Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica – 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização(*). 2.3 – 1ª parte – Excertos da peça “Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes, comentados. Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

pluto POR ARISTÓFANES

2.3 – 1ª parte – Excertos da peça “Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes, comentados.

 

 

 

 

 

À saída do oráculo de Delfos – uma sociedade em profunda crise de valores.

O escravo Carion: Por Zeus e por todos os outros deuses, é um negócio infeliz este de se ser servo de um louco! Se lhe dou bons conselhos e que a cabeça dele não dá para os seguir, é o escravo que sofre. Porque, embora eu tenha nascido dono deste corpo, a má sorte levou a que este esteja disponível não para mim, mas para qualquer um que o tenha comprado. Bem, mas eu tenho razão para me queixar de Apolo, com o seu belo tripé de ouro! O meu amo foi consultar este deus, que é, segundo o que dizem, muito bom vidente e grande médico mas olhem, voltou muito mais louco do que era. Então, ei-lo aqui e que se deixa ser conduzido por um cego e faz exatamente o oposto do que ele deveria fazer, porque penso que somos nós, nós que vemos bem, que devemos conduzir os cegos, e o meu amo obriga-me a segui-lo e a fazê-lo, sem me responder uma palavra. Mas, meu senhor, não há nenhuma maneira de eu calar a boca se não me disser porque é que devemos seguir esse homem, foi o que lhe gritei.

Toussaille, ateniense, senhor do escravo Carion: Escuta, não te vou esconder nada, porque de todos os meus empregados tu és o mais fiel, reconheço-o, e és também um mestre em escroquerias, o que é sempre bom lembrar. Então eis a explicação que me pedes: sempre fui um homem piedoso e honesto. E, bem, apesar disso não tive êxito na vida e nunca passei de um honesto ateniense a viver com dificuldades.

Carion, o escravo de Toussaille: Estou bem colocado para saber que é tudo verdade!

Toussaille: … e durante este tempo, outros parecem ter os tomates em ouro, bem no sítio: os saqueadores de templos, os belos oradores, os que fazem da delação o seu ganha-pão, os burlões e semelhantes!

Carion: Nada a acrescentar a isto.

Toussaille: Por conseguinte fui consultar o oráculo divino. Oh, isto não é para mim! Não tenho mais flechas na minha sacola e sinto-me encostado à parede, completamente espalmado e sem dinheiro, para mim não espero mais, mas para o meu filho, o único que tenho, gostava que ficasse melhor que eu, de modo que pedi ao oráculo que me dissesse se devo ou não mudar de tipo de educação que dou ao meu filho, se este se deve ou não tornar-se num bandido, desonesto, gatuno, vigarista, burlão. Porque…, a pensar-se bem, na verdade, só isto é que serve de alavanca para se ter êxito na vida.

Carion: E então o que te disse a velha múmia?

Toussaille: Digo-te já. O deus disse-me claramente o seguinte: segue o primeiro que encontrares quando saíres do templo, segue-o, não o largues e arranja-te como puderes mas tens de o levar para tua casa.

Carion: e o primeiro que tu encontraste é este andrajoso que vem connosco!

Toussaille: Sim, é ele mesmo.

Carion: Bom, não entendeste mesmo nada do que o deus te quis dizer. És mesmo um ignorante, deturpas tudo. E, no entanto, é tudo bem claro, o deus quis-te dizer que deves educar o teu filho bem à moda do nosso país.

Toussaille: O que é que te faz acreditar nisso?

Carion: É a própria evidência. Até um cego o veria. Nos tempos que correm só se tem a ganhar se formos vigaristas, burlões, se aprendemos bem a contornar as leis.

Toussaille: É impossível. O oráculo não pode ir nesse sentido. Os seus pensamentos são mais elevados.

