Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica – 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*). 2.3 – 3ª parte (**) – Excertos da peça “Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes, comentados. Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

pluto POR ARISTÓFANES

2.3 – 3ª parte (**) – Excertos da peça “Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes, comentados.

(**) Edição revista do texto editado ontem dia 21 de setembro de 2017.

 

 

 

O amigo de Toussaille: Ninguém, respondo eu. Nem é preciso interrogar ninguém, seja quem for, nem a deusa Pénia, a da austeridade.

Toussaille: Porque, ao ver como vivem os homens hoje, quem não pensaria que a sua existência não é um delírio extravagante, uma pura loucura? Não se diria que eles são os joguetes de um génio terrível? De um lado, muitos pessoas, bandidos sem fé nem lei com os bolsos cheios, de toda a massa coletada nas negociatas desonestas; do outro, a multidão das pessoas corajosas, das pessoas honestas em que a vida de cada um deles não vai nada como deveria ir, que morrem de fome e nem um rabanete sequer têm para comer. E tu (vira-se para a deusa da Austeridade) não lhes largas as sapatilhas! Declaro-o muito claramente: se Pluto, aqui presente, recuperar a visão e a vista e se mandasse para o outro mundo a deusa Austeridade, aqui presente, seria a melhor coisa que se podia fazer para fazer a felicidade da humanidade.

Toussaille oferece a abundância a partir do nada. Um pouco como a crise de 2008 e pior ainda ficou a situação com a “cura” pela austeridade aplicada a partir de 2010.

A deusa Pénia: Hou! hou! hou! Hoooou lala! Vocês dois, velhos já bem gastos e fora de moda, sempre doentes e de mau humor, verdadeiros inaptos param tudo, estão de vento em popa. Vaidade não vos falta. Se chegassem ao que desejam, disso não tirariam nenhum proveito, sou eu quem vo-lo diz! Pensem um pouco. Se Pluto voltasse de novo a ver e partilhasse de igual modo entre todos, digo-vos, quem se fatigaria a cultivar o campo das artes e de toda e qualquer indústria trabalhada pelo homem? Quem pois? Ninguém! Não haveria mais artes! Não haveria mais artesãos! Não haveria mais profissões! Tudo desapareceria. E quem quereria ainda ser ferreiro? Quem queria ainda construir barcos? Quem quereria ainda fazer os vossos fatos? Quem quereria ainda fazer uma roda de carro de bois? Quem quereria ainda fazer os vossos sapatos? Quem quereria ainda branquear a vossa roupa? Quem quereria ainda curtir as peles?

(Seguidamente, com ênfase.) E quem é que por vontade própria abrirá o coração da planície para colher os frutos que Cérès, a deusa da agricultura e das colheitas, nos traz? Quem? Quem? … Se vocês querem transformar toda a gente em faireniente e a não se quererem incomodar seja com o que for?

 

Pedimos imensa desculpa mas não resistimos a comentar este excerto. Alguns autores dizem-nos, como Pascoal Thiercy, “que esta peça denuncia tanto a pobreza como a riqueza, que elogia tanto a pobreza como a riqueza” (veja-se Utopie et contre utopie chez Aristophanes, Pascal Thiercy, Centre d’Etudes et de Reepresentations du Théatre Antique).

O que o texto nos diz é que é o trabalho que representa a base do valor de todas as coisas produzidas pelo homem. De forma mais imediata diz-nos Marx: “o trabalho é a substância e a medida imanente dos valores mas não é, em si mesmo, um valor”.

Sem trabalho não há pois riqueza. Da mesma forma que em Hegel, não há escravo se não houver amo, também aqui sem trabalho não há riqueza, porque deixa de haver substância que se possa materializar em riqueza.

Pela nossa parte consideramos o texto como a expressão de uma ideia central, de um pilar fundamental na teoria económica, uma vez que expressa a base da teoria do valor, muito tarde estudada por Adam Smith, Ricardo e Marx, para só falar dos grandes clássicos. Encontrar a base da teoria económica como ciência num texto escrito 4 séculos antes da nossa era, impõe-nos um enorme respeito pelo autor, se outros motivos não houvesse para o imporem, igualmente.

