Dos conhecimentos básicos em finança à opacidade e complexidade do mundo financeirizado – Uma exposição e uma análise crítica. 2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*). 2.3 – 4ª parte – Excertos da peça “Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes, comentados. Por Júlio Marques Mota

Jan Brueghel the Younger Satire on Tulip Mania c 1640

Jan Brueghel, the Younger Satire on Tulip Mania, c. 1640

2. De Aristófanes a Wall Street, à City de Londres- uma crítica que se quer radical contra a financeirização, contra a globalização (*)

Por Júlio Marques Mota

pluto POR ARISTÓFANES

2.3 – 4ª parte – Excertos da peça “Pluto, o deus da maçaroca”, de Aristófanes, comentados.

 

 

 

Toussaille: Aí dizes a verdade, apesar da tua língua de víbora. Sim, podes estar orgulhosa do que dizes, mas garanto que vais queimar os teus dedos. Querer-nos provar que a pobreza vale bem mais que a riqueza, é a mesma coisa que querer bater as asas (e imita um pássaro) e sem poder voar.

A deusa Pobreza: Tu não me rebates sobre este ponto. Tu fazes como os pássaros, bates as asas mas não podes voar. Só debitas disparates.

Toussaille: Bom, muito bem. Diz-me então porque é que toda a gente foge de ti.

A deusa Pobreza: Muito simples. É que eu torno as pessoas melhores. Vê-se isso muito bem nas crianças: elas fogem dos seus pais que, no entanto, querem para elas o melhor que há no mundo, porque não há nada mais difícil do que discernirmos o que é melhor para nós mesmos.

Toussaille: Isto ainda. Tu defenderás que Zeus também não sabe discernir o que é melhor para ele. Sim, porque ele é rico como ninguém. Caso o ignores.

Intervém o amigo de Toussaille: E esta foi-nos relegada.

A deusa Pobreza: E vocês têm nos olhos a merda datada dos tempos do Dilúvio. (Ela vira-se para Toussaille) Mas Zeus é economicamente um fraco, isso é uma verdade que salta aos olhos e eu vou-to demonstrar de uma vez por todas, definitivamente. Não é ele, em pessoa, que organiza os Jogos Olímpicos em que reúne a Grécia inteira por quatro anos? Então, como é possível que tendo ele declarado os atletas vencedores lhes tenha dado apenas uma coroa de ramos de oliveira selvagem? Não será ele suficientemente rico em ouro? Na frente dos vencedores, a bugiganga, enquanto nos cofres-fortes as boas notas de papel-moeda!

Toussaille: Isso não provará antes que ele dá um grande valor à riqueza? Como é evidente, a riqueza, ele mede-a, não a lança pela janela fora.

A deusa Pobreza: Não há vergonha mais sem vergonha do que é a pobreza. Que sacrilégio. Tu defendes que Zeus um rico de muitos milhões, Zeus é então mesmo um unhas-de-fome, um sórdido?

Toussaille: Que se lixe Zeus. Que Zeus te coroe com um ramo de oliveira selvagem e que te mande ir rebentar junto do Diabo.

A deusa Pobreza: E dizer que estes dois ousam defender que tudo o que de bom apregoam não vem da pobreza.

Toussaille (mostrando-se forte): Pois bem é à Hécate, da Sopa dos Pobres, que se deve perguntar se é melhor ser-se rico ou pobre. Ela diz que os ricos, os senhores de meios, lhe oferecem cada mês uma refeição mas que os esfomeados lha comem mesmo antes da oferenda ter sido feita.

Vai-te embora! Vai para o diabo! Vai para bem longe!

Fecha a boca de tantos disparates andares a dizer.

E mesmo se tu me convences, não me convencerás.

Toussaille: Enfim, lá nos vimos livres dela. A fulana pôs-se a andar. Entretanto tu e eu – e não há tempo a perder – vamos levar Pluto para o santuário para o curar.

O amigo de Toussaille: Sim, e não há que perder tempo! Antes que venha por aí mais alguém que nos impeça de fazer o que se impõe.

Para além da euforia dos dois amigos que só pensam na riqueza, as declarações são deles, sublinhemos sobretudo esta declaração de Toussaille de que não estávamos à espera:

E mesmo se tu me convences, não me convencerás”.

Dito de outra forma, Toussaille não é capaz de rebater os argumentos de Pénia. Dirá que no futuro não me convencerás!