A democracia bem caracterizada e fica-se sem saber se se está a falar da Democracia de então se da de agora. Num caso ou no outro sabemos que é a própria Democracia que está a ser completamente atingida, se não capturada, se não mesmo aniquilada. Logo de entrada fica-se a saber que um dos méritos mais importantes da Democracia é o chamado elevador social, mas agora digam-me só onde é que ele funciona. Para quem tenha dúvidas veja a carta aberta a uma geração arrependida, publicada em A viagem dos Argonautas com o título: Carta aberta àqueles que passaram do Coletivo Mao para o Rotary Club, publicada na série “E viva a Crise!”. Com a afirmação de Carion relativamente à interpretação ficamos a saber qual é a prática no país, no caso a Grécia! E agora, digam-me qual o país dito democrático onde as coisas sejam diferentes das que aqui são descritas? Veja-se, país a país, os processos de corrupção, sobretudo os que se dão entre grandes empresas e os altos funcionários do Estado. Vejam-se as grandes instituições internacionais ou regionais que durante anos defenderam a optimização fiscal, ou seja, em tradução exacta: defenderam menos impostos para os ricos, menos direitos para os pobres! Dir-se-á que, no melhor dos cenários, as democracias atuais são democracias enviesadas, amputadas mesmo, onde o elevador social só funciona num só sentido, o da descida. Para dar um exemplo geral, durante o reinado do imperador Obama, o Presidente que melhor falou da desigualdade social, nunca a desigualdade foi tão elevada nos Estados Unidos. Segundo vários estudos, entre os quais destacamos o de Onubre Einz, cerca de 85% da população americana tinha perdido poder de compra durante os dois mandatos de Obama, enquanto que os centis de 85 a 95 da população tiveram pequenos acréscimos de rendimentos. Logicamente os mecanismos de apropriação de rendimento estão nas mãos dos 5% mais ricos e sobretudos nos 1% mais ricos. Percebe-se pois a ideia do ascensor social que basicamente só funciona para a descida de uns, os que vão empobrecendo, quer relativamente quer em termos absolutos, e em que se está perante uma luta de morte no grupo dos 15 % de mais rendimentos mas sempre a favor dos 5% mais ricos. De resto, o grupo dos 10% mais ricos vive quase em auto-reprodução, o que constitui mais uma prova de que o ascensor enquanto ascensor deixou de funcionar na Democracia, o que significa pois que esta deixou de existir, para ser mais um regime de plutocracia que outra coisa.

Em termos de comportamentos individuais no interior dos 10% mais ricos, veja-se um exemplo curioso do comportamento das elites neste segmento. Mário Draghi, o homem de mais poder na Europa, Draghi, foi alto funcionário do governo italiano e depois governador do Banco de Itália. Terá sido um dos promotores da venda do tecido produtivo italiano ao capital anglo-saxónico, a partir de uma célebre reunião feita ao largo da Sicília no iate da rainha de Inglaterra, o Britannia. Pois bem, enquanto governador do Banco de Itália ganhava cerca de 700.000 euros/ano e acumulava com uma reforma de alto funcionário do governo. Entretanto, queria cortes nas reformas dos funcionários públicos e uma forte linha de austeridade para o povo italiano! Um exemplo entre muitos que se poderiam seleccionar de como é que funciona a classe dirigente europeia, dita muito democrática, mas cujo objectivo principal é rechear a carteira e manter-se no grupo do poder, mesmo que seja alternativo. Um olhar rápido país a país da União Europeia confirma este ponto de vista. Mas mais ainda, um olhar para os projetos de reforma da alta finança na França, na Alemanha ou algures mostra que desde 2008 para cá pouco ou nada mudou, e mesmo se alguma coisa mudou são as enormes forças de pressão para que se liberalize ainda mais, um sinal claro das ameaças que aí vêm.

Os textos de Gordon Brown mostram-no à evidência, e à escala da City e do mundo as teses centrais que percorrem este universo intelectual não desarmaram na sua força demolidora contra o Estado providência, ou contra o que resta dele.

A realidade económica e social destes últimos anos mostra, à evidência e à escala de cada país e do mundo, que os resultados obtidos das políticas impostas pela City e por Wall Street são o contrário dos resultados esperados e tão ardentemente proclamados pela classe política desde há décadas.

A dificuldade de Pluto: encontrar gente séria, a mostrar que até aqui ele só tem favorecido os ricos e poderosos

Depois de alguma discussão e ameaças lá conseguiram Carion e Toussaille que o mendigo, cego e esfarrapado lhes dissesse que era Pluto, o deus da maçaroca! Seguem-se os seguintes diálogos:

Pluto: Pois bem, já que não consigo guardar o segredo de quem sou, declaro-vos pois que sou Pluto.

Carion: ah! seu porco; ah! seu celerado, tu és Pluto e guardavas isso só para ti!

Toussaille: Tu, Pluto? Tu, o senhor deus da maçaroca? Tu pretendes dizer que és mesmo Pluto?

Pluto: Sim, isso mesmo.