 

Toussaille: As inépcias e as frivolidades és tu que as debitas! Para todos estes trabalhos que acabas de enumerar, os nossos servos fá-los-ão, é simples.

A deusa Pénia: Ah, sim? E onde é que tu arranjarias esses servos?

Toussaille: Comprá-los-íamos com o nosso dinheiro. Onde está o problema?

A deusa: E primeiro que tudo, quem é que será o vendedor, dado que este (e designa Carion) também terá dinheiro?

 

Um diálogo entre a deusa Pobreza e dois amigos que querem ser ricos e só pensam em ser ricos – anuncia a degradação ao nível do Olimpo.

 

Toussaille: Qualquer mercador de Tessália, este país onde há tantos comerciantes de homens.

A deusa Pénia, também chamada deusa da Pobreza ou da Austeridade: Em primeiro lugar comerciantes de escravos e não haverá muitos mais se o vosso plano for avante. Porque é que um qualquer homem rico quererá arriscar a sua pele face à justiça por praticar este negócio que é transformar homens livres em escravos? Daí que, serás tu obrigado a trabalhar, a cavar a terra, a teres que fazer mil e uma tarefa penosas e, por fim, não levarás uma vida melhor do que a que levaste até agora.

Toussaille: Que todas essas belas previsões te recaiam sobre a tua cabeça.

A deusa Pobreza: Em segundo lugar, não terás cama nem tapete para te deitares, porque qual será o trabalhador que as queira fazer, desde que ele tenha sempre o dinheiro que precise. Quando celebrarem o vosso casamento, quando cada um de vocês vai levar a vossa respetiva jovem esposa para casa, não terão mais essências para as perfumar, não terão mais mantos bordados e tingidos em cores brilhantes que lhe possam oferecer para vestirem. Ora, para que serve a riqueza se com ela ficamos privados de todas estas vantagens. Mais, comigo será exatamente o contrário, pois que procuro dar-vos tudo o que precisam e vos é necessário. É toda a arte da deusa. Ela é a padroeira, sentada no seu lugar, que faz andar o seu mundo de artesãos para que as necessidades, as dificuldades financeiras, a extrema falta de liquidez ou alguma situação de muito azar, os obriguem a procurar um emprego.

 

Vale a pena colocar em relevo os dois últimos períodos:

“…procuro dar-vos tudo o que precisam e vos é necessário. É toda a arte da deusa. Ela é a padroeira, sentada no seu lugar, que faz andar o seu mundo de artesãos para que as necessidades, as dificuldades financeiras, a extrema falta de liquidez ou alguma situação de muito azar, os obriguem a procurar um emprego.

O trabalhador deve tudo o que precisa para poder continuar como trabalhador, como elemento de uma classe e em que se garante a reprodução da sua situação. Aqui não há elevador social. É a função de Pénia, a de ser a canga dos trabalhadores, não os deixar levantar a cabeça, mas tem também a função de não os deixar destruírem-se. No fundo tem a função de manter uma classe social a reproduzir-se sem disfuncionamentos económicos e sociais. Sem mais. Mas a Troika, o equivalente da deusa Pénia de outrora, vai mais longe na Europa de agora: é-lhe indiferente a destruição sobre a classe trabalhadora que as suas políticas determinam, uma vez que os mínimos sociais passam a ser estabelecidos arbitrariamente pela classe dominante e sempre ao mais baixo nível possível. Com a Troika o limite inferior de rendimento do que pode ser considerado admissível para se considerar pobre continua a ser forçado a descer, com uma nova Troika tudo se repetirá e haverá obrigatoriamente uma nova pressão à baixa dos salários. Mais à frente dar-se-á um exemplo, entre muitos, bem esclarecedor do que se afirma aqui.