Ora, no futuro, ele será um homem rico e nessa qualidade pressente que de imediato e quando for rico é melhor passar a defender os argumentos de Pénia. No futuro, como rico, a discussão deixará de ter sentido!

 

 

A deusa Pobreza grandiloquente: Oh, cidade de Argos, ouve estas agressões.

Toussaille: Invoca antes os que se fazem convidar para as tuas refeições.

A deusa Pobreza: Pobre de mim, que posso eu fazer?

Toussaille: Vai-te enforcar e rápido, o mais rápido possível. Desembaraça-me o caminho.

A deusa Pobreza: Querem-me exilar? Onde, na terra?

Toussaille: O que é necessário é um espartilho e rápido.

A deusa Pobreza em forma de despedida: É coisa segura e verdadeira, o que vos digo. Vocês um dia ainda me hão-de chamar.

Dramático, a deusa Pobreza avisa que um dia a hão-de chamar e há-de voltar.

Toussaille: (dirigindo-se agora para Pénia que se afasta): E nessa altura tu voltas. Mas agora, vai-te lixar! Pois antes quero ser rico, e tu podes chorar e fritar os miolos à tua vontade.

O amigo de Toussaille: Caramba, eu quero mas é ser rico, viver à farta com os filhos e a mulher. E aí, de volta do banho, vir bem oleadinho, luzidio, e poder mandar um traque nas trombas dos trabalhadores e da Pobreza.

Avizinha-se que a falta de ética vai irromper pelo Olimpo e tudo devastar. Aqui, os dois amigos, Toussaille e Blepsidème, esmeram-se em assegurar que o que os move é que quererem ser ricos e é só nisso que pensam.

 

A falta de ética no Olimpo- a derrocada dos valores da Democracia e a poderosa ascensão de Pluto é o tema que se segue na peça.

 

Carion: Quem é que estará a bater à porta? Quem será? Não me parece que seja ninguém. A porta teria ela feito este barulho por si-mesma?

Hermes: Carion, é a ti que eu falo. Espera um pouco.

Carion: Diz ao que vens, tu que pontapeavas a porta como um selvagem?

Hermes:.Mas não, eu juro que não era eu a bater assim à porta. Estava para bater á porta, se entretanto não a abrisses. Vamos, trata-se de uma questão importante. Chama o teu amo, a sua mulher, os seus filhos, todos os escravos, o cão, o gato, tu mesmo, assim como também o porco, tudo, tudo.

Carion: O que é que há? O que é que se passa?

Hermes: É Zeus, esse velhaco, esse patife, decidiu colocar-nos a todos no mesmo saco e lançar-nos nas ravinas dos condenados.

Carion: Ah, sim? Tu sabes que se faz pagar com a língua ao portador de tão boas notícias? Mas porque é que Zeus nos quer fazer mal?

Hermes: Porque vocês cometeram o pior de todos os crimes. Porque desde que Pluto recuperou a vista, ninguém mais nos ofereceu um só, um grão de incenso que seja, um só ramo de louro, um só bolo que seja, nem uma vítima mais oferecida a Zeus, nem sequer o mais pequeno presente que se possa imaginar, nada de nada nos é agora oferecido.

Carion: Não, por Zeus. E a vocês não vos será dado mais nada no futuro. Porque quando as coisas vos eram dadas, deixavam-nos abandonados sem se preocuparem nunca connosco que tudo vos oferecíamos.

Hermes: Quanto aos outros deuses, estou-me nas tintas. Mas quanto a mim, tu não vês, eu estou a morrer de fome.

Carion: Excelente iniciativa.

Hermes: Até antes de Pluto ter recuperado a visão, as empregadas dos cabarés e bares, todas as manhãs, desde o nascer da manhã, davam-me mil coisas boas: pão embebido em vinho, mel, figos, finalmente tudo o que Hermes pode comer por vontade própria, mas agora tenho o estômago vazio, sinto-me preso pelas costas, os meus pés não conseguem pisar a terra. Já não sei sequer o que devo fazer.

Carion: Bom, a isso chama-se justiça, não? Essas empregadas de que falas não as deixavas tu ao abandono, a terem que pagar penalizações enquanto tu te regalavas com o que delas recebias?

Hermes: Eh lá. Miserável que eu sou. Ah! Estes bolos que elas me faziam ao quarto dia de cada mês!

Carion (melodramático): Tu lamentas o ausente e apelas em vão.