Toussaille: Tu mesmo, em pessoa?

Pluto: Eu, eu mesmo!

Toussaille: Como é que ficaste cego? Conta.

Pluto: Foi Zeus que me fez isto, porque tinha ciúmes dos homens. Vê: quando eu era criança ameacei que só iria à casa de gente boa, gente séria, gente sábia, à casa daqueles que se portavam bem. Então Zeus tornou-me cego para que nunca mais reconhecesse ninguém. Zeus detesta os homens a este ponto.

Toussaille: E este mal que tens nos olhos quem é que te o fez? Quem é que foi tão mau para contigo? Como é que Pluto teve tanto azar? Diz-nos.

Pluto: Foi Zeus que me fez isto, que me cegou, porque tinha inveja dos homens. Vês, foi assim.

Toussaille: E no entanto, se ele recebe honrarias, recebe-as efectivamente das pessoas boas, das pessoas honestas e de mais ninguém.

Pluto: Certo, estou completamente de acordo com o que acabas de dizer.

Toussaille: Diz-me uma coisa. Se voltares a ver como dantes, será que fugirias de todos aqueles que são vigaristas?

Pluto: Certo, certíssimo!

Toussaile: E irias ajudar apenas as pessoas honestas?

Pluto: Certo, certíssimo. Mas estamos a passar por uns tempos loucos pois não tenho visto uma só que seja honesta.

Carion (virando-se para o público): Não é de espantar. Eu, também não vejo nenhuma e, no entanto, eu vejo muito bem!

Toussaille e o seu escravo Carion ganham a estima do deus Pluto e levaram-no para casa de Toussaille.

Pluto: Agora, deixem-me, quero ir-me embora. Tudo o que queriam saber de mim, já o sabem.

Toussaille: Por Zeus, nem pensar em ir embora! O que sabemos é mais uma razão para teres de ficar connosco.

Pluto: Eu bem dizia que me iam maltratar…

Toussaille: Por favor, não nos deixes, peço-te. Tu podes procurar um homem mais bondoso do que eu. Podes, sim senhor, mas seguramente não o irás encontrar.

Carion: Por Deus. Nem um só, excepto eu!

Toussaille: Pluto, ouve-me bem. Penso que pode ser reparado todo o mal que te fizeram aos olhos e assim vais recuperar a vista…

Pluto: Nunca na vida! Não se dêem a esse trabalho…Mas se Zeus soubesse da manigância que vocês os dois estão a penar, destruir-me-ia. Desvalorizar-me-ia! Não quero de modo nenhum voltar a ver.

Toussaille: Eis pois uma muito boa razão para o fazer, para voltares a ver! Não é isso que ele está em vias de te fazer, quando te deixa vaguear por todo o país e ao sabor do acaso?

Pluto: Não sei. O que sei, é que me flanqueia seguramente e tenho medo.

Toussaille: Não é verosímil! És, na verdade, o mais covarde de todos os deuses! Achas que a tirania de Zeus e sua ira vai valer mais do que um quarto do poder que lhe atribuis se Pluto recupera a sua vista, nem que seja só por um curto período de tempo?

Pluto (apavorado): Não digam coisas destas, oh, infelizes!

Pluto ou a importância do dinheiro na sociedade financeirizada, tão importante afinal nos tempos de Aristófanes como nos de agora.

Toussaille: Calma! Vou mostrar-te como é que és bem mais forte que Zeus.

Pluto: O quê? Que eu sou…

Toussaille: Sim, por todos os céus e agora mesmo. (Dirigindo-se a Carion.) Porque razão Zeus tem poder sobre todos os outros Deuses?

Carion: É tudo por uma questão de maçaroca. Pelo dinheiro que lhes dá e tanto lhes dá que se chega ao ponto deles não saberem já o que fazer com tanta maçaroca!

Toussaille: Muito bem. E quem é que lhe dá, a Zeus, esse dinheiro todo?

Carion (designando Pluto com o dedo apontado): Ele, Senhor?

Toussaille (indicando Pluto com o dedo): Não é graças a este? É ou não é verdade?

Carion: Ei, sim! É claro que é verdade. E o que lhe pedem é sempre massa, muita massa, sempre massa! Euros! Dracmas! Dólares! …

Direto! Sem salamaleques!

Toussaille (que se vira para Pluto): Por conseguinte, é bem de Pluto que tudo depende e, se ele o quisesse fazer, acabava com tudo isto num virar de olhos.