 

Toussaille: Tu! Eu questiono-me que benefício é que nos podes trazer, a não ser essas manchas de sardas que ganhamos nos espaços públicos dos banhos, a não ser os gemidos de crianças com fome, de crianças e mulheres idosas cheias de piolhos, pulgas e melgas que em enormes quantidades não largam as orelhas dos pobres, que os impedem assim de dormirem. Ah, se falássemos disso, teríamos exércitos inteiros à nossa volta a massacrar-nos os ouvidos, a insistirem connosco, para que possam depois dizer, sussurrando: Levantemo-nos, chegou a hora de matar a fome! E como se tudo isto não bastasse, em vez de roupa temos farrapos, em vez de cama uma esteira carregada de percevejos, que acorda quem quer dormir; em vez de lençol, um trapo sujo, e por travesseiro, um pedregulho para pousar a cabeça; para comer, em vez de pão, uns pezinhos de malva, e, em vez de bolo, umas tristes folhas de rábano; em vez de banco, a tampa de um pote quebrado, por masseira um pipo, e rachado ele também. Será que estou a pôr a nu as muitas benesses para a Humanidade de que tu és autora?

A deusa Pobreza: Não é a minha vida aquilo que tu agora acabaste de descrever. É a vida dos miseráveis e dos mendigos.

Toussaille: Não dizemos que a pobreza é a irmã da mendicidade?

A deusa Pobreza: Sim, é você que o diz. Vocês, para quem Trahsybule, o libertador, e Denys, o tirano, são chapéu branco e branco chapéu. Pois bem, isto não é nada o meu género, por Zeus, de modo nenhum é assim. A vida de mendigo, aquela de que tu falas, consiste em viver sem nada, em levar uma vida desprovida de tudo. A do pobre, de que eu falo, consiste em viver de poupança, na sua aplicação ao trabalho, e a não ter necessidade do supérfluo, porque tem o indispensável [3].

(**) Dois comentários:

1. O que Pénia quer dizer com “são chapéu branco e branco chapéu”, é que é tudo a mesma coisa quando se vive obcecado pela riqueza. No caso, libertador ou tirano, Direita ou esquerda, tanto faz, é tudo igual, desde que consigam tratar de satisfazer a vossa ganância. É isso o que os senhores pensam, acusa Pénia.

É assim a acusação de Penia faça aos novos senhores do dinheiro que irão despontar na Grécia de há 2400 anos. E agora na Europa, como é?

Vejamos então exemplos de agora:

Diz-nos Jospin, na altura secretário-geral do PSF: “não sou nem de esquerda nem de direita. Sou moderno.”

Diz-nos Pascal Lamy:

quando se trata de liberalizar, não há mais direita em França. A esquerda devia fazê-lo, porque não é a direita que seria capaz de a fazer”.

Mitterrand:

A luta de classes não é para mim um objetivo. Procuro que esta deixe de existir!” proclama François Mitterrand que, durante todos os anos de 1970, denunciava “uma luta de classe entre este pequeno grupo de privilegiados e a massa dos assalariados”, entre “o operário especializado, dominado, oprimido, forçado até à revolta” e “os donos do dinheiro, o dinheiro, o dinheiro, os novos senhores, os donos do armamento, os donos dos computadores, os donos dos produtos farmacêuticos, os donos da energia elétrica, os donos do ferro e do aço, os donos dos solos e dos subsolos, os donos do espaço, os donos da informação, os donos das ondas”. Mas ei-lo em direto na TF1, que reabilita o lucro à esquerda (“Eu não sou, de modo nenhum inimigo do lucro, desde que o lucro seja justamente repartido”), que impõe os critérios de Maastricht antes de Maastricht (“não se poderá ter um défice orçamental de mais 3 % da produção interna bruta”), que denuncia as “cargas excessivas” (“demasiado imposto, mata o imposto. Asfixia-se a produção, asfixiam-se as energias. Chega um momento em que isto é insuportável, e este momento chegou”), e Mitterrand fecha, sobretudo, a porta a uma “outra política”: “Penso, eu, que há apenas uma política possível nas circunstâncias presentes”. A TINA de Margareth Thatcher  numa outra versão, literariamente mais trabalhada. E o BCE, a Comissão Europeia, a OCDE, o FMI e necessariamente Madame Merkel zelam bem para que seja assim. É neste sentido que se insere a tentativa falhada sobre António José Seguro de se formar um governo de unidade nacional em Portugal. Esquerda e direita é tudo igual querem as Instituições. Mas ainda há homens que resistem! E a geringonça é dessa resistência um belo exemplo, também!