Hermes: E esse presunto com que enchia a pança!

Carion: Agora dá saltos no meio da praça.

Hermes: Ah, e estas tripas à moda de Caen que eu devorava, quentinhas.

Carion: Penso que as tuas tripas são as cólicas que as fazem trabalhar.

Hermes: Ah ! Os meus bons copos de vinho bem doseados.

Carion: Bem, bebe isto e deixa-nos o terreno livre.

Hermes: Serás tu capaz de prestar um pequeno favor a um velho amigo teu?

Carion: Sem dúvida, se estiver ao meu alcance.

Hermes, indicando a casa: Têm feito sacrifícios a deus, lá dentro? Vê se me podes arranjar um pedaço de pão e um pouco de carne para que eu hoje possa trincar alguma coisa.

Carion: Não, não e não. Mercadorias proibidas à exportação. Não é permitido.

Hermes: Ah, mas cada vez que que querias surripiar alguma coisa ao teu patrão eu arranjei sempre as coisas de modo a que ele nunca soubesse, ou melhor, para que nunca fosses apanhado.

Carion: Sim, é verdade, seu assaltante de casas. O que dizes é verdade, porque sabias bem que terias a tua parte, que te cabia uma boa parte do bolo.,

Hermes: Sim, mas era sempre na tua pança que acabava por ficar.

Carion: Provavelmente, porque quando eu era apanhado a fazer o que não deveria fazer, tu não tinhas a tua parte da pancada que eu tinha apanhado.

Hermes: Não há nenhum interesse em estarmo-nos a lembrar das más coisas passadas, sobretudo quando se é rico; em nome dos deuses, recebe-me em tua casa. Se participaste no assalto a Philé, por favor concede-me a amnistia. Faz com que me recebam na tua casa. Em nome dos Deuses, deixa-me entrar e viver com vocês.

Carion: O quê? Tu queres deixar o domínio dos deuses e viver aqui!

Hermes: Seguramente. Porque se vive muito melhor na tua casa.

Carion: Mas, pensa bem. Achas que é honesto desertar assim, nestas condições?

Hermes: Sim, é. A pátria é para mim todo o sítio onde me sinta bem.

Carion: Mas se ficas aqui, vais-nos ser útil em quê?

Hermes: Encarreguem-me de abrir e fechar a porta. Hermes, porteiro de convento, não é nisso que pensas?

Carion: Porteiro de convento! Nós não precisamos de ninguém para fazer girar a porta nos seus gonzos.

Hermes: Põe-me a vender e comprar o que precisam. O comércio sempre foi a minha especialidade.

Carion: Mas como somos ricos para que nos servirá fazer de ti nosso comerciante?

Hermes: Eh, pois bem ! Coloca-me ao teu serviço para fazer nepotismo.

Carion, fingindo-se virtuoso: Não, não, nada de neopotismo aqui e agora. Somos gente honesta e de costumes simples.

Hermes: Serei o vosso guia.

Carion: Não, porque agora Pluto já vê bem. Portanto, não precisamos de Guia.

Hermes: Serei não sei o quê. Tu não terás agora nada a opor a Hermes, Presidente das competições desportivas! Hermes, Presidente da federação! E o financeiro será Pluto. É bem esse o seu papel, organizar jogos olímpicos, reuniões de atletismo, jogos.

Carion (incomodado por tanta insistência): Bom, de acordo. Pela minha parte será talvez bom fazer acumulações. Assim como assim, acabará por encontrar uma ocupação, o seu pequeno emprego, a sua pequena parte do bolo. Não é pois de admirar que os juízes se façam eleger em várias listas.

Hermes: Bom, é Ok! Posso agora entrar?

Carion: Entra e vai ao poço lavar essas tripas e mostrares que entraste para fazer alguma coisa.

Os ideólogos a ofereceram-se aos novos senhores do Capital. Nem é a esses que se vendem, vendem-se a Carion e este é um escravo, mas é um escravo de Toussaille que vai ser protegido por Pluto. O Capital não tem pátria terá dito Marx, mas os “produtores” de ideologia também não. Estão ao serviço de quem lhes paga melhor. No caso presente, Hermes a oferecer-se para aquilo que for preciso. Impressionante, na época.

Alguns exemplos da atualidade: Blair assumiu o papel de ideólogo face ao mundo com a guerra do Iraque, dizendo as mentiras que Bush era incapaz de proferir. Um acordo selado no rancho de Bush, segundo Collin Powell. Foi depois bem remunerado.

