Entre a força assassina de um Golias (a Alemanha) e a rectidão moral de um David (a Grécia de Syriza)… – Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em 1871-73  (parte 5). Por Michael Pettis

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Syriza e a indemnização da guerra da França com a Prússia em 1871-73  (parte 5).

Por Michael Pettis, 4 de fevereiro de 2015  pettis_color_medium

Seleção e tradução por Júlio Marques Mota

Reedição revista do artigo publicado na Viagem dos Argonautas em 27 de fevereiro de 2015 https://aviagemdosargonautas.net/2015/02/27/entre-a-forca-assassina-de-um-golias-a-alemanha-e-a-rectidao-moral-de-um-david-a-grecia-de-syriza-syriza-e-a-indemnizacao-da-guerra-da-franca-com-a-prussia-em-1871-73-por-micha-4/

(continuação)

Parte 5 – Culpar as nações

O último dos quatro pontos é o que eu considero como sendo o mais importante dos argumentos e também o mais confuso, e é o que eu espero ter deixado resolvido, pelo menos em parte, quando abordei a questão da indemnização francesa, sobre a qual voltaremos a falar mais abaixo. Mas devo abordar nem que seja brevemente os três primeiros e, claro, quando me refiro à Espanha, muito do que afirmo é igualmente verdadeiro para a Grécia e para outros devedores europeus altamente endividados, como é o caso da Espanha:

  1. Não há dúvida de que uma renegociação de dívida espanhola ou do seu estatuto dentro da união monetária seria acompanhada por dificuldades económicas e talvez até mesmo por uma crise. Mas isto em comparação com o quê? A economia espanhola já está num estado desastroso e há exemplos históricos convincentes de que os países que sofrem sob o peso excessivo da dívida podem nunca crescer e assim não serem capazes de sair da sua situação de endividamento, por mais radicais e contundentes que sejam as reformas que empreenda.

Isso significa que ao recusarem-se a negociar o perdão da dívida, não só deve a Espanha estar preparada para viver com uma taxa de desemprego insuportavelmente alta e com um baixo crescimento económico por muitos e bons anos, o que minaria as instituições sociais, políticas e financeiras que são os reais determinantes de se um país é economicamente avançado ou economicamente atrasado mas, no fim de tudo isto e depois de muitos anos de sofrimento, a Espanha seria obrigada a exigir o perdão da dívida de qualquer maneira, só que então com uma economia em muito pior estado. Os precedentes históricos sugerem também que, enquanto que as reformas que Madrid tem implementado parecem ter falhado, na verdade, são os constrangimentos da dívida que impedem que apareçam os seus impactos sobre a produtividade quando a economia cresce. Eu suspeito que muitas dessas reformas foram realmente muito positivas para a produtividade a longo prazo da Espanha. Nesse sentido eu acho que Mariano Rajoy e seu governo terão tido um desempenho impressionante. A menos que Madrid espere demasiado tempo, estas medidas podem muito bem desencadear até um enorme crescimento com a dívida anulada (perdoada), mas até que a questão da dívida esteja resolvida, estas reformas parecem pura e simplesmente não terem funcionado. Ao longo da história moderna, até as “boas” reformas não conseguiram gerar crescimento em quase todos os casos anteriores de países excessivamente endividados, a não ser, claro, quando essas reformas reduzam drasticamente a dívida pendente.

Alguns economistas argumentam que os factos no terreno já contradizem o meu pessimismo. Na semana passada, Madrid anunciou excitadamente que o PIB cresceu 1,7% no ano passado, o seu ritmo mais rápido desde há sete anos. O Financial Times sublinhou que a Espanha estava bem posicionada em 2015 para tirar partido da redução dos custos de energia, de um euro mais fraco e de um corte nos impostos pessoais e empresariais, a que eu acrescentaria ainda os preços inferiores dos metais, uma quantitative easing enorme e um consumo mais forte do que o esperado.

Mas mesmo que estes ventos favoráveis sejam permanentes, e claramente não o são, o crescimento nominal do PIB ainda é muito menor do que o crescimento do peso da dívida. Por outras palavras, isto é o melhor que se consegue, e isso não é suficientemente bom. Como o peso da dívida continua a subir, e como as frustrações sociais e políticas continuam a disparar, a Espanha vai cair inexoravelmente para trás e ficar com o estatuto de país em atraso, o estatuto que o país quer tanto evitar.