Esclarecidos, portanto, estamos deste ponto de vista a viver como na Grécia de Aristófanes! Esquerda e direita, no nosso caso, tiranos e libertadores, no caso da acusação de Pénia, parece ser tudo a mesma coisa.

 

2. Globalmente, naquela frase da deusa Pénia, ressoam múltiplos textos produzidos pelo BCE, pelo FMI, pela Comissão Europeia, em defesa da austeridade. Relembro aqui um que escrevi em tempos com o título “Ventos e Tempestades” onde o tema austeridade era discutido.

Que podemos nós dizer então das declarações de Jens Weidmann, Presidente do Bundesbank, a propósito dos países periféricos europeus e da crise, de uma outra ordem, a dos mercados, a propósito também de uma outra Europa, a da austeridade, e de uma Europa que agora está a cair? Vejamos.

Fruto do modelo neoliberal, a Europa é um espaço económico assente numa montanha de dívidas: dívidas dos Estados Centrais, das autarquias, das empresas, das famílias e até de numerosos bancos cheios de dívidas, situação a retificar com urgência através do castigo imposto aos contribuintes dos Estados membros. Os contribuintes expiarão os pecados cometidos, a luxúria vivida. Esta é a leitura do Bundesbank. E o mecanismo é mais simples do que a lógica de Nero – a punição é garantida pelos mercados através da sua arma favorita – a taxa de juro. Diz Jens Weidmann: “Quando os Estados começam a ter que pagar cada vez mais cara a obtenção de um crédito para cumprir as datas de vencimento, então endividar-se torna-se tudo muito menos atraente”. (ver aqui)

“Nesta lógica, a primeira fase do castigo atinge os Estados através das agências de notação. Baixa a notação e a taxa de juro sobe, a taxa a que um Estado se deve refinanciar no mercado”. E aqui temos um desenvolvimento em cascata: a notação desce, a taxa de juro sobe, os Estados podem ainda menos suportar o encargo da dívida, a notação continua a descer, a ida aos mercados torna-se ainda mais cara e o ciclo sucede-se, como aconteceu com a Grécia, Irlanda, Portugal e está agora a acontecer com a Espanha ou com a Itália.

E a segunda fase da punição aparece: a dívida a subir, os encargos disparam e exigem-se receitas estatais. Como? Através das políticas de austeridade introduzidas para acalmar os mercados! E seria então como diz Jens Weidmann: “a boa política orçamental deve ser recompensada por créditos públicos a taxas de juro baixas e a má política orçamental deve ser punida pelo mesmo meio, agora com taxas de juro altas” (ibidem). Ou seja, o Bem, as políticas de austeridade, é premiado por este mecanismo de relojoeiro e o Mal, as políticas de expansão, é, pelo mesmo mecanismo, castigado. Tem sido assim na Europa para satisfazer as exigências dos mercados.

O Banco Central Europeu tem a capacidade de monetarizar as dívidas dos Estados da mesma forma que o faz com os bancos privados. Assim, pode ser determinante na formação das taxas de juro. O BCE não o faz e diz-nos o Presidente do Bundesbank que esta prática pode ser inflacionista, mesmo em período de deflação e também porque desta forma se iria impedir o mecanismo de gratificação e de punição de funcionar na sua máxima eficácia.

Por conseguinte, Jens Weidmann ainda nos diz: “Não se poderá certamente superar a actual crise de confiança violando a lei. A Europa, não é só uma moeda única, é também um respeito comum para o estado de direito. (…) Devemos ser cuidadosos, na busca de uma solução para a crise da dívida, e nunca dar a ideia que se espezinham estes valores” (ibidem). O mesmo é dizer, nada há a alterar no quadro institucional da União Europeia que não seja o de reforçar a lógica da gratificação, da punição. E essa é a resposta que as Instituições têm dado à crise, quadros legais que nos prendem até no futuro, se forem pelos parlamentos nacionais aprovados, garantindo, “gravando na pedra de mármore do tratado regras de uma estrita disciplina orçamental”, políticas de austeridade ainda mais severas do que as utilizadas até agora.