No caso português com as políticas de austeridade e por causa delas, Vítor Gaspar e Álvaro Santos Pereira também foram “produtores” de ideologia ao serviço do Capital. É sempre assim. A Troika de agora também teve os ideólogos que precisou para impor as políticas destrutivas que impôs.

Sarkozy, depois de deixar de ser Presidente da Républica, foi pago por conferências para a Goldman Sachs a 100.000 dólares cada uma. Hillary Clinton proferiu conferências para a Goldman Sachs, Deutsche Bank, Morgan Stanley e outros a 225.000 dólares cada uma, depois de deixar de ser secretária de Estado. Hermes também estava a deixar de ser… o mensageiro de Zeus!

No caso de Hillary Clinton ao que nos dizem as suas conferências subiram para mais de 700.000 dólares.

A sublinhar ainda mais a finura de Aristófanes recordemos que ainda agora o ministro da economia do governo francês, Bruno Le Maire – que vai colocar o povo trabalhador francês numa cura de austeridade e, neste caso, aqui temos a deusa Pénia a voltar à Europa – nos veio dizer, em junho de 2017 e perante uma assembleia de banqueiros em Nova Iorque: “Emmanuel Macron é Júpiter. Eu sou o seu mensageiro“. Sublinhe-se que a declaração é feita perante uma assembleia de “investidores”.

Ora, como demonstrámos em diversas séries de textos, o governo de Macron, é um governo ao serviço da alta finança e este Hermes, ministro de Macron, enquadra-se na lógica da peça, com a ressalva de um engano dele. Se ele é Hermes, o mensageiro, é então mensageiro de Zeus e não de Júpiter que é um deus romano. E tudo isto se enquadra que nem peças de um puzzle, com 24 séculos de distância!

 

Entra o Padre de Zeus.

O Padre de Zeus e Toussaille.

O Padre de Zeus: Podem-me dizer onde mora Chrémyle Toussaille?

Toussaille: Que há meu bom amigo? Que bom vento vos traga.

O Padre: Um vento mau. Um vento mesmo muito mau. Desde que Pluto recuperou a visão eu ando a morrer de fome. Eu, o padre de Zeus, não tenha nada, mesmo nada que possa petiscar. Mas eu sou o padre do deus salvador.

Toussaille: Eh, Mas por amor de deus, qual é a razão dessa tão grande infelicidade?

O Padre: Eh ! Simplesmente já ninguém quer sacrificar nada aos deuses.

Toussaille: E qual a razão para isso?

O Padre: Porque estão todos cheios de maçaroca ! Dantes, quando não tinham nada, havia sempre pelo menos um comerciante que no regresso de uma viagem sacrificava sempre alguma vítima para assim escapar aos perigos ou um homem que deixou de ter problemas com a justiça que fazia a mesma coisa ou ainda aquele que para conseguir auspícios favoráveis me convidava, a mim o padre de Zeus. Hoje já não existe nada disto. Mesmo nada, nenhuma oferta aos deuses. Mais ainda, ninguém põe um pé nos templos, salvo se for para aí ir mijar ou cagar. Para isso, oferendas de cagadelas, temos muitas.

Toussaille: Pois bem, só tens que levantar a tua dízima sobre essas oferendas.

Padre de Zeus: Pois é, uma vez que chegámos aqui, deixei de me interessar pelo Zeus salvador. Decidi passar a morar aqui mesmo.

O confessor de Zeus muda de protetor, procura os novos senhores, os do dinheiro, neste caso, Pluto. Com a diferença de que não se dirige ao escravo Carion, mas ao novo senhor Toussaille. Poder é poder. As informações que tem do poder existente dão-lhe uma outra força que não tem Hermes, permitem-lhe exigir um lugar de honra na reconstrução do poder. E vai tê-la a começar pela organização da entronização de Pluto. Assim, dirige-se ao poder diretamente e vai ter um lugar de honra na nova hierarquia, exatamente junto do poder.

Tudo isto a fazer lembrar o quadro de João Abel Manta sobre os vira-casacas em Portugal com o 25 de Abril ou ainda o Parlamento atual italiano onde há deputados que neste período legislativo já mudaram de bancada 3 a 4 vezes, ou ainda tantos outros que não caberiam em artigo de blog!

A queda de Zeus, a ascensão de Pluto, a morte da Democracia.