  1. Há provas contundentes – os EUA durante o século XIX, mais obviamente – de que o fluxo de comércio e investimento flui para os países com boas perspetivas para o futuro, e não para os países com um bom historial. O principal investimento em Espanha é provável que seja confirmado e reconfirmado ao longo dos próximos anos no sentido de compras de apartamentos existentes ao longo das belas praias do país por agentes do exterior. Contudo, assim que as suas perspetivas de crescimento melhorem com, entre outras coisas, uma carga da dívida administrável, as empresas e investidores estrangeiros vão disputar-se entre si para recuperarem o mercado espanhol, independentemente da história da amortização da sua dívida. Esta é uma daquelas coisas sobre as quais o registo histórico é bem inequívoco.
  2. Não foi o povo alemão que emprestou dinheiro ao povo espanhol. As políticas postas em prática por Berlim cuja expressão direta são os enormes saldos excedentários na balança corrente da Alemanha que evoluíram, a partir de uma posição de défice em 1990, a excedentes na década de 2000, foram impostas com um custo enorme para os trabalhadores alemães, e têm sido, pelo menos parcialmente, responsáveis pelo crescimento extremamente baixo da produtividade da Alemanha – a maior parte do crescimento da Alemanha antes da crise pode ser explicada pela mudança na sua balança corrente – e não pelo aumento da produtividade.

Além disso, uma vez que os fluxos de capitais alemães para a Espanha levaram a que a inflação espanhola ultrapassasse a inflação alemã, as taxas de concessão de créditos que poderão ter sido “razoavelmente” baixas na Alemanha, foram extremamente baixas em Espanha, talvez até mesmo negativas em termos reais. Com os bancos alemães, espanhóis e outros bancos a oferecerem quantidades quase que ilimitadas de crédito extremamente barato para todos os tomadores de Espanha, o facto de alguns desses mutuários terem sido terrivelmente irresponsáveis não foi uma “escolha” espanhola. Hesito em introduzir o que pode parecer uma luta de classes, mas se separarmos aqueles que mais beneficiaram das políticas europeias de antes da crise daqueles que foram os menos beneficiados com as mesmas políticas, e que agora são aqueles que terão de pagar a maior parte dos custos de ajustamento, em vez de estar a considerar um conflito entre alemães e espanhóis, então poderia ser considerado muito mais correto e preciso postular um conflito entre a elite empresarial e a elite financeira de um lado (em conjunto com os funcionários da UE) e os trabalhadores e aforradores da classe média, por outro. Por outras palavras, este é um conflito entre grupos económicos e não um conflito entre nações, embora seja cada vez mais difícil impedir que se torne um conflito entre nações.

Mas a Espanha não tinha escolha? Afinal, parece que a Espanha poderia ter-se recusado a aceitar o crédito barato, e assim não teria sofrido os excessos especulativos do mercado, o mau investimento e o colapso da taxa de poupança. Isso pode ser verdade, é claro, se houvesse um tal tomador de decisão como “a Espanha”. Mas simplesmente não havia escolha. Tanto quanto um país tem um grande número de indivíduos, famílias e entidades empresariais, não é necessário que haja uma uniforme irresponsabilidade, ou mesmo nenhuma irresponsabilidade para a maioria da população, para que a economia abuse de crédito ilimitado a taxas de juros excessivamente baixas. Todos os países nessas condições fizeram o mesmo. Mais ainda, mesmo que a decisão sobre o desembolso dos fluxos pudesse estar concentrada nas mãos de uma única entidade responsável, a experiência da Alemanha depois de 1871 sugere que é quase impossível impedir que a entrada maciça de capitais desestabilize os mercados internos. A Alemanha, apesar de tudo, estava muito melhor colocada na altura do que a Espanha o esteve mais tarde por duas ordens de razões importantes. Em primeiro lugar, ao contrário da Espanha de hoje, a Alemanha não estava sobrecarregada com uma enorme carga de dívida que tinha que pagar. Em segundo lugar, em 1871-1873 as transferências foram diretamente para Berlim, que foi capaz de controlar totalmente os desembolsos. Em 2005-09, por outro lado, as transferências para a Espanha deixaram atras de si um enorme peso da dívida e eram discretas e largamente dispersas de maneira que eram quase certamente enviesadas a favor dos credores mais insensatos ou tolos e dos mutuários mais otimistas e tolos.

E este é um ponto que é muitas vezes esquecido no debate popular. Quantas vezes temos ouvido – muitas vezes, ironicamente, daqueles mais comprometidos com a ideia de uma Europa que transcende as fronteiras nacionais – que a Espanha deve assumir a responsabilidade pelas suas ações e deve pagar o que deve à Alemanha.

Mas não há nenhuma “Espanha” e não há nenhuma “Alemanha” nesta história. Na passagem do século, Berlim, com o acordo das empresas e dos sindicatos, pôs em prática acordos entre os sindicatos e as confederações patronais para travar o crescimento dos salários relativamente ao crescimento da produtividade. Ao pressionar à baixa o consumo, essas políticas forçaram à alta a taxa de poupança alemã. Porque a Alemanha estava incapaz de investir essas poupanças a nível nacional e, de facto, ainda reduziu a sua taxa de investimento, os bancos alemães exportaram então o excesso de poupança para investimentos no exterior, para países como a Espanha.