Pluto: E porquê, porque é que há-de ser assim?

Toussaille: Porquê? Porque nem mais um só mortal que seja ofereceria fosse o que fosse em sacrifício aos deuses, nem boi, nem doce de maçã, nada de nada, se tu não fornecesses antes a massa para que possam comprar esses produtos que vão depois entregar a Zeus. Conclusão: tu, sozinho, podias dar cabo de todo o poder de Zeus, és o único que o pode deitar por terra.

Um detalhe mas bem relevante: o dinheiro distribuído é visto como meio para aumentar a capacidade de produção, a justificar, diríamos hoje, as políticas de oferta, mas é igualmente visto como meio de aumentar a procura, sobretudo quando esta escasseia. Uma verdade tão simples e que os Pluto da nossa modernidade, a começar pelo BCE, ignoram taxativamente.

Pluto: O que é que tu me dizes? Que é graças a mim que as pessoas oferecem sacrifícios a Zeus?

Toussaille: Perfeitamente. Enfim, em nome de Zeus! Tudo o que há nos homens de brilhante, de encantador, é a ti que o devem, porque o dinheiro compra tudo, e o dinheiro é contigo.

Carion: Eu, por exemplo, que era um homem livre, bastou que eu não tivesse o dinheiro suficiente para reembolsar uma pequena dívida, e zás! Fui feito escravo!

Toussaille: Tens outro exemplo: vê como as putas de Corinto se comportam! Se um sem vintém de jeito as procura, nem um olhar! Mas se for um tipo cheio de maçaroca, elas torcem-se todas a abanar o rabo

Toussaille: Não estamos a falar dos rapazes honestos, certamente.

Carion: Pedem o quê, as pessoas jovens e honestas?

Toussaille: Ei bem, estas pedem um belo cavalo, para um, cães de caça para outros, mas não dinheiro. Escondem as suas torpezas com palavras elegantes… “Um belo cavalo”! “Cães de caça”!

Toussaille (dirigindo-se a Pluto): E vê, é graças a ti, Pluto, que os homens descobriram os segredos das artes e ofícios: um está sentado a cortar o couro, outro é ferreiro, um outro é carpinteiro, outro é ourives, trabalha o ouro transformando-o em peças de rara beleza, a transformar o ouro que recebeu de ti.

E não nos faltarão aliados: todos os honestos tornam a ser ricos… (Virando-se para Carion) vai, vai, e a galope.

Carion: Onde? Fazer o quê? Diga!

Toussaille: Aos campos! Vai. Reúne os meus amigos, os camponeses, aí encontrarás muitos em riscos de lá deixarem a pele, a vida. Tem cuidado que cada um venha aqui tocar a sua parte equitativa dada pelo nosso Pluto aqui presente.

Carion: Não há problema. Vou a galope.

Toussaille: Vai mais depressa! Mais e mais. (E virando-se para Pluto) E tu, oh dinheiro, oh Pluto, dos deuses o mais poderoso de todos eles, vem. Entra aqui comigo. Esta é a minha casa, na qual, com ou sem razão, vais dar-me o prazer de fazer chover as riquezas.

Pluto: Alto, aí. por todos os Deus, isto assim começa a aborrecer-me! Cada vez que entrei numa casa estrangeira, nada de bom me aconteceu. Entrei na casa de um avarento e imediatamente enfiou-me num buraco e tapou-me com terra! Se um corajoso homem do seu conhecimento vai a sua casa pedir-lhe dois kopecks, começa logo aos gritos a dizer que nunca me viu na vida. Se vou a casa de um jogador que joga sempre grandes somas de dinheiro, sou lançado para cima da cama das suas filhas, jogado aos dados e num abrir e fechar de olhos encontro-me no meio da rua tal como vim ao mundo, ou seja, completamente despido.

Toussaille: É porque nunca entraste na casa de um homem sensato! Ora, a minha maneira de ser habitual, é ser totalmente sensato. Economias, tenho-as como toda a gente. Para as despesas, quando é necessário, faço a despesa que for necessária. O bom sentido, o quê! Vamos, entra. Quero que a minha mulher te conheça, e também o meu filho. O meu filho único, aquele de que gosto mais no mundo… depois de ti.

Pluto: E eu acredito! Em ti acredito!

Toussaille: Tens efectivamente razão. Quem é que teria a ideia de não te dizer a verdade?

 

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

 

 

 

 

 

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