Toussaille: Não te preocupes. Tudo se vai passar bem, se deus o quiser. Na verdade, o deus salvador está aqui connosco. E veio por decisão própria.

Padre de Zeus: Então tudo vai pelo melhor dos mundos! Excelente notícia, a que acabas de me dar.

Toussaille: Nós vamos entronizá-lo o mais rapidamente possível. (O padre faz sinal de querer entrar em casa) Espera um pouco. Nós vamos instalá-lo, lá onde ele esteve outrora, no fundo do templo colocando-o como guardião do templo da deusa Atenas. Que me tragam para aqui as torças, acesas. Tu carregá-las-ás para as colocares em frente de deus para iniciar então a procissão a Pluto.

O Padre de Zeus: De acordo, é isso mesmo que é preciso fazer.

Toussaille: Chamem Pluto. Que ele aceite vir.

E uma Velha pergunta: e eu, o que faço?

Toussaille: Pega nas marmitas que nos vão servir para a entronização do deus Pluto, coloca-as sobre a cabeça com majestade. Honra esse teu belo vestido bordado que trazes vestido.

A velha: Sim o assunto que me trouxe aqui. O jovem que eu financiava para me amar?

Toussaille: Tudo se vai arranjar. O teu jovenzinho irá ter contigo esta noite.

A velha: Por Zeus. Um grande abraço. Confio em ti. Assim eu carrego com as marmitas da entronização.

Toussaille: Ah, meus amigos, é o mundo ao contrário. Não, não, são as marmitas que são transportadas ao contrário. Em toda a Grécia, estas marmitas são levadas à cabeça por gente jovem, de valor, com vontade de mudança, aqui passa-se exatamente o oposto [4].

Coro

Chegou a hora, para nós também, de não nos demorarmos. Retiremo-nos, tomemos o nosso lugar no cortejo, sigamo-lo e façamos ouvir bem alto o nosso cântico.

 

Nota

[4] A nossa tradução difere de todas as que conheço. Deixo-vos duas delas, a da edição portuguesa e a da última tradução francesa que conhecemos, a de Michel Host.

Edição portuguesa:

“Vejam só como estas são o contrário das panelas, daquelas que para aí há. Em qualquer outra panela, as rugas ficam à tona; só nesta a panela sobe e as rugas ficam por baixo”.

 Edição francesa de Host:

«Ah, mes amis, c’est le monde à l’envers, non, ce sont les marmites que sont à l’envers. Dans toutes les marmites de la Grèce, la cocote danse au milieu du court-bouillon mais ici est la cocote que va les faire danser sur sa tête».

Não somos gente de teatro, não somos especialistas em estudos helénicos. Procuramos apenas ler de forma que pensamos coerente o texto de Aristófanes, sabendo que o escritor escreveu a peça sobre fortes ameaças de Cleon, o homem de ferro que dirigia Atenas na época e de quem era um grande inimigo.

Quanto à tradução do texto, repare-se que a velha participa nas cerimónias de entronização de Pluto porque tem roupas de luxo que estão adaptadas à majestade do acto destas cerimónias. Repare-se também que o organizador da cerimónia de entronização garante a esta velha que ela voltará a ter nessa noite a visita do seu proxeneta (chulo). Repare-se ainda que na organização da entronização estão atores principais da história com Pluto ainda cego, ou seja, pertencentes ao poder reinante e que afirmam alto e bom som que o querem é ser ricos. Ainda mais: para transporte das marmitas deve ser encarregue gente jovem, como se faz em toda a Grécia, assinala-se na peça. Aqui é ao contrário: são todas elas transportadas por uma velha, muito velha.

Adicionalmente Toussaille reconhece que Pénia, mesmo se o convence, não o convencerá, ou seja, acredita que depois de ficar rico é melhor deixar as coisas como estão para que possa usufruir do novo estatuto. ele que numa afirmação é bem claro: só lhe interessa riqueza!

Tudo no texto aponta pois para uma continuidade, para uma não mudança no plano ético e no plano da distribuição do dinheiro. Mudam-se alguns nomes apenas, mas o sistema permanece intocável. Vista desta perspetiva, a peça ganha ainda mais acutilância, parece-nos, e este final torna-se coerente com todo o texto anterior. Esta é pois a nossa leitura da peça, com este final.

(*) Texto que na Introdução está referenciado com o título de O capitalismo financeirizado: da antiguidade grega à modernidade da City e de Wall Street.

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