundo grau também; este machismo jactancioso e agressivo que apela  “à mobilização”, ao esforço, que grita aos outros “De pé, os mortos! ”, megalómano e perverso, desdobrou-se  em romantismo de toc, de chic  e de kitsch, queixoso e pessimista; estes partidários da otimização são pessimistas femininos, niilistas histéricos. A sua incapacidade ao heroísmo, cientifico ou guerreiro, eles transpuseram-no sobre o ecrã das suas compensações; e o seu segundo grau, longe  da inteligência ou do humor, é a forma primitiva da pretensão; sob a carapaça dos heróis pretendidos, quanta  fraqueza e, sob a frieza de esteta, quanto sentimentalismo mal abafado! “Queixemo-nos nós, nós que verdadeiramente nunca sofremos, heróis sem causas e sem perigos! Chorem então por nós, musas de Bacall, Bogart e de Mesrine, nós que não vivemos  a aventura senão através de filmes dobrados da nossa  adolescência , nós  que  só conhecemos piscadelas de olho e citações, em matéria de paixões!” parece  gemer o vosso coração de  homens na casa dos 40 anos e que realmente nunca terão sido verdadeiramente  compreendidos.

“Frankie Pat toma-se simplesmente como sendo o Bogart da Côte d’Azur, exercita-se ao espelho a fazer mímicas de duro, a que se acrescenta um tom de indiferente. […] Frankie Pat  nada mais faz que não seja  fantasiar o seu personagem, levar a lógica do look até ao absurdo”, escreve Actuel para fazer partilhar aos seus leitores o seu entusiasmo para um personagem de polar francês contemporâneo (“de  segundo grau”, evidentemente). Segundo grau, segundas facas da política, segundos papéis da história, este teatro miserável, o de uma geração, só podia gerar a miséria estética.

Leiam Bizot, o autor de Années Blanches, os anos vazios de uma juventude de segundo grau, descrevendo os renegados seus confrades: “Outros viram-se para o Islão ou para o Talmud. Outros gerem as heranças de Lacan ou de Sartre. Outros suicidam-se. Outros bebem noite após noite e acabam por  serem  escritores [sic]. Outros montam empresas. ”

O romantismo afetado, dizia Hegel, é um cinismo estético; e é o reverso de um cinismo da ação profissional, que não tem nada de heróico mas se quer viril e virtuoso. “Verdadeiros homens”, “verdadeiros revolucionários”, depois, “verdadeiros proprietários” ou “verdadeiros reporters”, este papel permanente de agente secreto, como o Canadá Dry em relação ao uísque, tem a cor da virilidade, mas não é da virilidade.

Da mesma forma que os dobrados penosos de filmes dos anos de 1950 não  serão nunca o próprio  filme ; a virilidade à ex-maoista, à ex-esquerdista extravasa  sempre, ela escorre,  como o Camembert, de confidências  aos  problemas relacionais, às necessidades de identificação, sentimentalismo que fede de gajo nada a vontade com a sua  namorada.

Por procuração

Terminemos o vosso retrato, ou pelo menos o da vossa personalidade, caros congéneres. Um último traço vos distingue, o  de tudo  terem  vivido, politica  e afetivamente  por procuração. É talvez a única explicação, senão a desculpa da vossa falta de escrúpulos. Como o observa judiciosamente Régis Debray, o único que poderia invocar uma experiência direta (da prisão por imprudência, em Camiri): “Uma faixa etária inteira encontrou-se  na necessidade de viver o seu tempo por procuração, em ideia ou ao abrigo dos sinais e dos símbolos. O terceiro mundo em ideia: terceiro-mundismo. A China em ideia: maoismo” ( Le Débat,  Janeiro de 1981). O sentimentalismo, o estilo trágico de banda desenhada, os temas ex guerrilheiros, ou neo-anti-goulags ou sobreviventes tardios dos campos hitlerianos, a  americanofilia  de adolescente ainda com acne, (tipo “acordo em  Phœnix, no Arizona, são cinco da manhã., agarro numa  cerveja no congelador… ”), a tendência irrepressível de posar  ao lado das vítimas da História para o fotógrafo desconhecido, a dar lições de dialética aos cadáveres e oprimidos, bem a quente face ao seu posto de televisão, são outras tantas  maneiras “de viver o seu tempo por procuração”. Procuradores marxistas em Maio, antimarxistas em junho, lin-piaoïstas ou soljenitsynistas, exigindo  dos “ Viets” que eles se  batam  até ao último deles ou dos Alemães que eles sejam mortos mais do  que os vermelhos: o todo, nas vossas posições políticas, sempre foi precisamente “tomar posição” (e contraposição), como um guarda-republicano.

Terceiro-mundista ou neorreganiano há sempre em vocês a satisfação de terem escolhido o reverso abrigado, a guarita confortável, em que a vaga das guerras e dos êxodos pouco vos afeta, o tempo de uma reportagem ou de uma expedição para fotografias.

A vida por procuração é a inimiga da vida, da paixão, do humor também, que o fraseado e a ironia fria do segundo grau matam certamente. Geração sem humor, sem originalidade, laboriosa de segundo grau, à política por procuração! Como os melhores  são frequentemente os primeiros a irem-se embora, Pierre Goldmann, morto assassinado, serviu-vos de vítima expiatória para toda a geração ; ele pelo menos tinha lá estado, na guerrilha. E não lhe faltava humor (testemunhou-mo várias vezes, nomeadamente a propósito da notícia que escrevi sobre o seu processo, no entanto resolutamente cómico, e que ele preferia às apologias demasiado bem intencionados).

Para não viver em  segundo grau, Pierre Goldmann morreu. Todos nascemos, oh congéneres, sob uma má estrela, sem dúvida alguma  Sirius trocista; o coaxar do corvo persegue‑nos, a nós e a vocês, ressoando  em dobre de finados, em dobres de renegação, de ressentimento. Renegados, sucesso, retro; tudo nesta geração fechou a porta do futuro. Esta geração, imobilizada e  condenada, não somente porque esta elite pseudo – decadente, cínica e queixosa, nos faz desesperar para os vinte próximos anos, mas também porque vocês souberam  apenas empurrar os outros ao heroísmo do qual vocês são completamente incapazes.

 (Este texto e esta série terminam hoje. Uma nova série será iniciada amanhã, 25/07/2017, 22h)


Texto original aqui

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One comment

  1. Carlos A P M Leça da Veiga

    Um texto tão rico de citações e tão demonstrativo de muito saber só pode ser obra de quem nele está a rever-se. Será obra autobiográfica ou mensagem dum pretensioso sem limites?CLV

    Gostar

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