E assim é esta Europa, com milhões de desempregados, de doentes sem direito ou sem possibilidades de acesso a cuidados de saúde, com jovens sem direito a futuro, de jovens casais sem direito à habitação, com milhões de trabalhadores sem direito ao trabalho. Os únicos direitos que se mantêm são os direitos do capital e dos mercados. Assim é esta Europa que tem de se submeter à ditadura dos mercados, uma vez que são estes, agora, e não os Estados, que determinam as altas taxas de juro para a dívida pública. O mesmo é dizer que são os mercados que determinam o valor atual do futuro.

A consequência lógica destas taxas de juro altas sobre o futuro, como muito bem assinala Jeremy Grantham, director de um grande fundo de investimento americano, é que “no capitalismo atual os nossos netos não têm nenhum valor”, o que não deixa de ser curioso. A Europa a ser destruída por um fogo que arde sem se ver mas que queima e que arderá por longos anos ou, utilizando uma imagem do Zeca Afonso, que coloca a Europa como uma estátua de ferro a arder – o que dela resta são as cinzas dos nossos empregos degradados, cinzas de vidas que se sentem na precariedade como vidas sem projeto, cinzas do futuro condigno que os jovens procuram e não encontram nem vislumbram. A Europa está a ser castigada e anda, portanto, à procura da redenção que lhe é imposta por Berlim.

E esta redenção passa então, na lógica dos defensores da austeridade como remédio para a saída da crise, por políticas bem mais duras do que as que poderiam ser desenhadas a partir do programa que se poderia inferir como subjacente às palavras de Pénia:

A vida de mendigo, aquela de que tu falas, consiste em viver sem nada, em levar uma vida desprovida de tudo. A do pobre, de que eu falo, consiste em viver de poupança, na sua aplicação ao trabalho, e a não ter necessidade do supérfluo, porque tem o indispensável.

Mas o texto de Aristófanes vai bem longe. Pénia recusa assimilar a mendicidade o que tenta fazer sucessivamente Toussaile. Aqui fazemos a mesma leitura à volta do arco de tempo em que Aristófanes se situa. Numa situação normal, sem forte precariedade e sem crises de fome, podem ser conceitos não correlacionados, pelo menos em termos de relevância macroeconómica. Porém, este não era o caso aquando da representação da peça, onde a relação entre pobreza e mendicidade era muito estreita. Aristófanes não entendeu assim, separou os dois conceitos o que nos leva a pressupor que na sua análise ele parte da sociedade grega e procura perspetivá-la para lá de um horizonte temporal definido: insere-se no arco de tempo longo da história. Ao ler o conceito de pobre explicitado por Pénia percebemos que estamos muito próximos do salário do tempo de Ricardo e Marx, o que não deixa de ser curioso.

Neste sentido, o de Pénia, a politica económica liberal devia ter sempre em conta este conceito de pobreza e de salário que lhe está associado na sua política de rendimentos para evitar que o sistema perca rendimento por duas vias: por perder utilização de mão-de-obra, logo perde ganhos em rendimentos, por perder pelos subsídios que tem de pagar para essa gente e perder ainda pelo que tem de pagar por prejuízos que estes mendigos possam causar em situação de conflitos sociais ou de marginalidade agressiva.

Um sistema para o qual se caminha com Plutos e que assenta na desregulação social e gera aumento de pressão sobre os salários muito para além do que é recomendado pela “lei de Pénia” e gera consequentemente mendicidade. A partir daqui ficam criadas as condições para que a contestação social seja descontrolável e, como tal, perigosa. Um antigo governador do BERD questiona-se porque é que o sangue ainda não corria já pelas ruas da Europa (Willem Buiter: “Je suis étonné de ne pas voir de sang couler dans les rues d’Europe”– ver aqui). Lá teria as suas razões.