Porque é que os alemães, ao contrário dos espanhóis, não aproveitaram os excedentes de poupança para financiarem um boom de consumo? A resposta padrão que nos é dada é a de apontar para a prudência alemã e para a irresponsabilidade de Espanha, mas é preciso lembrar que, como as taxas de juro alemãs e espanholas convergiram (impulsionadas em grande parte pelo capital alemão que afluía a Espanha), porque adoptaram uma moeda comum numa altura em que a taxa de inflação era maior em Espanha do que a da Alemanha, a taxa de juro real em Espanha era menor do que a da Alemanha. À medida que dinheiro alemão se canalizou para Espanha – com a Espanha a importar capital na ordem dos 10% do PIB no seu pico – as enormes entradas de capital e as taxas de juros a baixar geraram bolhas de preços de ativos, e ainda mais inflação, desencadeando em Espanha o que Charles Kindleberger chama de “deslocamento”. Isto bloqueou a Espanha num clássico ciclo auto-alimentado de aumento dos preços dos ativos e de descida das taxas de juros.

Além disso, em condições normais (ou seja, pré-euro) a peseta espanhola teria caído e as taxas de juros espanhóis teriam subido, mas as condições do euro impediram estes dois mecanismos de ajustamento e, para piorar as coisas, isso deu às políticas de Berlim muito mais tração do que se poderia esperar, colocando a Alemanha numa dependência excessiva das exportações de capital para a Espanha, o reverso do excedente na balança corrente da Alemanha. Os trabalhadores alemães desistiram do crescimento dos salários a fim de se manter o crescimento do emprego, que por sua vez dependia cada vez mais de excedentes sempre crescentes. Por tudo isso, houve pouco crescimento da produtividade à medida que as empresas alemãs reduziram a sua taxa de investimento na economia.

Enquanto isso, os bancos alemães, cheios com as poupanças praticamente garantidas pelo baixo crescimento dos salários, pelos crescentes excedentes e pelos lucros crescentes das empresas, continuaram avidamente a exportar para Espanha as poupanças que pura e simplesmente não podiam investir em casa.

Então, por que não interveio a “Espanha” para pôr fim a este processo recusando-se a pedir dinheiro emprestado aos alemães? Porque, mais uma vez, não havia “a Espanha”. Havia, isso sim, milhões de famílias e de entidades empresariais em que a todos eles foram oferecidas quantidades ilimitadas de empréstimos a taxas de juros muito baixas ou mesmo negativas, e nas condições de adesão ao euro Madrid não podia sequer intervir. Se os bancos alemães e espanhóis cobriam o país com propostas de empréstimos, Madrid não podia fazer nada para os deter (pelo menos não sem aumentar a taxa de desemprego interno e inflamar a ira de Bruxelas e Berlim). Enquanto houve mutuários gananciosos, excessivamente otimistas ou tolos (e num país de 45- 50 milhões de pessoas como poderia não ser assim?), os bancos alemães e espanhóis atropelaram-se uns aos outros para fazerem empréstimos. O dinheiro tinha de ser absorvido por Espanha e não havia nenhum mecanismo para garantir a qualidade da sua absorção.

Acima de tudo, isto não é uma história sobre as nações. Antes da crise, os trabalhadores alemães foram forçados a pagar para inflacionar a bolha espanhola ao aceitarem um crescimento dos salários muito baixo, mesmo com a economia europeia a crescer. Depois da crise, os trabalhadores espanhóis foram obrigados a absorver o custo de desinflacionar a bolha sob a forma de um grande aumento do desemprego. Mas a história não termina aí. Antes da crise, os credores alemães e espanhóis procuraram avidamente mutuários espanhóis e ofereceram-lhes quantias ilimitadas de empréstimos extremamente baratos – algures, com uma parte em letras muito pequenas, suponho eu, em que os credores sugeriam que seria melhor se esses empréstimos fossem somente utilizados para financiar investimentos altamente produtivos.

Mas muitos deles não o fizeram assim, e porque não o fizeram, os bancos alemães e espanhóis – principalmente os bancos alemães, que inicialmente exportaram o excesso de poupança alemã – deveriam ter que assumir enormíssimas perdas com esses investimentos tolos, financiados por empréstimos tolos, que não conseguiram gerar a rentabilidade necessária. Não é nenhum grande segredo que os sistemas bancários resolvem as perdas com a cooperação dos seus governos, passando as perdas para os aforradores da classe média, seja diretamente, sob a forma de depósitos não recuperados ou de impostos mais altos, ou indiretamente, na forma de repressão financeira. Os bancos alemães e espanhóis devem ser recapitalizados, a fim de que eles possam, eventualmente, assumir as inevitáveis perdas e isto significa ou muitos anos a estarem de modo artificial a aumentar os lucros à custa dos aforradores da classe média ou então a transferência direta de perdas para os orçamentos públicos, com os contribuintes alemães e espanhóis a cobrirem os pagamentos da dívida.

(continua)

Texto original em http://carnegieendowment.org/chinafinancialmarkets/58983 Logo Michael pettis

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