Ora, tendo em conta o que se disse sobre as remunerações dos médicos em Atenas e sobre o que se acabou de dizer sobre o texto de Pénia nada nos leva a que ele, Aristófanes, esteja a defender a pobreza ou a riqueza, mas sim a caracterizar as linhas de força de um sistema caracterizado pelos que detêm o poder, económico, social e político, e os que estão fora dele mas que o sustentam pelo seu trabalho produtivo.

Esta última posição é a nossa leitura sobre a peça de Pluto.

Mas um dado novo vem facilitar que Pénia seja modernamente ultrapassada “à sua direita” e este dado novo chama-se globalização. Com esta globalização, dita globalização selvagem, as políticas salariais são ainda mais pressionadas à baixa do que o têm sido por uma qualquer Troika, uma vez que a concorrência se exerce à escala planetária. (relembro aqui Gordon Brown a falar dos salários na China). Nessa desregulação das regras salariais e do direito do trabalho que lhes está ligado, irão desempenhar forte papel os tratados comerciais, aqueles que Trump mandou passear mas que em breve irá retomar, penso eu.

Já não é preciso pois Pénia para garantir os mínimos sociais, uma vez que estes deixam de estar fixos. A globalização fá-los descer e a precariedade criada é ainda mais fortemente dissuasora que antes, exercendo muito maior pressão sobre a descida dos mínimos sociais, daí as vagas de “miseráveis” que dão às nossas costas do Mediterrâneo e não só.

Toussaille: Por Deméter, que felicidade! A bem-aventurada existência que tu nos apresentas. Andar a esgaravatar toda a vida, aforrar toda uma vida e no fim não ter sequer para se pagar o seu próprio enterro.

A deusa Pobreza: Estás gozar comigo. Só pretendes colocar-me em ridículo. O que é sério, tu não conheces. Tu nem sequer vês que, mesmo bem melhor que Pluto, melhor que a maçaroca, eu torno-os homens melhores no seu espírito e no seu corpo. Com Pluto são como gente a sofrer fortemente de gota, são disformes, pançudos, com rabos enormes e cheios de adiposidades que até se tornam horríveis. Comigo, as pessoas são delgadas, altas, elegantes e que correm sobre o inimigo como o vento forte.

Toussaille: É à força de lhes apertares a cintura que tu lhes conferes esta estatura.

A deusa Pobreza: E passo agora à moral. Pois vou-te demonstrar que é comigo que a Decência mora, e é com Pluto que habitam os excessos.

Toussaille: Boa moderação, de facto, como andar a furar as paredes das casas para as assaltar.

A deusa Pobreza: Olha para o discorrer da política. Tu vês como os políticos são sérios para com o povo e para com o Estado enquanto são pobres, e como eles se transformam em verdadeiros gangsters desde que conseguem meter ao bolso dinheiros públicos, vês como eles envergonham o povo e a democracia.

Hoje não é nada diferente, talvez seja até bem pior, porque os mesmos políticos aprovam leis que depois os protegem de serem acusados de corrupção, em nome da defesa das liberdades individuais que se tornaram prioritárias face aos bens públicos e aos direitos que lhes deveriam estar associados. Berlusconi foi bem mais longe: aprovou leis que retroativamente o ilibavam de acusações que contra ele estavam a ser levantadas.

 

Nota

[3] Diz-nos S. Coin-Longeray em Pauvreté en Grec ancien-Pauvreté :

“Pobreza, o que representa esta definição, opõe, assim, o pobre ao mendigo. que é totalmente infeliz. Esta definição, provavelmente era relevante numa certa época, aquela durante a qual os autores falam pouco sobre pobreza, porque não esta não constitui um problema, mas não é de modo algum válida no momento da Pluto (início do IV AC ), porque naquele tempo, Atenas estava sujeita a um grave empobrecimento e a pobreza tornara-se aí um grande problema.”

Neste caso é licito afirmar que Aristófanes estaria a situar-se sobre um longo arco de tempo, a analisar a tendência profunda que sentia na sociedade. Esta posição está em plena concordância com o que se afirmou relativamente às remunerações dos médicos.

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

(**) Parte revista em relação ao texto editado ontem dia 21 de setembro de 2017.

 

 

 

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